03/03/2012

Entre sentir e pensar


Mestre Caeiro ensina que pensar é estar doente dos olhos. Concordo com ele em gênero, número e caso na maioria das horas. Mas hoje, como em outros dias, acordo pensando, pensando, pensando, e não há o que fazer. Tento livrar-me dessa angústia, dividi-la com os outros, mas nem telefonar para amigas queridas e distantes me ajuda: no final, estou pensando em dobro, com mais sementes brotando e incomodando o passar das horas.

Pensar tem uma estreita relação com pagar – etimológica ao menos. Embora a raiz mais aceite de pagar seja a palavra pax (ou seja, pagando nossas dívidas ficamos em paz, nada mais verdadeiro), existe um outro “pagar”, aquele que se refere a punir por alguma coisa, que tem com o pensar uma proximidade – a mesma raiz pensare. Portanto, se pensar é (também) punir(-se), só pode mesmo angustiar. E mais: pensare ainda adverte que pensar pesa. Pesa. E muito.

Para tornar tudo isso mais leve, escreve-se. Eu, ao menos, escrevo. Assim que me sento aqui e me desperto para o mundo da palavra, algo em mim se distende. Apreendo-me com outra consistência, permito-me até mesmo o que, fora do mundo da palavra, não é espaço. Volto às palavras que nas madrugadas, sem sequer acender a luz ou abrir os olhos, escrevo aqui e ali, no primeiro papel que encontro. Um manancial de olhos para dentro do que sinto, no momento em que sinto – antes de me pôr a pensar e atrapalhar a vida.

E por isso os dias em que acordo muda e pensante me pesam tanto, tanto e me fazem pensar tanto, tanto. Dias em que caminho rasteira. Quando, por mais que respire, não consigo encher-me de ar. Como se um tormento me acossasse por todos os lados, quebrando-me uma a uma todas as costelas. Como se o papel me devolvesse o mesmo olhar vazio com que olho para ele.

Há ainda um outro ancestral da palavra pensar: pendere. Que também se usava para pagar – assim como para pendurar, pender, jogar o peso para fora. O que, claro, rapidamente faz pensar que pensar nos livra do peso que o próprio pensar provoca. O que é uma charada que dificilmente conseguirei resolver neste dia, quando pensar me coloca diante do que sinto sem que o sentimento possa acolher-me, e me põe à prova, me coloca em cheque, me pergunta uma e outra vez de que lado estou e de que lado quero estar. Como se eu acreditasse que a vida tem lados em vez de espaços.

(E, quando já tinha terminado e quase me dado por satisfeita, Simone de Beauvoir vem em meu auxílio: “Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.” Amem.)