05/03/2012

A cidade nova II


Por pura falta de inspiração, vontade e capacidade de me concentrar no que quer que seja, decido hoje de manhã lavar a calçada – a entrada inteira de casa, na verdade, por onde caminharam carrinhos e carrinhos desta terra roxa que Araraquara celebra e que jamais desaparece das meias que a pisam. Claro que acho um desperdício de água, mas logo vi que a vizinhança respirou aliviada. Ao menos alguém se alivia.

A maioria dos meus novos vizinhos mora nesta rua há mais de 50 anos, o que já dá uma ideia da faixa etária dos mesmos. São quietos e observadores, e aos poucos vou percebendo por onde observam o movimento desta casa que parece não parar sossegada. Cumprimentam-me educados na rua, quando lhes desejo bom dia, e olham com uma forma curiosa de interesse para o monte de entulho que não some, as pilhas de tijolos que não diminuem, a areia, a terra, a pedra... balançam a cabeça (antes era imperceptível, hoje percebe-se claramente) mas não dizem nada. A mim, ao menos.

Assim que saí para a calçada armada de mangueira, perto das 8h da manhã, uma vizinha logo abriu o portão do lado esquerdo, outra atravessou a rua toda alegre e ainda uma outra espreitou por cima do muro e logo veio também juntar-se à animada conversa. Parecia que estavam à espera, cada qual atrás da sua vida. A animação tinha motivo: todas estavam preocupadas de eu não ainda não ter lavado a calçada. Nem um dia sequer! Dona S. era a mais exultante: “Mas que bom, Ana, assim eu posso lavar só a minha, não preciso mais lavar a sua!”. E eu com os meus botões pensando na minha pouca intenção de repetir o feito. Ela sorri piscando os olhos, querendo garantir que eu sei exatamente do que ela está falando. Dona M., vizinha da frente, não diz nada – e me dá a impressão de que no fundo critica o jeito todo franco de dona S., mas jamais diria nada, porque afinal a calçada ficou lavadinha. Passados uns minutos arrisca bem baixinho um “é, os paralelepípedos também podiam ganhar uma aguinha, né mesmo?” mas eu juro que escolho e prefiro não a ouvir, e seja lá por qual motivo ela não repete. Lavar a rua já é um pouco demais. Ainda assim, volto meia hora depois de vassoura e pá e recolho o que caiu da caçamba que levaram embora atulhada de entulho até a alma. Acordei com vontade de agradar a vizinhança. E mesmo rindo da situação, volto com a pá cheia pra dentro de casa.

No fundo no fundo essa meia hora de prosa devolveu-me uma espécie de pertencimento perdido – pertencimento a mim mesma, que dificilmente me percebo sozinha, preciso do outro pra me cutucar e dizer que eu sou de carne e osso, não só sangue escorrendo por dentro das veias. Pertencimento ainda que seja no reconhecer da minha capacidade enquanto lavadora de calçadas. Volto para dentro com mais forças para sentar-me ao computador e dar conta da tarefa diária, laudas que não avançam porque eu não permito, petrificada diante das folhas que preciso ler para reescrever e reescrever e reescrever. Sem parecer que avanço. Igualzinho à vida. Agora, alma e calçada lavadas, ponho-me a caminho novamente, menos ocupada com as curvas, as ribanceiras, os túneis, as tempestades todas que estão a caminho também.