11/03/2012

A saudade


Lembrei-me da Cornélia um destes dias. Uma jersey de olhos quietos e meigos, como os das vacas são normalmente. Um amigo espanhol que me visitou anos atrás fez-me parar vezes sem conta diante de qualquer vaca que nos atravessasse o caminho, fascinado pelo seu olhar tranquilo, paciente, compreensivo. Parado e alheio, de certa forma. Ele não conheceu a Cornélia, mas quando ela veio morar conosco, parei um bom tempo diante dela, e pensei que ele gostaria de tê-la conhecido.

Durante um tempo, Cornélia ficou solta pelo quintal, agoniada que estava com a gravidez no início. Eu também estava no mesmo estado, e talvez por isso tenha ficado sensível ao significado do seu olhar. Acordava-me de manhã dando cutucadas na janela, para que eu levantasse e a ordenhasse. E depois a levasse, pela corda, para pastar em algum terreno onde hoje se construíram casas. Era um mundo de pasto, que eu estaqueei profusamente, para que ela pastasse sem fugir. Ao final de algum tempo, o campo estava todo desenhado de círculos.

Se fecho os olhos, vejo Cornélia diante de mim, ainda noite. O sol querendo levantar-se na minha frente, enquanto a ordenho sentada, o momento mais privilegiado de meditação que me lembro de ter tido, mês após mês, em silêncio. Precisando segurar a minha aflição (quando a havia) para não atrapalhar a descida do leite. O céu tingido das cores do dia a nascer e Cornélia mugindo baixinho e o leite espumando no balde de folha de flandres entre as minhas pernas. Cornélia salvou-me várias vezes do torpor da manhã; fez-me abrir a própria vida para acolher a dela; ao ordenhá-la, é como se ordenhasse (e ordenasse) a minha própria alma, nem sempre leve como a espuma do leite.

Tenho saudades dela. Saudades do levantar do sol no morro da frente. Saudades de ouvi-la mugindo baixinho com a certeza que só as vacas têm de que todo dia amanhece e anoitece, coisa que independe de podermos ou não assistir. Saudades de recolher o leite e transformá-lo em queijo e levar um deles à vizinha do lado. Saudade do cheiro cheio de verdade do estábulo pequenino onde dormia.

As saudades são terreno alagadiço, movediço. Já me afastei e fui afastada de tanta coisa na vida, oceanos pelo meio do caminho, mundos paralelos que se interditam um ao outro, que poderia ter aprendido. Saudade não é terra segura, nem alívio de nada. É condição que aperta o peito e estala as comportas dos olhos – quando estala. Quando não o faz, fica só a agonia, a falta do que se foi, e não volta, e tanto faz se é para sempre ou por algum tempo que o calendário meça. Porque o dia de hoje é o único que compete, e quando o dia de hoje se levanta sombrio, tingido pela saudade do sol que nasce mediado pelos olhos da Cornélia, que já se foi e se voltar não sei se a reconhecerei, resta o que não é lágrima, uma substância densa que amarga o céu da boca. 

Por isso se canta, e por isso se escreve. Para que a saudade, essa traiçoeira companhia daqueles que já viveram, possa ficar liberta no espaço, possa mostrar-nos para onde nossa alma quer voltar, como diz Rubem Alves, ainda que o lugar não exista mais, a pessoa tenha partido, a relação tenha se apagado, o mundo tenha deixado de ser aquele que era até ontem, a vida esteja dividida em duas metades desiguais. Talvez a dor seja essa: a incapacidade de ver através dessa vidraça embaçada que é a saudade sem lágrima, à deriva sem saber que lugar é esse que podemos chamar de nosso. Assim que o choro lavar os vidros, a visão ficará mais clara, e as minhas pernas sairão de onde ficaram presas, emperradas, com uma vontade urgente de se estrelaçarem, e sem o poder fazer. Nessa hora, Cornélia virá ao meu encontro para me puxar pela corda, nós duas em situação invertida, ela sabendo onde estão os prados mais verdes, eu seguindo-a em paz com a sua condução e o sol nascendo à nossa frente, anúncio de dia bom pela frente.