31/12/2013

Expectativas e esperanças


Termino o ano resolvendo um grande coágulo do meu 2013. Um coágulo, veja bem, é uma massa semi-sólida que se forma no sangue ou em qualquer outro fluido do corpo humano. Atrapalha muito o fluir dos elementos líquidos, aqueles seres que têm uma ligação forte com o tempo, como eu ouvia hoje à tarde ao telefone. Esses são os seres que transbordam, pingam, inundam, derramam, esparramam-se. Pois então: todo ano tem seus coágulos. O deste, de certa tortuosa forma, tem a ver com a tradução que se deu a um dos romances de Dickens, Great Expectations.

Pares de palavras são verdadeiros atratores. Desapegar e desprender, expectativas e esperanças: é como se alguém entreabrisse uma porta e ficasse me chamando, assim, só com um dedinho, uma tentação absurda me tirando daquilo que pareceria ser meu caminho, só que não: não é. Meu caminho é correr atrás dessas coisas pouco claras que parecem existir nas palavras mas existem mesmo é nas pessoas.

Na verdade, só me lembrei disso porque decidi hoje, último dia do ano, avançar numa tradução que veio se arrastando atrás de mim ao longo dos meses. Como se o dia nº 365 fosse fazer uma grande diferença. Tanto faz, pensei: sempre é tempo de começar. Mas a inspiração anda mesmo um tanto falha, e a mente insistiu outra vez em voar para outros cantos. Eu observo-a, e rio-me, e vou atrás dela. Para que resistir?

Para não chamar muito a minha atenção, a mente mantém-se no quesito "tradução", e lança-me de volta, como se fosse um disco de luta grega, esse Great Expectations. Na tradução para o português, transformou-se em "Grandes Esperanças", o que me incomoda há tempos, se penso que o natural seria "Grandes Expectativas". 

Os bascos dizem Itxaropenak quando querem falar de expectativas, e Espera quando querem falar de esperanças. Os alemães usam Erwartung e Hoffnung. Os franceses, Attente e Espoir. Os nigerianos que falam igbo, dizem Aturo-anya ou Nwere-olileanga. Parece tudo diferente uma coisa da outra. 

Mas é só impressão. Expectativa, leio, é a qualidade de quem tem esperança. E as esperanças são aquilo que tem quem espera. Quem tem esperança, tem possibilidades e vê perspectivas, e portanto tem expectativas. Porque espera, qual líquido, a ação do tempo. E por isso cria em torno de si um redil de expectativas: coisas pelas que espera. Os ingleses têm uma porção de palavras para ficar à espera: looking for, wait, awaiting, expecting...

O coágulo do meu ano chamou-se expectativas. Uma massa sólida atravancando-me o caminho, impedindo-me de fluir por dentro da minha vida com a leveza que prezo, que gosto, que sou. Não a expectativa em si, veja bem, mas a máxima do "bom-é-não-ter-expectativas". Como se eu pudesse viver sem ter expectativas. Como se a expectativa fosse em si mesma um pecado mortal, daqueles que nos condenam ao fogo eterno. Minou-me a esperança, andar à caça das expectativas para estripá-las nas minhas praças privadas. Dediquei-me a esfaqueá-la diuturnamente, engatinhando atrás dos meus atos para reduzi-los a cinzas assim que queimassem em vida. Extenuei-me, a meio tempo disso tudo.

Ora bem. Expectativa é uma coisa bacana. Consigo mesmo e com os outros. A expectativa faz com que entremos uns dentro dos outros, faz com que queiramos atender uns as expectativas do outro. Nada de errado, até onde eu percebo. A expectativa é fundamental na figura de Pigmaleão, aquele escultor e rei do Chipre a quem Vênus consentiu dar vida à estátua que ele tinha terminado, e por quem o escultor havia se apaixonado, tamanha a perfeição, tamanha a entrega. O sentimento do artista mudou a condição da estátua - e isso, eureka!, é o efeito que a expectativa tem no comportamento e no ser das pessoas. Freud, e depois dele Erich Fromm e Carl Rogers, e mais uma porção de gente, dedicaram-se a esse Pigmaleão  que Ovídio canta em seu livro X de "Metamorfoses", lá no ano 8, portanto há muito tempo.

Rosenthal e Jacobson, nos anos 60, falam do poder desse efeito na educação: aquilo que se projeta no outro é aquilo que o outro vai devolver de si mesmo. Porque somos todos um, acho eu, e todos maleáveis e sujeitos àquilo que o outro provoca em nós a partir do que pensa a nosso respeito e projeta em nossa direção. Professores que consideram o efeito das suas expectativas nos alunos, e sabem o quanto efetivamente isso participa do processo de construção do outro, serão professores inesquecíveis pelas marcas que deixam.

Portanto, essa tendência moderna de não ter expectativas é um tiro no pé que dói antes mesmo de ser disparado. Ter expectativas faz com que nós nos transformemos, faz com que o outro se transforme, faz com que o mundo se transforme. As profecias auto-realizantes de Merton fazem parte deste raciocínio, assim como a ideia de que mudanças marcantes apoiam-se no cruzamento de conversas verdadeiras, quando o diálogo permite que muitas coisas se cruzem e entrecruzem, e que novos olhares (isto é, novas realidades) emerjam e existam.

Nesse encontro, nessa conversa, nesse diálogo, é fundamental a paresia platônica, mais uma palavra deste ano que quase fica sem ser escrita!, e que se refere à coragem de dizer a verdade. Não a verdade do mundo, não a verdade consentida e reconhecida, mas a verdade de si mesmo. Aquele que pratica a paresia nos seus encontros, encontra dentro de si as forças de ser e dizer-se ele mesmo, criando-se sujeito a partir de seu discurso, ainda que provoque dissenso em vez de consenso. Dizer o que se pensa, aqui, não é ter certezas. É problematizar, é retirar o conforto ameno em que todos ficamos quando achamos que concordamos com o que aí está, e que os outros concordam com o que aí está. A paresia incomoda, e é difícil, é é uma luta. Para os gregos, lá no século V, era indispensável à vida social e política que existisse aquele que praticava a paresia - o paresiastas. Alguém que é e diz, independente do que os outros digam que é.

Não sei se isso me assusta, se me encanta. Reconheço-me pelos olhos dos outros aqui e ali, e quero mais é ser rio que corre para o mar, e que as rochas e as ilhas que encontre pelo caminho se transformem no meu transformar e me transformem no seu transformar. Quero absorver e deglutir todos os coágulos que congestionarem as minhas veias, liquidificá-los a partir da verdade que emerge de mim a partir do olhar e da expectativa do outro. E lançar de volta, com mãos amorosas e firmes, as minhas expectativas, que são a minha esperança de que a vida seja, antes de qualquer outra coisa, um ato de coragem.

A pele das paredes

O ano acaba com a raspagem da pele das paredes. Para que uma nova tinta possa fixar-se. Uso uma espátula, e vou deixando marcas no reboco antigo. Não é toda tinta que sai com facilidade: é preciso energia e determinação. Há trechos que se agarram com afinco, não se deixam retirar. Em outros, a pele de tinta descama-se, em longas tiras, como pele velha de fato, que não resistisse à ação do tempo e se desvestisse de si mesma. As minhas mãos sorriem, quando isso acontece.

As marcas no reboco olham-me através desse tempo longo de silêncio que se constrói entre as paredes que me cercam e eu. As minhas mãos estão ressecadas, o pó de tinta entranhado em cada poro. 

A pele da parede reveste a pele do meu corpo.

Paro para escrever uma palavra aqui, outra ali. Termino uma parede e vou à tinta. Cal de cores que crio sem pensar. As paredes não me dizem da tonalidade que querem. É um exercício de adivinhação e esperança. Vários tons, várias paredes. A pele é imprescindível, escrevo. Nosso ponto de contato com o universo mais interno da estrutura da casa. A pele é o mais profundo, escrevia Valéry. Seu sentido mais extenso. Sua percepção mais nítida. Gosto das marcas do tempo e da vida na minha pele. Pessoas tatuadas em alto e baixo relevo. A pele da parede não tem afrescos. A minha pele tem - não posso retirá-los, são pura obra de arte, recentes e antigos num tempo presente. Como os afrescos da casa de Portinari, escrevo. As estrelas no céu da capela. Acho que amanhã vou a Brodowski, escrevo. Gosto de projetos. Amanhã vou a Brodowski.

É uma responsabilidade e tanto, cuidar da pele-tinta de uma casa. Não sei se estou apta. Olho a tinta da minha própria pele e esboço a dúvida no gesto. Melhor que ocupe as mãos e desocupe o pensamento. Assim como escrever, raspar paredes é um ato de fé. Na própria capacidade de discernir o que é tinta, o que é reboco; o que é pele, o que é alma; o que é próprio, o que não pertence. Qual a medida das coisas. Qual o tamanho das almas. Qual a frequência do toque. Enquanto isso, e nos minutos que inauguro, os pingos de cal grudam o pó da parede à minha pele.

25/12/2013

Ofertas

É preciso que saibas: não existem duas coisas iguais. Podem parecer-te, às vezes, muito semelhantes. Podem parecer-te quase a mesma coisa. Podem lembrar-te fortemente algo que esqueceras. E tanto pode ser que exista de fato algo em comum, como é possível o contrário.

Ora repara nestas palavras, que me ofereceram hoje a meio de uma conversa, e que me fizeram pensar em ti e daí a vontade de escrever-te. (Escrever-te, repara, nesse duplo sentido que te ofereço intencional, de dirigir-te umas palavras assim quaisquer umas e de, com a minha mão nua, percorrer-te o corpo até preenchê-lo com as palavras que não ouves.) Ora repara, dizia eu, nas palavras que me ofereceram. Cerúleo. Ceroulas. Uma poderá parecer-te exótica e desconhecida, a outra antiquada e comum como a chuva. Ou não, porque poderás quem sabe conhecer as duas. Poderás até pensar: "de certa incontestável forma, têm estas palavras um parentesco que se perde na escuridão dos tempos..." Através do teu pensamento, podes chegar onde quiseres.

Assim é, também, com as pessoas que conheces. Um alguém que te apresentem pode levar-te imediatamente a pensar em outro alguém; o teu pensamento pode tecer-te a ti e a ele um cenário tão perfeito, que te convenças que entre essas pessoas, tu e ele, existe um fio que só tu vês e que as liga e as enfeita e as torna inseparáveis dentro do mundo do teu pensamento. Sendo tu uma dessas pessoas, poderás pensar que esse que vês à tua frente é aquilo que estava escrito nas páginas abertas do teu destino. Ou poderá ser como cerúleo e ceroulas, essas duas palavras que sem querer me ofereceram. Sem te deteres diante das pessoas como não te deténs diante das palavras, poderão parecer-te umas e outras tudo aquilo que queiras que te pareçam. Até o que não são. Corres, deixa que te alerte, um grande e terrível risco. E deixa-me ainda dizer-te que há três coisas de que precisas para escapares aos enganos.

Precisas, ouve bem, de cuidado, cautela e prudência. Podes pensar que sejam a mesma coisa dita de três formas diferentes, mas são três aspectos de uma mesma atitude, em si mesmos dessemelhantes - e se te lembrares de que não existem duas coisas iguais, saberás que não existem, nunca, duas palavras iguais. Nem duas maneiras iguais de se dizer uma mesma palavra.

O cuidado faz-te pensar no outro para que não o magoes; a cautela faz-te pensar em ti para que não te magoes; a prudência faz-te pensar no ser nascido do vosso encontro, para que também ele não se magoe. Já vês como as coisas precisam ser olhadas de três formas. Pelo menos.

Repara agora, outra vez, naquelas duas palavras. Cerúleo e ceroulas. Mastiga-as. Pronuncia-as em voz alta. Deixa que preencham os espaços vazios do teu cérebro (são tantos). Quando começares a pensar, e com isso perderes a conexão com o sabor e o vento que as palavras têm dentro de si, poderás incorrer no erro de imaginá-las aparentadas. Ou talvez não penses nada, porque te deixaste levar pela lenta suavidade desse rio que são as palavras. Tanto melhor. Mas, se pensaste, deixa-me que esclareça:

não são aparentadas, nem no tempo, nem na geografia, nem naqueles que as entoaram na vez primeira. Cerúleo é o que vês quando olhas para cima a campo aberto: cerúleo é o céu. Como esse que encabeça esta carta que te escrevo: a fotografia do céu do meu dia hoje. O teu olhar para cima vê tudo o que é cerúleo, vê caelum, vê céu. Não fossem os povos do Lácio, talvez tivéssemos uma palavra outra, menos bonita, para ex-clamar ao olhar o que está acima de nós.

Ceroulas são peças de roupa. Quase diríamos ninguém mais as usar, mas isso só se não estivermos em terras frias, que agradecem essas calças por baixo das calças. Ceroulas são indumentárias árabes, dos povos do deserto, que as usavam e usam por baixo de todo o resto da roupa que usam para se protegerem da areia, do sol inclemente, do frio gelado da noite. Saruil é a sua origem, tão distante do caelum da terra de Cícero quanto nós das formas de pensamento de ambos. (Também do árabe, para quem pensou nisso, vêm as cenouras, a quem os antigos chamavam sannarias.) Ainda assim, tão longe uns dos outros, o nosso pensamento imagina-lhes a proximidade, e sem a curiosidade e a cautela e o cuidado e a prudência, deixaria de saber o que agora sabe, ainda que pareça inútil. Nunca se sabe o que vai ser útil ou inútil na vida. Por isso é que é preciso deixar todas as portas abertas, até aquelas por onde costuma entrar a adaga, a mão sorrateira que rouba, o sorriso falso que engana. Tudo aberto, ouve e guarda: guarda com cuidado, com cautela e com prudência, olhos atentos aos movimentos cerúleos. Eles indicar-te-ão o caminho.


23/12/2013

Perdão


Retiro coisas da casa. Para que a vida fique mais leve. Coisas meio bestas, como este cd da Simone que acabo de encontrar, aquele das canções de Natal. Mantive-o sob tutela anos a fio, porque quem o ofereceu o fez com uma intenção tão bacana que passá-lo adiante me parecia uma afronta. 


Essas coisas que fazemos, entra ano, sai ano, de limpar armários e gavetas, é um recurso extraordinário para pôr a vida em ordem. Limpam-se as gavetas da cômoda e da alma, para que reencontrem esvaziadas a capacidade de conter o que é preciso. Dá-se todo o seu conteúdo, sem guardar nada, a não ser o espaço onde habita o que não vemos.

Isso, e aposto que você como eu não sabia, é perdoar.

Sabe aquela ideia de que perdoar é revelar as faltas, alheias e próprias, redimi-las, "lembrar sem sentir dor", "o perdão restaura vidas", "perdoar é aceitar a imperfeição do outro", "perdoar não muda o passado mas engrandece o futuro", "perdoar não é esquecer", e mais todas as frases feitas que abundam nesse google de meu deus? Muito mais simples.Por isso eu gosto tanto das palavras, e de saber de onde elas vêm. Para poder usá-las consciente do seu poder, esse poder que cria a realidade à minha volta. As palavras são a arma mais letal que o mundo tem para me abater. Mas isso não vem ao caso, porque é sobre perdoar que eu quero escrever.

E tudo isso porque, descubro hoje cedo e feliz da vida, perdoar é muito simplesmente dar, e de forma completa. Per (completamente) + donare (dar). Deve ser por isso que as pessoas otimistas (ou qualquer um, em seus momentos otimistas) perdoam com facilidade. Por terem acesso a um campo mágico que faz com que, não importa o que nem quando, doem o que têm nas mãos, com a certeza que o que dão jamais lhes faltará. Talvez lá no fundo saibam que o que dão não lhes pertence. Por isso, dão em completude. Em entrega plena. E não sabem viver de outra forma, e nem se lembram, no minuto seguinte, de que deram o que deram, porque o que deram foi dado. E pronto. Pode até pertencer-lhes a memória do dado, mas é uma memória luminosa, porque o ato de dar se sobrepõe à coisa/sentimento/pensamento em si.

As pessoas otimistas (ou todos nós, em nossos momentos otimistas) olham adiante sem precisarem precisar uma contabilidade exata de perdas e ganhos do caminho percorrido. Seus olhos, aliás, estão invariavelmente postos adiante, seja na próxima curva ou reta, seja nos 365 dias que começam na virada do ano. O brilho está no porvir, para os otimistas, de quem os pessimistas riem com aquele movimento de cabeça que parece o lento movimento da corda do sino das catedrais. Ouço-lhes o respirar denso. Ouço-me o respirar denso quando deslizo para esse campo que não é a minha seara de vida.

Há aqueles que dizem não ser nem pessimistas nem otimistas, mas realistas. Dentre todos, são os que mais me espantam. Dizem viver no presente, sem alimentar o passado que já se foi nem o futuro que ainda não é. Usam a frase famosa do Dalai Lama com um olhar de "...e assim se caminha para iluminação". Às vezes até tento, sobretudo quando me parece que não apreendi tudo o que o presente quis me mostrar. Mas o problema é que meu presente se dilata, abraça o futuro e recorda o passado num todo que a minha vida chama disso mesmo: vida. Talvez seja nessa direção que a discussão quântica, a sobreposição de camadas, o tudo agora ao mesmo tempo me agrade tanto. Ou talvez seja otimismo mesmo.

Li este ano que acaba, algures aqui na net, que alguém de uma universidade americana propõe a teoria de que, em 30 ou 40 anos, não conseguiremos mais identificar a nós mesmos pelas premissas que usamos até os tempos do hoje. Não poderemos, por exemplo (talvez a pesquisa seja sobre gênero, porque não lembro de ler sobre outro exemplo...), dizer-nos hetero ou homossexuais: diremos "estou num momento heterossexual" ou "estou num momento homossexual". A vida andará nessa direção futura das coisas não serem mas estarem. Eu acho bom, mas pode ser otimismo. De qualquer forma, minhas gavetas estão vazias, os espaços estão cheios de ar, e esse ar tem nome: chama-se gratidão. O que foi dado, dado está: a vida passa por mim e me assiste, e meu único desejo é permanecer plena, íntegra e entregue. Este ano e todos os que virão.

10/12/2013

Cortinas


Acordo cedo. Talvez as tarefas do dia de hoje tenham me tirado da cama, ou talvez eu precisasse amanhecer de olhos abertos. Pra não errar o caminho. Como diz Rubem Alves no documentário Eu Maior, vão nos acontecendo as coisas que não programamos, e por isso chegamos onde chegamos.

Preciso abster-me, neste fim de ano, de prestar muita atenção à mente inquieta que indaga quais os sentidos, se é que os há, nos rumos que a vida toma. Vou deixá-la passar, à mente, e vou deixar passar os rumos também. Atrás fique o que deva ficar, o que não acompanha, os passos em desequilíbrio. Na vida, como no resto, dá-se o que se tem. Constatação óbvia com que às vezes nos entretemos: as justificativas genéricas não se aplicam a situações específicas, e por isso é preciso cuidado com o equilíbrio entre o que se dá e o que se recebe. Não é bom deixar os outros vazios.

Ontem mesmo, num dos últimos grupos de Escrita Criativa do ano, falávamos de Rubem Alves. Depois de ler um de seus textos, decidimos escrever por associação de ideias, e o ponto de partida foram cortinas. Como uma gota em meio ao nada, uma lágrima que resiste a cair, nem sei se minhas companheiras perceberam, mas as pernas me faltaram. Qualquer coisa à toa, como essas cortinas esvoaçantes na memória, pode me tirar a sensação de ter pernas, e a vantagem é que vou ficando treinada em subir e descer delas. Todos os companheiros de escrita deste ano foram inestimáveis em oferecer-me substâncias, momentos e processos de manter-me em cima das próprias pernas. Sou-lhes grata, nem sabem quanto.

Dessa associação de ideias surgiu o texto que segue abaixo, e que aqui faz as vezes de um convite a que os textos de todos se façam presentes, assim, livremente, sem necessitar que exista sentido. Por associação de ideias, sem compromisso, a não ser com o fluxo da palavra e dos corações em estado de aberto.


"Quando as cortinas da vida se fecharem para Rubem Alves, uma porção de anjos sorridentes estará à sua espera do outro lado. 
Não foi ele quem disse que morrer é estar do outro lado do caminho, mas bem que poderia ter sido. Estar do outro lado do caminho, de vez em quando, seria uma boa distração para quem está do lado de cá das cortinas.
Do lado de lá poder-se-ia, por exemplo, tingi-las com as cores que as nuvens devem ter do outro lado - cores mais etéreas, penumbra mais palpável, menos vincos, menos dobras. Do outro lado do caminho, as cortinas devem ser todas de tecido levíssimo, para que o céu não caia sobre quem ainda não as abriu.
Os santos conseguem atravessá-las, a essas cortinas, quando ainda estão do lado de cá. Deve ser fruto do profundo desprendimento que desenvolvem com os pores do sol, as árvores e a vida deste mundo. Gosto de pensar em desprender-me, mais do que pensar em desapegar-me. Os santos não dão às coisas do mundo a mesma importância que os mortais comuns damos; ficam mais leves, mais transparentes e levitam e flutuam pra lá, e logo depois de volta pra cá. Quando voltam, são capazes de proezas que nós, que não estamos aptos a passear no umbral com tanta naturalidade e franqueza. Como Santa Teresa de Jesus, com o seu "Nada te turbe, nada te espante, solo Dios basta". A minha memória anda perdida atrás das suas próprias cortinas, não consigo lembrar-me do poema inteiro.
Quando Rubem atravessar a cortina, com certeza levará um susto. Talvez espere uma coisa, desconhecida e aterradora, ou desconhecida e iluminadora, e verá que não há nada que já não tenha visto. A verdade é que Rubem anda, há anos, espreitando o outro lado da cortina e trazendo-nos notícias. Só que não sabe disso, e nós apenas intuímos que assim seja."


Feliz terça feira!


04/12/2013

homens com minúscula

Eu devia ter uns 13 ou 14 anos de idade. Fim de outono em Madrid, saio para uma festa com o filho de um amigo de meu pai. Boa família, esclarecida e culta, diplomacia não lembro mais de que país progressista. Vamos a casa de um outro amigo e depois de outro e ainda de outro. Em todas, a empatia entre nós é escassa, pouquíssimo reconhecimento de gostos ou de interesses. "Minha tribo é outra", devo provavelmente ter pensado, mas agora era ir até o final e impedir novos incentivos de meu pai para alargamento de meu campo social.

Na última casa, de onde se sairia finalmente para a tal festa, encontramos um tanto de garotos se divertindo na sala vendo revistas. Sou a única menina desse grupo que já contava com mais de 10 integrantes, e as revistas são todas as mesmas. Playboy. Os meninos me olham com cara de "essa não tem nada do que estas têm" (o que de certa forma era um fato), mas mesmo assim os olhares enviesam e os corpos ameaçam se aproximar. Algo dentro de mim se movimentou, incomodou e explodiu num segundo. Não sei bem de onde, mas uma onda de raiva (provavelmente amparada por uma outra de medo) me fez arrancar as revistas das mãos que passavam perto e sair rua afora, já noite, bairro desconhecido e isolado, numa sensação de impotência imensa diante de um mundo que começava e terminava na falta de respeito e na tocaia do perigo. Foram horas até conseguir chegar a espaços e pessoas reconhecíveis.

Há anos não lembrava dessa cena. Hoje, ao abrir o noticiário e me deparar com a nova campanha da Playboy, recupero o mesmo gosto amargo na boca. Porque tem coisas que não passam, e coisas que não acabam. A estupidez humana, e especialmente a estupidez masculina, é uma delas.

A matéria intitula-se "Playboy sai em defesa dos homens acuados". Tadinhos. São os homens que assinam embaixo de um documento, a "Constituição do homem livre" (sic), da qual constam artigos bem elucidativos, como "sim, adoramos ver uma bela bunda passar" ou "como casamento dá trabalho, deveríamos receber um mês de férias por ano". Valdir Leite, o gênio idealizador da campanha, preocupa-se com os homens que não sabem mais o que fazer no novo mundo dos relacionamentos, onde perderam o protagonismo. É para eles essa revista, porque, ainda segundo Leite, "a Playboy sempre teve um estilo editorial muito forte por conseguir dialogar com o homem inteligente". Passemos adiante sem comentar o paradoxo entre as coisas.

Poderíamos só rir - de desgosto, mas rir, e deixar a caravana passar. Porque, de fato, podemos olhar em volta e reconhecer uma porção de Homens que se comportam como seres humanos e constatar que essa não é a situação total. Mas, e esse é um Mas muito grande, não há como escapar do reconhecimento dos pequenos detalhes que um a um constroem a vida inteira. Não há como escapar nem de um Vinícius que todos amamos mas que teve a petulância de escrever, entre outras coisas, "as feias que me desculpem, mas beleza é fundamental". Nem dessa enxurrada moderna de homens bacanas que têm tanta vontade e se sentem tão capacitados a nos dizerem (mandarem?) como sermos livres, haja visto o texto do auto-denominado libertário Vinícius Cardoso sobre Francisca que poderia ter nascido arquiteta mas era puta. Apesar do texto bem escrito de Cardoso, talvez tendendo ao choque pelo choque mas ainda assim, não há como não sentir que de boas intenções está aquele lugar cheio. Não há como escapar de tantos indícios que resvalam por dentro da ridicularização da "volubilidade do sentimento feminino" ao longo de um dia. Dos homens que prefeririam, lá no fundo, que suas mulheres falassem menos e não "enchessem tanto o saco" com suas cabeças pensantes. Que não se desequilibrassem por não aceitarem as "prerrogativas" da liberdade masculina. Que soubessem ser mais ativas, quando passivas, ou mais passivas, quanto ativas. E daqui já vejo os narizes que se torcem e os pensamentos que se alinham como se em campo de batalha: "ah pronto: tudo pelo politicamente correto, não dá mais nem pra fazer uma piadinha que já caem em cima".

Pois é. Não dá.

Não que não haja salvação: claro que há, porque estamos vivos. Prova disso é que todos os comentários, sejam femininos sejam masculinos, nos vários sites que publicaram a matéria, são taxativos na condenação e, no caso dos comentários masculinos, nem um sequer se reconhece nessa tal de campanha pela "masculinidade sufocada". O problema é sermos todas e todos engolidas  e engolidos por essa atmosfera geral tão antiga e tão presente. Um breve passeio pelos facebooks da vida nos enche de exemplos disso mesmo que nos indigna na campanha da Playboy - e de repente nos flagramos curtindo o comentário imbecil, a foto degradante, a musiquinha preconceituosa, o videozinho malicioso. E depois, não contentes, saímos em rodinhas pra comentar, bem masculina e estupidamente, o quanto aquele cara ali no balcão do bar é bom de cama. Não muito diferente da mesa do lado, em que um homem se compraz em compartilhar com os amigos detalhes da gostosa que ele anda comendo.

Entre uma coisa e a outra, fico me perguntando sobre os filhos e as filhas da gente, e sobre os filhos e as filhas desses homens minúsculos. O quanto, de dentro desse sentimento machista que gesta o pátrio poder, esses homens se reconhecerão nos "cafajestes" que se aproximam de suas meninas com "más intenções". A menos que, claro, olhem para suas filhas com os mesmos olhos enviesados e reclamem das saias que usam e que "depois não se queixe se forem mexer com você".

29/11/2013

As coisas, à distância


A luz vem daquela casinha... Tão pequena, a casa... Pelo menos assim, à distância. Bem sei que as coisas, à distância, parecem às vezes menores do que são quando chegamos perto.

Li um dia desses que a amizade engrandece o mundo. O contrário, aquilo que diminui, inferioriza e/ou degrada, recebe outros nomes. Mesmo assim, às vezes as coisas confundem-se, porque as aparências enganam e o que vemos do mundo, assim à primeira vista, é aquilo que o mundo, as pessoas, as coisas aparentam. E não o que são, lá pelo bem dentro de si mesmas. Não que se escondam - não se conhecem, e portanto não se reconhecem.

Tenho uma amiga, querida e de muitos anos, que sempre e toda vez me abre portas. Leio de uma sentada o ensaio sobre Lessing que ela citou de passagem, numa conversa à mesa do almoço, um desses momentos à toa que me acostumei a receber de braços bem abertos para não perder uma gota. É dele, do Lessing, essa percepção do engrandecimento do mundo que a amizade propicia. Diz ele (ou digo eu, e com a memória relativa desse ensaio que mais devorei do que li) que quando a amizade permeia uma relação, ela se expande e atinge o mundo, os outros, a vida, os espaços coletivos que nos ligam aos outros e eles a nós. Não há esterilidade, quando a amizade, talvez o sentimento que Lessing mais preze, se oferece não só como matéria de construção entre duas pessoas mas como sentido político expansivo e concretizador de um mundo que se torne mais humano. Quando a amizade é aparente (ou no entendimento de Lessing quando se limita a essa intimidade entre dois), e quando deixamos de prestar atenção aos sinais que nos instruem sobre a matéria do que nos rodeia e penetra, o mundo sofre pela insignificância que o atinge. A vida sofre porque é diminuída naquilo que a faz respirar.

É dessas aparências que enganam que lancei mão para escrever a fala que encabeça este texto. Escolho-a hoje, de dentro da adaptação de "Os três fios de ouro do cabelo do diabo", conto dos irmãos Grimm, que escrevi para os alunos do 8º ano B da Escola Waldorf Rudolf Steiner. Apresentaram-na no fim de semana passado.

O menino Empelicado, protagonista da peça, procura seu caminho em meio às árvores, à escuridão e à luz excessiva. Reflete que aquela luz pequena, que vê ao longe em meio à massa que o mundo por vezes aparenta, pode ser algo maior, porque à distância as coisas parecem menores do que são ao nos aproximarmos dela. O contrário acontece também, neste mundo de aparências. O que ao longe nos parece majestoso e pleno, é na proximidade a pequenez do que nunca se pretendeu relevante.

Se por um lado o que parecia pequeno, e na proximidade é imenso, nos enche o coração de esperança e regozijo (sentimentos que precisamos compartilhar com os amigos, e torná-los fala para que tomem sentido humano), o que parecia grande e se revela pequeno ensombrece o nosso dia. Como se depois de uma longa e difícil caminhada chegássemos a uma parede que nada tem atrás de si. Ainda que possamos sentir que por detrás existam cristais, e fontes, e riquezas incomparáveis, a parede é de fato impermeável e outra vez de fato não nos permite passagem. A parede não é a catedral que se anunciava.

Quando o menino Empelicado descobre a grandeza da luz que ao longe era pequena, essa constatação amalgama-se a seu ser sem alardes. Permite que continue a jornada. É a luz, e não seu tamanho, que cumpre a função devida, e o menino segue em frente.

O ensaio de Lessing é de autoria da sempre-presente-nos-últimos-tempos Hannah Arendt. "Homens em tempos sombrios", volume de que faz parte, é uma coleção de biografias de pensamento de uma série de personalidades. No estilo claro, preciso e vigoroso dessa pensadora sem paralelo, as aparências todas são iluminadas, perseguidas e desmanteladas. É um livro de evidências, com a profundidade que é preciso exercitarmos para escaparmos da superficialidade com que o mundo nos rodeia - o mundo das relações em superfície, das experiências em superfície, das opiniões em superfície, do amor em superfície. Parecerá um mergulho no passado, e numa forma de pensar e de agir que parecemos estar perdendo enquanto humanidade. Será preciso ler estes ensaios mais de uma vez, porque não é aparente a sua profundidade, mas verdade, e as coisas profundas em algum momento demandam empenho, esforço e vontade.

O menino Empelicado, na sua saga em busca dos três fios do cabelo do diabo, prova definitiva de que necessita para fazer jus ao seu próprio destino (e do qual não se foge ainda que se tente), atravessa os umbrais das aparências. Um a um, em cores e panos e luzes e sombras, os umbrais revelam-se e são atravessados. As figuras em cena, protagonistas da própria história, enchem-me os olhos de lágrimas, porque também elas atravessam as aparências. Talvez nem o saibam, mas estão ali à nossa frente, inteiras e reais, e em nenhum outro lugar ao mesmo tempo. São, em vez de esperar. Avançam por dentro do texto e do espaço, em direção à profundidade que só o tempo e o trabalho árduo em si mesmos são capazes de realizar. É admirável, penso.

Estes seres em cena, chamam-se a si mesmos não só "colegas", mas também "amigos". Estão lado a lado nessa jornada de descoberta dos seus destinos. Não é só entre si que compartilham a alegria de estarem vivos muito mais do que as mazelas das suas superfícies - é com todos nós, que os ouvimos e vemos, às suas verdades aliviadas do corpo aparente. Além da esmagadora superficialidade da vida que vivemos fora de nossos corpos, o mundo caminha, através da ação que empreendemos e é assim, creio, que a humanidade se reconstrói.

28/11/2013

Merecimento


Coisa simples, merecer. Há milênios atende pelo mesmo: ser digno de. A dignidade de decere, sua palavra mãe, que corresponde em nossos dias a "caber no lugar certo". De onde se depreende que merecer algo, ser digno de algo, está relacionado a que esse algo caiba em si mesmo.

Pois bem. Há coisas que não cabem. Umas, porque são grandes demais. Outras, porque são pequenas demais. É destas, as pequenas demais, que falo. Nestas, sobram espaços vazios; são vácuo assustador. Tornam-se escuros e sombrios, com o passar do tempo, esses espaços que o mundo da sombra se ocupa em procurar pelo mundo, e em rechear assim que os encontra.

Desses espaços vazios, há aqueles que se observam e percebem ao longe. São provavelmente os piores. Porque se sabem vazios, e não se ocupam. Por determinação. Ou medo. Ou cegueira. Fincam-se os pés no chão enquanto se diz "meu", e a vida segue em frente. Difícil saber ao certo - esses espaços não são os meus, nem são meus os olhos que observam e nada fazem. 

Mas tenho em mim a construção destes espaços vazios. Como os espaços vazios de um amante que nada desse e tudo tomasse, do presente não pensado ao tempo todo roubado. Como os espaços vazios da escavação a peito aberto diante de olhos fechados, olhos sem umidade a interditar os encontros líquidos. Olho as mãos que tenho diante de mim, e às vezes, como agora, vejo o quanto querem salvar do espaço vazio uma gota que seja de luz. Desaparecem dentro dele, porque para tudo isso que é pequeno não há espaço onde se caiba, mas aí estão, e não posso negá-las, porque é diante dos meus olhos que não acreditam que as minhas mãos dançam a sua agonia convulsiva. E é de lá que as arranco, com a força do vento que me guia, antes que percam a pele, antes que percam o tato, antes que percam a mim mesma.

Estes são os espaços vazios da ausência de humanidade. Nem sempre são questão de merecimento. Às vezes, são pura provação.


A meio da Marginal

a propósito da apresentação de "Os três fios de ouro do cabelo do diabo" pelo 8º B da Escola Rudolf Steiner

Paro a meio da Marginal porque preciso escrever. 

Desci a Rebouças torcendo para que os sinais fechassem e se mantivessem fechados, para poder agarrar-me a estes remos que são a caneta e o papel num dia como hoje, de naufrágio. Quero que as palavras se condensem à minha volta, e que ainda nem pensamento fluam no instante em que são sopradas e eu as ouço. Este meu naufrágio não é de chuva, mas de lágrimas. Do tipo que rega e frutifica, não do que resseca e esteriliza. Nem sempre as lágrimas lavam a alma. Às vezes tornam-na mais porosa, em outras são muros impermeáveis. Estas, de hoje, são do tipo que abre os espaços da alma para que ela seja mais.

Retomo a marcha e perco o caminho. Preciso do retorno. Encontro-o, e perco-me de novo. Vim parar, sem saber bem como, na Raposo. O que afinal é uma sorte, porque o trânsito está de tal forma lento que posso escrever à vontade. Tudo vale a pena. 

E tudo de qualquer forma valeria, porque as almas que se esboçam aqui à minha volta não são pequenas. Estão ainda presentes, esses seres flutuantes, ao meu lado. Vestiram-se de outras, há poucas horas, em cima de um palco. Vestiram-se com as palavras que eu mesma lhes escolhi, e que subitamente ganharam o espaço e o tempo, e se construíram dentro de mim mais sonoridades do que antes. Um alumbramento.

Carro parado outra vez. Agora sob a chuva miúda que se infiltra pelos poros da cidade. Fecho os olhos e repasso a névoa das cortinas que se abriram e fecharam às vezes árvores, às vezes colunas, às vezes fundo, às vezes frente. Sinto o toque das luzes e seus portais. Atravessam-me os ouvidos as cores, as texturas, o toque na pele das minhas mãos, por dentro dela, como se a minha própria forma fosse tornada possível na ação dos outros à minha frente. Um remo lento que passa ao fundo. A consistência do tempo dosada com sabedoria. Um rio que corre para ambos os lados. A mente inquieta esmagando o solo. Quantos anos têm, estes seres, que avançam pelos caminhos do tempo sem se atropelarem nem tropeçarem? Quantos anos têm, estes seres, que num olhar dizem o que está por trás das palavras que escrevi? Quantos anos têm, estes seres, que conheci outro dia e agora fazem parte de mim?

A tudo isso que me ofertam, nestas horas em que estivemos uns diante dos outros, uns virados para os outros, uns por dentro dos outros, eu dou o nome de felicidade. Nenhuma das sombras do mundo tem o poder de escurecer a luz por eles criada. O que mais, além de ser grata?

15/11/2013

Preciso de uma palavra II


(À guisa de explicação: as palavras em itálico, no texto abaixo, são palavras que me foram doadas, ontem, numa postagem de facebook. 
O exercício de recolher palavras e transformá-las em tecido é um exercício fantástico. Recomendo-o como estopim de qualquer escrita. Qualquer meio serve para pedir palavras como oferta.
Peça a quem está perto de você duas palavras. Ou três. Tenha pelo menos oito à sua disposição. Saia pedindo, que ninguém se importa de dar a primeira palavra que vier à mente. 
Depois, sem se preocupar com nada, muito menos com o que pensará esse ser que vive em você e que gosta tanto TANTO de lhe dizer o quanto você é lastimável, escreva escreva escreva. 
Não releia, não pare, não se preocupe se escreve com z ou com s. Seja feliz escrevendo, que é pra isso que escrever existe. E, se quiser compartilhar, compartilhe - eu vou explodir de felicidade se isso acontecer! E obrigada a todos os que doaram as suas palavras generosas.)


Para escavar entranhas - para isso precisava de uma palavra ontem cedo. Pedi-a ao mundo facebookiano, e  o mundo respondeu-me, pródigo. Pus a alma pra fora e fui à vida.

Assim que volto, olho no olho deste mundo virtual; descubro tantas e tantas palavras - mais de 25, o que, na minha conta, é mais que muito. Vinte e cinco presentes aos quais sorrio com admiração, respeito e ternura. Sorrio-lhes com tempo. Demoradamente. Como se lhes dissesse "tou aqui".

São como gigantes; erguem-se lentos, ainda disformes diante de mim. Desentranham-se dos fundos do alfabeto, como essas vigas que se desencavam da terra. Tantas pessoas (penso) querem dar-me o que digo aqui precisar. Por que resistir-lhes? Vou a elas, com a força que lhes sinto. E o respeito a quem as escreveu. Porque, meu amigo, as palavras que chegam são pássaros que esperam resposta.

Olho para as palavras como olho para esses blocos antigos de concreto diante de mim. Arrancados à força, mas sem colapso. Palavra saborosa, essa tal de colapso, esse p seguido de s, um constrangimento dentro da boca, duas consoantes brigando para chegarem uma antes da outra ao desfiladeiro dos dentes. E depois ganharem o espaço aéreo, onde as palavras vivem em orgasmos. Mas colapso é colapso. E quando é da, essa outra forma-palavra que me oferecem, é um sério colapso. Danifica cada parafuso da alma. Perder a fé é perder a vida. Tanto faz a fé em que.

Como a fé na palavra sempre. Como a sua conterrânea nunca, não se sabe bem o que quer dizer. E daí o colapso - daí ou de uma questão básica de teoria da linguagem: o pressuposto de que "emissor e receptor devem ter o mesmo repertório para que a mensagem fazendo-se uso do meio conveniente seja expressa por um e entendida da mesma forma pelo outro". Não gosto de teorias, a não ser quando as vejo florescer na prática. Porque a prática, a prática, a prática - é a prática, é ação, é atitude. E de nada adianta emissor e receptor, não tendo o mesmo repertório, encolherem os ombros porque a incomunicabilidade é a fonte dos seus desentendimentos. Até porque, sinceramente: não é. A fonte dos desentendimentos entre emissor e receptor é, na maior parte das vezes, a desistência na possibilidade da comunicação. Desistir - que bom que ninguém me deu essa palavra de presente. Não gosto de coisas que desistem. Sobretudo seres que desistem.

Sobretudo no amor. Desistir é como uma falha no circuito elétrico: a luz apaga-se, e de nada adianta ficarmos olhando para o espaço escuro, como se a culpa pela falta de iluminação fosse dele, e não do interruptor que ainda guarda o calor do nosso dedo. Tanto faz que o tempo passe, que o outro nos diga "você é tao querida". Aquele bordado de meses, aquela renda delicada e fina que uns cuidaram e outros observaram dizendo-se prudentes, não substitui a firmeza, não torna possível a serenidade, não oferece perspectiva de que a vida seja plena e ampla e livre. E as coisas desandam, mesmo que banhadas em chocolate: frutas ácida recoberta de açúcar. Nem autonomia, nem coragem, nem dinheiro (ainda que tudo isso em abundância): de nada adiantarão os caminhos de sempre quando são mundos novos que se abrem. Bom mesmo é deixar de ser ambíguo, essa coisa que se enrosca em nossas pernas e nos fala em rimas estranhas que unem totoro oroboro como se houvesse sentido. Ambiguidade é uma forma de perder a trilha. Ambiguidade é ficar parado no centro da encruzilhada.

E a verdade, como um apêndice, é o alicerce do silêncio.

Como um chinês que nos olha de dentro de hieróglifos que não compreendemos, como um tutu sem passo de dançarina, como um amor sem ser que ama, como um astronauta no instante em que a gravidade se ausenta do centro de leveza de seu corpo - não há o que possa criar movimento onde reina o imobilismo. A vida, então, são farpas espetadas no âmago da carne do outro.

14/11/2013

Preciso de uma palavra

E ninguém sabe ao certo qual seja. Eu sei, mas espero que chegue através dos outros. Pode ser que seja alma esvaziada. Pode ser a busca de silêncio interno. Pode ser uma porção de coisas. Mas é, apenas e tão somente, desejo de ouvir a palavra de que os outros pensam que eu precise. E fazer alguma coisa com ela.

E respondem-me. Com um "oi!", antes de qualquer outra coisa. E é bom que seja essa a primeira, a palavra sem parentescos, sem ligações, sem história. Nascida do encontro de dois sons que caem no gosto de quem os ouve, e decide repeti-los e assim se instaura (também) uma palavra. Pelo prazer de ouvi-la por entre os lábios e pelo prazer de senti-la deslizando pelo canal do ouvido. Oi, portanto, eis a primeira palavra que me ofertam.

E mal acabo de escrever o que escrevi, ganho a segunda palavra: aberto. Como as águas do rio à inundação da chuva, logo penso. Ou meu coração aberto sujeito às tempestades que nada têm a ver com ele. Ou têm. Tanto faz, porque ele insiste nesse estado de aberto, teimosamente aberto. Aberto que rima com aperto, uma rima torta de som aberto com som fechado. O aperto fechado em torno do aberto do peito. A prensa das flores do meu peito. A prensa das flores do meu coração aberto.

Demora-se no caminho de chegada, a terceira palavra. Dá-me tempo de fazer o chá que me falta. E entre a mesa e o fogão preencho o espaço do silêncio, percebo à minha volta o vazio que ficou com a ausência. Olho-a calmamente, à ausência, à espera de que o mundo me chame de volta com outra palavra.

Eis que chega: saudade. Rio. Lago. Oceano. É preciso lavar as saudades, de vez em quando. Entrar com a mangueira nos quartos onde ela se esconde, tirar tudo pra fora, caixas, gavetas, pequenos pacotes sem abrir, fitas e laços e cartas e peças de roupa e xícaras e copos e temperos e receitas completas e sabonetes perfumados e sobretudo (ah sobretudo) as intrincadas filigranas feitas de lembranças de prata. É preciso tudo arrastar para fora, tirar da sombra melancólica dessa música sem letra e lavar as paredes e o chão da casa da memória. Até deixá-la brilhando, com cheiro de limpa. Tirar o pó não é o bastante, assim como fazemos todos os dias. Há um dia em que é preciso extremar os cuidados, e lavá-la inteira, à saudade, para deixá-la como nova e mais simples. Sem arabescos. Só com as coisas essenciais que se devem guardar. Não há morada para indelicadezas na casa da memória, o lugar do não esquecer-se.

E bastou entrar nessa dobra trilhada para encherem-me de palavras. Aqueles que sabem do que se trata, dizem "precisas de uma palavra? dou-te a única que te nutre: palavra". Os que lá de longe sabem que o que preciso é rir, piscam o olho e sussurram "cachimbinho da serra". O passado retorna nesse que diz "epíteto". E a minha boca repete, como criança que aprende a falar epítetoepítetepíteto. O passado não nos larga nunca.

E o branco. O todo branco. Fecho os olhos e o que tenho é o branco. Enquanto não penso. E enquanto deixo para depois o resto das palavras, porque é hora de olhar pra fora e ir buscar o que nos cabe. Até porque alguém me convida para um café com prosa. Bom dia! E obrigada! :)


11/11/2013

Curto e grosso

Botucatu, 11.11.13. Guarda Civil Municipal atende um chamado de emergência no centro da cidade. Questão de "desinteligência entre um casal", diz a crônica policial. Ele, 26 anos, partiu para a agressão. Desconhece-se o motivo; talvez se aproxime daquele "não sei porque bato, mas ela sabe por que apanha"... Pelas fotos, percebe-se não a falta de inteligência, mas o excesso olímpico de estupidez. Ela, 27 anos, não tem dúvidas: devolve na mesma moeda, só que à facada. As fotos mostram o resultado nas costas do sujeito. Dizer que "houve uma desinteligência entre o casal" chega a dar vontade de rir.

Adoro eufemismos. Essas formas sinuosas de se escapar do que deve ser dito. Para não ferir suscetibilidades alheias. Não ferir corações. Machucar sem necessidade. Ah, quanta bondade. Dizem-se as coisas pela metade e fica a consciência com a aparência de limpa. E melhor, sem quase peso. Aham. 

A atitude eufemística costuma responder por dizer de forma suave algo que de outra forma poderia magoar, incomodar ou agredir o outro. Ou seja: buscam-se palavras mais amenas para dizer algo que se quer dizer, mas não se sabe muito bem como, e ainda correndo o risco de ser chamado de bruto ou estúpido ou tosco.

As palavras prestam-se a isso. A serem manipuladas. Por isso é que há que prestar-lhes o devido respeito, e tratá-las com cuidado. Melhor nada dizer do que dizer pela metade, ou lançar mão do pó-de-arroz das avós pra cobrir o brilho que não se quer mostrar.

É um processo cognitivo da nossa evolução, diz um psicólogo e linguista canadense que vale a pena ler, Steven Pinker. Historicamente, trocam-se os nomes das coisas para que (espera-se) elas mudem. Ou mude a relação que temos com elas. Mas elas de fato só mudam quando de fato mudam as nossas atitudes (coisa mais óbvia...). Aquilo que fazemos. A nossa ação. Acho que ele tem razão, ao menos em parte. A mudança de palavras pode auxiliar a mudança de atitudes, pode ser até um sinal de alerta para a necessidade de mudança - mas só quando a mudança de atitude (portanto, de nós mesmos) está de fato no nosso horizonte. E não é assim apenas uma imagem tão linda, aquele ideal que não temos grandes pretensões de alcançar. Sobretudo quando pode custar-nos muito.

Por exemplo - roubo-o de Schwartzman, que o usou dia desses num de seus artigos. No começo do século XX, a palavra "alcoólatra" substituiu a usual, "bêbado". Para retirar a carga negativa e preconceituosa, etc e tal. Depois, mudou-se para "alcoólico". E agora a nossa opção é "dependente químico". As pessoas continuam bebendo, e mais. Outro exemplo é a expressão "de cor", que virou "crioulo", que virou "negro", que virou "afro-descendente". 

Claro que eu sei, e o Pinker deve saber também, que é tudo parte de uma mesma coisa. E que não é preciso escolher sempre uma coisa em detrimento de outra. Podemos transformar nosso "crioulo" em "afro-descendente" e transformar a nossa atitude na mesma medida. O problema é que é muito, mas muito mais fácil mudarmos o vocabulário e mantermos os vieses, do que mudarmos tudo ao mesmo tempo. Com o agravante de que algo dentro de nós parte do princípio de que, por usarmos outra palavra, temos outra maneira de ver as coisas. Não temos, a não ser que de fato tenhamos tratado a palavra como deve ser, e tenhamos aberto espaços novos dentro de nós, onde caiba o que é novo. Palavras novas inclusive, com seu novo brilho e a sua capacidade de transformarem o mundo em que nos transformamos.

Sabe aquelas situações em que usamos palavras doces para entregarmos verdades amargas? Sobre nós mesmos? Sobre as nossas escolhas? Sobre os movimentos que fazemos em nossas vidas? As palavras doces não adoçam o que as coisas são. As palavras doces traem a confiança de quem não espera o sabor amargo à entrada da garganta. Porque "palavras doces" não são palavras doces - são palavras falsas. Melhor as palavras agrestes, verdadeiras e inteiras. Sem desinteligências.



09/11/2013

O chão que renasce

Faça como eu fiz: olhe rapidamente para essa foto, e feche os olhos. Não se preocupe em entender do que se trata, apenas abra-se para olhar. Não é preciso ver. Deixe essa ocupação para mais tarde, quando puder construir o tempo e o espaço do olhar atento, dedicado e amoroso. Quando quiser construir esse espaço de encontro. E se quiser, claro.

Eu quis. Vi a foto pela primeira vez ontem à noite. Por entre conversas, música, mil e um estímulos querendo arrancar-me a alma de dentro. Ela até parece que vai, mas não vai: a minha alma anda avessa à exposição das suas dobras. Deve ser para que não se transformem em vincos, essas espécies sutis de mortalhas.

Assim, à primeira vista, foi só luz o que vi na imagem. Sem saber por que, pedi-a a meu amigo, mais intuindo do que vendo de fato alguma coisa. A foto veio, rápida e ligeira nesse pé de vento que é a tecnologia. Ali mesmo, na mesa do bar, a imagem pula de um celular ao outro. Deixo-a em paz, quieta.

Horas depois, sem conseguir dormir, tenho vagar para dedicar-me a ela. Olho-a com tempo, senhor de todos os processos, e surpreende-me que essa luz que vi esteja dentro dos espaços das folhas mortas. Parecem luminosas, as folhas, mas estão mortas. O vivo do verde à sua volta é quase ofuscado por essa luz que não é da matéria, mas do espaço ao seu redor, e atinge a superfície para fazê-la rebrilhar. É só superfície. Assim que o sol mudar seu ângulo, a luz desaparecerá. Não há existência dentro da folha, a não ser aquela de que se nutrirão outros, aqueles que se alimentam da putrefação do que morre. O que está vivo é o tapete verde que as folhas querem esconder. A vida das folhas mortas é uma vida em reflexo.

O dono da foto ofereceu-me, além da foto, a sua legenda: "o chão que renasce". E eu aqui, horas depois de ter visto a luz não só na foto, mas também nas retinas alheias, confirmo uma sequência inteira de impressões noturnas. Poderia ter dado o título de "gratidão" a este texto.

Esse chão que renasce, e que ganho de presente em imagem e palavra, nutre-se de momentos muito particulares. Momentos que surgem por detrás das paredes do tempo, espaços no avesso do espaço. É preciso inventá-los, a esses momentos. E é preciso inventá-los a várias mãos. Duas não conseguem. Podem acontecer em qualquer lugar, mas ontem foi aqui, nesta cidade que me acolhe assim que a vejo e me diz "afaste-se" no momento em que tento aproximar-me.

Chamou-se dançar, este chão renascido de ontem. Foi simples, até. Inventou-se um tempo e um espaço para o encontro. Não foi preciso inventar a vontade, mas inventou-se o movimento de ir na direção da música. E o resto inventou-se sozinho. Inventou-se o que era preciso para que a alma alcançasse os lugares que a fazem sentir-se viva, e dançasse em toda a sua extensão, e recebesse sem pedir o amparo que precisava. Uma brecha na insanidade. Um mergulho dentro da delicadeza da entrega pura. Tudo o que a minha alma, o meu coração e o meu corpo necessitam. Ainda que seja leve e breve como a passagem da brisa. Ainda que seja inventado. Ainda que seja de noite. Ainda que as folhas estejam mortas.

06/11/2013

P.A.

Dia 1 de fisioterapia. Sala de espera. Um garoto de (imagino) seus 17 anos está sentado na poltrona à minha esquerda, absorto na revista que lê. Men's Health. As outras revistas à disposição resumem-se à Boa Forma. Como meus olhos hoje nada fazem a não ser chorar, decido fechá-los e dar-me uma trégua. De vez em quando, espreito o garoto a meu lado. Continua num interesse desmedido pela matéria que lê. Até eu estou ficando interessada.

O garoto, que vou chamar de Kléber porque gosto das coisas que têm nomes, entra para sua sessão. Não resisto a querer saber o que afinal tanto o entretinha. Pego a revista ainda quente. Sua matéria intitula-se P.A. Uma lista de três coisas que todo homem deve saber fazer na sua relação de P.A. Porque é possível, nesta nossa sociedade liberal e liberada, ter relações de P.A. com os outros, e parece haver um código e uns preceitos para que a relação caminhe na direção do êxito. Ou seja: como se dar bem como P.A. Uma espécie de manual de bricolage das relações entre homens e mulheres. Vamos a ele.

Um P.A. é um Pinto Amigo. Não é bem uma pessoa, mas uma parte dela. Essa parte estabelece uma relação (imagino eu que com uma B.A.) em que, ensina a revista, não há compromisso, e onde o desejo, a vontade e a satisfação sexual ocasional são o norte, e o sul e quantos mais pontos cardeais existirem. Das três regras de ouro, guardei duas: 1) não pareça interessar-se apenas pelo sexo, que não pega bem; pergunte sobre o trabalho, sobre seus planos, vá com sede ao pote mas que não pareça ser apenas isso; e 2) caso sua amiga não esteja interessada em sexo numa das suas saídas, mas queira sair pra jantar, bater um papo, não fique chateado: afinal, ela pode estar apaixonada por outro e não ser correspondida, pode estar precisando desabafar... Além de ser um bom P.A., a sua amiga é uma pessoa bacana e você pode ser também um ombro amigo, certo? Certíssimo. Seja bacana e seu amigo lá embaixo receberá o que tanto quer.

Fico me perguntando o que levará o garoto de aprendizado da sua leitura. De que maneiras decidirá relacionar-se com as mulheres (ou os homens) por quem se interessar, o que fará com as "regrinhas de ouro" que acabou de aprender, quais fantasias e expectativas de encontros amorosos irá seu cérebro e seu coração (e seu pinto, claro) delineando. O que fará com essa banalidade toda que a sociedade insiste e consegue impôr, travestindo de libertação e autonomia situações que amarram, encolhem e são fontes potenciais de danos mais longos e largos do que podemos supor.

Por outro lado, penso: haverá diferença entre este tal de P.A. e as amizades coloridas desse tempo que já parece pré-histórico? Acho que sim. Enormes e gritantes. As amizades coloridas aconteciam (e acontecem) entre indivíduos e não entre partes sexuais. Eram um todo de pessoas que se olhavam e reconheciam. E não tinham o prévio estabelecimento de querer ou não querer compromissos. Havia, pelo menos assim me lembro, o compromisso de ser para o outro e de estar para o outro. Os frutos nasciam (ou não) da relação, e não eram dados, nem previstos, nem combinados, antes dela. E duravam o que tinham de durar. Sem receitas. Sem institucionalizações. Sem matérias de revista "how-to-do-it".

E vejo mais um outro lado, que isto de ter o rosto paralisado faz as coisas assumirem muitos lados: quanta razão tinha Hannah Arendt quando há décadas (aliás, aquelas em que as amizades tinham mais cores que hoje) alertava para a banalidade do mal. Para esse momento histórico em que um ser humano decide abdicar da sua condição de ser humano e passa a outra categoria, porque deixa de pensar, porque se acovarda, porque deixa de se colocar diante das situações da vida e do mundo nessa forma que os seres que se erguem assumem no mundo: de pé, conscientes das rédeas que o destino descansa em nossas mãos. E o pinto, onde for seu lugar.

05/11/2013

A vida segundo as palavras

Estou grávida de palavras. Não sei o que faço com todas elas, parece que se paralisam dentro de mim. Não sei o que, mas sei o porquê: assim que lhes dou passagem, mortalizam-se. Absorvem a presença do ar que lhes dou ao oferecer os campos da luz terrestre, respiram a consistência do papel em que as escrevo, iniciam o seu processo de morte. O que farão em vida, as estradas por onde viajarão, as paisagens que visitarão, depende dos outros mais do que de mim. Abro-lhes as mãos para que lhes brotem asas e voem. Mas algumas sei que ficarão retidas. Tornadas silêncios em suas formas dispostas ao mundo do som.

A essas, sinto-lhes a dor. Como se fosse minha. Talvez por isso, talvez por querer poupá-las, eu me demore a resgatá-las de seu estado de dicionário, e deixá-las que se encostem a mim durante a noite. O estado de dicionário é um estado sereno e preservado, o cosmos onde as palavras vivem desencarnadas. Mas elas escapam porque sabem o caminho até mim, e observam-me silenciosa enquanto durmo e as sonho. Mesmo percebendo-lhes a espera, deixo-as quietas. Como se isso pudesse evitar-lhes o sofrimento. Sei que estão aqui quando acordo, e por isso demoro a abrir os olhos, porque não quero que desapareçam e ao mesmo tempo sei que o devem fazer. Precisam, porque assim que vêm que as vemos, as palavras tomam corpo. E estas, que desconfio não encontrarão morada segura, tomam um corpo transparente. Tornam-se difíceis de reencontrar. Não quero que nasçam prematuras, deixo-as à vontade. A meio do frio da madrugada, escondem-se debaixo do meu cobertor, enlaçam-se ao meu corpo que dorme e quase quase se tornam meus músculos, meu sangue, meu coração, nesse bater compassado de relógio de sala. Peço-lhes silêncio quando acordo. E elas retornam de onde vieram, deixando-me cheia de palavras não ditas. Ficam aqui, deste lado direito do meu rosto, em solidária paralisia.

Mas toda gestação chega a termo. E parece que me chamam, do lado de fora, para que nasça junto com as palavras que gesto. Porque embora gestante, estou também gestanda. Faço nascer e nasço ao mesmo tempo. Não tenho outro remédio a não ser deixar que as palavras se estendam como tapetes, que tomem as estradas e se vão, que se alinhavem aos caminhos para que os homens possam passar com mais certeza das coisas suaves. Espero que, ao pisá-las, saibam o que fazem. Que lhes percebam a presença frágil. Que não lhes provoquem espinhos. Que cuidem da sua cicatrização se forem feridas. Palavras são como pessoas, séculos de incapacidades sobre a pele, camadas e camadas de pequenos danos eternizados. Quando tratadas, quando cuidadas, tornam-se mais resistentes. Desenvolvem resiliência. Recuperam-se com quase nenhuma sequela. Mas é preciso cuidado, e cuidado é coisa que nossos dias carecem.


03/11/2013

Assimetrias


À esquerda, o Sever, o Sorraia e o Almansor. À direita, o Erges, o Pônsul, o Ocreza, o Zêzere, o Alviela e o Maior. A lista é do 4º ano primário, creio, e era preciso decorá-la. Os afluentes do Tejo, em cada uma das suas margens. Lembro-me dos da direita, os mais torrenciais, os que descem das partes altas das montanhas a meio de Portugal. O Tejo, que é o maior rio ibérico, deságua aos pés de Lisboa. O forte de São Julião da Barra é o marco do encontro das águas: o Tejo derrama-se larga e tranquilamente, o Atlântico recebe-o abrindo-lhe as ondas suaves. Se fecho os olhos, sou capaz de ver a praia de Oeiras em frente ao forte, as gaivotas aos gritos acima de mim, as ondas a baterem nas rochas ao lado esquerdo. 

Os rios desta minha península são como os sulcos desta folha de eritrina que tenho entre as mãos. As eritrinas explodem em cor quando florescem suas lanças, vermelhas como o Mar Vermelho a que os gregos chamavam eruthros. Ainda que já tenham se passado semanas do fim da sua floração, e agora só haja folhas, a presença das flores continua ao redor do espaço que ocuparam. Mas o meu olhar pousa na quase mas não simetria dos rios que navegam na folha, esses tranquilos Tejos verdes, o caos organizado dentro de limites construídos no cotidiano. Na passagem dos dias. Observo-a longamente, a essa folha; percebo-lhe o contorno justo, a ligação fraterna entre as moléculas e a profunda presença a olhos nus. A folha existe para existir. Como os rios.

Esta atenção à falta de simetria das coisas nasce no espelho que tenho diante de mim. No meu rosto paralisado do lado direito, um olho abre-se desmesurado, e decide não piscar. Ou quase. Fico me perguntando que quer ele tanto ver, que não me permite a pausa da escuridão das pálpebras fechadas.

Estou assimétrica, como a disposição dos afluentes do Tejo, como as nervuras das costas das folhas das eritrinas. Se havia algum equilíbrio entre os dois lados do meu rosto, desfez-se, como uma catedral gótica que decidisse abrir espaços dentro do seu equilíbrio. Como o oferecimento de um mundo a desbravar. É preciso, penso, encontrar formas de equilíbrio dinâmico, que disponham as forças do movimento e da paralisação onde cada uma cabe.

E por isso lembro dos afluentes do Tejo. Da dificuldade de ordená-los na lógica que se pedia, da vontade de repetir-lhes os nomes pelo prazer de o fazer, do dia em que mergulhei nas águas do Zêzere e as soube frias como nunca imaginei ao saborear-lhes o nome. Rios de água sinuando pelas planícies, mansos e férteis, deslizando suaves pelo meu pensamento. São sentimentos, penso, estas águas em busca de oceano onde desaguar, intercalando seu passeio pelas represas e pelas barragens que os homens insistem em fabricar.

Agora que a noite se aproxima, tenho uma paleta cada vez mais variada de novos símbolos. Imagens e palavras e fatos amalgamados ao longo de um dia. Aquilo que meu olho acostumado a si mesmo vê, difere daquilo que o outro, esse que se paralisa e insiste em permanecer-se aberto, me descobre. Como um paradoxo a céu aberto, a sua paralisia desaperta-me, afrouxa-me, alarga-me, desamarra-me, derrete-me, dissolve-me. Descubro que a simetria é uma espécie de invariância sobre transformações, movimentos ou trocas: esta assimetria que vejo ao observar-me ao espelho é uma porta para outro lado de mim mesma. Não posso exercer a força, assim como não podem os dois lados da folha de eritrina, variantes de uma mesma essência que não pode forçar-se a nada que não seja ela mesma. O que posso é observar o novo quadrante, esse poço escavado dentro do espelho.

Enquanto uma onda de solidão luminosa preenche o espaço ao meu redor, pergunto-me onde está o oceano em que tanto desejam desaguar as águas que se represam ao lado direito do meu rosto. São como rios, projetados para fluir, em pleno embate com o espaço fechado e mudo. Os nervos do meu rosto estão à espera. 


23/10/2013

As fontes do afeto


Começo do verbete, a seco:

Afeto é tudo aquilo que se inclina ao que é bom,  ao que é pleno de sentimento; indica uma característica disposição, condição e estado para o movimento, para a impressão de si próprio no outro. Afficere é, sem mudanças de significado desde os primórdios latinos, sempre, afeto.

Pensei em afeto ao acordar. E lembrei-me da foto ao lado, tirada há algumas semanas na sala de aula de uma professora paulistana. Esqueci-me do nome da planta, o que é uma pena, mas a fotografia aí está, prova de que o mundo é um lugar recheado de sentidos e símbolos, para os quais ou nos abrimos ou nos abrimos. O tempo vai ficando curto.

Sem água, nem terra, essa plantinha floresceu na sala de aula. As carinhas dos quase 30 alunos que frequentam o lugar todos os dias floresceram junto com ela, encantados com o milagre da vida em processo de desabrochamento. A professora também. Mostrou-me a flor como se mostrasse seu mais precioso bem. Não sei se será da natureza dessa planta prescindir de elementos tão básicos ao mundo vegetal, pode ser que sim. Mas creio que ela se nutriu com muita tranquilidade e gratidão da quantidade descomunal de afeto que mora dentro dessa sala. Respira-se, o afeto. Percebe-se nos abraços, na troca de olhares, nos sorrisos de entusiasmo ao falar do percurso que se caminha.

Parece simples, mas não é tanto. O afeto pressupõe uma série de atributos, desses que é preciso desenvolver ao longo da vida, com o alto grau de consciência que nos cabe ter, humanos deste século, em relação a tudo. É preciso, já disse ali em cima o verbete, estar disposto ao afeto, e estar disposto significa que é preciso estimar, valorizar, encontrar e colocar em um lugar. A pequena planta é objeto de uma enorme estima pelas pessoas que estão ao seu redor; essas pessoas valorizam a sua presença ali (quase se curvam, em reverência doce); encontraram-lhe um lugar (a linda tigela de argila feita à mão, a mesa da professora, de onde pode ver a todos) e ali a puseram. Passam por ela todos os dias, e todos os dias ela recebe essa emanação do afeto que é diário, presente e frequente. 

É preciso também, para o afeto se realizar, condição, raiz primeira de todas as palavras que nos conduzem à noção de acordo ou compromisso. As pessoas que cuidam dessa planta, que se dispuseram a tê-la em suas vidas, comprometeram-se a cuidar dela: é por isso que ela ali está. Bem provável que, não houvesse essa condição (que é também capacidade), a planta já não estivesse mais onde a encontrarei amanhã, quando chegar mais uma vez a essa sala. É a capacidade de compromisso o que faz com que a planta permaneça junto a quem lhe quer bem. Não seria o bastante querer-lhe bem, e não se lembrar de olhar para ela com atenção todos os dias. Ela murcharia, sem o manto com que o afeto a protege.

Nessa linha trimembrada de necessidades para a expressão e o recebimento do afeto, é preciso ainda um estado. O estado do afeto. Stare, para os latinos, não era apenas e simplesmente "estar": "estou aqui... você não me vê?". Stare é uma particular forma de estar em presença de outro. É estar de pé. É estar erguido. É estar na posição vertical, que é a posição que nos coloca na condição de ser humano. Para o afeto existir, para ser sentido, para ser doado, para ser vivido, é preciso estar de pé. Afetos que se encostam, porque se cansam; afetos que não se levantam, porque pensam não precisar; afetos que se deitam, porque querem adormecer; afetos que olham para baixo, porque não sabem o que fazer com o que veem à sua frente; afetos que se demoram ao espelho, porque não sabem bem como lidar com suas rugas e seus cabelos brancos - não são afetos. Serão simulacros, serão tentativas. Mas falta-lhes disposição, falta-lhes condição e falta-lhes, sobretudo, o estado de presença que plantas, animais e seres humanos precisam para não murchar. 

O afeto presente e ativo, manifestado no movimento que imprimimos aos nossos corpos, desabrocha no coração alheio. É preciso coragem, é preciso entrega e é preciso remar contra a maré de um mundo que nos oferece, de bandeja, o desafeto embalado em papel celofane. É difícil e árduo, mas se pensarmos bem, é o que vale a pena. Nessa condição em que chegamos a este mundo, de mãos vazias, e de onde partiremos, de mãos vazias também, o que resta de nós é o que semeamos enquanto aqui estamos. Os campos são os outros. A minha semente é o afeto.


14/10/2013

Ouvir, conhecer, aprender


Tudo isso, numa única palavra. Discere. A raiz de disciplina. Ouvir, conhecer e aprender aplica-se a quase tudo. Quem não ouve, não conhece. Quem não conhece, não aprende. Quem não aprende, não ouve. E assim tudo outra vez de novo, porque a vida gosta do que é cíclico. E é a essas três palavrinhas brincando em círculo que nós, nos dias de hoje, damos o nome de disciplina.

Não pode ser coincidência que discere se pareça tanto com dicere, e ao mesmo tempo seja tão diferente. Dicere é a raiz do nosso verbo dizer, e regia-se pelo sentimento de lançar o que se diz de forma solene. Imagino que, antigamente, se discere mais que dicere. Ouvia-se (conhecia-se, aprendia-se) mais do que se dizia. Nesse dizer que tinha a marca do solene, devia haver mais disciplina e com ela mais consistência.

Ontem foi um dia de manhã de mata. Domingo de cachoeira. Entre gente boa. Povo luminoso. Agora que a noite já passou sobre a minha casa, seu silêncio de estrelas espreitando por entre as cortinas, a manhã parece uma anunciação. Os meus dedos correm pelas palavras, como numa urgência de que esta alma que me habita, essa aragem com ar de pluma, não se perca, não se dilua, não se vá. 

Voltei da mata com a alma leve - cansada, mas leve. Sensação de haver-se limpado boa parte do que me rodeia, do que me acompanha, do que às vezes se interpõe a meio do meu caminho. As distrações do dia a dia. A falta de sono. As presenças alheias. Tudo a água levou. Sensação também de vida aberta. De nova força. Do sorriso de Deus sobre mim. Deixou-me um brilho feito de palavra ressoando nos ouvidos: redução. Mais uma dessas palavras que sei ser preciso explorar para clarear a vida, essas palavras que ouço para poder conhecer e aprender. É essa a disciplina da minha vida.

Penso na redução ao abrir o armário da cozinha, agora cedo. Vou pensando, enquanto faço as dobradiças se movimentarem, no quanto algo que se reduz ganha condensação, mas perde fluidez e com ela liberdade. Deve ser por isso que os meus dedos encostam no vidro de vinagre balsâmico reduzido, aquele tempero agridoce para saladas. Numa materialização do que pensava, esse vinagre balsâmico reduzido que tenho nas mãos é mais doce, mais intenso, mais concentrado naquilo que dele restou, mas é também mais denso e viscoso. Escorre com lentidão, mais presa do ar e do limite do espaço do que a sua versão líquida, que flui sobre as folhas de rúcula no prato sem se lhes colar pegajosamente. Gasta-se mais devagar: a redução dura mais tempo que o líquido original. Seu gosto é mais intenso. Nada fica no prato depois de comida a salada e seu gosto permanece na boca do comensal por mais tempo.

Reduzir reduz volume, tamanho, quantidade. Elimina uma parte para que sobre o que, ao olhar, parece essencial. Para onde irá a vida líquida do vinagre em estado bruto e aquoso? O que sofre, na matéria, o efeito da redução? Volátil, espalha-se na atmosfera, funde-se ao nada e torna-se sua partícula. Irrecuperável.

Pessoas, que não são vinagre, não podem ser reduzidas. Precisam de todas as suas partes essenciais; ao contrário do que pensamos não são uma, mas várias. E precisam também de todas as outras, as não essenciais, essas que por vezes parecem tão menores, ou tão maiores, que chegam a assustar os outros.

A manhã de ontem firmou o meu espírito sem reduzi-lo. Devolveu-lhe a luz e o brilho que é dele mesmo, porque provém de onde provém. Deve ser por isso que a minha alma ficou tão leve, tão presente em si mesma. O que mais fazer, a não ser agradecer a semana que vem pela frente, pronta a ouvir, a conhecer, a aprender, sem precisar reduzir-me nem reduzir a vida ao meu redor?


Foto: Joaquim Luiz Nogueira


10/10/2013

Além da sobrevivência

Araraquara, sábado, 22h15. À saída da sessão de "O renascimento do parto", um grupo de mulheres jovens, bem vestidas e alimentadas, discute o filme. Mais ou menos na seguinte direção: - "Ah, mas também que firulas, não? O que é que tem o bebê ficar longe da mãe logo depois de nascer, só um pouquinho? Não vai ter a vida inteira pela frente? Não sei pra que ser tão radical...".

Essa história de ser rotulado de radical eu conheço. Meu mapa astral diz. A vida diz. As pessoas em volta dizem. Mas como assim não ser radical? Se não formos radicais a respeito daquilo que respeitamos e consideramos, vamos ser o que? Sempre contemporizadores? Tem coisa que é difícil de contemporizar. As certezas vão mudando de lugar, confirmando o que dizia minha avó: "vais ver como quando envelheceres a vida torna-se relativa". Pois sim, é verdade, é uma graça envelhecer e ver as certezas ruírem. Só que outras constroem-se em seu lugar, lado a lado com as dos outros. Tá tudo muito certo.

Sinto um incômodo no discurso que vai se consolidando em torno do parto normal/natural/humanizado. Muita nomenclatura para variantes de algo muito, mas muito simples. É de se desconfiar. Esse incômodo chama-se sensação de ser engolido a contragosto. Chama-se ser cooptado por um sistema que consegue inacreditavelmente transformar tudo em seu produto. Em mercado. Em matéria de troca. Em uso. O incômodo chama-se ver o sistema assumir contornos de gente humana, mas sem recheio. Um mundo de convexos sem concavidades. Um mundo em que, em vez de nos tornarmos humanos, viramos profissionais.

Tenho certos problemas com a palavra profissionalizar. Já vi situações únicas e espontâneas sucumbirem ao poder do discurso profissionalizante. Pessoas entregues e capazes, cheias de energia e vida pra dar, aniquiladas sem dó nem respeito ao peso daquilo que as torna, muito de repente e sem defesa, incapazes e duvidosas. Nada contra sermos profissionais no que fazemos, muito pelo contrário: o problema está em considerarmos (e tantas vezes fazemos) que alguém, que não nós, fará direito o que nós tentamos mas, por defeito de sermos quem somos e o que somos, não conseguimos. Ou quase conseguimos, mas de repente é preciso profissionalizar. E só nos resta sobreviver.

Foi assim com o atendimento ao parto. Tínhamos as parteiras. E temos, mas a que custo e luta delas mesmas. Pessoas que primavam e primam pela simplicidade e pelo mistério das suas mãos, doação em estado puro e bruto, porque era e é delas a tarefa sublime de estar junto a quem atravessa o umbral da vida. Mulheres de palavras certas. Mulheres de conhecimento atávico. 

Tínhamos os/as obstetras. Que, apesar da sua formação compartimentalizada e redutora, buscavam um sentido existencial para o momento de nascer. Meu avô, que era médico, e médico rural, falava pouco dos partos que atendia, e eu acho que era por respeito. Por respeito ao que não conhece explicação. Embora ele falasse pouco a respeito de qualquer coisa com a criança pequena que eu era. Gerações de médicos foram se profissionalizando, e hoje temos profissionais extremamente hábeis e competentes no manejo do bisturi.

Talvez por falta de outra opção num primeiro momento, e depois por convicção (variante de radicalismo), meus terceiro, quatro, quinto, sexto e sétimo partos foram atendidos por médicos obstetras convencionais. Alopatas. Nunca tinham feito parto em casa; alguns, os bons de cesárea, poucos partos normais tinham feito. Ajudaram-nos a minha experiência bem sucedida de dois partos anteriores e a minha certeza (radicalismo/convicção) de que é claro que meus filhos nasceriam em casa. Com ou sem os médicos. Aceitaram o desafio, inclusive o da minha outra certeza/radicalismo/convicção de que há que pagar-se um preço justo. Salário mínimo, no país em que vivemos, é um preço justo.

Foi um alumbramento coletivo, cada um desses partos. Tive a felicidade imensa, dessas que vão muito além da pura sobrevivência, de ver não só nascerem meus filhos, mas de presenciar o nascimento de médicos de parto em casa. Isso não tem preço.

É claro que houve senões. Sempre há. É claro que ouvi "anda, faz força" na hora em que não deveria ouvir nada. Que houve exames de toque desnecessários. Apreensões em demasia. Olhares de dúvida que poderiam ter travado qualquer dilatação, aquelas palavrinhas mornas que poderiam desmontar tudo que não fosse certeza/convicção/radicalismo. Sem essas três palavrinhas, capaz que houvesse desistências, de ambas as partes.

Gostando como gosto de parir, acompanhar outras mulheres à beira de dar vida foi uma consequência natural. Como amiga, como vizinha, como mulher. Quis ser parteira. Vi surgirem as doulas. Quis ser uma. Comecei o curso de enfermagem com o olho na enfermagem obstétrica. Ou seja: quis profissionalizar uma atuação que corre pelas minhas veias.

Não avancei nessa direção. O cheiro de mercado, a troca financeira, o fim da explosão pura de amor em forma de doação levou-me para longe, enquanto outras coisas surgiam na vida. Por isso, há poucos dias, quando me perguntavam: "você seria a minha doula?", eu engoli em seco antes de responder que posso ser a amiga, a vizinha, a mulher, a confidente, a irmã, a que cuida das crianças irmãs de quem vai nascer, a que faz chá e atende o telefone. A pessoa que pode estar ao seu lado e acompanhá-la nesse trabalho divino, com aquilo que tive o privilégio de viver e aprender. Mas não posso ser doula, porque não posso dar nome de profissão ao que sinto tarefa de vida. Admiro as mulheres que acompanham outras mulheres assumindo-se como doulas, admiro-lhes a coragem e a garra; quisera eu, há quase três décadas atrás, ter encontrado algumas delas. Admiro esse movimento genial e pulsante de mulheres e homens guerreiros que se erguem com valentia contra a ditadura do sistema. Mas assim, meio recolhida como me sinto, me aflijo com o cheiro de sistema em tudo isso.

Ingênua? Radical? Naif? Pode ser. É mais uma questão de além-sobrevivência. Uma questão de que a vida não fique ao rés-do-chão, no lugar comum das coisas comuns, na falta de significado, de força, de querer olhar a vida de frente e dialogar com ela. Questão muito pessoal, sei disso. Mas com os tons da urgência que se querem compartilhados.

06/10/2013

O parto e a dor

Há vinte e nove anos, minha maior aspiração era garantir um nascimento amoroso a meu primeiro filho. Queria a penumbra, o silêncio, o respeito pleno, a solidão necessária. Queria os cheiros conhecidos, os ruídos tranquilizadores, a panela da minha cozinha. Queria a plenitude diante desse momento que antevia, aos 19 anos, ser um portal para dentro de mim mesma. Não tive dúvidas de que esse lugar de segurança era a casa onde vivia todos os dias, onde a vida se desenvolvia.

Encontrar a pessoa certa que nos fizesse companhia levou quase oito meses. Quando apareceu, trazia na sua mala anos de experiência atendendo partos pelo Xingu. Embrenhamo-nos juntos por essa mata densa que é nascer em casa, e tudo o que se desmonta e remonta dentro de todas as pessoas que se aproximam. Gostei de estar fora do sistema que a tudo sem piedade engole; a minha aspiração buscava o espaço e o tempo em que as coisas se demorassem nelas mesmas, e não houvesse obediência a nada que não fosse, e eu pudesse acertar e errar a partir da minha intuição. Só isso: que fosse, na intensidade do seu ser. Ao mesmo tempo, perceber sem mediações a força primitiva da fêmea que se abre para que outro nasça, e abrir as portas para o divino manifestado na palavra falada assim que o nascimento é nascido. A fêmea, a mulher, a divina.

Demorei muitos anos a sair dessa mata. Agora, a cada convite para entrar dentro desse território, a emoção e a gratidão são as mesmas. Gosto das plantas que crescem nesse lugar. Gosto do cheiro de cosmos. Gosto da explosão de vida e dor e vida e dor, nessa ordem tão caótica que são as forças que não conhecemos entrando no nosso dia a dia.

Mas não posso deixar de reconhecer que o sistema engoliu parte do que me movimentava, nessa capacidade ímpar que tem de engolir tudo o que estiver pela frente e tentar se contrapor a ele. Uma espécie de sucumbir a uma força que parece insuportável. Claro que é maravilhoso que mais e mais mulheres possam ter seus direitos respeitados na hora sublime do parir; que possam optar, que possam escolher; que possam ser o que e quando e como quiserem ser. O problema que fica incomodando esta minha cabeça inquieta é se as escolhas e as opções são internas ou ainda e mais uma vez ditadas pelo que está do lado de fora (e que eu vou chamar de sistema), todo esse discurso certeiro que diz e dita e preconiza o bom. Não sei, mas tem alguma coisa me incomodando. Eu não sei se as mulheres que parem estão mais ou menos donas do seu parir, ou se diluíram por entre outros atores (além do médico que já era tanto) a responsabilidade que é só delas. E que é difícil assumir e carregar até a última consequência. E é solitária. E é assustadora. E transforma tudo.

Foram sete partos em casa, sete experiências de parir diferentes e únicas. Sete trabalhos. Sete bolsas. Sete cordões. Sete momentos. Sete placentas. Horas que o universo me doou para descobrir novas formas de passar pelo mesmo lugar, para que me reinventasse no encontro dos meus fantasmas, dos meus medos, do pânico inevitável do não sentir-se capaz e precisar da mão invisível. Receber a vida terrena de meus filhos em casa foi uma das certezas mais absolutas que já tive na vida. Acho que nasci com ela e não seria quem sou sem ela. Não seria todas as que sou dentro de mim mesma não fosse por ela.

Um dos sete seres que nasceu de mim atravessou o portal de volta, alguns anos depois de ter chegado até nós. Todas as vindas, e muito especialmente essa ida, moldaram-me o caráter. Aprendi a esperar, e a esperar em meio à dor. Aprendi a dormir por entre a dor. A dormir à espera da dor. A viver amparada pela dor. A perceber na dor a razão de estar viva. A olhar no espelho e ver a feição da dor sobreposta à minha própria, e gostar dela. A levantar-me no início dela e ser-lhe silenciosa nas primeiras horas. A ler nas contrações pequeninas a preparação para o Grande Trabalho. Aprendi a olhar-me para dentro em meio às tempestades violentas. A sentir a emergência de uma força que me transcendeu e à qual me dobrei porque é isso que é preciso fazer quando a transcendência se manifesta: dobrar-se, sem quebrar. Com paixão e entrega, irredutível e incondicional. A dor esteve, e está, sempre ao meu lado, companheira fiel disposta a manter-me o estado de acordada. Ao sofrimento, não lhe dei entrada. Porque não cabia. Nunca coube. E parece que me esqueço dessa lição tão implacável. Nunca vai caber.

A diferença entre uma coisa e outra, dor e sofrimento, veio à tona ontem à noite, enquanto assistia "O renascimento do parto". Demorei a ir ao cinema assistir este filme: queria que o pai de meus sete filhos, a coluna de luz que se ergueu inteira e bela a meu lado a cada um desses momentos de luz e transformação, estivesse junto, porque só ele para entender as minhas lágrimas oceânicas. E fiquei matutando, entre cena e cena, o quanto o meu ser sequer tenta fugir à dor, e o quanto se debate para não criar e nem ver criar sofrimento à sua volta, nem em si mesmo nem nos outros.

Olhando à distância de anos estes sete partos, a dor não me assusta como não me assustou; movimenta-me as entranhas, desperta-me centros vitais que o estado não-doloroso não alcança despertar. Nem tento encontrar grandes explicações, porque certamente não as encontrarei (ou entenderei) e o que sei, hoje, é que a dor é alimento da minha alma tanto quanto o seu contrário, que nem sei como se chama ao certo.

O que sei, e sem nuvens, é que dor não é sofrimento. Sofrimento não tem sentido. Sofrimento, ou os outros criam, ou nós criamos. Mergulhamos dentro dele como se panela de óleo fervente, e esse mergulho não é necessário. Necessário é amar e ser amado, é olhar e ser correspondido, é poder correr livremente pelos campos abertos da entrega e ter a retribuição exata do que se deposita nas mãos dos outros. Nesses campos, a dor tem espaço. O sofrimento, não.

Sobre o filme que é preciso assistir:
http://www.orenascimentodoparto.com.br/

Não tenho fotografias dos meus partos, porque quis guardá-los só na memória. A fotografia é da minha primeira inspiração, o livro de Leboyer, "Nascer sorrindo".