23/12/2014

Madrugada

Acordo com um vulcão dentro do peito. Ouço as erupções no escuro da madrugada, sinto o calor da lava a subir pelas laterais da cama. E ouço a voz de minha mãe, confundida com outras vozes que se fazem ouvir.

Ouço-a contar-me, como se estivesse ao meu lado e não no jardim da casa onde vive hoje em Fátima, dos 13 meses de atividade vulcânica que acompanhou da escadaria da casa de sua avó, casa açoriana construída em cima de uma rocha tão grande que em seu interior tinha uma gruta. Terras de basalto, casas de basalto, mar azul petróleo em volta: os Açores são meu pensamento em voo quando o mundo concreto craquela. Lá está a janela da casa dessa minha bisavó, transbordada sobre o mar. Lá estão os ensaios da banda da igreja. Lá estão as águas-vivas a dançar na beira da praia. Lá estão as terras vulcânicas, essa paisagem lunar que já criança me depositava silêncio na alma.

Minha mãe conta da mescla estranha de terror e fascínio que sentia, da rudimentar máquina fotográfica empenhada em registrar a evolução diária desse vulcão. Conta da espessa nuvem de cinzas, incessante, a soterrar casas, a tornar o ar irrespirável, pessoas evacuadas, um farol quase desaparecido, metros de terra escura ganhos ao mar. "Essas terras", dizia, "tornar-se-ão nas mais férteis da ilha. Talvez eu não chegue a ver esse dia, mas talvez teus filhos sim."

Talvez nem eles. A natureza é mais indomável do que pretende o nosso pensamento; segue o seu próprio e desconhecido tempo, e não há nada a fazer a não ser munir-se das armas serenas da espera.

É o gosto dessas armas que amanhece na minha boca. Mesmo serenas, são amargas. Penso nos Capelinhos como se a vida fossem, e enterro as mãos nessas cinzas ainda quentes. São estranhamente líquidas, sobem até à garganta e dizem-me que não as deixe transbordar: "Agarra-te a essa inconsistência de neblina que recobre a madrugada, e espera que de nós nasça o mais fértil dos caminhos. É da tua espera que nascem as coisas. É da tua espera que o futuro se alimenta. É da tua espera que as águas que te marejam a alma refluem e seguem seu caminho ao longo da linha da costa, até mergulharem no mar e te acenarem adeus antes da onda final. Deixa que a onda que as leva passe sobre ti: deixa a onda passar e acorda outra vez, até não ser mais necessário."

Imagem: vulcão dos Capelinhos, ilha do Faial, Açores, 1958.





01/12/2014

Temporada

Uma das coisas mais bacanas do inferno astral é a oportunidade absurdamente expandida de encerrar ciclos, preparar-se para o novo, resolver pendências, instigar mudanças, criar movimento. Eu gosto particularmente do meu, todo ano chego à mesma conclusão.

A vida não piora, no (meu) inferno astral. Muito pelo contrário. Com a sorte de ter nascido em dezembro, coincide a época de colocar a vida em perspectiva e olhar para os meses adiante com um olho nos meses que se passaram.

Semana passada, segredavam-me aquilo que todos sabemos de que "a César o que é de César". No sentido de que, se a César se dá mais do que César consegue, ou merece, levar e manter dentro de si, algo de menos se dá a Deus, que é o outro lado desse binômio bíblico. E como Deus está em tudo, e tudo está em Deus, e namastê-o-deus-em-mim-saúda-o-deus-em-ti, resulta que, se demais se dá a César, de menos se dará a esse pedaço nosso que é o todo e que é a nossa origem, vocação e verdadeira essência divina. Inferno astral é um momento privilegiado para se perceber se o que damos a César assiste realmente a César. E corrigir a rota, e dar a quem é de direito o que lhe pertence.

No estado de sensibilidade alterada, de uma capacidade perceptiva interna mais alimentada, como são essas semanas de inferno astral, as coisas que nos afetam, ou nos desafetam, tornam-se mais nítidas. Se os deixarmos, os insights farão visitas frequentes. Teremos presentes dos céus em forma de reencontros inesperados.

Nesta madrugada, escrevo porque está particularmente difícil adormecer. Tenho a impressão de ter o corpo cheio de estrelas, tremeluzindo através de cada poro. Fico encantada, e não durmo. Na escuridão do quarto, brilho. E me pergunto se este brilho em mim estará brilhando em outros também.

Sei que sim, e por isso também me ponho a escrever. Porque talvez aqueles que originaram esse brilho, um pouco incautos porque não têm a sorte de estar em seu inferno astral, estejam desconcertados, e não saibam de onde vem esse sentimento que de tão plácido não permite o sono.

Pois bem: foram os abraços. Aqueles frequentes, aqueles deliciantes, aqueles reconhecedores, e os desconhecedores também, mas sobretudo, e muito, aqueles que quase ficam pelo caminho, com cara de tropeço desagradável, e de repente se retomam. De repente abrem-se os braços e os outros braços estão ali abertos também, num acolhimento mútuo que enche os olhos de lágrimas. E o que se sente faz-se carne, e logo a seguir estrela, e cá estou eu que não consigo dormir por causa de um abraço.

Porque, descobri às vésperas de entrar neste paradisíaco inferno astral, sou como estrela em busca de constelação, e em dia em que os constelamentos brotam como água de mina, eu só posso mesmo é querer ficar acordada e ver em mim, nítido como um girassol, o que fazem os outros quando se abrem, inteiros, a um abraço de corpo, alma e espírito.



Foto: Ana, de árvore ibirapuérica

22/11/2014

O que importa


Um dos desafios da escrita de ficção reside em encontrar o como revelar uma personagem aos olhos do leitor. Mais do que o que pensa e o que sente, o que dá força a uma personagem é o que ela faz, e como o faz. Detalhes da sua construção humana emergem dessas coisas ínfimas que pertencem à vida do dia a dia e que, de tão pequenas, parecem irrelevantes. Não são. São importantes e poderosas. E não apenas o que o narrador, ou o autor, revela desses detalhes, mas o recorte que faz de um conhecimento amplo daquilo que a personagem é, e que nasceu de um relacionamento profundo, duradouro e verdadeiro.

Talvez lhe pareça incomum, leitor, esse processo de conviver intimamente com uma personagem que, de antemão, é ficcional. Mas eu lhe garanto que, através do observar dessa relação, muito se aprende sobre a vida em si, porque a ficção e a vida coexistem no tempo e no espaço, e se olharmos bem de perto confundem-se ambas a todo instante.

Começa-se com o olhar capturado. Em algum momento a personagem nasce, assim como alguém aparece na vida. Não se sabe de onde, às vezes nem o porquê, mas o fato é que algo em nós fixa a sua atenção nessa existência, e a examina, procura-a, tentando percebê-la, absorvê-la internamente a partir do que se mostra. Melhor que não haja maiores influências do interior de quem observa, para que se observe o que de fato é, e não o produto do nosso desejo, mas o fato de deter o olhar aqui, e não ali, mostra uma preferência que pode ser tão orientada pela simpatia quanto pela antipatia. No caso da ficção, o que se observa é uma construção interna, sobre a qual se imagina poder ter algum tipo de "controle". Ledo engano. Tem-se o mesmo controle que se tem sobre as pessoas que andam conosco pela terra. Ou seja, nenhum.

Mas o fato é que se observa. E dessa observação surgem perguntas, porque com a observação do outro nasce a vontade irrefreável de aproximar-se para conhecê-lo mais. E porque a pergunta é o ponto de partida de todo diálogo, pergunta-se porque se quer saber - quem és tu, que apareceste na minha vida? O que te move? O que te emociona? O que procuras na vida? Quando esse querer saber é genuíno, as perguntas são profundas e urgentes. Quando não, o que surge desse desvio pouca valia terá para conhecer o que, de fato, nem se vê.

O mesmo acontece com a personagem que temos entre mãos. Sabemos-lhe talvez o nome, o lugar em que vive, as circunstâncias básicas que lhe marcam a vida. Conseguimos circunscrevê-la num certo momento histórico, numa certa corrente de ideias que sustentarão esta ou aquela ação, do ponto de vista do seu ideário. Mas aos poucos surgirão perguntas mais atentas ao passar dos seus dias. Desenvolveremos uma atenção àquilo que a torna humana como nós, e que encontrará eco em quem dela se aproxime. Assim, constrói-se uma teia de conhecimento ligada às pequenas coisas. O tempo torna-se mais lento. É preciso que se amplie em minutos, horas, dias. Para que haja espaço de ver, e porque é nas coisas "inúteis" que os grandes conflitos, as grandes demandas, os grandes traumas, os maiores desejos, as grandes procuras, se emancipam.

Na meia luz de fim de tarde, sentada no sofá da sua sala, ou recostada no travesseiro da cama, a personagem despe-se das suas artimanhas sociais, dos seus construtos mentais, das suas couraças, da suas fachadas. É ela mesma. Mesquinha, incapaz, sublime e vulnerável. Humana como nós.

Não precisarão esses detalhes aparecer no texto final. Poderão ser suprimidos, ao longo das várias versões que se escreverão, mas existirão, serão reais, e sem querer o escritor lançará mão disso que sabe, e saberá que é verdade o que escreve, e saberemos nós que o lemos. Revelam-se nas entrelinhas, esses detalhes, delineados por um narrador que sabe muito mais do que conta. Esse "saber mais" é poderoso aliado na construção de qualquer personagem. E, neste "saber mais", os mais simples e cotidianos pormenores são os que dão consistência a uma pessoa. É aqui, hoje, que para mim mais a ficção se veste de realidade.

Não sou eu quem diz isto, mas a narradora de "The last run away", último romance de Tracy Chevalier, que acabo de ler sentada numa cadeira de hospital enquanto me sinto cosendo um quilt em pleno Ohio. Gosto de acompanhar o percurso desta escritora, que chamou a minha atenção desde "Moça com brinco de pérola". A excelente pesquisa de cada um dos seus livros; a maneira incisiva como entretece realidade e ficção (aqui, a vida quaker e a luta abolicionista americanas); os detalhes que pressinto construídos e que são o alicerce de uma trama real; a dosagem eficaz dos níveis de tensão - fazem de cada livro uma aula.

Às vezes, a aula resume-se a uma frase. Como essa de que "são os pormenores cotidianos que dão consistência a uma pessoa". A maneira particular como se varre um quarto, o quadro que se escolheu pendurar na sala, a maneira como se afasta a cadeira para sentar-se à mesa do almoço, a forma como se escolhem produtos numa gôndola de mercado, o quanto se aprecia as folhas recém-varridas no quintal, o olhar que se dirige ao espelho numa noite especial. Sem pormenores cotidianos, as personagens, como as pessoas, enfraquecem. Sobretudo quando se pressente a fuga deliberada desses detalhes, justamente por se saberem reveladores.

O fascínio dessas personagens empobrecidas não dura muito, porque não se ancora em realidades palpáveis, e nem mesmo o mistério que as envolve, justamente por essa falta de relevo, as faz subsistir. O que provocam não dura, e aos poucos se esvairá da memória. Em algum momento, com tristeza e decepção, o leitor sente o incômodo daquele que não se entrega, e talvez cogite em deixar esse livro na mesinha de cabeceira e retirar outro da estante.

Para que nos arrebate, e nos conduza ao final da história com entusiasmo e consistência, a personagem precisa permitir acesso ao seu universo privado, um passo dentro dos seus recônditos secretos. Para que nos sintamos especiais e merecedores da sua confiança, afetados pelo seu passado, pelas suas dores, suas conquistas, seus planos. Precisa enriquecer-nos a vivência mútua com cheiros, cores, sabores, texturas do mundo em que vive.

Limitar o que dela transparece a um quadrante apenas, retira força e, sobretudo, retira motivo para a sua existência. Se (e quando) tudo foi dito, e o leitor tem a repentina sensação de que não há mais nada a se revelar, é urgente rever o texto, restaurar o prumo, perceber as fraquezas e caminhar para resolvê-las. E, sobretudo, ter a humildade necessária para reescrever o que precisa ser reescrito.


Imagem: Maíra Ventura

17/11/2014

Não é, e parece


1. Tome-se a palavra contente, aquela que Camões usa no canto V d'Os Lusíadas para descrever a cor do barrete que os marinheiros do Gama usavam: encarnado, cor contente. A cor de quem tem os pés sobre a terra.

Contente deriva de continere, via seu particípio passado. Resulta da junção de con + tenere, que basicamente poderíamos traduzir por segurar (ou agarrar) junto. "Estar contente" poderia então ser, pensa você desse seu lado da tela, segurar junto a si aquelas coisas que lhe fazem bem. Ou pessoas a quem você quer bem.

Sim, e não só. Continere carrega um sentido de restrição e de contenção. Agarrar (ou segurar) algo junto a si restringe o espaço de ambos: não poderás tu andar sem aquilo que decidiste conter, nem poderá o conteúdo andar mais sem ti. Ao mesmo tempo, como aquilo que tu seguras mantém-se junto a ti, é preciso que suspendas a respiração, fonte primária do desejo, e aguardes que continente e conteúdo estejam alinhados para poderes avançar/retroceder/parar. Ser contente é ter junto a si as pessoas e as coisas a quem se quer, e bem, e apropriar-se de suas restrições e contenções, percebendo a secreta felicidade que vive dentro delas.

2. Pense agora na tríade "feito, perfeito, defeito". Obviamente tudo tem a ver com as coisas que se fazem. O "feito" presente nos três é o mesmo facere que nos aparece também em satisfeito: só quem faz, na medida certa (satis), pode estar satisfeito.

Per e de são dois prefixos que, como todos os demais, alteram o que vem depois. A vida está cheia de fatos/feitos que se agregam ao que já estava composto, parecendo terminado. De repente, eis que surge algo que se soma, que se agarra ao começo das coisas e as transforma até o seu âmago. São os prefixos, subvertendo a ordem estabelecida. Está tudo lá, mas não como antes: per junta-se a feito e temos agora algo que se faz, sim, mas de um modo completo, sem faltar nada. São essas as coisas perfeitas: as que se fazem até que nada falte, um fazer mais que si mesmo.

Enquanto isso, do outro lado da palavra, temos o prefixo de-. Aquilo que é "feito fora" - feito em queda, em falha, um desertar. Um defeito é um fazer desertado. As coisas defeituosas são as coisas abandonadas. Aquelas que se deixaram pelo caminho, feitas pela metade, feridas abertas na sua incompletude. Um defeito é um deserto.

3. Uma das vantagens do latim, como língua morta que é, é a sua estagnação. O latim não evolui. Não se modifica. O significado de suas frases e palavras não se altera, porque não há mais gente de sangue corrente que faça dele a expressão da sua alma. Por isso, podemos confiar que aquilo que diz hoje é o que dirá sempre; não há interpretações que variem no tempo. A outra vantagem é o poder que nos oferece de reconhecermos em nós essa presença arquetípica, sublime e forte da herança de outros - entrar nesse túmulo abandonado e examinar-lhe as ossadas, as fortes mandíbulas, o crânio redondo, as tíbias e os fêmures alongados e saber-se parte.

Desse cheiro de nenúfar que se desprende das coisas mortas reverberam palavras antigas, que mais ninguém pronuncia. Verba non mutant substantiam rerum, dizem. As palavras não mudam a substância das coisas. E mesmo o que por vezes não parece, é.

Imagem: Cemiterio dos Prazeres, em Lisboa, por Suzana Siqueira.

07/11/2014

Interesse

Esse homem ao lado acompanhou-me a semana toda. Heráclito de Éfeso. Alimento-me da sua proposição do mundo ser movimento e mudança constantes e fundamentar-se numa estrutura de contrários. Para ele, a origem de todas as coisas é a contradição, e o conflito é ajuste dessas forças contrapostas.

Há uma lei, entretanto, que rege esse movimento. Heráclito chama-a de Logos. Logos não só rege o devir do mundo, como "indica, dá signos", ainda que o homem "não saiba escutar nem falar". As aspas são palavras do próprio Heráclito. Ou seja: Logos dá-nos indícios do mundo tal qual se manifestará no futuro; Logos diz-nos, em forma de signos, o ser da mudança em nós e no mundo. Mas é preciso saber escutar e falar, o que significa saber usar a Palavra e usá-la.

Aprender a ler os signos de Logos é uma arte. Heráclito diz-nos, em outro fragmento, que é indispensável abrir e utilizar os sentidos: o mundo entra-nos pelos olhos, pelos ouvidos, pela pele, esse tecido extenso de composição tão sutil. É preciso aprender a ler os signos que nossos sentidos captam, porque só eles, em estado bruto, não bastam. É preciso lapidar.

Lapidar significa, aqui, fazê-los acompanhar do sentido da inteligência, e essa apóia-se numa atitude indagadora. É preciso pensar, e é preciso fazer(-se) perguntas. Se não, seremos seres encastelados na matéria imprecisa dos sentidos, onde o real é invisível. A pergunta, costumo eu dizer nos cursos de escrita, é o movimento propulsor do diálogo. Se a palavra afirmativa, enunciativa, dá nome ao mundo, e é objetiva e verdadeira, embora distante e fria, a pergunta é o primeiro movimento de Um em aproximação ao Outro. Pergunto, porque me interesso, e me interesso porque a vida parte do interesse.

Inter-esse é aquilo que "está entre". Para haver "entre" é preciso que haja dois e há de haver aquilo que os conecte, uma importância que um reconheça no outro: é entre dois ou mais que Cristo se manifesta. É entre dois ou mais que o céu se constela.

Interesse cultiva-se, e seu cultivo parte da intenção de aprender a ler os signos de Logos. Porque, a rigor, podemos passar várias existências surdos e mudos. Logos continuará e as águas dos rios continuarão passando por baixo de todas as pontes. É preciso que algo em nós se mova na direção do outro, esse interesse verdadeiro na verdade que ele carrega em si como ser divino que é, e esse interesse manifesta-se na importância que lhe conferimos, na ocupação que lhe dedicamos, para que a conexão que se anuncia seja real e verdadeira.

Mas o Outro desaparece debaixo de nosso olhar superficial e apressado. Somos indiferentes ao sofrer alheio, às percepções dos sentidos do Outro, desinteressamo-nos daquilo que vê e diz, porque o nosso Eu tem pressa, e tem suas próprias obrigações, compromissos, responsabilidades, interditos, exigências, territórios... e não descansa de si, e nem se detém, porque o mundo anda rápido e tudo é veloz e são tantas tarefas e não temos tempo não temos tempo não temos - e o que não temos afinal é a chance de perceber o Outro, partilhar do seu caminho e multiplicar o nosso. Somos só superfície, um mundo raso de pele sem tato pro Outro. Esse olhar de superfície, indiferente e desinteressado, é um rolo compressor em marcha lenta por cima da alma.

Eu me pergunto, e pergunto a Heráclito, qual será a força de contraposição. Qual será a força, de igual magnitude e poder, que se oporá a esse desmantelamento da humanidade em nós. E Heráclito responde com a sua frase mais famosa, aquela em que Platão se inspira para, na sua própria e particular leitura, dizer que "um homem não se banha duas vezes no mesmo rio".

"Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos" são as palavras proferidas por Heráclito. Embora uma parte do rio flua e mude (a água), há uma outra (o caudal, o leito), que se mantém relativamente permanente. 

É esse caudal, que guia o movimento da água, o Logos que tudo rege. Ao entrarmos num rio, entramos nele e não entramos, porque ele sempre muda nas águas que passam, apesar de ser sempre o mesmo. E nós mesmos, sob a regência de Logos, somos permanentes e mutáveis a cada instante. Quanto mais conseguirmos compreender os signos que Logos indica, mais conseguiremos compreender onde se manifesta a lei regente, e onde a constante mutação modifica. É nessa condição que precisamos parar, observar, pensar, indagar e mudar. Sem esse movimento, mudaremos porque forças externas nos impelem, e não por forças de nosso próprio caminhar evolutivo. 

Sem menosprezar o olhar do Outro, e mantendo o pensar do Outro em mim, pavimento o meu caminho. Nos embates entre, no interesse que se cultiva, no conflito que se estabelece e do qual não se foge, nasce uma nova possibilidade. Talvez possa ser a força de contraposição à diluição do vir a ser humano, essa força que se manifesta às vezes tão próxima, em tantas almas que se angustiam tanto que procuram a morte como refúgio. Talvez o que nelas tão cruamente chore, e chore em nós quando a parede do desinteresse e da indiferença nos atinge, seja o choro da humanidade que sofre, e que vive em cada um de nós. Cada movimento que Eu faço na direção do Outro aglutina-se em torno dos movimentos que o Outro faz, e soma e multiplica, e é dessa aritmética que nasce a força necessária de contraposição. E sempre, sempre vigiar a si mesmo e amar o outro.

04/11/2014

Panta rei


Tudo se move, exceto o próprio movimento. 
Heráclito

Decido, por estes dias, retirar-me da esfera facebookiana, desse campo impreciso de amizades também imprecisas, recortadas em pequenos quadros que não se constituem de fato e pele. Um mundo volátil, inconstante, traiçoeiro e sem memória. Deseja-se proximidade, obtém-se um simulacro.

E a minha alma anda cansada de simulacros. Por isso, restrinjo-lhe por ora a entrada nos domínios em que nada pode a não ser encolher-se aflita. Neste lugar sem existência, neste mundo virtual feito de nadas, vive uma força que aliena e manipula. Vejo seus efeitos. Vejo os que abdicam da capacidade de pensar formas livres e suas. Vejo outros que enveredam pela pré-concepção das coisas e assim as julgam. Vejo os que passam voando inconsistentes pelo que diz o outro. Vejo aqueles que clicam em botões sem pensarem no que o seu clique pode provocar no outro. Pensa-se pouco no outro, neste facebook de meu deus, talvez porque o outro seja uma entidade anônima e pulverizada entre dezenas de acessos e visualizações. E porque mais importante é expor diante do mundo, com palavras e imagens roubadas e carregadas, aquilo que se pensa que se pensa. Mesmo que nada se pense e só se aja por impulsão e estímulo externos. Aquilo que a máquina me sugere. Perdem-se capacidades humanas, na lida diária dessa rede sem peixes. Haverá algo de verdade essencial, que permeie as horas e subsista à passagem de um dia ao outro, neste mundo rápido dos bytes?

Séculos atrás, Íxion cometeu o equívoco terrível de tomar o simulacro por verdade. Rei dos Lápitas que habitaram a Tessália, Íxion foi o primeiro mortal a matar alguém da própria família, crime que o tornou impuro, tão grave que não houve quem quisesse purificá-lo. Ninguém podia tocá-lo, nem comer com ele nem sentar-se à mesma mesa e beber em sua companhia uma taça de vinho. Íxion enlouqueceu.

Zeus, num dia de humor generoso, olhando-o lá de cima de seu trono, apiedou-se, e convidou-o ao banquete dos deuses, evento que o redimiria. Íxion, entre uma taça de vinho e outra, encantou-se por Hera, esposa de Zeus, e logo a assediou. Zeus, ainda no mesmo humor generoso e farto, decidiu ensinar-lhe algo: criou uma cópia fiel de Hera, um simulacro de sua esposa feito de nuvem, e para que não houvessem dúvidas deu-lhe o nome de Nefele. Nefele, a nuvem. Íxion, que sequer percebeu diferença, possuiu e engravidou Nefele, e dela nasceram os centauros, à exceção de Quíron e Folo, que têm origem diversa e diversos são dos centauros comuns. Íxion, de volta à terra, gabou-se da conquista e relação com Hera, o que pôs fim ao bom humor de Zeus, que o amarrou a uma roda em chamas e o jogou no rio Hades, num castigo que durará toda a eternidade.

Os frutos de Íxion e Nefele assolam a terra, seres que não sabem se animais são, se humanos. Tendem ora a um lado, ora a outro, prisioneiros do simulacro que lhes deu origem. Esses frutos cavalgam sobre as nossas vidas. Nublam-nos o discernimento, o reconhecimento da nossa verdade mais interna. Conduzem-nos por caminhos confusos, onde a sombra, o nevoeiro, a noite escura se instalam com facilidade.

Quem nos lega da longínqua Grécia a lenda de Íxion é Píndaro, no século V a.C. Foi Píndaro quem disse "Homem, torna-te no que és" e foi Píndaro quem inventou a bússola. É na direção desse norte que a bússola de Píndaro indica que a minha alma se dirige e o meu espírito se move. Na direção do reconhecimento da essência e da recusa de todo simulacro que se identifique. Quero a vida feita de matéria, lugar onde o espírito mais visível se torna. Quero a vida feita de palpabilidade, de encontros plenos e sob um sol que os ilumine, nutra e faça brilhar. Que sejam recíprocos, e nos aliviem das trevas que se abatem, sem dó nem sossego, sobre cada um de nossos dias.


13/10/2014

Para escrever, escrever


É comum pensarmos que quem muito lê, bem escreve. Grande ilusão: escreve bem quem muito escreve. Escreverá melhor quem dominar um repertório vocabular amplo (adquirido também mas não só através da leitura), e escreverá melhor quem tiver acesso a um cada vez maior número de formas de se usar a língua escrita. Escreverá melhor quem se dedicar a observar a maneira como a linguagem escrita está presente em nosso dia, caminhando na direção de um olhar crítico e avisado.

Mas para escrever bem o que é preciso, mesmo, é escrever. Muito. Com técnica, disciplina, dedicação e tempo. Eu sei, quase desanima. Mas não é tão grande o drama quanto parece.

Há dois momentos fundamentais no processo da escrita. Valem para tudo, do poema que se dedica à namorada à tese de doutoramento em física quântica. Podem estudar-se todas as técnicas e demais gavetas que guardam e fecham a produção textual. Sem o momento do desdobrar criativo e sem o momento da reflexão atenta sobre o escrito, muito pouco se faz.

Temos em comum, todos nós seres alfabetizados, um processo de aquisição de código calcado sobretudo nos interditos. No que não se pode fazer. Não se pode escrever errado, não se pode escrever sem usar maiúscula no começo de frase, não se pode escrever sem sentido, não se pode escrever com s quando é com z (e vice-versa), não se pode usar ponto quando é vírgula, não se pode escrever mentiras, nem bobagens, nem palavrões, nem coisas sem princípio, meio e fim. Um nunca acabar de nãos.

Escrever é processo. De encontro do si mesmo. Da própria e irrepetível voz. Podemos (e devemos) escrever como escrevia Camões, ou Drummond, ou Clarice... e nessa procura do como um outro Eu se faz palavra, tatearmos por entre essa selva de letras, em busca da nossa própria voz. Infelizmente, não se dá à escrita o tempo de que ela precisa. Para encontrarmos essa voz própria e única é preciso lapidação, observação, compartilhamento. E é preciso permitir que a palavra viva em estado de liberdade, deixando-a que se escreva errado, que não tenha sentido, que não corra atrás da letra certa, que diga mentiras e bobagens e comece do meio para chegar ao princípio. A palavra que não se diverte não se torna canção.

Antes de mais nada, são precisos espaço e tempo para poder plasmar no papel as palavras tal qual saídas de nossas mãos. Sem censor interno que fique à procura do erro. Sem desvio do caudal criativo porque é preciso saber se aqui precisa de dois pontos porque é trecho enumerativo. Isso são assuntos para depois. Nesse momento do criativo, são precisas asas. Que voem alto, sem limites no céu. Que experimentem no silêncio e no ruído, dentro e fora de salas, debaixo de árvores e em pleno sol, com companhias que escrevam a seu lado e em solitário isolamento. No meu vocabulário, isto ainda não é escrever. Isto não tem nome. Isto é penetrar no reino das palavras - onde as palavras vivem, como os poemas, em estado de dicionário, segreda Drummond. É construir a capacidade de ouvi-las dentro de si, na direção que queiram. Aprender a ouvir palavras é uma arte que precisa praticar-se quando se quer escrever.

Como em toda arte, é preciso matéria. Preciso de argila para uma escultura, de tintas para uma pintura, de sons para uma sinfonia. Para escrever, preciso de palavras. E não de quaisquer palavras: daquelas que vivem em silêncio e que, de repente, porque me atento, as ouço e escrevo. Uma folha cheia de palavras: agora sim, com matéria concreta nas mãos, posso escrever. Agora, com esse papel cheio das palavras que busquei (ou me buscaram?), posso olhá-las. Pensá-las. Refleti-las. Corrigi-las. Dar-lhes pontos e vírgulas e parágrafos, para que respirem. Experimentá-las assim, nessa ordem, depois diferente. E depois daquele outro jeito. E fazer escolhas, sem pensar ainda por que, só atenção ao que o som diz. Palavra escrita é som preso em linhas, que precisa da nossa voz para se fazer verdade.

A reflexão atenta sobre a escrita é feita de escolhas. Ao lermos com atenção um trecho de Saramago, ficamos cara a cara com as suas escolhas. Gostamos, ou não - tanto faz. O importante é perceber as opções tomadas, deixá-las ressoar dentro de nós. Aprendemos pelas suas mãos, no uso que faz das palavras e dos espaços silenciosos entre elas. Da mesma forma, encaramos o texto próprio. Aquela junção de palavras que ouvimos e a que demos forma. Agora lapidamos - na maioria das vezes, retiramos mais de metade de todas elas, como um Michelangelo que encontrasse finalmente seu Davi dentro do pedaço enorme de mármore. Na arte de escrever, menos é sempre mais. Quanto mais se retira mais se ganha. Como, então, retirar de onde nada se tem? Como imaginar que um texto nasça do nada, por arte de mágica, e encante pela sua profundidade?

Não, não: é preciso ter escrito para poder escrever.

A base da boa escrita está guardada dentro das várias versões que se faz de um texto, sem considerar que a última hoje seja a definitiva de amanhã. É bom guardar por uns dias, e retomar o texto. Lê-lo em voz alta, para sentir a música que tem (ou não) na retaguarda. Cuidá-lo como a um filho. Não se pode ter pressa para criar um texto.

A boa notícia é que esse é um processo que se aprende; começa a ser trilhado e, com o tempo e a prática, ganha rapidez, ainda quando é só pensamento. Começa-se a escrever enquanto se pensa, e a pensar enquanto se escreve. Adquire-se fluência, tranquilidade, agilidade.

Na prática de alguns esportes, existe uma forma de treino específica - o sparring. Com o mínimo de regras e de arranjos informais, e evitando o número de lesões, o sparring é uma forma de colocar teorias aprendidas em prática. O sparring partner, ou parceiro de treino, é contratado não como adversário, mas como um meio de aperfeiçoar a técnica. Também na escrita um partner sparring é algo de imenso valor. Alguém que, com recursos técnicos e experiência prática, auxilia o praticante a esmerar-se no aperfeiçoamento técnico e formal dessa arte. Um sparring partner da escrita lê e comenta, sugere e corrige, apoia e fundamenta.

A escola é um terreno propício para a atividade do writing sparring. O professor, com um domínio esmerado da arte da escrita, é o parceiro ideal e privilegiado de seus alunos. Lê e comenta, sugere e corrige, apoia e fundamenta. Vê crescer, diante de seus olhos, as capacidades discursivas, poéticas, narrativas e o longo etcetera que cabe no domínio da palavra.

Para isso, no entanto, é preciso que se prepare; é preciso que ele mesmo trilhe com antecedência os caminhos que quer ver seus alunos trilharem; é preciso que se aventure. O domínio da arte está ligado inexoravelmente à sua prática, e o professor que não pratica (ou seja, que não escreve, e reescreve, e busca ele mesmo a sua voz) não conseguirá ser esse parceiro que orienta, nutre e estimula. E precisa, ele próprio, de um parceiro.

Ao longo do tempo, chegarão desafios que se guardarão insatisfeitos e incompletos por dentro de cadernos. Há de chegar o seu dia. Como chegarão os nossos, se nos mantivermos atentos à sua espera, confiantes na sua chegada e gratos pela sua existência.

06/10/2014

Limite

"Sim, é apenas isto que posso te dar. Estas volutas de fumo que se dissolvem no ar tão inescapável da realidade. É apenas isto, e precisas afastar-te de mim se este pouco não encontra sossego nem morada dentro de ti.

É preciso que consigas ver por detrás daquilo que não digo. Por detrás desta prisão que me cerca por todos os lados e me limita o movimento e a própria vontade. E, ao mesmo tempo, que percebas que essa é a prisão que escolho, na liberdade que tenho de me conduzir a mim mesmo. É preciso que vejas por detrás destes olhos que te veem mas que, antes de te verem, veem o reflexo de meu rosto no espelho embaçado do banheiro. Espalho a palma da minha mão sobre ele, mas as gotas líquidas condensam-se outra vez, turvando a visão do que sou e do que quero. Como posso oferecer-te o que não vejo.

Agora, à distância, olho-te na pele de lembrança em minha mão. Sinto o teu olhar sobre mim e o que posso é dar-te as costas para impedir que vejas o fundo dessas pequenas indelicadezas que te magoam a alma.

Esta é a medida que me é possível. Tens razão quando me olhas manhã cedo e vês dentro dos meus olhos a impossibilidade desse pensamento que te prometo. Assim que me afasto, afasta-se a sensação de completude que resulta dos nossos corpos num mesmo espaço. Afasta-se, engolida pelo cotidiano, a impressão que a alma tenta guardar mas não consegue. Há gente demais na minha vida.

Não penses que não gostaria. Que não inverteria a ordem para começar outra vez e ser diferente o que só consegui ser igual. Mas não alimentes esperanças de que esse que não me habita te alcance como queres ser alcançada. Melhor será que te desfaças da minha imagem, ou pelo menos que a guardes em lugar que não te açoite o coração que me ofereces palmo a palmo.

Não me esperes, não me aguardes, não queiras que dê passos que não conseguirei depois sustentar sozinho. Ainda a minha alma não está pronta, e nem meu coração preparado. É longo o caminho à minha frente, e daqui de onde estou antecipo as encruzilhadas onde pararei como paro nesta em que me encontro. Não vejo os caminhos, apenas a confusão em que me lança a vida a cada amanhecer. Eu só queria viver tranquilo.

Guarda, isso sim, o meu traço na tua pele. Único lugar onde consegui deixar a marca de tudo o que queria poder te dar. E, ao mesmo tempo, o teu lugar visível mais extenso, e ainda assim onde as marcas não são eternidades. Não me faças entrar nas profundezas dessa alma que tens e temo.

E, ao mesmo tempo, como dizer-te que me deixes? Como dizer-te, assim, com todas as letras e espaços entre elas, que te vás e retires da minha vida essa leveza e essa entrega que se aproxima quando tu te aproximas? Esse instante cristalino de riso em que parece que o mundo respirou aliviado?

Não sei dos caminhos do amor, e receio-os a todos. As maçãs que crescem em mim acostumaram-se a despedir-se da vida antes de serem brotos. Arranco-as sem um gesto de lábios assim que ameaçam amadurecer. Metade de mim preferiria uma árvore sem frutos. A outra metade dilui-se num sonho de poder ser o que tanto temo, e oferecer, a essa maçã vermelha e tenra, o ar e a chuva que ela merece e precisa.

Por essa metade, peço-te: fica, ainda, um pouco, à minha espera. Marca um dia, uma hora, se queres, para a despedida e para ires em busca desse que estará junto a ti e abrigará teus sonhos, mas que esse dia se demore, e ainda eu possa ter um pouco disso que me estendes e eu não tenho coragem de colher."


Imagem: Suzana Siqueira

17/09/2014

Como as palavras, as pessoas

Poema da palavra exata
 
Eu dou-te uma palavra, e tu jogarás nela
e nela apostarás com determinação.

Seja a palavra "biltre".

Talvez penses num cesto,
açafate de ráfia, prenhe de flores e frutos.

Talvez numa almofada num regaço
onde as mãos ágeis manobrando as linhas
as complicadas rendas vão tecendo.

Talvez num insecto de élitros metálicos
emergindo da terra empapada de chuva.

Talvez num jogo lúdico, numa esfera de vidro,
pequena, contra outra arremessada.

Talvez...


Mas não.
Biltre é um homem vil, infame e ordinário.
São assim as palavras.

Quem hoje me ensina, tardia e repentinamente, é este poeta, António Gedeão. Releio seu “Poema da palavra exata” depois de muito tê-lo lido. Depois de muitas aproximações. Depois de ter-me deitado com ele e levantado na manhã seguinte, inúmeras vezes, pensando ter conseguido degustá-lo em toda a sua extensão.

O poema parte da oferta de uma palavra: “Eu dou-te uma palavra e tu jogarás nela/e nela apostarás com determinação.” Pessoas são como palavras, e é isso que o poema descortina diante de mim, numa clareza que assusta: recebemos uma pessoa, e nela (nos) jogamos e apostamos com determinação.

“Seja a palavra biltre”, continua. Fala de uma palavra, o poema da palavra exata. A palavra biltre. E, como se fosse uma pessoa, a quem se confere beleza, sentido, forma, construímos significados em torno da sua sonoridade, da coloração mais ou menos esmaecida com que impregna o ar à nossa volta. Talvez biltre possa ser, diz Gedeão, um cesto prenhe de flores e frutos. Talvez uma almofada delicadamente amparada num regaço, onde mãos ágeis tecem complicadas rendas. Talvez um inseto a emergir suas metálicas antenas da terra empapada. Um jogo de bolas de vidro.

Uma palavra, como uma pessoa. A quem construímos, com a delicadeza da renda, uma atmosfera respirável. A quem dedicamos o pensamento atento. A quem queremos ver com os olhos que vêm o que talvez exista, sem nos preocuparmos de que a possibilidade se invente realidade. Porém, por vezes, a atmosfera é estéril. Enganosa. Nada nela respira, a não ser essa nossa dedicação e disposição. Porque talvez (e há tantos talvez nesse poema quantos talvez existam naquilo que vemos do outro) não haja frutos nesse cesto, talvez nem sequer cesto exista, nem regaço, muito menos amparo. Mas nós apostamos com determinação, porque a palavra-pessoa nos encanta, e como encantados agimos. Como encantados negamos as evidências que tentam romper a cortina translúcida atrás da qual se esconde a palavra-pessoa.

Não. “Biltre é um homem vil, infame e ordinário.” Nada do que lhe construímos altera a sua substância primordial, o seu caráter, a sua essência. Jamais poderá um biltre ser um delicado cesto, um amoroso colo, por muito que o amemos e lhe insuflemos ar puro. Nada fará com que um biltre deixe de ser aquilo que nasceu sendo. As pessoas, como as palavras, prestam-se aos talvez que lhes emprestamos. Talvez o sofrimento, talvez os revezes da vida, talvez o silêncio signifique palavra e a palavra signifique amor – e assim nos embrenhamos nas matas densas da ilusão.

Não. “Biltre é um homem, vil, infame e ordinário.” Temos dicionários que explicam as palavras. Que as tomam suspensas no ar da sua origem e as expõem, nuas e cruas e verdadeiras. Mas não há manuais de etimologia que nos elucidem as almas das pessoas, o seu passado, o lugar de onde vêm, o senhor a quem servem. E pensamos que o cheiro que sentimos ao encontrá-las é delas, e não do nosso próprio olfato. Pensamos que o gosto com que as degustamos é delas, e não da nossa capacidade de construir sabores.

Num susto, a palavra revela-se no poema, e a pessoa revela-se no dia. Porque, diz o poeta, “são assim as palavras”. Assim como as pessoas, que de repente se apresentam, como biltres vis, infames e ordinários. De repente reconhece-se a estatura e o peso das pessoas, e o alcance que tem essa palavra traiçoeira, reconhecer. Depois que os véus se rasgam, e que a confiança no talvez se desfaz, não há volta atrás. Aquilo que é, permanece no tempo.


04/09/2014

Celebrar

Começa a época do ano em que, aqui em casa, mais há aniversários. Momentos bons de festejar a passagem do tempo. Penso nas celebrações, na sua importância.

Não são apenas festas, veja bem. Gosto destas também, mas quando o impulso da celebração está presente, o resultado é outro. Não é apenas sair para dançar, ir ao cinema, passear nos bosques - todas essas atividades, por si sós, podem ser celebrações. Mas só quando se quer que assim seja, e se age nessa sintonia. É preciso preparar-se.

Celebrar significa honrar. Deriva de celeber, que é algo várias vezes repetido, e por isso notado e percebido, e por isso digno de honra. Celebrar opõe-se à indiferença que grassa pelo mundo. Significa separar um tanto de tempo para dedicar-se a algo ou a alguém que é notado e percebido. É preciso re-parar na pessoa, e perceber que lhe é necessário, para a sua existência plena, ser notada e percebida em todos os seus lugares. Celebrada, portanto. É preciso saber olhar, e é preciso desenvolver uma capacidade que nos vem sendo negada.

Dentre as muitas verdades ancoradas no continente africano, e que reconheço como formadoras do que sou, o impulso da celebração é básico. Para viver é preciso celebrar. Por isso todo casamento africano é uma grande celebração compartilhada, que invade a cidade com seus cantos pelas ruas. O nascimento de uma criança é uma celebração. A conquista de um novo emprego. Uma viagem que se vai fazer. Uma viagem que se fez. Um ano que se passa. Um ano que se passou. Não é que africanos gostem mais de festa do que nós. O ponto é que eles sabem da importância que tem o que acontece a cada um, e o quanto o que acontece a cada um acontece a todos. E por isso a celebração é o reconhecimento da sublime importância do coletivo na vida de cada indivíduo.

Nas nossas vidas ocidentais, tão ciosas dos seus espaços e amores próprios, fazemos questão de delimitar com muita acuidade os lugares nossos onde os outros não entram. E o problema é que esses lugares modificam-se por estarem vazios do olhar do outro. Tornam-se lugares perversos, morada da obsessão, do enevoamento, da estreiteza, do medo. "Em conversa de marido e mulher não se mete a colher" significa que aquela problemática, ali, daquele casal, não me diz respeito. Não há nada que me ligue a ela. E por isso ela cresce até implodir. E, na sua implosão, às vezes perde-se tudo.

Meu amigo Aléssio, que me frequenta diariamente de uma forma africana de viver, contou-me ontem do caso do rapaz assaltado que pulou do carro dos bandidos deixando com eles a namorada. Morreu, que Deus o tenha. E ficamos ambos nos perguntando o que teria acontecido à moça, e o que teria passado pela cabeça e pelo coração do rapaz ao deixá-la ali, vulnerável e frágil, no carro dos assaltantes. Sentimo-nos mobilizados porque isso nos disse respeito. De quantos carros cada um de nós pula, deixando à mercê das sombras aqueles que estavam conosco? O que fica de nós dentro do carro, e o que levamos com nosso pulo?

Eu, gosto da vida celebrada. Compartilhada. É-me muito difícil conviver com tudo o que não pode ser celebrado e cantado, tudo o que se esconde atrás dos medos, das inseguranças, das convenções engessadoras que nos empurram a abrir mão da liberdade do bem viver. De vivermos da maneira correta, de acordo com a nossa verdade interior. (A verdade é relativa, ouço você dizer. Quiroga fala disso em sua coluna de hoje. Leia aqui http://blogs.estadao.com.br/sincronia/adaptabilidade/) Como viver, sem compartilhar com quem está ao meu redor as minhas alegrias? As minhas tristezas? Os meus avanços? Os meus retrocessos? As descobertas que faço nos caminhos que trilho? Os sustos que encontro dentro das florestas que me habitam a alma? Como fazer com que isso seja a minha verdade sem que os olhos dos outros me devolvam a mim mesma?

Não. É preciso reinventar a vida.

É preciso reinventar o dia, a hora, o abraço. Transformar os aniversários em celebrações de quem avança no tempo, sabendo que, com ele, avançamos todos. Convidar o outro para que participe da nossa festa interna, e permitir que todos os outros entrem também. A felicidade, como o amor, não se esgota. Quanto mais se compartilha, mais cresce, e mais ganha sentido. Um sentido que nos transcende como indivíduos e que brilha nos olhos dos outros, unidos a nós pela atmosfera tão sutil da celebração.

Tenho tido a sorte, ou o merecimento, de compartilhar momentos inesquecíveis com um novo grupo humano que agora me habita. O merecimento de celebrar, junto a esses meus novos irmãos, o poder que tem tudo aquilo a que se dedica sentido, unidade, inteireza, confiança e entrega. Meu maior desejo é que, desta união que transcende o espaço físico, e se aloja em lugares tão acessivelmente longínquos, nasça um eu cada vez mais verdade, um eu que possa transportar e celebrar a vida, em todo lugar: com você que me lê, com você que me escuta, com você que faz a minha palavra tornar-se maior e mais verdadeira, porque deixa de ser minha, para ser nossa. Mais que o "meu", eu quero o "nosso", em cada gota de sangue. E quero o sangue correndo livre pelas veias da terra. De outra forma, o sentido é parco, a vontade é escassa e a vida é pela metade.

27/08/2014

[b - c] < a < b + c

Ando às voltas com a construção dos caleidociclos de Escher. Comprei os modelos há anos, desencaixotei-os há meses, e agora pairam em cima da minha mesa. Quando me calha a sorte de tempo e espaço para estar com eles, passo mais tempo olhando o que devo recortar e dobrar e colar do que propriamente em ação. Mas penso. Sobretudo penso, e isso me causa um alívio considerável.

Gosto de várias coisas, nessa história geométrica do Escher. Entre elas, a congruência. Congruência deriva de congruere, e está intimamente ligada à nossa ideia de correspondência e concordância (con-cordar, por sinal, é vibrar ao nível do coração).

Os caleidociclos de Escher partem da congruência - essa particularidade/habilidade/capacidade daquilo que tem a mesma essência; que é semelhante; coeso; harmônico; que "cai" (gruere) "junto" (com). Não sei se haverá sensação mais plena do que quando algo ou alguém "cai junto" conosco em algum território. E não cai junto por acaso, sorte ou azar, mas porque quer que assim seja, porque é o que é. E ponto.

Começo por montar uma série de tetraedros idênticos. Tetraedros são poliedros feitos de triângulos equiláteros (ou seja, com ângulos e lados iguais; ou seja, congruentes). Com essa série de tetraedros pronta, crio uma cadeia, fixando a aresta de um na aresta de outro, e assim por diante até tê-los a todos unidos. As congruências de uns, unidas às congruências de outros, penso enquanto espero a cola secar. Minha cadeia está agora comprida o suficiente para colar uma ponta na outra. É o que faço. E eis que, de onde existia apenas uma sucessão de congruências isoladas, surge um círculo tridimensional, que posso girar e girar a partir do centro, contínua e interminavelmente.

Impossível não sorrir. 

Penso na importância de cada ângulo de cada triângulo, como esquinas da vida que dobramos para seguir em frente. 

Penso no triângulo equilátero que formo no encontro de ângulos e lados congruentes, como instrumentos que respirem num mesmo sopro, homem e mulher no compasso preciso da dança.

Penso na felicidade de unir esses triângulos de vida e libertá-los da existência plana. Oferecer-lhes uma possibilidade segunda. Ampliá-los. Abri-los. Expandi-los. A visão do outro lado que ainda não existia. 

E depois, quando junto um ao outro, quando lhes permito mais que serem instantes isolados, quando lhes ofereço a existência como vínculo, quando lhes abro a circularidade da respiração, liberto a forma da sua vida dúplice.

E o mundo muda de fase. Adquire outro novo sentido. Pode girar,  a partir de seu centro, e perceber que o começo e o final de tudo são apenas pontos de vista.

Múltiplas dimensões sorriem umas para as outras. Substituem a coerência, que une e cola existências externas, pela congruência, que desperta a comunhão da essência. Congruência liberta o mundo das amarras que o prendem ao chão plano, libertam-nos dessa moeda de duas faces a que chamamos convenção, e que nos aprisiona, estendendo seus longos dedos por todos os caminhos da vida. É preciso abrir a janela ao ar fresco de uma manhã clara, sem medo que o frio invada ou que a chuva molhe. Esfriará e encharcará, porque a essência da vida é viver, e a congruência está em permitir que nos atravesse. O mais é matéria do mesmo: sermos o que já fomos sem nos permitirmos ser aquilo que podemos. 

24/08/2014

Um amplexo

Este é "O abraço", de Egon Schiele. O austríaco, expressionista e ácido Schiele. Os seus humanos transfigurados incomodam mais do que as figuras floreadas de seu contemporâneo Klimt, e é por causa desse incômodo básico que este abraço aflora na minha memória.

Datado de 1917, "O abraço" poderia chamar-se "O amplexo", e diria o mesmo, já que um amplexo é um abraço. A sua etimologia oferece mais possibilidades de resignificação. Ao contrário de braço, que nasce do latino brachium e é nome usado ainda na anatomia básica, amplexo nasce da junção entre os verbos amplexus e plecto.

O primeiro responde por uma série de atividades que, eventualmente, nossos braços podem executar: compreender, conter, abarcar, abranger. Todas elas são ações amplas, dessas em que abrimos os braços a mais não poder para compreender/conter/abarcar/abranger o mundo que se nos oferece. Elejo o compreender como meu preferido, porque de todos os desejos que povoam o mundo, o da compreensão talvez seja o que mais nos torne humanos.

Plecto refere-se a outra ação, que faz com que esses braços, abertos à compreensão, se dobrem, verguem, enlacem, teçam. Isto faz o abraço: com o desejo imenso de compreendê-lo, os braços dobram-se e enlaçam o outro. Tecem-se os fios do encontro. Ao abraçar, trazemos o outro para dentro de nós, e de repente ele faz parte, é indissociável, e seu destino é também o nosso.

Abraços distantes, entre corpos que evitam o encostar um no outro, não são exatamente abraços, estão mais para tateadas do terreno alheio ou recolhimento do próprio. Um abraço apertado é coisa diferente. Começa pelo encostar de duas batidas cardíacas, esse lugar onde mora de um lado o amor incondicional, do outro o mais puro egoísmo. Depende de como cuidamos dele.

Imagine agora que esse abraço, que já fez corações se tocarem, se aprofunde mais, e permita que um outro centro de energia entre em contato com o seu abraçante. Ali, atrás do estômago e abaixo do diafragma, eis que se tocam dois sóis internos - dois plexos solares. Ali, nesse lugar, é onde as emoções se digerem, onde se transformam medo em aceitação, ódio em amor, raiva em compaixão. No abraço, a digestão é compartilhada, e torna-se mais leve.

Não sei o quanto conseguimos perceber essa troca de energias tão sutil. Creio que muito, muito pouco. Em parte porque não nos permitimos abraços tão íntimos, em parte porque andamos desatentos, com pouca disponibilidade para olhar o que provocamos no outro e o que o outro provoca em nós. E, sem olhar, como ver? Não vemos.

Penso em David, aquele pintor ciclista de 21 anos atropelado na Paulista. No seu braço mecânico, revestido por pele humana sintética. Penso em Alex, o universitário de 22 que o atropelou. No mundo que os separa. Na interpretação da lei que transforma em leve crime alguém que, embriagado, arrancou o braço de outro alguém em alta velocidade, não prestou socorro e ainda andou quilômetros com o braço alheio preso ao veículo, terminando por jogá-lo num córrego. Claro que reagimos indignados, antes que outra coisa chegue para nos ocupar. Mas passaram-se meses, e eu ainda penso no braço mecânico de David. E me pergunto como reeditará ele seu abraço, até conseguir que não seja um simulacro. Como conseguirá compreender o outro, enlaçando-o a si próprio, tendo perdido um de seus instrumentos de abraçar.

Sinto-me próxima de David, e creio que todos nós estamos, respeitadas as diferenças da brutalidade física e palpável. Estamos próximos nas nossas pequenas mutilações diárias. Nos braços que arrancamos aos outros e que, sem prestarmos a atenção devida, e porque estamos entorpecidos por nós mesmos, jogamos em qualquer canto que possa escondê-los. Porque não sabemos o que fazer com esses pequenos cadáveres.

Penso nos braços que nos são arrancados, nessas dores de corpos ausentes, nessa privação de ação que é o braço roubado. Mutilações do dia a dia que impedem que concretizemos em ação a vontade que expressa a palavra. A conversa que não permitimos, a resposta que negamos, as incisões sangrando as falas dos outros, cada uma das pequenas recusas pelas que somos responsáveis, as pequenas desconsiderações da dor, da aspiração e da necessidade do outro.

E eu penso, nesse David de braço transfigurado como se pintado por Schiele, no quanto nos transformamos, aos poucos e a cada dia, num simulacro do que somos, numa mancha que cada vez se distingue menos dessa massa civilizatória a caminho da incivilidade. Numa marcha não tão lenta, em meio a essas desumanidades que são as mutilações, as indelicadezas e as desatenções, o mundo sucumbe. E, com ele, nós mesmos. Que nos salve Schiele, e nos salvem todos aqueles que estendem os abraços e nos compreendem dentro de si, e nos elevam e protegem da intempérie do mundo.


19/08/2014

Déjà vu

Aos meus amigos doadores de déjàs vus, com a licença de ficcionalizar tudo. Porque a vida quando se veste com as roupas da ficção dói menos.

Talvez, como tantas outras vezes, venhas a ter a impressão de já ter lido algo como isto que estou a ponto de escrever, e essa impressão virá (certamente) acompanhada daquele estranhamento que te faz afirmar que é algo já visto. Não é surpresa nem qualquer outro sentimento base que se abrirá em você, mas estranheza. Não é a familiaridade da situação que se apresenta, mas a estranheza. Dirás para ti mesmo: quem é que antes usou estas mesmas palavras para dizer estas coisas? E esse dizer-te isso a ti mesmo te causará (como sei que causa) uma impressão estranha de algo estar fora de lugar.

Mas, na verdade, não está.

São tantas as vezes que te ouço ter essas impressões, que decidi ir buscar-lhes motivos, e quem sabe diminuir-te a estranheza e a ansiedade que delas advêm. Espero que não morras pela ingestão do remédio. Já se sabe, e sobre isso conversávamos um destes dias, que talvez seja sobre os nossos defeitos, as nossas dobras e falhas, que se assenta como edifício essa construção que chamamos de "eu". Não é bom colocá-la à prova daquilo que pode ser fatal.

Fui, feitas estas considerações, à procura.

Preciso dizer-te, logo à saída, que é o teu lobo temporal a sede dessa sensação. Não sei em qual dos sentidos interpretarás essa "sede" - e peço-te que penses nos dois, porque é da sua combinação que falo. A falta que faz a água que se bebe e o saber-se o lugar dessa água lugar de importância. Há coisas e pessoas assim: sabemos a sede que sentimos delas, e sabemos que nelas está a sede de algo que nos pertence. Lê outra vez a frase anterior, porque talvez seja a mais importante de todas as que possa hoje escrever.


Há também os que dizem que um déjà vu pode anteceder uma crise epilética. Mas eu fecho os olhos para te invocar, e não: não há epilepsia no lado de dentro do teu olhar. O problema é outro.

Para tua e minha satisfação, 2/3 da população mundial têm déjàs vus: experiências que passam direto pela memória imediata (tão rápido que ela nem percebe) e se alojam nas memórias mais profundas. Por isso, quando dizes "tive um déjà vu", dizes que a tua memória imediata vê agora algo que não registrou e aquela outra memória segreda que sim, aqui estou eu a lembrar-me. É isto o que dizem os neurocientistas.

Mas... sabes?

Talvez os teus déjàs vus sejam na verdade resultado direto da tua desatenção. E nada mais. De prestares menos atenção da que poderias (não me atrevo ao "deverias") aos que passam ao teu lado. Aos que permanecem ao teu lado. Aos que guardam teus passos. Aos que te querem conhecer de dentro. Aos que se doam a ti. E neste doar-se te protegem. Pensam em ti a cada momento, porque são água de rio, e vão para o mar, são nuvens novas que vêm molhar essa terra fértil que és. Porém. Porém. Como prestas pouca atenção, essa água toda, rio, mar, chuva, venha ela deste lado do mundo, ou de quaisquer outros que vejamos além de nós - essa água toda esgota-se em si mesma, escorre sem sentido, perde-se por entre os teus dedos de areia que nada seguram.

E de repente, a meio do tempo, dizes que tens um déjà vu.

Mas como pode ver aquele que não olha? Não, meu amigo: não são déjàs vus o que tens - são provas do quanto não estás onde estás, não és o que dizes ser, não fazes o que desejas e deixas de olhar os presentes que atravessam o teu caminho. Não. O que tens é um déjà perdu.




11/08/2014

As meias

Demorara-se na escolha. Detivera-se mais tempo do que o esperado nas cores, que na realidade eram só três. Algumas estavam em falta, informara a atendente. Mas ela apreciava demorar-se nas coisas que escolhia para oferecer a ele. Acariciava-as antes de se decidir, e prolongava o prazer de dedicar-se a algo que seria só dele. Era uma falta de pressa, uma degustação acariciante de cada coisa do mundo. Meias de lã, macias como a lembrança que despertassem nele quando as vestisse.

Escolheu a cor que combinava com o que lhe conhecia. O tamanho pelo tamanho que conhecia. E pediu um embrulho de uma cor específica, aquele ali, listrado. Eram listras dos tons do céu quando amanhecia ao seu lado.

O pacote demorou-se dentro do carro. Ficou ali, à espera do momento possível. E ela olhava-o e sorria por dentro e por fora. E o pacote à espera travestia-se de todas as cores da saudade.

Chegou o dia de presenteá-lo. Ele olhou o pacote, revirou-o, disse uma ou duas frases sem definição possível. Abriu e disse ó, obrigado, umas meias. E voltou a guardá-las, e a fechar o pacote, deixando-o pequeno e apertado para que cabesse no bolso do seu casaco.

Despediram-se. Ela esperou que ele atravessasse a rua. Olhou-o pelo retrovisor, e no movimento dos olhos, captou a imagem do pequeno pacote apertado caído junto ao banco do carro. Quase quis avisá-lo, mas deteve-se. O pacote apertado demais entristecia o banco, o abandono doía no papel listrado. E ela condoeu-se e não disse nada. E não houve tempo para que pensasse outra vez. Ele já se fora.

As semanas passaram-se. De vez em quando ela se perguntava, terá ele dado pela falta das meias? Talvez se esqueça de me dizer que não sabe onde as guardou. Talvez não queira me dizer. Talvez prefira deixar assim mesmo: "Se ela nada perguntar, não será preciso dizer-lhe que as perdi". Deve ter pensado uma vez, antes de sossegar e esquecer o assunto.

As meias ficaram ali, queimando os olhos dela cada vez que se cruzavam. Talvez os pés dele não sentissem frio, talvez elas tivessem se recusado a aquecer pés assim. Talvez quisessem pés frios, gelados mesmo, daqueles que as pessoas de coração bem quente têm ao final das pernas. Talvez ele não tivesse um coração quente. Talvez o esfriasse dia a dia, para que não ardesse de repente sem controle. E por isso seus pés não faziam frio.

Dias depois, um amigo queixa-se das agruras do tempo. Seus pés sofrem. Ela não hesita: as meias saltam das suas mãos para as mãos do amigo. Recebe um abraço efusivo e surpreso de volta, quase desproporcional ao tamanho das meias. E porque gostava de fazer as pessoas felizes, seu coração se alegrou. E afastou-se, e afastou de si a ideia e o sentimento das meias, que é um desses sentimentos incompletos que ela vive afastando de si.

Uma manhã, viu-o calçando outras meias. Meias compridas e brancas, parecendo novas de tão brancas. Vestiu-as com atenção e método, dobrando-as um pouco antes do joelho, uma dobra pequena e igual e cuidadosa em ambas as pernas. E pensou, afastando a penumbra densa que desceu sobre seu coração. Estava habituada a ela, e aprendera a reconhecer as saídas. Dizer alguma coisa, você acha? Não havia nada que pudesse dizer. Estava tudo dito.


10/08/2014

Dragões

"Quando olhei para ele, eu vi a mim mesmo".

É assim que Soluço explica o seu encantamento pelo dragão banguela. Não esperava encontrar muita coisa em "Como treinar seu dragão". Mas a história me cativa, e muito. Essa frase em particular ficou ressoando em mim, acordando memórias e associando-se ao resto das coisas da vida de hoje.

Banguela não é um dragão diferente dos outros. E nem Soluço um garoto diferente dos outros, apesar de herdeiro do trono de seu pai viking. O que é diferente é a sua disposição, esse lugar da alma que significa pôr (do latim ponere) à parte (dis-). Quando existe disposição é porque algo se arrumou, se colocou a um lado, o que vem a significar que se lhe deu atenção diferenciada.  Soluço parece ter uma disposição interna imensa de observar as coisas, de colocá-las a um lado e olhá-las com atenção, sem misturá-las a si próprio e nem àquilo que já está dado e consentido como "normal".

Essa disposição observadora permite-lhe ver o que outros não enxergam. Percebe que os dragões que seu povo combate e insiste em exterminar, são seres tão presos e cativos de outros quanto os próprios vikings. Atacam porque são atacados. Matam porque receiam a morte que pesa sobre suas próprias cabeças. Curvam-se à ameaça de quem os domina, e os vikings curvam-se também. Com disposição, Soluço põe-se à escuta e percebe caminhos de encontro com esses seres. Transforma o paradigma porque descortina possibilidades. E descortina possibilidades porque não alimenta medo. Já se sabe que o medo é o mais perfeito imobilizador que existe.

A meio do filme, lembrei-me do quadro de Paolo Uccello, pintor italiano do Quattrocento - "São Jorge e o dragão", pintado por volta de 1460. Dragões são representações fortes desde os primórdios da humanidade, e essa obra de Uccello está presente em "O homem e seus símbolos", de Jung. É a imagem que ilustra este texto: vale a pena olhá-la com disposição. Perceber as sutilezas para as quais nossos olhos foram educados a ser cegos. As sutilezas que envolvem a relação da moça à esquerda com o dragão, e as sutilezas da relação do cavaleiro à direita do mesmo. As mãos de uma, e o que seguram, e as mãos do outro, e o que seguram. Forças humanas a um lado e a outro da figura mitológica: o que cada uma delas representa? Para onde seu olhar se dirige em primeiro lugar? O que evocam em você os mundos representados atrás dessas figuras? Só a disposição observadora, aberta e atenta, pode trazer-nos respostas - quando olhamos para ele, vemo-nos a nós mesmos.

"Quando olhei para ele, vi a mim mesmo" poderia ser também a fala de Carl Hart, autor de "Um preço muito alto". Acabo de ler quase que num fôlego só. Hart é neurocientista e o seu campo de pesquisa é a ação que as drogas têm sobre o cérebro. O seu livro, porém, vai muito além disso. É um relato pessoal de percurso humano, de história de vida e de reflexão sobre ela. Um relato do perceber o fio que a vida tece para chegarmos onde chegamos. Hart derruba sistematicamente por terra vários dos mitos que envolvem o tema das drogas na nossa sociedade, e derruba-os a partir de uma premissa que foi construindo em si ao longo da vida: o questionamento de tudo o que achava que sabia sobre as drogas e a disposição de olhar além daquilo que assumia como verdade para si mesmo e para o mundo. O percurso que Hart nos oferece, recheado de dados estatísticos oriundos de bem fundamentadas pesquisas, toca-nos não só naquilo que achamos que sabemos e pensamos sobre o universo da droga. Toca-nos também naquilo que achamos que sabemos sobre as nossas vidas e sobre o mundo ao nosso redor. Toca-nos também naquilo que nos aflige, que nos desnorteia, e que é a busca de todo ser humano sobre a terra.

A disposição empática permeia o desenho animado, o livro de Hart e o quadro de Uccello. Todos são ofertas generosas de ver além das aparências, janelas para esse nós-mesmos que ainda não conhecemos. Não sei se existirá algo mais transformador e revolucionário do que encontrar-se no outro. Do que perceber que no outro vive uma parte de nós, e que dentro de nós vive o outro refletido. Encontros são janelas para esse novo olhar, e dar o passo que nos tire das certezas não é fácil, mas é o caminho. O caminho para situar em terreno seguro as nossas andanças, de fazer as escolhas corretas, de tomar os rumos acertados. Sejam eles sensatos e lógicos, sejam eles apaixonados e desconhecidos. Sem a disposição de um novo olhar sobre o outro e sobre si mesmo, sem abrir mão das certezas e daquilo que achamos saber, qualquer encontro se torna um acidente de percurso, e não um desbravador de mundos.


25/07/2014

Estrelas sem culpa

Os moldes, para quem não sabe, servem para reproduzir qualquer coisa com exatidão e em grandes quantidades.

Para peças que precisam de reprodução muito fiel, o processo de moldagem a vácuo é o mais indicado, superior a outros tipos de moldes, feitos de madeira ou de epóxi. O vácuo, sabe-se, é um processo de grande utilidade na reprodução mecânica das coisas. No vácuo, molda-se qualquer coisa, até pensamentos. Com a vantagem de nem se sentir a sua presença. E o pior é que, sem vigilância, o vácuo toma conta.

Temos então estruturas que, através do vácuo, reproduzem à exaustão o mesmo tipo de forma. Tudo igual, sem surpresas. Pois bem: existem também os contra moldes. Embora pelo nome pareçam opor-se aos moldes, na verdade fazem com que suas paredes e superfícies fiquem mais grossas e resistentes. Talvez os contra moldes não tenham muita consciência de que existem para que o processo de reprodução mecânica fique mais aprimorado. Talvez pensem que chegaram para alterar essa ordem estabelecida de tudo ser igual.

Coitados.

Vou ao cinema. Assisto a esse filme que todos comentam,  "A culpa é das estrelas". Emociona. Chorei, igualzinho a todos os que assistiam a sessão, numa faixa entre os 7 e os 75 anos de idade. Todos ali a enxugarmos as lágrimas, início, meio e fim. Moldagem perfeita.

Nada contra Hazel e Augustus, os adolescentes que se apaixonam e carregam juntos a luta contra o câncer. Nada contra a história real em que se baseia a trama. Não me espanta tamanha comoção (minha, inclusive) por um drama particular: antes me parece revelação dos tempos.

A certo momento do filme, os dois personagens encontram-se em Amsterdã. Visitam a casa onde Anne Frank passou seus últimos anos de vida, antes de morrer nos fornos de Auschwitz. Fico com a sensação de uma linha paralela que se desenha sutilmente, entre Hazel e Anne. Tão sutil que me incomoda.

Com toda a razão, dizem o livro e o filme, há infinitos maiores e menores. "A culpa é das estrelas" é um infinito pequeno que nos emociona porque poderíamos ser nós mesmos, nosso amigo, nosso vizinho, nossa irmã. É um infinito ínfimo que nos aprisiona na nossa pequenez, nessa coisa miúda em que nos tornamos quando o que vemos diante dos olhos é o que podemos perceber possível na nossa própria vida. Assim, meio pasteurizado.

É como comida mexicana nos Estados Unidos ou japonesa entre nós: adaptam-se os sabores ao paladar do lugar, para que nada espante ou desagrade. Em vez do sabor exótico, forte, algo que nossos sentidos reconheçam como conhecido, e não precisem trabalhar em si nada de adaptação - muito menos de por-se a perceber se gosta ou não gosta disto que é tão diferente, e não apenas parece. Essa pasteurização que vejo desfilar na tela à minha frente, essas imagens da dor sentida até o ponto em que seja suportável pela audiência que se identifica, desagradam-me. Desagrada-me o título que vende milhões nas livrarias: finalmente, então, temos a quem culpar. Ô alívio.

Juro: desanimo. E porque desanimar-se é perder-se a alma das coisas, é deixar de estar-se inteiro onde se pisa, escrevo. Porque não me quero gente sem alma perto de ninguém, e parece que o escrever re-anima a vida em mim, e eu me retomo nas mãos.

Saio do cinema com uma sensação dúbia. Todas as lágrimas choradas pela culpa das estrelas reduzem a nossa humanidade, dando a falsa impressão de nos tornarmos mais humanos por nos sentirmos tão tocados por esse drama juvenil. E a juventude que se prepara para imprimir futuro ao planeta em que vivemos, emociona-se com uma drama que fala dela mesma, sem se aperceber que é para um infinito muito pequeno que o molde é projetado. Essa juventude demonstra menos capacidade de se emocionar com o drama de milhares de adolescentes que lutam todos os dias por se manterem vivos nas periferias das grandes cidades, do que pelo drama pequenamente infinito da tela. O mesmo adolescente que chora copiosamente no cinema é o mesmo adolescente que ergue o vidro no farol da grande cidade, abrindo um fosso entre ele mesmo e o outro seu igual. O mesmo adolescente que é vítima fácil das armadilhas dos moldes sociais. Que vai às ruas sem saber exatamente por que, encaixando-se num molde tão bem construído que nem sequer se anuncia.

Por-se a pensar com sua própria cabeça? É infinitamente mais fácil deixar-se moldar. Mais fácil emocionar-se com as estrelas do que sentir ao lado da pele as dores do radicalismo mundo afora, e das arbitrariedades mundo adentro. No afora do mundo, o sofrimento que torna a vida impossível para milhões que não têm a sorte de uma tela onde seus dramas comovam as massas. No adentro do mundo, esse desfile nu e cru de arbitrariedades, bem diante dos nossos olhos, atrás da porta do nosso vizinho, na calçada do nosso lado da rua. São a população do semáforo da esquina de casa, e nós preferimos a anestesia em qualquer das suas múltiplas formas. Vamos nos moldando. Cedendo aqui, cedendo ali. A alma enfraquece-se, e cede. E sem que se saiba como, a possibilidade de indignação é agora uma quimera, e a vida perde peso, consistência e verdade.

Talvez fiquemos, diante da tela, com a sensação de sermos pessoas basicamente boas: a emoção diante desse drama tão próximo, tão possível, é um afago em nossa alma, para que o disco interminável e insufocável do sofrimento humano se esfume e, de tanto girar, se torne branco e indistinto. E desapareça. E nós fiquemos em paz. Até porque, afinal, a culpa é das estrelas.




23/07/2014

Aporia

Descobri dia desses, numa roda de amigos, uma palavra que não conhecia. Aporia. Ficou vagando por dentro de mim uns dias, e eis que ressurge, querendo respostas. 

Coisa difícil, já que aporia é justamente a impossibilidade de alcançar respostas, de encontrar explicações, e deve ser por isso que ela me cutuca com seu dedo incisivo.

Das suas cutucadas recebo de presente a disposição de ler dois dos diálogos aporéticos de Platão - "Laques" e "Ménon". Um é sobre a coragem e o outro sobre a virtude. Hei de lê-los um dia, ainda mais agora que sei que não haverá conclusões a que possa chegar.

Aporia está ligada ao paradoxo, ao impasse, à dificuldade, à incerteza, às auto-contradições, tudo coisas que impedem que o sentido do texto possa ser fixado. Ou seja: não há um sentido. Os Diálogos de Platão são escritos, os nossos diálogos costumam ser falados: a aporia pode apresentar-se em todos eles. Sabe aquela hora em que, na sua conversa com seu interlocutor, você sente que ele fecha todas as saídas? Esse estado peculiar em que procuramos um ponto de entrada que desmonte/desconstrua a fala do outro? Porque não há maneira de que ela se construa e signifique algo conclusivo? Porque é tudo e nada ao mesmo tempo? Pois bem: você está nesse momento diante de uma aporia. Voilá!

Mas há mais sobre a aporia. Há "Aquiles e a tartaruga", a mais clássica delas. Há a aporia crataegi, uma borboleta europeia. Aporia é gênero de borboletas. Borboletas chamam-se lepidópteros. E lepidópteros é uma palavra grega que significa "asas de escamas". Bonito.

É Carolus Linneus, médico e botânico sueco da primeira metade do século XVIII, que dá nome grego às borboletas e quem nomeia a aporia crataegi. Nem notícia ainda do nascimento de Darwin, e já esse senhor estabelecia a forma de organizar e categorizar o mundo natural, o mesmo que usamos até hoje.

É Linneus quem escreve, em 1753, a obra Species Plantarum. O protagonista de "Figura na sombra", romance do mestre Assis Brasil, lê o livro em sua juventude. Está lá, no primeiro capítulo, essas duas páginas que releio com prazer uma, duas e quarenta e quatro vezes se for preciso. Tão ricas de ensinamentos são para quem escreve. Demoro-me muito tempo nesses parágrafos, gosto de lê-los com meus alunos, de re-re-re-perceber a magia que existe no corte sumário de tudo o que não é essencial. Por isso, por causa do que foi cortado, lembro-me do Species Plantarum. Porque está lá, a meio do romance de Assis Brasil, sem explicações. Seduz justamente porque não está explicado, e porque, se ficou, é porque tem significado.

É claro que me pergunto por que terá dado Linneus esse nome a essa borboleta. Enquanto descanso aporia ao meu lado, vou em busca de crataegi. É o mesmo Species Plantarum  que classifica o Crataegus - um arbusto (família deles) de flores, brancas como as dessa borboleta, que nós conhecemos por pilriteiro ou espinheiro branco. Seu nome deriva do grego kràtaigos, no sentido de força e robustez, característica que talvez se refira à sua dura madeira. Além das flores, o pilriteiro dá umas bagas vermelhas que a medicina tradicional usa desde a pré-história para doenças cardíacas. Eram de pilriteiro as cinco tochas que os gregos faziam arder nos casamentos, para afastar as forças de Artémis, deusa contrária às relações monogâmicas. E era também de pilriteiro a coroa de Cristo.

Entre idas e vindas, penso que talvez Linneus estivesse, no momento em que avistou uma dessas borboletas, afundado num depressão imobilizadora. Talvez não estivesse capaz de sentir. E a visão da que viria a ser a aporia crataegi, sem motivo, sem explicação, um paradoxo vivo esvoaçando ao seu redor, movimentou seu coração - talvez se lembrasse de Artémis, e logo após de Cristo. Talvez pensasse no quanto tudo muda o tempo todo, e que é dessa energia movimentadora da mudança que o nosso mundo se nutre, embora seja sempre o mesmo e em nada se diferencie uma época de outra. As aporias, afinal, aquecem o coração e salvam-nos da normose engessante.

Os motivos que me levam a manter este livro e não aquele no centro da minha alma não são só paradoxos: são aporias. Mantenho os que carregam dentro de si/mim dúvidas e incertezas, coisas e mais coisas inexplicáveis, e que têm nessa inexplicabilidade o seu motivo de existir. Gosto de voltar a eles e descobrir, após a 34ª leitura, que não consigo apreendê-los, não consigo sumarizá-los, não consigo reduzi-los a uma leitura, porque são imensas e infindáveis. E lá vem a pergunta: como assim pedir a alunos aprendizes de leitores que resumam e expliquem uma obra literária? Para matá-la na sua gênese? Naquilo que tem a oferecer? Nas mil possibilidades infinitas?

Aporias são coisas assim: nem se explicam, nem se chega sobre elas a nenhuma conclusão. Um desespero, para alguns. Um desafio, para outros. Incluo-me nestes últimos (nem sempre), e divirto-me nesse movimento interno que busca refutar todo e qualquer argumento que queira fixar um sentido único e conclusivo ao texto que leio, ou ao diálogo que mantenho.


Imagem: Aporia Crataegi
http://eol.org/data_objects/20605909