28/12/2015

O império do eu


Jonas voltou pra casa arreliado com a placa. Até fotografou. Ficou matutando no erro que tinha ali, e Maria dizendo deixa disso, tem erro não, vem deitar que eu faço você esquecer essa confusão, vem.

E Jonas nada. Encasquetado.

Sentou na cozinha. Acendeu a luz por cima da mesa. Passou um café.

Tentou discriminar, como lhe dizia seu primo Beto que devia fazer na vida. Botar as coisas certas de um lado, as erradas de outro. Assim, bem preto no branco e branco no preto. Ficou lembrando das palavras da placa. O café queimando na xícara de esmalte.

Meu Deus.

Já começava assim de um jeito que incomodava, essa mania das coisas serem minhas/nossas, tuas/deles. E Deus lá gosta de ser propriedade de alguém? Tomou mais um gole, apoiou a cabeça na palma da mão, deu um suspiro, olhou pra porta entreaberta do quarto.

Meu Deus.

Importante era o EU, assim nessa letra garrafal, dava pra ver de longe, maior que tudo. E do lado o motociclista, estendido ao comprido, dando mesmo a entender que era Outro, e não EU. EU estava passando por baixo da placa, aliviado que fosse Outro e não EU estatelado no asfalto. Com vida ou sem ela. A placa fazia prever o pior.

Podia ser EU.

Mas não era, e assim (mesmo Jonas) passara com alívio por baixo da placa, tomando cuidado para não ser ele o Outro na próxima esquina.

Lembrou-se do Beto. Com a mão, colocou um Deus invisível de um lado da mesa (esse é o lado certo, falou pra xícara). Do outro, o Meu. Do lado certo, o podia ser (porque tudo Deus pode, e por isso tudo podia mesmo ser, pensou mas não disse). E, do outro, Eu.

Depois trocou. Mesmo ele ficou arreliado do Eu ficar do lado do errado. Manteve Deus do lado certo, metade por teimosia, metade por fé. E trouxe o Eu pro lado dele. Deixou o podia ser do lado de lá, e levou o meu pra acompanhar. E antes mesmo de terminar o café já tinha formado uma nova frase.

Eu, Deus, podia ser meu.

Maria nem abriu os olhos quando Jonas se deitou, num abraço desmanchado em sorriso horas depois.


24/12/2015

Para 2016, com duplo amor

Abro as mãos, e abro os olhos. Por entre os veios de um ano duro, vejo dedos antigos tecendo raízes submersas, erguendo galhos caídos, sustentando hastes quebradas, desviando uivos aflitos. Este ano que acaba é um ano de milagres, desses de todos os dias, desses que, se deixarmos e não olharmos, se despedirão de nós invisíveis. Talvez precisem repetir-se até deixarmos de ser cegos. 

Será preciso redobrar o olhar e o coração. Limpar duas vezes o que não fomos nós a sujar. Brilhar duas vezes na escuridão que se formar. Sorrir duas vezes para quem um insulto atirar. Desfazer nós, embaraços, trabalhos. E acender todas as velas, todos os dias e todas as noites, dentro e fora de casa, dentro e fora do peito, dentro e fora da certeza. A todo custo, e a todo preço, aproximar-se em vez de afastar-se, correr riscos, subir alturas, descer abismos e enfrentar quaisquer feras. Este que começa logo ali será um ano de precisão de força, e só se chamará fraqueza se a ela dermos nome e alimento farto. Venha 2016 limpo e livre, com as escuridões e os tropeços que nos fortalecem, e humanizam, porque tudo, mas tudo mesmo, um dia passa. 

Mas que nada nem ninguém passe impune, nem sem sentido. Que o que passe por nós nos atinja, nos afete, nos torne mais dos outros que de nós mesmos, ainda que derrube nossas proteções, fustigue nossos músculos, triture as nossas vísceras. Que nos sobrem coragem e entrega, e em nós se fortaleça o lugar do não esconder-se. E que ao medo, e à vergonha, e à dúvida, ofereçamos apenas uma palavra: só amor, e mais nada. Só amor, e mais nada.



23/12/2015

Museus e palavras

Não sei se o mais impressionante foram as chamas avançando sobre a torre da estação da Luz ou as imagens aéreas do prédio do Museu da Língua Portuguesa e os destroços queimados do seu telhado. Como muitos, fiquei sem palavras - todas elas arderam dentro da tela do meu computador.

Tive o privilégio de visitar várias vezes o Museu. A sorte de apresentá-lo a muitas pessoas queridas, filhos, alunos, amigos, conhecidos. Tornou-se roteiro obrigatório nas idas a São Paulo. 

Da primeira vez, fui sozinha, desconfiada dessas manobras com que a nossa civilização gosta de ensombrecer as coisas: colocá-las dentro de caixas para podermos tê-las sob controle. Mas me rendi, logo no primeiro andar, diante daquele "Grande Sertão: Veredas" aberto como flor para tirar o fôlego (de novo), reinventando Rosa de um jeito que (desconfio) ele gostaria. Elevador acima, mais uma rendição diante do corredor plural de imagens e sons e gentes. Como andar sem parar? Foi preciso sentar. Muita informação. Muita. Disponível e em forma de encantamento, parecendo depender das nossas mãos para se abrir. Pra lá e pra cá, grupos de estudantes com roteiro de visita a tiracolo, não sei se ajuda ou impedimento. Para onde foi a experiência primeira, sem mediações, das coisas? pensei eu. E sorri pra eles e arrisquei um "deixa o roteiro pra lá, se encante sozinho".

Como um amor que pede tempo, frequência, profundidade, foi preciso revisitar. Encontrar pretextos. Tropeçar sem querer na estação errada de metrô e decidir que já que chove, já que venta, já que muito sol, já que quase cedo, já que ainda tarde: ir ao Museu outra vez. E, em todas essas vezes, mil temporalidades surpresas, de Machado a Cora, de Oswald a Pessoa, de Jorge Amado às mídias em encontro e à provocação do "menas". Tudo sempre diferente e tudo sempre igual.

E, ainda por cima, e literalmente por cima, o terceiro andar, essa invasão inesquecível de som, escuridão e palavras, esse universo chamado palavra que é onde mais gosto de morar. E eu acostumei-me a começar a visita antecipando o gozo final, essa certeza de que o amor está onde o vimos a primeira vez, e também por isso garantindo a dose de lágrimas quase rotina. Como chegar ao lugar de pertencimento, e nele mergulhar e ser chamada, conduzida, levada. 

Da segunda vez, com um grupo muito querido de alunos, misturou-se isso ao privilégio de poder levar os outros a esse mesmo lugar, e abrir ao amor essa porta do compartir. E como choro se contagia, éramos um ônibus inteiro emocionado. Esse ritual do choro permaneceu até há poucas semanas atrás, numa que afinal foi a última visita, com amiga que nutre pela palavra amor aparentado.

O Museu deu-me respostas. Abriu-me indagações. Estendeu-me tapetes e tapetes de motivos para escrever. Guardo uma porção deles, detalhes daqui e dali, dispersos por cadernos que não sei onde guardei. Talvez não vejam a cor do dia, mas são testemunhos do poder do que não é matéria. Mais que um museu com coisas, um museu feito de palavras, essas que se reinventam e se escrevem, e depois se apagam e se tornam a escrever. Porque a rigor, se for pensar bem, a palavra é chama e precisa arder. Continua onde sempre esteve, e onde sempre está, nesse mesmo lugar de onde tentamos arrastá-la e deixá-la presa, fixa, ao alcance das nossas mãos terrenas. Porque dispersa e livre é mais difícil de se relacionar, mas é onde é mais e maior.

Rodeada pelas águas do rio Capibaribe dias atrás, debruçada na amurada de um barco, procurava o perfil de João Cabral na margem como se dele dependesse a minha sanidade inteira. Tanto as águas quanto as chamas passam. E eu (descubro) só tenho em mim as palavras que teço. Não importa se para quem as escrevo as lê. Nem sequer se a quem pertencem as percebe. Palavra é universo feito liberdade, avesso às paredes de quartos e salas, tecido escorregadio e invisível. Não são precisos museus para guardá-la, nem dinheiros que lhe paguem a existência. É ela quem nos guarda. E é com ela que guardamos.

02/11/2015

Uma longa história sobre a sombra

Bom dia, este, para pensar no após-a-vida. Onde estão, de uma forma ou de outra, todos estes que se festejam hoje, ou se lembram, ou se homenageiam. 

É provável, penso eu, que um período escuro atinja quem passa para o outro lado. Como quando se fecham os olhos ao dormir, e tudo fica escuro. Considera tu que lês que o sono é uma pequena morte, e terás diante de ti a dimensão da falta de luz.

Ou pensa no parto. Nesse que nos nasce do lado de cá, enquanto morremos do lado de lá, esse lugar de onde vimos antes de atravessarmos as cortinas aquáticas da vida terrena. E para onde voltaremos (proponho eu que assim consideres) quando atravessarmos de volta essa mesma fronteira, esse limite entre estados.

Pois bem. Em algum ponto dessa passagem está o mundo da sombra. E é dele que me aproximo, com cuidado para não despertar-lhe vontades vorazes de perceber onde estou. Como veremos, a sombra não descansa.

É longínqua, a origem dessa palavra. Longínqua e testemunha da riqueza da nossa língua.

Situa-te, por favor, em 1100 a.C. Estás a bordo de um navio feito de cedro-do-líbano, madeira de fibras homogêneas e aromáticas, com um sem fim de usos mágicos e litúrgicos ao longo da história. Carregaste-o na tua cidade-estado natal, Biblos, e dentro dele disputam espaço peças de tecido, caixas de porcelanas, vidros bem embalados... A um canto, vinho grego para os egípcios; a outro, papiro egípcio para os gregos. Biblos, essa tua cidade, será imortalizada em breve pelos teus compradores gregos. Byblos, foi como os gregos batizaram os papiros que lhes levaste, os melhores dentre os melhores. Nós, aqui, tantos séculos depois, dizemos "biblioteca" e dizemos "Bíblia". Nada escapa à história das palavras. E toma nota: és fenício.

Navegas com vento sobranceiro junto à linha costeira, a meio caminho entre Grécia e Inglaterra, suprindo as mais de 300 colônias que teu povo formou, sem guerra nem conquista, antes conversas consentidas. Chegas por fim ao extremo da costa sul da península onde habitam, entre outros, os íberos. Lá, o teu foco é a pesca e a salga do que pescas, e depois comerciarás em algum outro ponto da tua rota. Trocas as tuas peças por estanho, por prata, por cobre. Conversas e escreves, nos papiros que trazes, aquilo que a memória não pode trair. Contigo trazes um presente inestimável.

A tua escrita. O teu alfabeto fenício, o primeiro desta península. Vinte e duas letras, todas consoantes, primas próximas do hebraico, do aramaico, do assírio, do acádio, essas línguas que floresceram nessa região que hoje chamamos Líbano. É de lá que vem o teu navio fenício.

Deixas com a tua escrita algumas marcas - e falo-te agora de uma, apenas. 

şl 

Essa é a palavra fenícia que pronuncia aquele à procura de sombra e proteção. Corresponde mais ao objeto que produz a sombra, do que à sombra em si mesma. Estás em busca de um teto que te abrigue num dia quente do fim de agosto, ou talvez à procura de uma tenda que proteja o peixe que salgaste, ao cair da tarde de um mês de outubro. Deixas-te descansar quando a encontras. E passam os anos às dezenas.

Quando acordas, o mundo é outro. Está tomado por um povo conquistador; agrupam-se ao teu redor legiões, coortes, centúrias, soldados. Tudo isso te é estranho, mas vês que procuram algo, e quando te ergues perguntam: 

Umbra?

O que eles procuram é um lugar à sombra. Não lhes interessa tanto aquilo que a provoque, apenas querem esse território fora do sol, protegido, em que possam repousar e descansar de talvez uma longa batalha.

Deste lugar em que te escrevo, tantos séculos já passados, a palavra que quero apresentar-te é um raro caso da tua palavra fenícia em junção à palavra latina deles:

soombra

dissemos durante anos. E, agora, dizemos

sombra.

E quando sombra dizemos, estamos atentos aos dois vossos legados: queremos o território que nos protege, e queremos também saber o que é que provoca esse espaço fora da luz do sol. Algo, nesse passado em que estás, nos alerta. Toda sombra tem motivos, e é da qualidade do objeto que a produz que os deduzimos e percebemos.

Tantos motivos tem a sombra, que me dedicam um tempo para entendê-la em profundidade. Não mais te ocupes, diz-me aquele que vive lá e cá, da sombra que te oferece a copa das árvores do quintal. Agora, a sombra tem maiúscula. Essa Sombra não descansa, ao contrário do que se pensa, e é especialista em se fazer passar por outras coisas. A raiz do seu espaço é profunda e imersa; não é lugar de visita, nem de descanso e repouso, nem sequer onde se tentem abrir os olhos. O ideal, ao que entendo, é passar longe dela e saber de quem se valer se for preciso interceptá-la.

A Sombra procura sem cessar. Nada deixa escapar, nem ninguém. O caminho de quem tem dentro de si a centelha (e todos a têm, criados que foram a partir da essência divina que tudo criou) é a evolução, e evolução é o caminho em direção à luz. Por isso, a sombra não sossega, esteja ela no limiar ou no abissal.

Entre aqueles que ocupam, por merecimento, vontade ou escolha, os lugares à sombra da luz, há aqueles que os patrulham, e há aqueles que neles se afundam. Os primeiros assumem o papel de guardiões; em vigília constante, mantêm a sombra dentro de seus domínios. Os segundos, pelas próprias ações, ocupam as regiões mais escuras, e dirigem seu olhar para o terreno da luz, que invejam, desejam, querem e tudo fazem por possuir.

Deste nosso lado da existência, onde procuramos sombra que nos abrigue, é preciso saber qual objeto (ou força) a produz. Aqui, encarnados, nadamos em nosso próprio e livre arbítrio. Da observação das forças em movimento deverá vir essa escolha livre, e entre nós estão aqueles que ligam as suas almas às dimensões sombrias. Por descuido, por interesse, por desejo, por desaviso - em algum ponto, sempre, há a escolha. 

Não descansam, nem os uns nem os outros. Alertas sempre, estudam e mapeiam os terrenos iluminados. É esse o seu alvo, o fruto mais vivo do seu desejo e é porque não lhes pertence que não descansam nunca. 

Quem pensa que amor e bem sempre vencem, se equivoca. Porque o ódio, a raiva, o ciúme, o mal... O mal jamais descansa - em agonia constante por não alcançar a luz, entrega-se ao domínio sem sono. A luz pode repousar em si mesma, abandonar-se à vibrante irradiação de completude que é sua essência final. A sombra, jamais. E por isso o perigo e o alerta: aqueles na luz, orai e vigiai, permanecei alerta, em atenção serena aos desdobramentos sombrios que tudo manipulam e revertem.

Não se subestime o poder (e a constância) das forças da Sombra. Separe-se a sombra que se projeta sobre o solo, do objeto que a faz nascer. Examine-se. Discrimine-se. Saiba-se quem é uma, e quem é outro. A quem servem. Da confusão entre as forças da sombra, no relevar o dano que causam, nasce seu filho mais triste. A treva. A noite eterna. A escuridão sem luz.




Imagens
"Estrela urbana", de Giovani Ferreira
Alfabeto fenício, wikipedia
Fontes 


18/10/2015

Águas sagradas


Domingo, primeiro dia da semana, é boa oportunidade para banhos que abram caminhos. O que está estagnado, impedido, cerceado em seu andamento, beneficia-se de ervas que dissolvam impedimentos. Para abrir as portas desta semana com novos horários, logo lembrei de peregun.

A farmacologia medieval, e antes dela a antiga ciência herborista chinesa, já conheciam a família das dracenas. A mais renomada era a draacena draco, conhecida pelos chineses como xue jie. Nativa das Canárias, a resina da também chamada sanguis draconis (ou sangue-de-dragão) foi um importante produto de exportação do arquipélago de raiz africana e colonização espanhola. A forte oxidação da resina quando em contato com o oxigênio rendeu-lhe o nome avermelhado. Nos Açores é conhecida como Dragoeiro, e de lá nos vem a informação das suas propriedades também tintureiras. Tendo a achar que as ervas usadas em tinturaria têm uma forte presença naqueles momentos em que é preciso mudar a coloração e, por isso, considero-as importantes coadjuvantes nos processos de transformação interna.

Na farmacologia chinesa, o sanguis draconis é indicado como erva para revigorar o sangue e dissolver estases (ou seja, estagnação de líquidos vitais, como o sangue, ou a linfa); estanca sangramentos, se aplicada topicamente; e protege a superfície de úlceras, regenerando os tecidos. E, de uma forma ou de outra, a família das dracenas carrega em si essa capacidade primordial de dissolver lugares onde algo estagnou. A energia que contêm em seu interior abre, liberta e gera potência.

Há, entre nós, dezenas de dracenas - e todas elas parecem seres mitológicos, brotando com facilidade e crescendo com pujança. A que costumamos ter no jardim, ou mesmo dentro de casa, é a draacena fragrans (o nosso "pau d'água"), que nos chega diretamente da África. É uma das principais ervas rituais do candomblé e, entre as religiões ligadas aos Orixás africanos, é conhecida como peregun. Também na umbanda é uma das ervas sagradas, indicada para abrir caminhos - especialmente caminhos internos. 

Em iorubá, peregun junta as palavras -, que significa chamar, e egun, que significa espírito. É por isso uma erva fundamental na chamada dos espíritos à terra, assim como no desenvolvimento mediúnico dos filhos-de-santo. Em algumas regiões da África, como no distrito rural de Bushenyi, em Uganda, o peregun é usado para induzir o trabalho de parto, abrindo as portas para a chegada de um novo espírito à Terra. 

O orixá Ogum é o primeiro a permear o peregun com a sua energia de abertura de caminhos, de dissolução de impasses. É a ele que o peregun de folhas inteiramente verdes se consagra. A variedade verde-e-amarela impregna-se da irradiação de Iansã, que atua em tudo aquilo que está estagnado - varre com seu vento e modifica com a sua tempestade as situações e as pessoas imobilizadas, travadas no seu agir. Para os chineses, o sanguis draconis atua nos meridianos do coração e do fígado - o sangue, veículo da nossa individualidade, e o fígado, onde se reúnem e se processam (ou não) todos os nossos conteúdos emocionais.

E por isso penso que o domingo é um bom dia para um banho de peregun. Um banho preparado com a maceração de três ou cinco de suas grandes folhas, em água fria, mentalizando e invocando a irradiação do qualidade divina daquele que abre caminhos. A água logo se colore de verde forte, e o ar com o cheiro da mata, materializando a presença de Oxóssi e das suas bênçãos, agregando à dissolução de impasses a chama sagrada da criatividade e do conhecimento.

Os meus olhos perdem-se no verde aquático, e sei que os olhos de Vó Chica me acompanham, conduzindo os meus movimentos, o meu sentir e o meu pensar. Nela, recolho-me. Nela, aquieto-me. Nela, aprendo que só nesse recolhimento as ervas se abrem e se oferecem. Em silêncio e em oração internos. Não há melhor maneira de começar a semana.





Fontes:

http://www.cefimed.com.br/arquivos_formulas/pdf/formulas.pdf
https://ocandomble.wordpress.com/2015/05/29/peregun-a-folha-ancestral/
Imagens: 
Dracena Draco: divulgação
Dracena fragrans: Mário Franco



14/10/2015

Desolado

Assim encontro meu coração, e assim o observo. 

Desolado.

Observo também as palavras que se formam dentro dele, nesse esforço de me afastar do animal em mim e de rodear-me dos atributos que me garantem humanidade. Pensar e encontrar as palavras é o que mais faço. 

Abro os olhos dentro das águas mediterrâneas. Atravessam-nas barcos sem data. É nesse ponto líquido que naufraga o meu coração desolado.

Desolado, porque é a solidão que se agarra a mim sem que eu a queira, esse estado de ser solus, sozinho,  porque abandonado e negado. Meu coração colore de opacidade as fibras dos meus olhos. Tento ver o mundo com os olhos do outro em vez de tentar ver o meu mundo refletido em seus olhos. E por isso meus olhos se afogam, e meu coração naufraga. Onde cabe uma vida opaca assim.

A próxima palavra é devastado. Porque a terra vasta não é só grande - é também aberta e incontida, desabitada e deserta. Acrescento-lhe esse de que lhe agrega a sentença final: "sou completo". Completo vasto. Completo arruinado. Completo desabitado. Completo deserto. Volto à tona falho de oxigênio. Trago a água do mediterrâneo misturada à espuma das lágrimas que deixo no leito. As ondas lavam a praia. As ondas lavam os olhos. Deve haver um novo dia por detrás das nuvens escuras.


Fotografia: Giovani Ferreira
A frase em itálico é, com reformulações, de Carl Rogers, e define o que é empatia. 



05/10/2015

Resedá


Estava num dia desses sentada com alguns alunos conversando sobre formação de palavras. Lembrei -me de sedere, por estarmos assim, sentados - sedere era a forma usada pelos latinos para se referirem a quem estava, e estava sentado. Fomos à procura de outras palavras que nascessem de dentro dessa semente.

Primeira descoberta. Sem lhe juntarmos nada, sedere nos lega sedar: aquela forma de tranquilidade artificial de vem de fora e se instala no dentro. Funciona, mas não sempre, e nem seria bom que fosse sempre. Para onde iria a nossa capacidade de nos tranquilizarmos sem sedativos?

Segunda. Se lhe juntamos o prefixo in, o resultado é surpreendente: insedere  refere-se àquele que está sentado dentro. Insedere dá origem à nossa palavra insídia. Esse "aquele" é aquele a quem permitimos entrada e estabelecimento dentro. Pode provocar imenso dano - porque insídia é traição, é falta de lealdade, é cilada. Assim: atenção a quem se abrem as portas e se permite a entrada.

Terceira. Se lhe juntamos o prefixo ob, a mesma surpresa acontece. Obsidere, de estar sentado diante, serviu para definir o cerco que se faz a uma praça, e, com o tempo, legou-nos obsessão - fechar o cerco, estar a postos para atacar e invadir. A obsessão senta-se diante de nós só à espera do momento de lançar-se sobre nós e as nossas praças.

Parece que tudo depende, digo eu aos alunos que me olham estupefactos com esse milagre da multiplicação das palavras, daquilo que juntamos a essa nossa condição natural de estarmos. Com quem estamos dirá o como estamos.

"E obcecado, vem daí também?", alguém pergunta. Procuramos. E descobrimos que se engana quem pensa que obsessão e obcecado têm a mesma raiz. Obcecado é aquele que é cego do que tem diante de si - caecare, cegar, junta-se a ob, que significa o tal adiante. O obcecado é aquele que se tornou cego, e nada mais consegue distinguir à sua frente. As pessoas obcecadas não sofrem de obsessão - elas não cercam, não ameaçam, não estão à espera de que o outro caia à sua frente. As pessoas obcecadas encontram-se em algum grau de cegueira com relação ao que têm diante de si. Os danos que provocam, são a si mesmas. Os danos daquele que obsidia atingem o outro, a quem se dirigem.

E voltamos ao sedere.

A quarta possibilidade é juntar-lhe o prefixo re, esse intensificador. Temos como resultado resedere - uma forma muito intensa de acalmar. Resedere transformou-se na nossa forma resedá, essa árvore meio arbustiva que abunda nas ruas e praças, para a qual fiquei olhando na semana passada, enquanto escolhia quais árvores plantaria na calçada.

É diferente do resedá-amarelo (Galphimia brasiliensis), mais rústico, também chamado de quaró. O resedá-amarelo é uma planta usada magicamente nas religiões afro-brasileiras. Resiste às condições mais duras, aguenta secas longas e chuvas intensas. Ao contrário dos resedás que vemos florindo as calçadas, e que não resistem tão bem a geadas, o resedá-amarelo distrai-se com qualquer condição atmosférica. Usando-o para banhos, auxilia quem enfrenta adversidades persistentes na vida, e delas precisa reerguer-se. O resedá-amarelo é também uma "tintureira", usada desde a Idade Média para dar cor aos tapetes. É por isso uma planta que se impõe sobre o que está na base - e também essa qualidade, de tingir e modificar a cor dos elementos presentes, nos influencia quando a manipulamos. O resedá-amarelo acalma, tranquiliza e ajuda nos processos de reerguida. Para estarmos e sermos aquilo que podemos e queremos e devemos. E continuar à procura de palavras que despertem nossos sentidos para as coisas que, por serem verdade, valem as penas.



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28/09/2015

Prestígio


Foi num domingo de manhã qualquer. Joice arrumou-se diante do espelho na dúvida se seria o certo, se não deveria acabar com essas visitas dominicais, ritmadas, quase quase automáticas.

Mas a solidão a dois aperta seu coração. Vê-los assim, cabeças coroadas de branco, olhos encovados, faz trepidar as suas veias, e ela então lança-se a essa tarefa que nem sempre se recobre de glória.

Tocou três vezes a campainha. Preferia que soubessem que era ela, quem sabe antecipa potenciais problemas. Subiu os três lances de escadas desprezando o elevador, deixando em cada degrau o pedido de sossego, de paz, de concórdia, de puro afeto sem maiores manifestações. Se não doer, já vale a pena, range entre um e outro patamar, e ela sobe.

A porta aberta não tem ninguém atrás dela. Joice entra, atravessa o corredor que a mãe chama de hall, porque não suporta corredores porque lembram hospital, e hospital lembra abandono e abandono lembra-a de seu mais terrível medo. O terapeuta disse que era medo infantil. Mas ela já tem 76 contados dedo a dedo, e o medo é o mesmo, como se tivesse sido cultivado a quatro mãos.

A sala tem luz em excesso, as coisas não têm contornos. O pai acena por detrás do jornal, Joice hesita antes do beijo na beira da pele. Às vezes arrepia, hoje o pai sorri. Joice segue cozinha adentro. A mãe sorri, destampa panelas, aponta os garfos que ainda não estão na mesa. As facas já. Joice distende o pensamento enquanto sopesa na mão os talheres, é domingo, parecem prata.

Os copos também cintilam brilhos.

E Joice distende o corpo. Sentam-se à mesa os três. Sorriem. Dão-se as mãos num bom apetite sem vocação. O pai pergunta-lhe. Pula de um assunto ao outro. Mas ainda assim pergunta, e Joice responde, ficando aqui e ali perdida pelo questionário que segue um roteiro particular para o qual ela não foi convidada. Tropeços costumam ser inevitáveis em dias assim. Mas não. As perguntas terminam e o almoço vai avançando noite dentro.

A meio de um silêncio sem cor, a mãe sorri, a paz sentada à mesa. E também seu coração distende, ainda que o medo a ronde, e ela sem querer diz em voz alta e o pai responde que disparate. E quase tudo desanda, mas a mão do pai alcança a da mãe e há quase um carinho, uma encomenda com endereço completo. E o pai olha para Joice, aquele sorriso que a desarma, e pisca-lhe um olho, o gesto que ela abomina mas é o que lhe oferece e ela pensa, não custa nada, e é o que temos pra hoje. Joice sabe que ele sabe. E pisca de volta. Desistida.

Não há sobremesa. O que faz o pai? Pergunta? Afirma? Censura? Constata? Não se sabe, nunca. A mãe encolhe-se nos ombros, procura um lugar de saída. E o pai levanta-se solene, lento, gestos de atelier de estudo, e vai até o quarto. Demora-se antes de voltar com um meio sorriso nos lábios e os prêmios escondidos dentro das mãos. 

Estende uma à filha, a outra à mãe. E ambas adivinham e ganham a prenda. E Joice sorri, porque seu bombom é de prestígio, e ela adora, e ele sabe que ela adora, e ela sabe que ele sabe que ela adora. E nessa confusão de pensamentos, nessa enxurrada de sentimentos, Joice enterra os dentes no chocolate escuro. 

Fecha os olhos, dizendo-se tanto faz tudo isso, ele sabe e eu sei, e é o bastante. E Joice mastiga e uma vez mais enterra os dentes, com o cuidado de uma criança que se aproxima pequena e frágil da mais frágil ainda borboleta, para que não se assuste e voe, e desapareça para sempre.

E de repente algo obriga a boca de Joice a abrir-se. Tira o bombom de dentro dela com uma mão que estremece, e os dentes ficam marcados na massa marrom. A testa franze, a boca contorce, e então os olhos de Joice veem o mofo branco dentro do bombom, esses brancos e pequenos filamentos apontando como espadas o céu da sua boca.

(Para Regina)

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08/09/2015

A feitora de panela

Pra Ornela

Januária, a feitora de panelas, acordou desalentada. Abriu os olhos e o teto embaçou-lhe a vista, mais baixo que o costume. As vigas de madeira cada dia lhe negam um tanto de espaço. Demorou a aperceber-se do resto do corpo. Foi só olhos durante um bom tempo. Depois tirou a mão de debaixo do lençol fino, sentiu a temperatura do ar e deixou-a cair sobre a cama. A outra mão ainda ficou enrolada dentro do lençol. As mãos de Januária são gretadas, os dedos amarelados e as palmas acinzentadas. Muita argila e muito mangue vermelho. nos poros e nas veias.

Januária é paneleira. Debruçada no mangue, não consegue ver seu reflexo nas águas escuras que boiam à superfície. Há traços de verdes e azuis e pratas na água do mangue, como se lhe fosse a gordura que não se mistura às levezas aquáticas.

Januária gosta de colher a casca do mangue vermelho, à marretada. Não lhe incomoda ver a árvore sangrar à sua frente. Bate-lhe sem dó, arranca-lhe pedaços como se de vingança se tratasse. É vingança de uma vida.

Quando fizeram a reportagem, disse Januária "eu me sinto orgulhosa de ser paneleira". Orgulhosa de suas panelas cruzando os mares até chegarem a Dubai. Januária não sabe escrever nem ler, mas gostou dessa palavra aberta que é Dubai. Januária sabe que Dubai é longe e que o mangue vermelho se chama rhysophora mangle. Nada disso lhe serve para nada. Januária é analfabeta sem função para a escrita. As letras dela estão todas escritas nos fundos das panelas, e são uma porção de jotas e mais nada.

As mãos de Januária levantam-se afinal da cama. E ela escova os dentes, lava o rosto, faz café, olha pela janela, chama os meninos. Depois varrerá o chão, depois pensará no almoço, catará o resto de farinha e pensará no peixe possível pra dar gosto ao pirão. Agora ela é da pilha de argila, e antes de mergulhar as mãos nessa matéria fria que lhe dá vida, demora-se tentando decidir se hoje a argila é mais amarela e ocre, ou mais cinza e azul, ou mais as duas coisas indistintas. Para combinar com essa manhã esquisita de teto mais baixo que o costume. A argila é o seu oráculo. E Januária fecha os olhos antes de se pôr ao trabalho.

Juvêncio chama de longe. Tou indo pro mangue, diz ele entre tosses. Era eu que queria ir. Tu tem que fazer panela, mulher. Deixe que eu vá. Não deixo, que mangue é coisa de homem. Então tu não devia mesmo era ir. E Januária ri com os dentes que faltam, e encolhe os ombros e a própria sombra diante do morro de terra molhada.

As mãos voam pela bola de argila. Puxam e repuxam, e abrem um oco de comida, sem cheiro ainda, mas já com consistência de moqueca de cação. Januária olha o longe, que ela mais imagina que sabe, e vê sonho, e vê miragem. A panela aberta como goela, e a tampa em perfeição de encaixe. Januária sorri de satisfeita e vai e volta com as cascas da rhysophora mangle e põe dentro d'água e a panela também, e fica repetindo esse nome estranho que é ao mesmo tempo simpatia e oração. E põe mais uma panela, e outra, e outra.

Eronildes chega da escola. Aprendiz de paneleira nessa terra de goiabas em árvore, no Vale do Mulembá. Os avós índios espreitam por dentro de seus olhos pretos. E as mãos como as de sua mãe, pássaros abrindo espaço para o lugar da comida. Como ela, puxam, e repuxam, e mais uma panela, e mãe estou com fome, que horas que vamos comer, o que tem pro almoço. E a mãe sacode os ombros, diz-lhe peixe, e ela mas de novo, não comemos outra coisa, dê graças a deus menina que tem gente que nem. E a menina termina a tampa e limpa a mão na calça de helanca estatal. E Juvêncio passa, e Januária levanta, e Eronildes dá graças a deus que a comida está no caminho, dentro de uma panela das que não se fazem, já nascem feitas, de alumínio, como manda a tv.

Foto: www.jornalfolhadosul.com.br

05/09/2015

Pessoas


se recorto,
me alegro
me altero
me somo.

descubro por dentro
do corte
o invisível ocupante do todo:

a curva, o lençol,
a dobra fina de vento
na parede amarela do prédio

tenho um todo na palma da mão
sou lugar de curva
dobra fina de lençol
mistura inconclusa de verbos
um grito solto na lateral do papel

recorto e
me alegro
me altero
me somo:

junto o teu ao meu peito em carne viva
guardo-te imagem feito tela de retina
recorto-te do meio do todo:
e agora és palma
és tempo
e eu sou minha


Fotografia: Giovani Ferreira

31/08/2015

Ser

No início, quando ainda nem sequer era o Verbo, pareciam muitos, e indistintos. Vestidos da mesma forma, sentados em carteiras iguais, ocupando salas idênticas. As horas pareciam as mesmas, as idas e as vindas idem, as saídas e as entradas repetições quase lineares.

Tentei aprender-lhes os nomes todos logo no primeiro dia. Frustrei-me, claro. A memória ainda não falha, mas tem limites. E afinal é disto que se trata: de limites que podemos galgar, atravessar qual areias de deserto, pedindo licença, com gentileza, para avançar mais um pouco, até começar a perceber uma espécie de trama fina de intimidade em processo de formação. Em pouco, pouquíssimo tempo. Não sei se haverá algo mais luminoso.

Tiramos os quês, as explicações, as palavras desnecessárias da escrita. Abriram-se os porões das propostas, e lá foram elas, acolhidas com destemor e abertura. Cada vez que acontece, eu me vejo nadando nas águas dos milagres humanos. Não tem coisa igual.

E bastou menos de um mês. Não para aprender os 360 nomes diferentes dessas pessoas novas que agora povoam a minha vida, nem de saber com certeza inabalável qual corresponde a quem. Mas bastou um mês para que a ilusão da aparência idêntica abrisse espaço para as diferenças e as peculiaridades - as grandes e pequenas coisas da identidade de cada um, esboçadas em gestos, em olhares, em tropeços aqui e ali, tudo quase invisível. Bastou um mês para que se estabelecesse, em meio a correrias de sala para sala e bons dias de sorriso aberto, um reconhecimento e um esteio de amizade e afeto. Daqueles que valem tudo na vida. Como, assim, não ser e se declarar feliz?


Foto: Giovani Ferreira






16/08/2015

Calma, vaca!

Sabe aqueles dias em que você chega à conclusão de que talvez a humanidade esteja perdida mesmo? Hoje é um desses.

Eu estranho, há anos, essa mania de energético. Cada vez parece mais impossível encarar a vida sem um estimulante qualquer. O paladar vai-se, e a noção das coisas junto. Assim, inocentemente, dentro de uma latinha charmosa.

Hoje dei de caras com o antídoto do Red Bull: a Relax Cow. Em vez de precisar de energia, e de se tornar um Touro Vermelho, você precisa relaxar e se acalmar? A salvação chegou: você toma uma Vaca Calma e tá tudo resolvido.

Eu sei que tenho amigos que se queixam de que penso demais, de que levo tudo ao pé da letra, de que às vezes faz parte deixar as coisas passarem. Pois eu parto do princípio de que, se está escrito, e é com letras, é para olhar para elas - e pensar. Essa faculdade tão fascinante que nos distingue dos outros animais, e nos permite fazer aquilo que Aristóteles resumiu numa frase que vou citar de cor: se você tem capacidade para fazer uma coisa, também tem capacidade para não a fazer. Depende é do que você pensa, e do que você decide depois de pensar nas coisas - mas, ó céus, como dói pensar! Como desacomoda, como incomoda, como fraciona, como nos desdobra diante dos olhos um mundo que preferimos não ver...

Para acalmar um Touro Vermelho, só uma Vaca Calma. E deixe pra lá todas as mensagens subliminares embutidas, das machistas às demais, aquelas que poderiam dizer-lhe que você é apenas um ser fácil e pateticamente manipulável.

Ou então preste atenção às linhas e às entrelinhas (faça um curso de Análise do Discurso se começar a se confundir), e faça escolhas a partir das suas conclusões. Os que prometem "esfriar a sua mente" em 296 mililitros de estupidez enlatada, prescindindo do seu esforço, da sua busca, da sua posição e do seu afeto, querem você assim: uma Vaca Calma que não incomode, que não dê trabalho, que se contente em seguir a boiada para onde ela for. Ainda que seja o matadouro.

03/08/2015

Presença e companhia

Ainda ontem me disseram que importante mesmo é cultivar o estado de presença. Gosto de observar a maneira como as palavras se dobram à vontade do freguês, rindo-se sorrateiras daquilo que nem vemos: que as maneiras de as usarmos altera, silenciosa e quietamente, a maneira como pensamos, como vemos o mundo, como nos oferecemos e recebemos o outro.
Estamos todos à procura de presenças – de estarmos presentes para nos sentirmos úteis, de querermos o outro presente para estarmos seguros, levantando a mão afoitos e quase que gritando “presente!” quando alguém duvida que não estejamos engajados. Queremos ser presentes na vida de nossos filhos, ensinar-lhes a importância de viver o presente, sabendo que o passado já foi e o futuro a Deus pertence.
Fui cavoucar a palavra, já tarde da noite. Presença deriva da palavra praesentia. Surgiu com a junção das palavras prae (à frente) e esse (estar, ser). Presença, portanto, é estar à frente. Ali adiante. Presença não é estar lado a lado. E nessa nossa obsessão moderna pela presença, pela busca incessante por estar presente nas coisas e nas pessoas, nem vemos que ficamos é distantes, separados por esse “à frente” que estabelece uma linha entre eu e o outro, feita de tempo e de espaço.
Talvez estejamos é necessitados de companhia. Em vez da miragem de uma mão estendida, dedos palpáveis e quentes ao seu lado. O que lhe parece?
Companhia também é uma palavra latina, e deriva de compania; está formada porcom (com) e panis (pão). Companhia é aquele estado em que as pessoas repartem o pão que têm. Imagino-as lado a lado, olhando-se nos olhos, agradecendo internamente por terem não só o que compartilhar, mas também o com quem. Não estão presentes, estão em companhia. Pode ser em silêncio, pode ser em conversa animada, diante de um por do sol ou dentro de um elevador apinhado. Quem seu pão coloca na mão alheia, e dela recebe o pão que lá existir, está em companhia, e nada mais é preciso.
Como dizia Einstein, só existem duas formas de viver a vida: ou você sabe que não existem milagres, ou você sabe que tudo é um milagre. Isso aprende-se, ensina-se, vive-se – sabe-se quando ainda se é criança, e desaprende-se com essas manias adultas de dar voltas às palavras para fugir ao que é essencial e deter-se no supérfluo.
Nunca é tarde para virar a esquina e decidir tudo ser diferente. Desistir do olhar vulgar que tudo cobre de tédio e insatisfação para vestir os olhos com a cor daquela pequenez que os enche de água agradecida. Talvez o milagre não esteja ainda nessa mudança de olhos – mas chegará, mais cedo ou mais tarde, porque as boas companhias chegam, por afinidade com esse seu novo olhar para a vida, e, de repente, você encontrará ao seu lado uma mão aberta cheia de pão. Aí, então, terá com quem compartilhar o seu pão sabendo que a sua mão e a do outro jamais estarão vazias.


Publicado originalmente no site http://paraentender.com.br/presenca-e-companhia/


12/07/2015

12.07


dentro do mar
anzol de pescador
na beira d'areia
coração rebrotou







06/07/2015

Manipulações, escrita e Dom Quixote

De todas as lições de escrita que recebi, aquela que me disse que o enredo e a trama vivem dentro da personagem, foi a que mais me modificou. Porque a vida imita a arte, e foi fácil ir registrando, em papéis aqui e ali: seja ficção, seja realidade, são as ações que determinam o caráter da personagem. As palavras que pronuncia, infelizmente, arriscam-se a ser ilusão bem (ou mal) tecida.

Aquilo que sabemos de cada personagem pode estar recheado de detalhes vívidos, que nos mostram quem e o que são, ou podemos receber apenas alguns traços gerais, um tanto abstratos, que nos sirvam para delinear um perfil - um perfil sem necessidade de interior. Como um saco vazio.

Tanto na vida quanto na ficção, é preciso criar uns e outros tipos, porque afinal não precisamos saber sobre todos tudo. É preciso, muitas vezes, que o seu Joaquim seja apenas o dono da padaria da esquina, que desconfiemos da sua nacionalidade portuguesa, e que saibamos que se levanta muito cedo para garantir o pão fresco à mesa do desjejum. Não afetará a nossa vida não saber nada além disso - mas certamente apenas esse conhecimento nos rouba a experiência do que é o seu Fernando, de fato e ao completo. Para fins de narrativa, não sendo seu Joaquim personagem relevante, nada a mais se faz necessário.

É isso que distingue personagens centrais de personagens secundárias. A questão é saber quem são umas e quem são as outras. E perceber que a maneira como as tratamos precisa, sim, ser diferente. Às ficcionais, nada acontece quando, ao fechar o romance, ainda temos algumas dúvidas. Quincas Borba, antes de ganhar um romance só seu, foi personagem secundária em outro romance machadiano. Nenhum problema até aqui - se o nosso domínio for a escrita. Se nosso campo for a realidade, pode iludir-nos a vida sermos conduzidos pela conversa vazia de quem se diz profundidade. 

As personagens secundárias precisam de poucos traços, porque a sua existência enquanto tipos nos basta - podemos chamá-las de planas, porque é aquilo: só têm perfil. As que têm relevância para a trama, ao contrário, demandam um preenchimento consistente, quente, pulsante, cheio de nuances psicológicas que nos permitam conhecê-las melhor do que a nós mesmos, ou quase. São as personagens redondas, cheias de conteúdos.

Sancho Pança e Dom Quixote podem ser nossos exemplos. Cervantes não escreveu apenas uma paródia humorosa aos romances de cavalaria medievais. Cervantes está atualíssimo, porque escreve uma paródia à importância que damos às coisas, às pessoas e àquilo que elas nos mostram de si mesmas.

Sancho Pança é a personagem da qual Quixote depende para estar encarnado. Raramente nos lembramos disso. Dom Quixote nos encanta: o sonhador, o visionário... Mas é Sancho quem lava, passa, cozinha e se preocupa com seriedade e constância das coisas "pequenas" da vida de seu amo. Amiúde não percebe a sua real importância, e mesmo exasperando-se com a testarudez de seu senhor, permanece junto a ele, fiel e amoroso como um cão perdigueiro. Conhecemos, de Sancho, não só o seu exterior baixo, gordinho e montado num burrico, mas também e sobretudo o seu interior - a sua bondade, a sua perspicácia um tanto tosca, a sua lealdade, a sua falta de senso de humor, a sua capacidade de enxergar as coisas da forma reta e lisa que são. Acreditamos em Sancho. E acreditamos porque a pena de Cervantes, lá nos idos do século XVII, nos faz acreditar. Acreditamos porque dele sabemos as coisas importantes que precisamos saber das pessoas nas quais acreditamos.

Também o que sabemos de Quixote é o que o autor espanhol escolhe oferecer-nos - e ele escolhe conduzir-nos engenhosamente a leitura e dar-nos apenas traços vagos de seu "herói". A visão descontrolada, as alucinações, a valentia questionável: não há traços internos reais onde possamos nos agarrar, porque tudo em Quixote é egocêntrico, desmesurado, ambíguo e abstrato. Somos jogados nos moinhos de vento e, embora não acreditemos, como Quixote, que combatamos monstros, aceitamos a sua megalomania. Não acreditamos em Quixote, até porque ele não nos dá nenhum motivo para isso, mas aceitamos, e gostamos da sua companhia, sentimos uma suave condescendência e solidariedade para com a sua "mansa" loucura, sem perceber o buraco para onde nos arrastam as alucinações mentirosas de quem se acredita acima da verdade do mundo.

Quixote é o império da ilusão. Nada do que diz e pensa é verdade, e pouco do que faz tem impacto real e duradouro sobre o mundo. Ainda assim, é a ele que voltamos os olhos e pensamos "ainda bem que existem sonhadores!". Porém, Quixote não é um sonhador, mas um ilusionista de si mesmo, um ser que de si pouco revela porque toda a sua parafernália delirante e entusiasmada é criação doentia de sua própria mente. Acredita ter o valor que não tem, ver o que não existe, lutar pelo que não tem validade. E nós aceitamos e meneamos a cabeça, entra século, sai século, granjeando a esse tipo de construção de pessoa (perdão, de personagem) o espaço e a importância que ela não tem. E, enquanto isso, os Sanchos permanecem sob luz secundária, elogiados de forma tímida pela sua dissolução no sonho alheio, ainda que nos incomode silenciosamente a sua dedicação canina e sua inamovível sensação de serem indispensáveis à manutenção da vida dos Quixotes. Por muito que saibam que Dulcineia não é dama e nem Rocinante maravilhoso alazão, é quase que uma condena que levem seus Quixotes a bom porto - ou seja, de volta ao lugar de onde saíram.




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03/07/2015

No prelo 1

Ao levantar-se da mesa, Joice apoiou-se na quina. Fechou os olhos com força e a tontura foi-se. Olhou para o lado para ver se ele reparara, mas ele estava absorto, aquela cena tão lugar comum de quem está ao lado perdido em distâncias pessoais. Deu quatro passos na direção da porta e virou-se para entrar no quarto.

Agarrou a maleta guardada debaixo da cama, pronta para caso necessário de fuga à meia noite. Pena afinal ser de dia, pensou. Deslizou os olhos pela cama, pelas venezianas semiabertas, pela luminosidade a escorrer pelas frestas. A brisa fazendo tremer a beirada da cortina branca. A colcha de flores cada vez mais miúdas. Em pouco tempo só restaria o branco.

Voltou à sala e olhou-o ainda uma vez. A expressão igual à de sempre, zombeteira no canto suspenso das sobrancelhas, a frase feita não seja boba, sente-se aqui ao meu lado, vamos, porque não pode dar-me o que quero e parar de fazer cena? Paira no espaço, essa coisa que se espalha pelo pescoço de Joice como grade. Pensa nas meias penduradas pelo fio. Nas plantas em volta das foices no quintal. No reflexo do espelho na claustrofobia do amanhecer. E a atmosfera densa abate-se do teto ao chão, madeira descascando verniz velho. Joice abriu a porta e saiu, antes que caísse sobre ela.

Susteve o último passo, ainda a ocupação com o outro. Mas o teto está no mesmo lugar, como ele à mesa, alheio, porque nada daquilo é dele. E Joice respira do fundo das vísceras e dentro da maleta os cadernos chacoalham como pedras do caminho. 

Uma a uma, meses depois, Joice retirou-as de dentro da maleta, as páginas parecendo pétalas desfolhadas e secas, pálidas e trêmulas no início da leitura, descarnadas em pouco tempo. É assim, o seu relato, entre o pálido, o trêmulo e o descarnado. E é a ela que este livro dá forma, na primeira pessoa. É ela, Joice, a mulher que escreve do fundo.

continua...






Imagem: Prensa de Gutenberg, o que legou a multiplicação.





02/06/2015

Dois apontamentos sobre Africa Africans

1) Tenho um amigo pintor, talentoso que só, com quem aprendo muitas coisas. Dia desses, disse-me que, considerando-se a ignorância, a mediocridade pode ser um grande avanço. Ontem mesmo, ofereceu-me mais uma afirmação: só há duas coisas pelas quais somos responsáveis, a atitude e a quantidade. A qualidade não nos pertence. Ora bem.

À entrada da exposição Africa Africans, que ocupa um espaço amplíssimo do Museu AfroBrasil, há uma sala de "artes primeiras". Esse é o termo que o curador Emanoel Araújo muito bem usou, numa forma de arrastá-las para longe dessa mania que temos de chamá-las de primitivas, e assim relegá-las a um confortável pano de fundo sem contornos atuais.

As "artes primeiras" são aquelas que, na minha prática pedagógica, por vezes intimidam, por vezes assustam, tem aqueles a quem repugnam, como que são repelidas pelo nosso senso "ocidental" de olhar o mundo. Deixar-se entrar nos domínios dessas "artes primeiras" é sair da ignorância. E, enquanto não se chega a outro lado, estaciona-se na mediocridade. Que é aquele estado em que começa a saber-se que o saber é infinito, incomensurável, plural, irrestrito, livre e dinâmico. E, assim que se começa a entrar nesse outro domínio, não há como: algo transforma e modifica a nossa atitude. E, assim, dá-se um passo adiante da mediocridade - e que passo!

Já a quantidade vem com o tempo, seu aliado. A seguir a essa sala das artes primeiras, começam as obras dos artistas contemporâneos. Prefiro assim, sem o epíteto "africanos", que eu não atino a saber qual relevo signifique. Basta-me o contemporâneo. Mesmo que me aflore uma dúvida se estaremos, mesmo, ocupando um mesmo tempo, ainda que variados espaços.

Passo pelas fotografias impressionantes de Alfred Weidinger, retratos de reis de olhos únicos. Ando devagar e sem rumo definido - um ar de caos muito particular que tem este museu, e que me encanta sempre, porque ser único e múltiplo ao mesmo tempo. Paro diante dos corpos que se interpenetram, um por dentro do outro, outro por fora do um, do daomeano Rémi Samuz. Não há ruídos, são muitas falas, neste seres sem rosto e nem carne. E elas são minhas. E suas.

2) Caminho pelas ruas desta cidade grande. A África está em todo lado. Dentro e fora do museu. Por dentro das pessoas. Por baixo delas. Em volta, acima e embaixo. Entrar no museu ajuda a ver a vida. Ajuda a perceber-se vida. A encantar-se com o poder de leitura, digestão, substanciação e alimento que um ser humano oferece a outro ser humano.

Caminho pelas ruas e vejo a África em cada pedaço de chão. Porque ela é, mais do que está. Assim como esses artistas, de lugares tão distantes quanto Gana ou Madagascar, me estão, nos lugares da alma que reservo com ardor àqueles que, saindo a passos largos da mediocridade, entram nesse lugar para onde gosto de olhar, e que se chama verdade humana.

São eles que nos afastam da mediocridade. São eles que nos agarram as mãos e nos transformam os horrores em sonhos. Porque os sonhos engravidam-se e essas mãos que se precisam surgem de onde menos se espera. Talvez seja para isso que a arte existe - porque nos torna mais humanos, como bem disse Antonio Candido, mas também porque nos torna menos medíocres, menos ignorantes e mais capazes de afeto.




Africa Africans
Museu Afro Brasil/Parque do Ibirapuera/Portão 10
Visitação até 30/8/2015 Patrocínio Companhia Paulista de Parcerias – CPP, Odebrecht, Itaú Realização Museu Afro Brasil, Governo do Estado de São Paulo – Secretaria da Cultura, Ministério da Cultura – Lei de Incentivo à Cultura

Imagens
Painel de Hector Sonon, do Benim, à entrada da exposição Africa Africans.
Rémi Samuz, do Benim
Bruce Clarke, da Inglaterra/África do Sul
Fotografias de Cândido Ribeiro







25/05/2015

Segunda feira

Plena manhã de segunda feira. Acordo com uma estranha e inquietante vontade de rotina. De que o dia se organize sem a minha particular intervenção. Que não precise exercitar essas dádivas que hoje me cansam só de lembrar, pensar no que é preciso fazer, quero-ou-não-quero, devo-ou-não-devo. Só uma coisa, e depois outra, e depois mais uma, cada uma com tempos e lugares e formas estabelecidas em algum tempo que não seja hoje. Uma rotina, por favor.

E eu não sei acordar desse jeito. Não sei dialogar com essa urgência. E parece-me melhor descobrir de onde vem, e quem sabe acalmar o espírito.

Pois rotina, na realidade, é muito o contrário do que pensamos.

Só há rotina quando algo é rompido - por isso seu ancestral linguístico é rupta - um caminho aberto à força. Não nos é natural a rotina, porque não nos é natural querer romper. (Começo a gostar do que encontro.) E o princípio da rotina exige que abramos caminhos à força, que nossos braços se ocupem em rumpere - em quebrar, em romper.

E lá estamos nós com o tal caminho aberto à força. E começamos a trilhá-lo uma e outra vez. Os franceses ocuparam-se em transformar aquela rupta em route, ou seja, rota. Em pouco tempo, de tanto trilhá-lo, porque deve ter sido mais fácil do que andar pelos lados intransitáveis, nova metamorfose: de route, routine - uma trilha batida, um curso costumeiro de ação. Agora, sim, a velha conhecida rotina.

Essa vontade que nos dá, muito repentinamente, de querermos uma rotina, é no fundo uma vontade enganosa. Parece que o que queremos é o encontro de um trilho, e de por ele seguir com ilusório conforto, sem precisar pensar muito a respeito. Mas não.

É outra coisa.

É querermos abrir caminhos novos com a força da nossa vontade. Esteja essa vontade nos braços, nos pés, nas mentes ou dentro do nosso coração. Algo em nós clama por rotina: algo em nós clama por transformação e possibilidade. 

E assim se começa uma segunda feira, descobrindo que por trás do que se quer há muito mais do que se pensa.

07/05/2015

Anatomia da metade

Tem gente com horror a metades. Metades de frutas. Metades de chocolates. Metades de pães na chapa. Se me pedem "me dá uma metade" a minha tendência é dar tudo. Ou não dar nada. Ninguém merece metades.

E nem eu. Por isso insisto em viver inteiros. Os inteiros me atraem. E as metades me espantam. Passei muitos anos sem saber que existiam aqueles que se conformam com metades. Esses, também me espantam.

Quem procura metades, deixa outras metades abandonadas do lado de lá. Quem queira a vida do lado do inteiro, que venha e bata à porta: abrir-se-á automaticamente, será um susto talvez, mas é que inteiros querem-se inteiros e querem inteiros ao seu redor. Doam-se todos, ou não se doam nada. Abrem-se todos, ou não se abrem nada. É uma via de mão dupla, aliás - a doação precisa de dois lados, a abertura a mesma coisa. E deve ser assunto importante, porque de Pessoa a Gullar, e ainda Clarice e também Montenegro, cada um por inteiro e a seu próprio modo, disseram coisas sobre o assunto. 

Não há receitas para ser inteiro. Em compensação, há uma porção de desculpas para se ser metade. Voilá.

O pior talvez é quando a metade não é a do lado esquerdo ou direito, mas a metade de cima. A que boia à superfície, ponta de iceberg à espera do mergulho que constate a enormidade do que vive por baixo. A metade da superfície é coisa pouca, bobagem, veja bem. Tem quem se contente com ela, e mesmo sentindo no estômago a ânsia do mergulho, respira como ser educado para não ser inteiro, e carrega seus todos pedaços de um lado ao outro, de um mar ao outro, de uma mesa à outra. Pedaços são como farrapos, e farrapos são espécimes em estado de esgarçamento. Merecem nossa compreensão, mas raramente a nossa presença. O risco é de contágio.

Pior ainda são as metades que nos arranca a vida. As que perdemos pelo caminho e precisamos voltar, e recolher, tratar, cuidar, alimentar e fazer reviver. As que se furtaram às armadilhas e ficaram combalidas, como velhos voltados da guerra, alucinando nas madrugadas com medo das bombas prestes a explodir aos seus pés. Os pés dessas velhas metades precisam de afeto. De paciência, de ouvido, de afago. E de quem os ajude a andar sobre seus próprios passos, e reencontrar as partes que faltam, as metades tão importantes que as velhas senhoras em carruagens de ouro levaram à sua passagem prometendo o que jamais cumpririam.

Mas ainda as há piores. Há as metades que ficaram à espera. Ficar à espera, para uma metade, é um estado sombrio. Porque a metade que está à espera não sabe que a sua espera é inútil. Que aquilo que a outra metade alcançou, ela jamais alcançará. Essa metade torna-se invisível - e a tal ponto, ao fim de um tempo, que a metade visível se convence ela mesma de que a outra não existe. E, aí sim, é o fim. Porque as metades precisam da visita da luz do sol e do olhar do outro, que são na verdade a mesma coisa, parecendo serem coisas diferentes.

Com a passagem das horas, não há dia que não nasça. Não há semente que não cresça - a não ser aquelas caídas por engano em meio às pedras, e mesmo essas podem recuperar-se, se forem valiosas a ponto de valerem o tempo de voltar e recolhê-las. Porque as coisas inteiras, quando as suas metades se reencontram, espalham calor e conforto ao seu redor, e é de muito conforto e calor que os corações de todos nós precisam.


28/04/2015

Um pouco de inutilidade

L. anda cansada. Caem-lhe as pálpebras por cima dos olhos ao tentar ler um parágrafo daquele livro que jura estar amando ler. A boca escancara-se em bocejo assim que se senta para assistir qualquer coisa em uma tela, e o corpo amalgama-se ao sofá com uma velocidade surpreendente. A culpa é tua, diz, esse documentário lento, em preto e branco... Andamos todos cansados, digo-lhe. E calo-me. Há pouco a dizer agora.

Eu ando cansada das notícias, internas e externas, e da sensação de incapacidade de realizar qualquer coisa que faça algum sentido. Que ponha fim a alguma dor. Vulcões no Chile e terremotos em Katmandu imobilizam-se dentro de uma gruta fechada - essas são palavras de L., não minhas. As minhas chegam na sequência: O que posso, e faço, é voltar-me para o legado das palavras. Às vezes as coisas inúteis são as que nos salvam da crueldade à solta pelo mundo. (Mas dizes que os vulcões são cruéis?! Não, L. Na verdade já estava falando de outras coisas. Acho que te perdeste entre os teus pensamentos e os meus. Sim, tens razão, somos um emaranhado e às vezes é difícil saber quem pensamos o que. Ou quando. Ou por que. Ou... L. por favor cala-te um pouco, deixa-me sozinha com o que penso. Sim, desculpa.)

Mas então eu falava das coisas inúteis. Como a toponímia. A toponímia é um ramo da onomástica, aquela ciência que a tudo dá nome, de mim a você, à sua rua, à maternidade onde você nasceu e ao cemitério onde será depositado. A toponímia dá nome a lugares, e estuda-lhes a origem e a evolução. Tem um pezinho na etimologia, e também se relaciona com a geografia, a história, a arqueologia. Essas coisas que se ligam a outras até se embrenharem a ponto de nunca mais se desvencilharem são muito entusiasmantes, L. 

Pois precisei hoje desta palavra (não me interrompas) para dar a um texto encomendado um ar mais culto e sério. Em vez de "o nome dos rios", fui à procura de algo mais exato. Pensei que topônimo seria já bastante preciso. Mas não. E isso porque a precisão é algo que nos foge dos dedos como água misturada a areia fina. É difícil ser preciso. É uma conquista conseguir ser preciso. Accurate, como dizem os ingleses, diz L. Sim, accurate.

Descubro uma sequência de nomes que com certeza vai povoar a minha noite. Hidrônimos. Limnônimos. Talassonônimos. Orônimos. Corônimos. Uns dão nomes aos rios, outros aos lagos, os terceiros aos mares e oceanos, os seguintes aos montes e outros relevos e os últimos às subdivisões administrativas e de estradas.

Levo para dentro de mim os limnônimos. Digo a palavra em voz alta, enquanto L. fecha os olhos para absorvê-la melhor. De limne, o lago, os nomes dos lagos. Esses lugares que decantam, essa atividade precisa quando as coisas do mundo param de cantar. Esses lugares a quem acudimos em busca de auxílio, porque dentro deles, e ao seu redor, vive o que há de mais antigo. O lugar para onde nos voltamos em busca de silêncio e quietude - as águas paradas do fundo do lago, que deixam de ser armadilha para serem suave contorno. Raramente as palavras que encontras são inúteis, diz L. de dentro de seus olhos fechados. Porque as coisas inúteis estão entre as mais úteis da nossa vida, respondo-lhe. E desejo-lhe boa noite, e eu também fecho os olhos e mergulho para dentro do sono.




08/04/2015

A verdade

Sabemos, todos nós, que a verdade é um bem a ser preservado e garantido. Que, em qualquer circunstância, e mesmo que doa, sempre a dor da verdade é melhor que a da mentira. Sabemos, mas nem sempre praticamos; raramente nos damos conta de que um tanto daquilo que fazemos, não só mas também em nosso papel de educadores, mais mente sobre a realidade do que a apresenta e encara tal qual ela é.

Lembrei-me disso hoje ao ler um parágrafo de The bad seed, um romance da década 50, de autoria de William March: “um botão de rosa de cera ou um pêssego de plástico parecem mais perfeitos, aproximam-se mais daquilo que a mente imagina ser um botão de rosa ou um pêssego, do que o imperfeito original a partir do qual foram modelados”.

A nossa tendência a querer transformar o mundo em um mar de rosas para as crianças, para que elas não se machuquem, onde as coisas não são o que realmente são, cresce a olhos vistos. Impacta-nos de maneiras para as quais ainda não estamos conscientes. Andamos sobre plásticos que imitam madeira, comemos sanduíches que imitam comida, ouvimos músicas eletrônicas que imitam instrumentos de verdade, vemos reproduções de obras de arte como se estivéssemos diante de originais, temos amigos virtuais como se fossem reais, e fazemos um esforço tremendo em parecermos fortes onde somos frágeis.

Um mundo “de verdade” é indispensável à criação de seres humanos sadios. Se são crianças que estão sob o nosso cuidado, o grau de responsabilidade aumenta. As nossas escolhas são as escolhas delas, porque nós somos a referência, e é a partir das janelas que abrimos que elas reconhecerão o mundo habitável. Ou não. Se o que oferecemos não é “verdade”, a vida terá grandes chances de ser uma mentira. E esses futuros adultos terão grandes chances de não reconhecer e distinguir a verdade da mentira. Terão grandes chances de não reconhecer perigos e armadilhas em pessoas, em situações, nas prateleiras dos supermercados, no boteco da esquina. Crianças que não vivenciaram a verdade poderão não reconhecer a mentira mais adiante. Sim, eu sei: você está pensando que essa coisa de verdade é muito relativo. Não é. Uma rosa de verdade não é uma rosa de cera. Um pêssego de plástico não é um pêssego de verdade. Não se faz com ele o que se faz com um pêssego real. Assim como não se faz com pessoas reais o que se faz com simulacros de pessoas num jogo qualquer de computador.

As crianças precisam de verdade. Precisam senti-la, quando pequenas, correndo por entre os seus dedos. Precisam reconhecer a madeira, o algodão, esses elementos que estão à nossa volta de forma natural, e que encontramos e reconhecemos facilmente, em suas várias manifestações. Essas são as coisas verdadeiras na primeira infância – aquelas que existem ao redor, e que podemos reconhecer no seu próprio processo. Um carrinho de madeira, uma boneca de pano.

Crianças pequenas não precisam de andadores que imitem o seu esforço em erguer-se, assumir a humana posição ereta e caminhar pela vida. Precisam da verdade de suas próprias pernas no movimento de profundo equilíbrio que é o andar. Elas vão cair, e vão se levantar, e vão voltar a cair, e joelho esfolado é aprendizado saudável. Crianças não precisam de uma alimentação artificial e cheia de produtos químicos, que além de maltratarem o seu ser físico em formação, lhe alteram a capacidade de perceberem o que é uma cenoura, uma batata, arroz, as beterrabas de verdade.

Parece bobagem? Mas não é. Já sabemos que é de pequenino que se torce o pepino. O aprendizado das escolhas de uma criança começa com aquilo que escolhemos para ela. Quanto mais consciência do que fazemos, e por que fazemos, melhor. O nosso conforto, a nossa “necessidade” não pode tranquilamente sobrepor-se àquilo que é fundamental à criança. A nossa “necessidade” de, recém-paridas, nos reintegrarmos à vida social não pode impactar a criança que acabou de chegar. O show de rock pode esperar para mais tarde, o sambão também, a saída à noite pra festa dos amigos idem. Às vezes, não paramos pra pensar. E às vezes as escolhas têm desdobramentos tristes.

Crianças que se habituam ao mundo virtual desde cedo vão perder a noção do que é relacionar-se com o mundo real. Aliás, com adultos é a mesma coisa. Aprenderão a deslizar seus dedinhos pelas telas dos tablets e dos smartphones antes de terem percebido a textura da areia da praia. É bom ter diversidade? As várias experiências? Certamente um pai ou uma mãe de um dependente químico lhe dirá que não: há experiências que é melhor não ter. E agora, se já teve, é preciso cuidar. É preciso refazer o caminho, passo a passo, redescobrindo o que é mesmo “de verdade” neste mundo. Rodear-se de coisas de verdade. De pessoas de verdade. De sentimentos de verdade. Tirar da frente e dos lados e de dentro tudo o que é mentira, como é mentira o caminho que as drogas oferecem de encontro de si mesmo. Como é mentira decidirmos que nosso filho de 16 ou 17 anos pode sair com o carro porque “ele dirige melhor do que eu!”, ou com ele tomar uma cerveja, e iniciá-lo nesse mundo em que se ganham forças, autonomia, coragem e graça com a ajuda de um ou dois copos.


“De verdade” é o mundo cheio de imperfeições. São amores que não reluzem como ouro, e é assim que nos fazem bem. São situações em que estamos frágeis e nos sentimos à deriva, e firmamos os pés dentro delas lidando com o medo que nos sobrevém. São empregos que desanimam um dia e outro, e nos satisfazem dessa forma. São escolhas erradas que precisam ser refeitas, e dói, e é bom, porque é na dor também que crescemos. São refeições salgadas, a carne que cozinhou demais... e quando nos levantamos da mesa estamos preenchidos. Porque houve mãos de verdade que cortaram as cebolas, houve olhares de verdade que se cruzaram risonhos ao perceber o desastre, houve o riso sincero que todo mal desarma, e que é de verdade, e por isso é bom, e nos faz crescer e ser pessoas melhores no encontro conosco mesmos e com o outro.