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05/09/2011

Entre o sarcasmo e a vida


Tenho vários exemplos, na minha grande família que vive do outro lado do Atlântico, das virtudes do saber enciclopédico. Curiosidades da cultura geral foram um prato cheio, anos a fio, diante da lareira da casa na Estrada de Tornada, quando esta ainda era uma estrada e não a rua em que se transformou, quase (inacreditável) no centro das Caldas da Rainha. Os quilômetros que eu andava para chegar à Tália (única livraria de então, onde se compravam os livros de Enid Blyton e o Diário de Notícias) parece que se reduziram a alguns metros. A casa de meus avós resiste incólume, ainda que tenham se silenciado os serões.

Está tudo isso tão longe, no tempo e no espaço. Como se algo em mim tivesse vivido outra vida em pleno século XIX.

Dentro desse saber enciclopédico, saber o que dizem as palavras revestia-se de particular importância. Discutia-se muito; meu avô divagava sobre o sabor diferente do português camoniano, as cartas do king pulavam da mesa para as teclas do piano de minha tia, e eu treinava o prestar atenção a várias coisas ao mesmo tempo. Quando estavam todos, avós, tios, tias, primos e adjacências, formava-se mais uma mesa – a discussão política entrava em campo, comentavam-se as últimas de Lisboa, às vezes em voz baixa para não ferir suscetibilidades atentas nas outras mesas. De quando em quando as palavras mereciam um tempo de silêncio – ouvia-se uma baforada de cachimbo aqui, uma cigarrada acolá, mais uma bagaceira no copo que ainda é cedo e um whisky on the rocks para os fortes.

Entre tudo isso, uma prima lia cartas que recebia de um lugar chamado Taizé. Parecia outro mundo, a Maria Alice, embrenhada naqueles papéis que vinham de França. Ensinou-me alguns cânticos, que às vezes congregavam essa família que me aqueceu a infância, unida em volta do piano de minha tia, horas a cantar que não se contavam pelos tempos do relógio. Um fio que guardo cheio de boas lembranças feito pérolas.

Maria Alice vivia dentro de uma atmosfera monástica, embora (salvo erro) fosse funcionária pública em Lisboa. Sobrinha de meu avô, herdou o nome da mãe, mas não seus olhos cor de cinza. Eram “as Alices”, que chegavam sempre juntas, às vezes vítimas daquela espécie de maldade familiar que atinge os melhores, ou os incompreendidos.

Essa maldade foi-me apresentada, pela Maria Alice, como “sarcasmo”. Não sei quantos anos eu tinha, porque é daquelas memórias linguísticas mais antigas. Disse-me que sarcasmo é uma doença, e das mais graves, que é contagiosa e dificilmente tem cura. Quando se adquire, a cura demora, e depende muito mais da força de cada um do que dos remédios dos outros. Anos passados, descobri que ela tinha toda, toda a razão.

Sarcasmo é uma palavra de origem grega, como tantas que nos foram legadas pelos helenos. Deriva de sarx – carne - e criou um verbo. Porque, embora no princípio fosse o verbo, quem primeiro chegou foi o nome. E os nomes, quando transformados em verbos, mudam-se, embrenham-se, infiltram-se e passam a ser dentro de nós coisas que não eram quando em estado de palavra pura, de dicionário drummondiano. Sarx, a carne, criou sarkásein, o arrancar carne. Carne que se arranca através da palavra deve provavelmente ser a mais dolorida, por arrancar-nos da alma a nossa identidade humana, a carne que nos constitui, o ser carnal solidário e fraterno, que antes se agrega do que se arranca de seu semelhante.

Maria Alice apresentou-me a coisas mais importantes - a comunidade Taizé, para onde me voltei durante alguns anos. Taizé apresentou-me a Tereza de Ávila, um antídoto potente ao sarcasmo do mundo, transformado numa oração simples  que por sua vez se transformou em cântico na comunidade francesa. Minha irmã, na curta visita que nos fez nesta semana, e sem saber de nada disso, ressuscitou-me desses tempos antigos, em que a família se reunia e cantava esse mesmo cântico que ela escondeu hoje pela manhã dentro da minha mão, com um sorriso nos seus olhos serenos, onde o sarcasmo nunca encontra morada.

nada te turbe
nada te espante
todo se pasa
Dios no se muda
la paciencia
todo lo alcanza
quien a Dios tiene
nada le falta
solo Dios basta

O cântico, com melodia:

25/08/2011

Sem título, por opção


Há tempos que ando com vontade de escrever a respeito de uma palavra que me abalroou uns meses atrás – fiquei atônita olhando para ela, mal acreditando no que me fazia pensar. Chegou-me às mãos via os gregos e chama-se sphalmatos. Associada a perigo, aplica-se (ou aplicava-se) às situações de caída ou desgraça.  E isto a propósito de que? De duas coisas.

Uma, a crônica de Clarice Lispector que decidi reler um dia desses, uma das suas mais bonitas: “Estado de graça”. Deu-me a ideia, há alguns anos, de um daqueles exercícios que por mais que se repitam mais prazer dão: neste caso, ir ao encontro de palavras derivadas a partir de uma determinada raiz, descobrindo às vezes parentes e significados ímpares, num brainstorming linguístico que adquire maior sentido à medida que avança no espaço. Como o tal estado de graça, que os gregos readquiriam, para evitar a queda (ou a desgraça), somando à palavra o prefixo a, que tudo nega. Portanto , asphalmatos – aquilo que impede a queda ou a desgraça.

“Desgraça” faz parte do campo semântico que se abre com a palavra “graça”, um espaço de limites longínquos, cheio de sutilezas e encantos. Graça é aquilo que criança faz, e nos faz sorrir (mais do que rir); graça é aquele presentinho simpático que recebemos de quem menos esperávamos, e que nos provoca o “que graça!”. "Graça" oferece-nos palavras tão diferentes quanto gracioso e engraçado; gratidão e ingrato; agradecido e desgraçado. Estar em "estado de graça" é um pouco levitar do duro chão da existência, ser alçado àquelas alturas a que as paixões às vezes nos remetem (e das quais, quando caímos em desgraça, ganhamos um tombo proporcional ao grau anterior do estado oposto).

As coisas que são "de graça", contrariando todas as lógicas capitalistas, inclusive as bem intencionadas, são aquelas que não têm preço e que por isso mesmo nos deixam a alma naquele já dito estado de levitação. Aquelas coisas que chegam assim, do nada, sem que se esperasse ou previsse, e de repente se nos oferecem, leves, lisas e ternas. Um brinde da vida.

Pois os gregos sabiam disso. Usavam tanto asphalmatos que, por economia da língua, tornou-se asphaltos, acabando por batizar aquilo que, para dezenas de civilizações, dos próprios gregos aos sumérios, passando pelos assírios, pelos babilônios e pelos egípcios, serviu para impedir que as coisas caíssem (literalmente) e se desgraçassem. Noé usou asphaltos para calafetar sua (nossa) Arca. Literalmente, ainda em grego, está cunhado como “aquilo que evita a caída”.

Isso fez-me pensar, e num volteio repentino fiquei matutando se não nos estará faltando justamente aquilo que negamos tanto tempo – no plano concreto, palpável, o sempre-dito asfalto (assim, na grafia que conhecemos, sem o ph que o original grego oferece), aquilo que pode impedir que os nossos caminhos se desintegrem, se esboroem, criem buracos e levantem poeiras que nos intoxicam e nublam a visão clara do que está à nossa frente - ou às nossas costas. No plano das ideias e dos afetos, que foi para onde esta história me catapultou de fato, é como se nos escapasse o estado de graça, porque negamos, através do distanciamento, a nossa proximidade; porque perdemos a cordialidade; porque entendemos que a luta precede o entendimento e que a construção do nosso sentido parte da negação do sentido alheio, e não do seu caráter complementar.

Sinto falta, nestes últimos tempos, não só de conhecer as tantas diferentes pessoas que moram hoje à minha volta, e encontrá-las nas festas simples onde dinheiro não era moeda, mas também de re-conhecer aquelas que já estão aqui há muito – sem que a falta de tempo, de espaço, de disponibilidade ou de desprendimento nos impeçam de levitar, achar graça sobretudo em nós mesmos e ser gratos. Clarice, nos momentos da depressão que sucedeu o incêndio que quase a matou, queixava-se da solidão das coisas do mundo, e refugiou-se nessa solidão que ajudou a construir. Não gostaria que lhe repetíssemos esses passos.

11/04/2010

Bairros, comunidades e recortes afins

Tenho diante de mim, na minha mesa, uma pintura a óleo, feita por uma das minhas tias, que retrata um pedaço do mar da Foz do Arelho, praia da minha infância. Mesmo sabendo disso, transponho essa imagem diante de mim para todos os lugares marítimos que me apraz, e muitas vezes o que vejo é o recorte da janela da casa da minha bisavó na ilha do Faial, nos Açores. Esse recorte serve-me de companhia, invocação mesmo, quando me perco ou preciso ausentar-me do mundo. Não que isso signifique que tenha passado muitas horas à janela dessa janela, nem é o caso, mas a situação que idealizo remete-me a momentos que, se tivessem sido vividos, com certeza seriam preciosos e únicos. Basta-me pensar neles para que de fato existam, a ponto de consolar-me da vida quando entra em estado de insípido desalento.

Recortes assim, da vida e do mundo, são matéria de todos os dias. Esse mar diante de mim não é o mar, mas sua imagem, a imagem que minha tia formou dentro de si e transportou com suas tintas e pincéis para uma tela branca. Tornou sólido o que era líquido. Eu, a  milhas náuticas de distância de tudo isso, mar, tintas, tia e praia, tomo essa solidez e, de certa forma, transformo-a no meu especial tipo de mar. Um tipo sólido de mar. Um estereótipo de mar. Inofensivo.

A formação de estereótipos, aprendi na faculdade há anos, é vital para o nosso processo de comunicação, usada todos os dias, todas as horas, a todo momento. Formamos estereótipos internos do que seja uma árvore, e assim não precisamos descrever à exaustão o conceito “árvore” quando queremos com muita simplicidade dizer a alguém “quem me dera ter uma árvore para ficar sob a sua sombra”. A árvore está lá, ainda que talvez não esteja, e ambos interlocutores podem entrecerrar os olhos e sentir a sombra da árvore inexistente que é a mesma nesse momento para os dois, sem o ser.

Sim, alguém logo poderá dizer (porque esse é o estereótipo da palavra estereótipo), “mas estereótipos criam problemas”. Certamente. Quando o meu “tipo sólido” decide além de sólido tornar-se opaco, e sobrepor-se à translucidez alheia, passa de fato ao estatuto de problema e muda de nome: chama-se preconceito ou discriminação, e age em consonância com a nova denominação. Os efeitos da comunicação de massa, com as suas características específicas de tempo, modo e forma, produzem cotidianamente estereótipos. Alguns geram preconceitos e discriminação, outros formam imagens que aos poucos se tornam verdades, aptas a distorcer a realidade. Ampla e irrestritamente. Com uns, nos identificamos; com outros, nem tanto.

Há uns anos atrás, tivemos na Demétria uma discussão mais ou menos efervescente sobre a propriedade (ou impropriedade) de nos chamarmos “bairro” ou “comunidade”. Talvez, penso eu agora, pelo crescimento exponencial do grupo, e a consequente necessidade de encontrar uma forma que pudesse definir-nos frente ao mundo. Defensores de uma e outra denominação apresentaram aqui e acolá seus motivos e razões, e eu naquela altura nem pensei em ir às origens de ambas as palavras. Graças à reportagem veiculada pela rede Bandeirantes nestes dias, sob o pomposo título de “Famílias mudam de vida e produzem o próprio alimento”, voltou-me aquela discussão à mente, basicamente porque fiquei à procura, na matéria, do que vejo da janela da minha casa. O subtítulo não me ajuda: "Em Botucatu, interior de São Paulo, uma comunidade produz o próprio alimento de forma sustentável".

Aquela discussão acabou elegendo a ideia de “bairro”. Comunidade parecia, a uns, ligada à criminalidade das favelas-valha-nos-deus, a outros dava uma sensação de bicho-grilo-ainda-nos-sessenta, a outros ainda soava estranho, como bairro será mais interessante, diziam, a nossa situação perante o município. Foram muitos argumentos de parte a parte, todos eles amparados e justificados pelo estereótipo interno que cada um, inclusive eu, formou  ao longo da vida sobre cada um desses dois conceitos feitos palavras. O fato é que bairro ficou. E agora, inusitadamente, vira notícia como “experiência comunitária”. Reconheço cada um dos atores presentes nos pouco mais de quatro minutos de matéria, e em todos reconheço parte da “culpa” por sermos o que somos. O difícil é conseguir encontrar-nos por entre as imagens. É claro que ali está uma parcela de nós, feliz ou infelizmente pequena, e o seu dia a dia, só não consigo ver que essa parcela represente, mesmo de longe, o "bairro Demétria".

De vez em quando dou umas voltas por alguns dos atuais meios alternativos, e dos mais emblemáticos como o enca, aos mais focados, como os grupos de parto humanizado e afins, a reação parece-se: abre-se uma boca de espanto e emite-se um “ah” de êxtase ao saber que vivo na Demétria. Da primeira vez achei divertido, da segunda engraçado, da terceira comecei a ficar incomodada. Provavelmente esse mito saia fortalecido com esta matéria da Band, e nós que construímos essa nação sem pátria ficaremos um pouco mais longe de vestir a roupa dos mortais comuns, que veem o Olimpo como se deve: com os pés no chão.

Mas a questão aqui era etimológica, e se eu soubesse disso antes ... Para bairro, bastam dois clicks no google e uma checagem no Geraldo Cunha aqui ao lado: deriva de bárri – o espaço “exterior” dos árabes hispânicos, o "lado de fora", que por sua vez deriva do árabe clássico barri, igual a “selvagem”. Bastam-me os árabes ibéricos, que todo exagero é ruim, inclusive o linguístico - o "lado de fora", portanto. Para comunidade, a formação é mais óbvia: uma "unidade comum", por sua vez trivial, vulgar. Ser “bairro”, ser o lado de fora; ser “comunidade”, ter qualidades comuns e triviais, daquelas que dão a noção de pertencimento.

A minha atenção é chamada (assim mesmo, na voz passiva, porque diante da televisão raramente nos chamamos a atenção, é ela que nos chama, e isto sem julgamento de valor pelo-amor-de-deus) pela constatação de que, de fato, vê-se de nós o que projetamos ao nos assumirmos bairro - o nosso lado de fora, aquilo “que dizemos que queremos ser”, como alguém desabafava neste mesmo alobairro dias atrás, e não o que de fato somos, por dentro. Falta-nos, talvez, a comum-unidade trivial e vulgar que poderíamos ter se pudéssemos de fato olhar-nos com a pluralidade, a abertura, a verdade e a falta de dogmas que as coisas triviais e comuns demandam, se é que se quer que sejam verdadeiras. A menos que já saibamos qual é a unidade que queremos seja comum às pessoas que aqui chegam, e descartemos tudo aquilo que não se encaixe na nossa visão “comum”.

Conversar com quem saiu daqui ao longo dos últimos dez anos tem me deixado um travo amargo na boca, que por falta de melhor palavra traduzo como me disseram outro dia, a respeito desse assunto mesmo: "frustração", seja lá pelos motivos que for. Em outros momentos, ouvi de muitos a palavra “desilusão”,  sentimento quase que inexorável passado o período de tempo de encantamento pelo qual todos os que vimos para cá passamos. O que é normal, comum, trivial, dadas as nossas condições excepcionais de vida, assim como é normal, comum, trivial desiludir-nos, que ninguém merece mesmo viver iludido e a desilusão no fundo é a verdadeira salvação. O que não é normal é que as imagens da band não se pareçam conosco e que as deixemos passar irrefletidamente por nós mesmos.