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05/01/2017

Assim que consigo falar com a amiga querida que aniversaria hoje, essa amiga que mora longe e que eu tão pouco vejo, ganho vontade de escrever-lhe umas linhas, e a palavra que primeiro me vem à beira dos lábios é a palavra fé. Talvez porque ambas saibamos que é preciso, mas nem sempre é fácil nem eterno manter a fé a nosso lado. Ou talvez porque na missa de sétimo dia de um vizinho querido que partiu, ontem de tardinha, eu tenha ouvido várias vezes essa palavra quase-conjuro mágico: eis o mistério da fé. De vez em quando, um pouco em forma de ordem e comando, lá se repetia a mesma palavrinha de só duas letras, aqui e ali, como se nos fosse exigido tê-la, guardá-la e garanti-la a toda hora, não perdê-la de vista nunca. Como se nos fosse dado o direito, o dever e a possibilidde de manipulá-la e retê-la, fazendo-a dançar ao som da nossa própria música. Sendo que não, porque fé é matéria bastante invisível, é um desespero não a ver ao nosso lado, e um tormento imaginar poder controlar a sua presença. A fé tem vida própria. É instável. Etérea. Rebelde. Ora vem, ora está, ora vai.

De fides, palavra da qual deriva a nossa fé, nasce também a palavra fidelidade - a qualidade daquele que é verdadeiro. Veja: tem fé aquele que é fiel. Portanto, ser verdadeiro é condição sine qua non àquele que deseja a fé. E, vice-versa, é fiel aquele que tem fé, aquele que tem fides - tem confiança, crê, promete (e cumpre, imagino). Aquele que crê (credere) é aquele que acredita, aquele que acredita é aquele que confia, e todos eles têm, ao fim das contas, fé. Só que não é fácil ser verdadeiro, nem consigo mesmo nem com o outro. Atrapalham-nos mil coisas, da educação recebida ao ego inflado. Da auto-estima defeituosa ao desvio de caráter. Da sociedade que nos abalroa, ao nosso cansaço interno inconfessável. Tão difícil ser verdadeiro, quanto ter confiança (coisa que se constrói dia a dia), quanto acreditar (coisa volúvel).

A fé exige, às vezes e ainda por cima, recusar a contenda. Aceitar a perda. A incompreensão. A falta de entendimento de algo que a princípio pareceu bastante simples. A fé exige dobrar os joelhos.

Desistir. 

Render-se. 

Render-se que é dar-se outra vez (re, outra vez + dare,dar). Render-se que é entregar-se novamente, de corpo e alma, sem limites nem premissas, a algo que você já se entregou. E se entrega outra vez. 

Talvez essa seja afinal, com bastante chance de ser percebida, uma forma visível de manifestação da fé. Crê-se tanto, é-se de tal forma fiel, de tal forma verdadeiro, que a entrega é inteira, íntegra e outra vez e sempre renovada. Igualzinho como é preciso com a fé - renová-la a cada dia, através desse dar-se sem fim, sem perguntas e de olhos fechados. Como uma amizade antiga que não precisa atravessar o espaço para encontrar tempo, ou como a morte que não nos separa e antes nos ilumina o sentido da vida com mais precisão e contraste. Ou como em definitivo a entrega, a sua capacidade de mesmo de pernas quebradas resistir e render-se à necessidade constante e urgente de ter sempre sempre fé na vida e fé no outro.


13/08/2016

Auto-ajuda etimológica para consumistas


Hoje cedo, ainda alvorada, decidi passar os olhos pela internet. Deparei-me com um anúncio de um revival neo-pretensamente-hippie de kombi que a Volkswagen andaria tramando em seus escritórios, como uma nova ideia para atender a seus consumidores. 

Entre muitas heranças, os gregos deixaram-nos essa pequena palavra Idea. Literalmente, idea é forma, aparência, o "protótipo (proto: primeiro + typo: marca impressa) ideal".

É justamente um filósofo, na França do século XIX, que decide ocupar-se do mundo da ideia. Diz ele (ele é Destutt de Tracy) que a origem das ideias humanas são as percepções sensoriais do mundo externo. Napoleão chamou-o, e a seus seguidores, de "ideólogos". Desde então, temos entre nós essa beleza de palavra: ideologia. Marx, Engels, Eagleton, Lukács, Manheim, Thompson - são várias mãos cheias de filósofos e pensadores que se ocuparam dela desde então.

Neutra ou crítica, a ideologia está ligada à percepção que temos do mundo à nossa volta, e à forma como nos relacionamos com ambos, mundo e percepção. Sendo forma e aparência, o como e o que vemos do mundo depende dos nossos olhos e daquilo que lhes damos de alimento para saber distinguir uma coisa de outra. A partir do que ensinamos a nossos olhos (de como os educamos), eles dirão de que matéria, segundo a sua observação, se faz o mundo ao redor. Pode ser que consigam ver por detrás da mera aparência, pode ser que não. E quem diz olhos diz o resto, diz ouvidos, diz pele, diz nariz e diz língua. 

Isso mesmo, língua. Essa onde se anida a linguagem. Essa que estabelece uma ponte entre os sentidos mais básicos e os mais elaborados. As palavras que fazemos nascer da nossa língua, que ouvimos com os ouvidos e escrevemos com os dedos, entra mesmo é pelos poros, esse imenso véu sensível que nos recobre por todos os lados, sendo ao mesmo tempo nosso continente e nosso conteúdo. (Em tempo: os romanos tinham uma taxa, chamada linguarium, que se aplicava a quem falava demais.)

O regime alimentar de nossos olhos e ouvidos é muito conturbado. Porque aparência é tudo. Seja para persuadir, dissuadir ou sorrir placidamente entoando mantras - a aparência é tudo o que percebemos do mundo se não nos dispomos a ir além dela. Quanto menos nos dedicamos ao escrutínio do que pensamos ver, sentir, cheirar, ouvir - mais permitimos que a alienação entre em nosso íntimo. E veja: alienar-se é afastar-se de si mesmo, perder a estima, transferir algo para outro. Porque alius é o outro. 

E esse alius, lamento informar, quer você. E, para conseguir, usará de todas as formas concebíveis, e não só, para tanto. Há de mascarar a realidade, que é uma forma delicada de se falar da mentira. Seduzirá, que é uma forma aliviada de falar de manipulação. Esconderá defeitos e iluminará qualidades, como se essas fossem melhores e mais importantes que aqueles, tentando convencê-lo de que as coisas são segundo as mostra. Aos poucos, tomará conta da sua consciência, alienando-a, e transferindo-a para si. E, um dia mais que o anterior, você acreditará de pés juntos em tudo o que isso -que-tomou-sua-consciência quiser que você acredite.

É isso que alius, o outro, faz. E é isso que você (e eu, e todos) faz também, porque você é o alius de seu vizinho. 

Entra em campo a consciência, ou a sua falta. A consciência de saber que é assim que agimos - porque somos seres humanos que a todo momento formamos ideias a partir daquilo que nossos sentidos percebem. E raramente percebemos as coisas tais quais elas são. E somos seres humanos muito dados à busca da dominação do outro - ser humano, espaço, recurso. Veja os livros de História - é exemplo atrás de exemplo, e não se ache tão diferente porque a sua raça é a mesma. Humana.

A consciência de ser/estar dominado ou dominar é enormemente importante em nossos dias (se é que não em todos). Porque embora possamos pensar em ideologia e estabelecer uma linha reta entre ela e formas de ilusão ou de consciência falsa, pelo meio do caminho vamos tropeçar nas relações de dominação que estabelecemos e que estabelecem conosco. E a linguagem tem um lugar de honra nesse caminho todo.

Quando a aparência tem maior peso que seu oposto complementar (a essência), ou quando, pior, entendemos que são iguaizinhos, trilhamos caminhos inseguros, perigosos e traiçoeiros, cada vez mais suscetíveis a quaisquer formas de manipulação que nos façam fazer coisas que talvez em sã consciência não fizéssemos. Por exemplo, consumir.

E era aqui que eu queria chegar, e se você chegou comigo eu já fico é satisfeita.

Consumir deriva do latim consumere, que é comer, gastar, desperdiçar. Forma-se a partir do sufixo com, que intensifica tudo o que vem depois; e de sumere, que é tomar. Tomar exageradamente. Ou seja: somos sempre exagerados quando consumimos. Sempre. O consumismo é sempre sempre sempre um desgaste, um desperdício.

Por isso, quando o mercado tenta vorazmente apoderar-se de tudo quanto é valor, que costumamos alojar em determinados lugares simbólicos, é preciso exercitar o constante movimento de transferir esses valores para outros lugares. Eu escolho transferi-los para lugares cada vez mais íntimos, e silenciosos, para ter menos trabalho logo mais, quando as longas garras do mercado quiserem se apoderar de mais um símbolo externo. Porque o mercado não para, e nem se satisfaz. Ele sempre vai querer mais e mais os seus sonhos, os seus valores, tudo aquilo em que você acredita e faz a vida ser, para você, a vida. Só que tudo isso é aparência, tão bem trabalhada e glamourizada que em pouco tempo você assumirá para si que sim: toda essa aparência deve estar relacionada à essência. Só que não. Basta ir ao supermercado e conferir que o catchup que você compra tem tudo, menos tomate. Basta checar qualquer móvel moderno e conferir que aquilo é feito de qualquer coisa, menos de madeira. Tudo "parece com", "assemelha-se a" e tem "as mesmas qualidades que". Realidades externas que supram as nossas carências internas: é claro que só pode dar errado!

Dá trabalho, e sobretudo uma quase-tristeza, esse exercício constante, não de desapego (até porque até ele já virou produto de mercado), mas de desilusão. Escolher o desiludir-se e criar em seu entorno cada vez mais luz de consciência. Nem é fácil nem indolor: conscire é ser mutuamente alerta, é saber (scire) intensa e completamente (com). Com consciência, você passa a ter de escolher com mais seriedade o que você faz, diz, ouve, compra, vende, acaricia, empresta, pega, recolhe, entrega e despacha. E dá uma preguiça danada, uma preguiça sempre alimentada pelo mercado, doidinho pra entrar na sua vida e lhe oferecer tudo o que, sendo aparência, vai lhe dar a sensação de ser perfeito. Mas não estará. Porque não há van que crie na sua vida um movimento de contra cultura, que se opunha por definição a tudo isso que, numa enorme ignomínia, os executivos da Volks andam pensando. O que vem a ser ignomínia?! A partir de in+nomen, vem a ser a perda e o fim de um bom nome: ou seja, nossa própria desgraça e vergonha.

22/07/2016

Con-cordar


Desde o dia em que te vi, Juraci
nunca mais tive alegria
Meu coração ficou daquele jeito
Dando pinote dentro do meu peito


Na época em que se falava latim, cor, o coração, era a sede do conhecimento humano. Tudo ali se resolvia e se firmava. Se batia no coração, era porque valia a pena. Se passava por dentro dele, era porque valia a pena. E tudo o que valia a pena se guardava do lado esquerdo do peito. As evidências são muitas, e as que vou apresentar são todas etimológicas (porque, veja: se a Palavra é o dom mais humano, muito divina deve ser toda significação que uma palavra possa ter tido no início dos tempos e em todo o seu transcorrer).

De cor (que era, portanto, coração) surgiu coraticum, coragem, a qualidade que mora no coração. E surgiu também cordatus, que é aquele que tem prudência. E ainda concordare, que são dois corações que estão juntos. Con-cordam.

Poderia você pensar que concordar fosse duas pessoas dizerem sim (ou não, se o caso for de discórdia) para uma coisa. Terem a mesma opinião. A mesma percepção. Concordarem em ir pela esquerda, ou pela direita, ou de mãos dadas, ou fingindo nem se conhecerem. Pois nada disso. Concordar é mais sério e mais profundo. Não vem da razão nem do pensamento. Vem do interior dessa cavidade maltratada que é esse nosso músculo único, de aspecto único, de capacidades únicas. Se o seu, aí dentro do peito dando pinote, está junto do coração da pessoa ao seu lado - é porque bate em sintonia com ele, é porque se reconhece na pele do outro rosto, é porque sem nenhum motivo explicável você sabe que aquilo que o o outro ao seu lado disser, você dirá também. Aquilo que o outro ao seu lado sentir, você sentirá também. Sem pensar nem estabelecer nada. E aí você con-corda com a pessoa ao seu lado, e ela vice-versa, os dois meio abobados pela vida de repente parecer tão perfeita.

Concordar não é concordar (sic) sobre coisas, ou situações, ou opiniões, ou roteiros, ou planos. Concordar é saber que seu coração está junto do coração do outro, e aquilo que você fizer ao coração do outro, fará também a seu próprio coração, porque eles estão juntos, e juntos semearão os campos do futuro. Quando seguem cada um para seu lado, não é que tenham tido ideias contrárias. É que seus corações avançaram por caminhos diferentes, e por isso dis-cordaram.

Agora você pensou poxa que pena? Pois não precisa. Porque nem todos os corações concordam, e aqueles que se "vestem de concórdia" estão apenas vestidos - nada são. Faltou-lhes abrir a porta do sangue, permitir-se todos os ventríloquos. Dessa forma, o melhor mesmo é que discordem. O quanto antes, para que os caminhos fiquem abertos e claros, ainda que distintos.

02/11/2015

Uma longa história sobre a sombra

Bom dia, este, para pensar no após-a-vida. Onde estão, de uma forma ou de outra, todos estes que se festejam hoje, ou se lembram, ou se homenageiam. 

É provável, penso eu, que um período escuro atinja quem passa para o outro lado. Como quando se fecham os olhos ao dormir, e tudo fica escuro. Considera tu que lês que o sono é uma pequena morte, e terás diante de ti a dimensão da falta de luz.

Ou pensa no parto. Nesse que nos nasce do lado de cá, enquanto morremos do lado de lá, esse lugar de onde vimos antes de atravessarmos as cortinas aquáticas da vida terrena. E para onde voltaremos (proponho eu que assim consideres) quando atravessarmos de volta essa mesma fronteira, esse limite entre estados.

Pois bem. Em algum ponto dessa passagem está o mundo da sombra. E é dele que me aproximo, com cuidado para não despertar-lhe vontades vorazes de perceber onde estou. Como veremos, a sombra não descansa.

É longínqua, a origem dessa palavra. Longínqua e testemunha da riqueza da nossa língua.

Situa-te, por favor, em 1100 a.C. Estás a bordo de um navio feito de cedro-do-líbano, madeira de fibras homogêneas e aromáticas, com um sem fim de usos mágicos e litúrgicos ao longo da história. Carregaste-o na tua cidade-estado natal, Biblos, e dentro dele disputam espaço peças de tecido, caixas de porcelanas, vidros bem embalados... A um canto, vinho grego para os egípcios; a outro, papiro egípcio para os gregos. Biblos, essa tua cidade, será imortalizada em breve pelos teus compradores gregos. Byblos, foi como os gregos batizaram os papiros que lhes levaste, os melhores dentre os melhores. Nós, aqui, tantos séculos depois, dizemos "biblioteca" e dizemos "Bíblia". Nada escapa à história das palavras. E toma nota: és fenício.

Navegas com vento sobranceiro junto à linha costeira, a meio caminho entre Grécia e Inglaterra, suprindo as mais de 300 colônias que teu povo formou, sem guerra nem conquista, antes conversas consentidas. Chegas por fim ao extremo da costa sul da península onde habitam, entre outros, os íberos. Lá, o teu foco é a pesca e a salga do que pescas, e depois comerciarás em algum outro ponto da tua rota. Trocas as tuas peças por estanho, por prata, por cobre. Conversas e escreves, nos papiros que trazes, aquilo que a memória não pode trair. Contigo trazes um presente inestimável.

A tua escrita. O teu alfabeto fenício, o primeiro desta península. Vinte e duas letras, todas consoantes, primas próximas do hebraico, do aramaico, do assírio, do acádio, essas línguas que floresceram nessa região que hoje chamamos Líbano. É de lá que vem o teu navio fenício.

Deixas com a tua escrita algumas marcas - e falo-te agora de uma, apenas. 

şl 

Essa é a palavra fenícia que pronuncia aquele à procura de sombra e proteção. Corresponde mais ao objeto que produz a sombra, do que à sombra em si mesma. Estás em busca de um teto que te abrigue num dia quente do fim de agosto, ou talvez à procura de uma tenda que proteja o peixe que salgaste, ao cair da tarde de um mês de outubro. Deixas-te descansar quando a encontras. E passam os anos às dezenas.

Quando acordas, o mundo é outro. Está tomado por um povo conquistador; agrupam-se ao teu redor legiões, coortes, centúrias, soldados. Tudo isso te é estranho, mas vês que procuram algo, e quando te ergues perguntam: 

Umbra?

O que eles procuram é um lugar à sombra. Não lhes interessa tanto aquilo que a provoque, apenas querem esse território fora do sol, protegido, em que possam repousar e descansar de talvez uma longa batalha.

Deste lugar em que te escrevo, tantos séculos já passados, a palavra que quero apresentar-te é um raro caso da tua palavra fenícia em junção à palavra latina deles:

soombra

dissemos durante anos. E, agora, dizemos

sombra.

E quando sombra dizemos, estamos atentos aos dois vossos legados: queremos o território que nos protege, e queremos também saber o que é que provoca esse espaço fora da luz do sol. Algo, nesse passado em que estás, nos alerta. Toda sombra tem motivos, e é da qualidade do objeto que a produz que os deduzimos e percebemos.

Tantos motivos tem a sombra, que me dedicam um tempo para entendê-la em profundidade. Não mais te ocupes, diz-me aquele que vive lá e cá, da sombra que te oferece a copa das árvores do quintal. Agora, a sombra tem maiúscula. Essa Sombra não descansa, ao contrário do que se pensa, e é especialista em se fazer passar por outras coisas. A raiz do seu espaço é profunda e imersa; não é lugar de visita, nem de descanso e repouso, nem sequer onde se tentem abrir os olhos. O ideal, ao que entendo, é passar longe dela e saber de quem se valer se for preciso interceptá-la.

A Sombra procura sem cessar. Nada deixa escapar, nem ninguém. O caminho de quem tem dentro de si a centelha (e todos a têm, criados que foram a partir da essência divina que tudo criou) é a evolução, e evolução é o caminho em direção à luz. Por isso, a sombra não sossega, esteja ela no limiar ou no abissal.

Entre aqueles que ocupam, por merecimento, vontade ou escolha, os lugares à sombra da luz, há aqueles que os patrulham, e há aqueles que neles se afundam. Os primeiros assumem o papel de guardiões; em vigília constante, mantêm a sombra dentro de seus domínios. Os segundos, pelas próprias ações, ocupam as regiões mais escuras, e dirigem seu olhar para o terreno da luz, que invejam, desejam, querem e tudo fazem por possuir.

Deste nosso lado da existência, onde procuramos sombra que nos abrigue, é preciso saber qual objeto (ou força) a produz. Aqui, encarnados, nadamos em nosso próprio e livre arbítrio. Da observação das forças em movimento deverá vir essa escolha livre, e entre nós estão aqueles que ligam as suas almas às dimensões sombrias. Por descuido, por interesse, por desejo, por desaviso - em algum ponto, sempre, há a escolha. 

Não descansam, nem os uns nem os outros. Alertas sempre, estudam e mapeiam os terrenos iluminados. É esse o seu alvo, o fruto mais vivo do seu desejo e é porque não lhes pertence que não descansam nunca. 

Quem pensa que amor e bem sempre vencem, se equivoca. Porque o ódio, a raiva, o ciúme, o mal... O mal jamais descansa - em agonia constante por não alcançar a luz, entrega-se ao domínio sem sono. A luz pode repousar em si mesma, abandonar-se à vibrante irradiação de completude que é sua essência final. A sombra, jamais. E por isso o perigo e o alerta: aqueles na luz, orai e vigiai, permanecei alerta, em atenção serena aos desdobramentos sombrios que tudo manipulam e revertem.

Não se subestime o poder (e a constância) das forças da Sombra. Separe-se a sombra que se projeta sobre o solo, do objeto que a faz nascer. Examine-se. Discrimine-se. Saiba-se quem é uma, e quem é outro. A quem servem. Da confusão entre as forças da sombra, no relevar o dano que causam, nasce seu filho mais triste. A treva. A noite eterna. A escuridão sem luz.




Imagens
"Estrela urbana", de Giovani Ferreira
Alfabeto fenício, wikipedia
Fontes 


25/05/2015

Segunda feira

Plena manhã de segunda feira. Acordo com uma estranha e inquietante vontade de rotina. De que o dia se organize sem a minha particular intervenção. Que não precise exercitar essas dádivas que hoje me cansam só de lembrar, pensar no que é preciso fazer, quero-ou-não-quero, devo-ou-não-devo. Só uma coisa, e depois outra, e depois mais uma, cada uma com tempos e lugares e formas estabelecidas em algum tempo que não seja hoje. Uma rotina, por favor.

E eu não sei acordar desse jeito. Não sei dialogar com essa urgência. E parece-me melhor descobrir de onde vem, e quem sabe acalmar o espírito.

Pois rotina, na realidade, é muito o contrário do que pensamos.

Só há rotina quando algo é rompido - por isso seu ancestral linguístico é rupta - um caminho aberto à força. Não nos é natural a rotina, porque não nos é natural querer romper. (Começo a gostar do que encontro.) E o princípio da rotina exige que abramos caminhos à força, que nossos braços se ocupem em rumpere - em quebrar, em romper.

E lá estamos nós com o tal caminho aberto à força. E começamos a trilhá-lo uma e outra vez. Os franceses ocuparam-se em transformar aquela rupta em route, ou seja, rota. Em pouco tempo, de tanto trilhá-lo, porque deve ter sido mais fácil do que andar pelos lados intransitáveis, nova metamorfose: de route, routine - uma trilha batida, um curso costumeiro de ação. Agora, sim, a velha conhecida rotina.

Essa vontade que nos dá, muito repentinamente, de querermos uma rotina, é no fundo uma vontade enganosa. Parece que o que queremos é o encontro de um trilho, e de por ele seguir com ilusório conforto, sem precisar pensar muito a respeito. Mas não.

É outra coisa.

É querermos abrir caminhos novos com a força da nossa vontade. Esteja essa vontade nos braços, nos pés, nas mentes ou dentro do nosso coração. Algo em nós clama por rotina: algo em nós clama por transformação e possibilidade. 

E assim se começa uma segunda feira, descobrindo que por trás do que se quer há muito mais do que se pensa.

28/01/2015

Contas

Ora digamos que Paula, nesse dia em que chegou de viagem, encolheu o pensamento entre as duas palavras que encontrou escritas no espelho do banheiro: "renuncia, ou desiste".

Estranhou, ficou atônita mesmo, não fazia a menor ideia do que significavam, ou de quem ali as deixara. Os amigos a quem emprestara o apartamento de um quarto só, talvez. Mas seriam para ela? Essa necessidade imperiosa de escolha, pertencia-lhe?

Bateu-me à porta de casa. Sou a vizinha da frente. Meu trabalho consiste em resgatar palavras do limbo de seu não-significado - sou dicionarista, uma espécie de profissão de quem se rodeia de palavras o dia todo, e lhes descobre vida onde só vivem som e grafia. É uma tarefa de vida solitária, a minha, e gosto que me batam à porta de vez em quando.

Além de palavras, gosto também de guardar os tempos precisos. Tenho uma memória privilegiada: é raro esquecer-me de algo que vi, ouvi ou li. Não tenho pressa, na vida, e faço muito do que sou por escrito. Porque os tempos têm a natureza confusa e, se não se anotam as coisas, parecerá que x veio antes de y, quando na realidade quem primeiro chegou foi y. Por isso, para tudo, nestes tempos estranhos em que relógios não têm ponteiros e correm desenfreados e loucos para chegar à hora seguinte, é preciso guardar o tempo preciso.

Dava corda ao relógio da sala quando Paula bateu à porta. De leve, desse jeito envergonhado que ela tem com tudo o que é dela. Pediu-me ajuda. Contou-me do espelho de seu banheiro, e disse-me ter encontrado, entre a linha dos olhos e as comissuras dos lábios, essas palavras que lhe tomaram os olhos. Que diferença existe, perguntou, entre renunciar e desistir?

Ergui a porta do departamento de latim que vive na minha mente. Ambas as palavras guardam o seu início na língua latina. Quer dizer: isso é o que nós achamos. Renúncia, lembrei-me e disse, é a retirada de uma palavra. Renuncio quando nego e repudio o que antes disse. Só renuncia, concluí diante dela, quem alguma vez disse. Renunciar nasce de dentro da palavra nuntiare, que significa informar, declarar, anunciar, todos eles verbos com tendência à objetividade, à ação, à declaração. Quando a nuntiare juntamos o prefixo re, somos levados para trás. Damos marcha a ré. Quem renuncia, dá marcha atrás a sua própria declaração. Isso às vezes é possível, outras é um perigo - há palavras que uma vez ditas, nunca, jamais, podem ser retiradas. Acontece assim às grandes, e incômodas, verdades. Talvez preferíssemos nunca tê-las visto, isto é, dito.

Já desistir parece-se com sua palavra mãe - desistere. De (que é fora) mais sistere (que é o ato de parar, de interromper), em nada repudia o antes dito. Quem desiste, interrompe desde fora um movimento que está. Quem repudia, imobiliza, estagna. Vários motivos podem levar um sujeito a desistir, até mesmo o estado de estupefacção, de sobressalto, de susto, de incompreensão, de estar atônita como vc está, disse-lhe baixinho. É uma interrupção de ação, mais do que uma ação em si, como é o ato de repudiar.

Paula ouviu-me de olhos fechados. Parecia passar, um a um, as pequenas e as grandes renúncias da sua vida. Uma a uma, as desistências. Parecia colocá-las lado a lado, pesando e medindo tudo o que já repudiara e tudo o que deixara estagnar-se. Deixei-a sozinha. Voltei-me para as minhas próprias coisas, e aos poucos os olhos foram-se-me enchendo de água. Renunciar às coisas do mundo e da alma, é das escolhas mais dolorosas e duras de toda uma vida. São elas que nos alteram, às vezes sem que o desejemos, a superfície da pele.

Imagem: Lila Marques


17/11/2014

Não é, e parece


1. Tome-se a palavra contente, aquela que Camões usa no canto V d'Os Lusíadas para descrever a cor do barrete que os marinheiros do Gama usavam: encarnado, cor contente. A cor de quem tem os pés sobre a terra.

Contente deriva de continere, via seu particípio passado. Resulta da junção de con + tenere, que basicamente poderíamos traduzir por segurar (ou agarrar) junto. "Estar contente" poderia então ser, pensa você desse seu lado da tela, segurar junto a si aquelas coisas que lhe fazem bem. Ou pessoas a quem você quer bem.

Sim, e não só. Continere carrega um sentido de restrição e de contenção. Agarrar (ou segurar) algo junto a si restringe o espaço de ambos: não poderás tu andar sem aquilo que decidiste conter, nem poderá o conteúdo andar mais sem ti. Ao mesmo tempo, como aquilo que tu seguras mantém-se junto a ti, é preciso que suspendas a respiração, fonte primária do desejo, e aguardes que continente e conteúdo estejam alinhados para poderes avançar/retroceder/parar. Ser contente é ter junto a si as pessoas e as coisas a quem se quer, e bem, e apropriar-se de suas restrições e contenções, percebendo a secreta felicidade que vive dentro delas.

2. Pense agora na tríade "feito, perfeito, defeito". Obviamente tudo tem a ver com as coisas que se fazem. O "feito" presente nos três é o mesmo facere que nos aparece também em satisfeito: só quem faz, na medida certa (satis), pode estar satisfeito.

Per e de são dois prefixos que, como todos os demais, alteram o que vem depois. A vida está cheia de fatos/feitos que se agregam ao que já estava composto, parecendo terminado. De repente, eis que surge algo que se soma, que se agarra ao começo das coisas e as transforma até o seu âmago. São os prefixos, subvertendo a ordem estabelecida. Está tudo lá, mas não como antes: per junta-se a feito e temos agora algo que se faz, sim, mas de um modo completo, sem faltar nada. São essas as coisas perfeitas: as que se fazem até que nada falte, um fazer mais que si mesmo.

Enquanto isso, do outro lado da palavra, temos o prefixo de-. Aquilo que é "feito fora" - feito em queda, em falha, um desertar. Um defeito é um fazer desertado. As coisas defeituosas são as coisas abandonadas. Aquelas que se deixaram pelo caminho, feitas pela metade, feridas abertas na sua incompletude. Um defeito é um deserto.

3. Uma das vantagens do latim, como língua morta que é, é a sua estagnação. O latim não evolui. Não se modifica. O significado de suas frases e palavras não se altera, porque não há mais gente de sangue corrente que faça dele a expressão da sua alma. Por isso, podemos confiar que aquilo que diz hoje é o que dirá sempre; não há interpretações que variem no tempo. A outra vantagem é o poder que nos oferece de reconhecermos em nós essa presença arquetípica, sublime e forte da herança de outros - entrar nesse túmulo abandonado e examinar-lhe as ossadas, as fortes mandíbulas, o crânio redondo, as tíbias e os fêmures alongados e saber-se parte.

Desse cheiro de nenúfar que se desprende das coisas mortas reverberam palavras antigas, que mais ninguém pronuncia. Verba non mutant substantiam rerum, dizem. As palavras não mudam a substância das coisas. E mesmo o que por vezes não parece, é.

Imagem: Cemiterio dos Prazeres, em Lisboa, por Suzana Siqueira.

27/08/2014

[b - c] < a < b + c

Ando às voltas com a construção dos caleidociclos de Escher. Comprei os modelos há anos, desencaixotei-os há meses, e agora pairam em cima da minha mesa. Quando me calha a sorte de tempo e espaço para estar com eles, passo mais tempo olhando o que devo recortar e dobrar e colar do que propriamente em ação. Mas penso. Sobretudo penso, e isso me causa um alívio considerável.

Gosto de várias coisas, nessa história geométrica do Escher. Entre elas, a congruência. Congruência deriva de congruere, e está intimamente ligada à nossa ideia de correspondência e concordância (con-cordar, por sinal, é vibrar ao nível do coração).

Os caleidociclos de Escher partem da congruência - essa particularidade/habilidade/capacidade daquilo que tem a mesma essência; que é semelhante; coeso; harmônico; que "cai" (gruere) "junto" (com). Não sei se haverá sensação mais plena do que quando algo ou alguém "cai junto" conosco em algum território. E não cai junto por acaso, sorte ou azar, mas porque quer que assim seja, porque é o que é. E ponto.

Começo por montar uma série de tetraedros idênticos. Tetraedros são poliedros feitos de triângulos equiláteros (ou seja, com ângulos e lados iguais; ou seja, congruentes). Com essa série de tetraedros pronta, crio uma cadeia, fixando a aresta de um na aresta de outro, e assim por diante até tê-los a todos unidos. As congruências de uns, unidas às congruências de outros, penso enquanto espero a cola secar. Minha cadeia está agora comprida o suficiente para colar uma ponta na outra. É o que faço. E eis que, de onde existia apenas uma sucessão de congruências isoladas, surge um círculo tridimensional, que posso girar e girar a partir do centro, contínua e interminavelmente.

Impossível não sorrir. 

Penso na importância de cada ângulo de cada triângulo, como esquinas da vida que dobramos para seguir em frente. 

Penso no triângulo equilátero que formo no encontro de ângulos e lados congruentes, como instrumentos que respirem num mesmo sopro, homem e mulher no compasso preciso da dança.

Penso na felicidade de unir esses triângulos de vida e libertá-los da existência plana. Oferecer-lhes uma possibilidade segunda. Ampliá-los. Abri-los. Expandi-los. A visão do outro lado que ainda não existia. 

E depois, quando junto um ao outro, quando lhes permito mais que serem instantes isolados, quando lhes ofereço a existência como vínculo, quando lhes abro a circularidade da respiração, liberto a forma da sua vida dúplice.

E o mundo muda de fase. Adquire outro novo sentido. Pode girar,  a partir de seu centro, e perceber que o começo e o final de tudo são apenas pontos de vista.

Múltiplas dimensões sorriem umas para as outras. Substituem a coerência, que une e cola existências externas, pela congruência, que desperta a comunhão da essência. Congruência liberta o mundo das amarras que o prendem ao chão plano, libertam-nos dessa moeda de duas faces a que chamamos convenção, e que nos aprisiona, estendendo seus longos dedos por todos os caminhos da vida. É preciso abrir a janela ao ar fresco de uma manhã clara, sem medo que o frio invada ou que a chuva molhe. Esfriará e encharcará, porque a essência da vida é viver, e a congruência está em permitir que nos atravesse. O mais é matéria do mesmo: sermos o que já fomos sem nos permitirmos ser aquilo que podemos. 

23/07/2014

Aporia

Descobri dia desses, numa roda de amigos, uma palavra que não conhecia. Aporia. Ficou vagando por dentro de mim uns dias, e eis que ressurge, querendo respostas. 

Coisa difícil, já que aporia é justamente a impossibilidade de alcançar respostas, de encontrar explicações, e deve ser por isso que ela me cutuca com seu dedo incisivo.

Das suas cutucadas recebo de presente a disposição de ler dois dos diálogos aporéticos de Platão - "Laques" e "Ménon". Um é sobre a coragem e o outro sobre a virtude. Hei de lê-los um dia, ainda mais agora que sei que não haverá conclusões a que possa chegar.

Aporia está ligada ao paradoxo, ao impasse, à dificuldade, à incerteza, às auto-contradições, tudo coisas que impedem que o sentido do texto possa ser fixado. Ou seja: não há um sentido. Os Diálogos de Platão são escritos, os nossos diálogos costumam ser falados: a aporia pode apresentar-se em todos eles. Sabe aquela hora em que, na sua conversa com seu interlocutor, você sente que ele fecha todas as saídas? Esse estado peculiar em que procuramos um ponto de entrada que desmonte/desconstrua a fala do outro? Porque não há maneira de que ela se construa e signifique algo conclusivo? Porque é tudo e nada ao mesmo tempo? Pois bem: você está nesse momento diante de uma aporia. Voilá!

Mas há mais sobre a aporia. Há "Aquiles e a tartaruga", a mais clássica delas. Há a aporia crataegi, uma borboleta europeia. Aporia é gênero de borboletas. Borboletas chamam-se lepidópteros. E lepidópteros é uma palavra grega que significa "asas de escamas". Bonito.

É Carolus Linneus, médico e botânico sueco da primeira metade do século XVIII, que dá nome grego às borboletas e quem nomeia a aporia crataegi. Nem notícia ainda do nascimento de Darwin, e já esse senhor estabelecia a forma de organizar e categorizar o mundo natural, o mesmo que usamos até hoje.

É Linneus quem escreve, em 1753, a obra Species Plantarum. O protagonista de "Figura na sombra", romance do mestre Assis Brasil, lê o livro em sua juventude. Está lá, no primeiro capítulo, essas duas páginas que releio com prazer uma, duas e quarenta e quatro vezes se for preciso. Tão ricas de ensinamentos são para quem escreve. Demoro-me muito tempo nesses parágrafos, gosto de lê-los com meus alunos, de re-re-re-perceber a magia que existe no corte sumário de tudo o que não é essencial. Por isso, por causa do que foi cortado, lembro-me do Species Plantarum. Porque está lá, a meio do romance de Assis Brasil, sem explicações. Seduz justamente porque não está explicado, e porque, se ficou, é porque tem significado.

É claro que me pergunto por que terá dado Linneus esse nome a essa borboleta. Enquanto descanso aporia ao meu lado, vou em busca de crataegi. É o mesmo Species Plantarum  que classifica o Crataegus - um arbusto (família deles) de flores, brancas como as dessa borboleta, que nós conhecemos por pilriteiro ou espinheiro branco. Seu nome deriva do grego kràtaigos, no sentido de força e robustez, característica que talvez se refira à sua dura madeira. Além das flores, o pilriteiro dá umas bagas vermelhas que a medicina tradicional usa desde a pré-história para doenças cardíacas. Eram de pilriteiro as cinco tochas que os gregos faziam arder nos casamentos, para afastar as forças de Artémis, deusa contrária às relações monogâmicas. E era também de pilriteiro a coroa de Cristo.

Entre idas e vindas, penso que talvez Linneus estivesse, no momento em que avistou uma dessas borboletas, afundado num depressão imobilizadora. Talvez não estivesse capaz de sentir. E a visão da que viria a ser a aporia crataegi, sem motivo, sem explicação, um paradoxo vivo esvoaçando ao seu redor, movimentou seu coração - talvez se lembrasse de Artémis, e logo após de Cristo. Talvez pensasse no quanto tudo muda o tempo todo, e que é dessa energia movimentadora da mudança que o nosso mundo se nutre, embora seja sempre o mesmo e em nada se diferencie uma época de outra. As aporias, afinal, aquecem o coração e salvam-nos da normose engessante.

Os motivos que me levam a manter este livro e não aquele no centro da minha alma não são só paradoxos: são aporias. Mantenho os que carregam dentro de si/mim dúvidas e incertezas, coisas e mais coisas inexplicáveis, e que têm nessa inexplicabilidade o seu motivo de existir. Gosto de voltar a eles e descobrir, após a 34ª leitura, que não consigo apreendê-los, não consigo sumarizá-los, não consigo reduzi-los a uma leitura, porque são imensas e infindáveis. E lá vem a pergunta: como assim pedir a alunos aprendizes de leitores que resumam e expliquem uma obra literária? Para matá-la na sua gênese? Naquilo que tem a oferecer? Nas mil possibilidades infinitas?

Aporias são coisas assim: nem se explicam, nem se chega sobre elas a nenhuma conclusão. Um desespero, para alguns. Um desafio, para outros. Incluo-me nestes últimos (nem sempre), e divirto-me nesse movimento interno que busca refutar todo e qualquer argumento que queira fixar um sentido único e conclusivo ao texto que leio, ou ao diálogo que mantenho.


Imagem: Aporia Crataegi
http://eol.org/data_objects/20605909

03/07/2014

Perseverar, teimar ou persistir?

Para você, que como eu se olha ao espelho, na dúvida cruel entre "será que estou teimando ou sendo perseverante?", duas explicações e uma solução.

Tudo é questão de ser severo, estabelecido ou firme. Simples assim.

Quando se persevera, ativam-se as forças estritas e sérias de severus. Aliás, por causa do per-, ativam-se totalmente. Perseverar é um ato de total seriedade reta. Não há deslizes, nem dúvidas, muito menos falhas. Acho até que há um cenho franzido plantado na testa. Muito arriscado - os cenhos franzidos afastam os outros e criam sulcos que em nada se parecem com as alegres rugas de quem vive a sorrir.

Já quando teimamos, seja lá a respeito do que for, temos um thema - um argumento, uma tese. Quase, quase, coisa de advogado. Partimos de um lugar no qual acreditamos. Nada provado, dirão muitos ao seu redor, mas você responde: você que não vê, tá lá. E podem tentar demovê-lo. Ali está, e ponto. Esse thema é forte desse jeito porque é antigo - antes do latim, já o grego o lançava, com significado levemente diferente: aquilo que se propõe. Portanto, uma proposta. E mais. A sua raiz é tithenai, palavra algo apocalíptica (experimente falar em voz alta), e significa, com uma naturalidade teimosa, "algo estabelecido". O verdadeiro teimoso, o convicto, teima a partir de uma tese proposta e estabelecida, fincada resoluta no chão imortal. Olho para a minha teimosia e dá até cansaço.

Mas, como para quase tudo, há solução. E hoje, agora, a solução que tenho chama-se persistir. Per+sistere. Persiste aquele que se mantém firme e em pé. Totalmente firme e em pé. Podem as tempestades e os raios cair a seu lado, as pedras do caminho serem maiores e mais numerosas que as flores: há aqueles que persistem. Que olham para a vida diante de si e dizem para si mesmos: mantenho-me aqui, porque é o que devo fazer. Com firmeza, em pé, e sempre.


(E as uvas, pergunta você olhando a foto? O que é que têm as uvas com isso? Secá-las, transportá-las ou reidratá-las? Escolha de cada um. De qualquer forma, as uvas se manterão uvas. São as atitudes que constroem as diferenças entre elas.)

30/06/2014

Desapego ou desprendimento?

Ora bem. Depois do post "Ser grato ou obrigado?" pedem-me à distância que escreva algo sobre desapego. Perguntam-me se me sinto desapegada. Se pratico o desapego. Se consigo.

Francamente, nem tento. Não posso. Dentro de mim vive um apego a tudo o que amo. Um apego que (tento) não me machuque quando decide insinuar-se por entre os muitos laços do ego, segredando-me que, se amo, e se me apego, terei. Bobagem. Apenas serei. Tento apegar-me dentro dos domínios da luz, e que essa luz envolva os demais com todas as vibrações que posso enviar de longe porque, afinal, estou apegada - e, por isso, trago o outro dentro de mim a cada instante, faz parte das fibras da minha alma.

A raiz primeira de desapego (antes da junção com o prefixo des-, que significa sempre o negativo daquilo que se diz depois), é apego; este, por sua vez, deriva da palavra pegar - picare em latim: trazer consigo, ter em si e (claro) pegar. Portanto: pratico o apego porque ele me faz trazer comigo tudo aquilo que amo. Graças a esse "a" agregado, o que estava bom fica melhor ainda: trago quem amo junto em mim. A toda hora, a todo momento, em todo lugar. E porque não quero desapegar-me, o que amo cria casa em mim. Habita-me. Entranha-se. Elabora-me. Decifra-me. Quem se apega, chega mais perto do centro.

O impulso de desapegar-se, neste poder etimológico que lhe outorgo, encontra-se de braços dados com a decisão (que vejo ao meu redor com frequência) de não se entregar, de manter a individualidade, de não se perder no outro, manter o controle, ser dono de seus atos. Mas sem entrega, sem comunhão de indivíduos, sem o se perder - como se achar, e como achar o outro?!

A esse amigo querido que de longe se pergunta sobre o desapego, o que posso oferecer é o meu desprendimento. O mesmo des- que negativa, junto ao prehendere latino. Prender significa também pegar, mas com uma pequena imensa diferença: prehendere é agarrar. E agarrar guarda dentro de si, escondida entre duas distraídas letras, uma garra. Uma coisa é pegar algo que chega à sua mão. Outra, diferente, é agarrar. É ser presa. É estar-se preso.

Pego o amor que me dão, e me apego. Quero apegar-me. É uma decisão, esse apego, porque amo o que amo e mantenho-o perto e dentro comigo. Amor não é agarrável. Amor é liberdade em expansão. É tempo fora do tempo. Espaço fora do espaço. Se tento agarrar, ele escapa. Amor só sobrevive ao apego. É o lugar mágico onde se nutre, cresce, transborda - amor é coisa que precisa de transbordamento, sejam lágrimas nos olhos, sejam bênçãos no mundo.

Agarrar responde ainda por ações polares: aprisionar e afeiçoar-se. Se uma palavra pode, ao mesmo tempo, aprisionar e criar afeição, é melhor procurar outro caminho. Apegar-se sem as garras longas que prendem. Por isso, pratico o desprendimento. Deixo solto o que pertence a todos. Deixo solto o que pertence ao outro. Deixo solto o que pertence a mim. Mas dentro, neste lugar onde entram aqueles de passos leves e olhar atento, vivem apegados a mim todos os afetos do mundo.

25/12/2013

Ofertas

É preciso que saibas: não existem duas coisas iguais. Podem parecer-te, às vezes, muito semelhantes. Podem parecer-te quase a mesma coisa. Podem lembrar-te fortemente algo que esqueceras. E tanto pode ser que exista de fato algo em comum, como é possível o contrário.

Ora repara nestas palavras, que me ofereceram hoje a meio de uma conversa, e que me fizeram pensar em ti e daí a vontade de escrever-te. (Escrever-te, repara, nesse duplo sentido que te ofereço intencional, de dirigir-te umas palavras assim quaisquer umas e de, com a minha mão nua, percorrer-te o corpo até preenchê-lo com as palavras que não ouves.) Ora repara, dizia eu, nas palavras que me ofereceram. Cerúleo. Ceroulas. Uma poderá parecer-te exótica e desconhecida, a outra antiquada e comum como a chuva. Ou não, porque poderás quem sabe conhecer as duas. Poderás até pensar: "de certa incontestável forma, têm estas palavras um parentesco que se perde na escuridão dos tempos..." Através do teu pensamento, podes chegar onde quiseres.

Assim é, também, com as pessoas que conheces. Um alguém que te apresentem pode levar-te imediatamente a pensar em outro alguém; o teu pensamento pode tecer-te a ti e a ele um cenário tão perfeito, que te convenças que entre essas pessoas, tu e ele, existe um fio que só tu vês e que as liga e as enfeita e as torna inseparáveis dentro do mundo do teu pensamento. Sendo tu uma dessas pessoas, poderás pensar que esse que vês à tua frente é aquilo que estava escrito nas páginas abertas do teu destino. Ou poderá ser como cerúleo e ceroulas, essas duas palavras que sem querer me ofereceram. Sem te deteres diante das pessoas como não te deténs diante das palavras, poderão parecer-te umas e outras tudo aquilo que queiras que te pareçam. Até o que não são. Corres, deixa que te alerte, um grande e terrível risco. E deixa-me ainda dizer-te que há três coisas de que precisas para escapares aos enganos.

Precisas, ouve bem, de cuidado, cautela e prudência. Podes pensar que sejam a mesma coisa dita de três formas diferentes, mas são três aspectos de uma mesma atitude, em si mesmos dessemelhantes - e se te lembrares de que não existem duas coisas iguais, saberás que não existem, nunca, duas palavras iguais. Nem duas maneiras iguais de se dizer uma mesma palavra.

O cuidado faz-te pensar no outro para que não o magoes; a cautela faz-te pensar em ti para que não te magoes; a prudência faz-te pensar no ser nascido do vosso encontro, para que também ele não se magoe. Já vês como as coisas precisam ser olhadas de três formas. Pelo menos.

Repara agora, outra vez, naquelas duas palavras. Cerúleo e ceroulas. Mastiga-as. Pronuncia-as em voz alta. Deixa que preencham os espaços vazios do teu cérebro (são tantos). Quando começares a pensar, e com isso perderes a conexão com o sabor e o vento que as palavras têm dentro de si, poderás incorrer no erro de imaginá-las aparentadas. Ou talvez não penses nada, porque te deixaste levar pela lenta suavidade desse rio que são as palavras. Tanto melhor. Mas, se pensaste, deixa-me que esclareça:

não são aparentadas, nem no tempo, nem na geografia, nem naqueles que as entoaram na vez primeira. Cerúleo é o que vês quando olhas para cima a campo aberto: cerúleo é o céu. Como esse que encabeça esta carta que te escrevo: a fotografia do céu do meu dia hoje. O teu olhar para cima vê tudo o que é cerúleo, vê caelum, vê céu. Não fossem os povos do Lácio, talvez tivéssemos uma palavra outra, menos bonita, para ex-clamar ao olhar o que está acima de nós.

Ceroulas são peças de roupa. Quase diríamos ninguém mais as usar, mas isso só se não estivermos em terras frias, que agradecem essas calças por baixo das calças. Ceroulas são indumentárias árabes, dos povos do deserto, que as usavam e usam por baixo de todo o resto da roupa que usam para se protegerem da areia, do sol inclemente, do frio gelado da noite. Saruil é a sua origem, tão distante do caelum da terra de Cícero quanto nós das formas de pensamento de ambos. (Também do árabe, para quem pensou nisso, vêm as cenouras, a quem os antigos chamavam sannarias.) Ainda assim, tão longe uns dos outros, o nosso pensamento imagina-lhes a proximidade, e sem a curiosidade e a cautela e o cuidado e a prudência, deixaria de saber o que agora sabe, ainda que pareça inútil. Nunca se sabe o que vai ser útil ou inútil na vida. Por isso é que é preciso deixar todas as portas abertas, até aquelas por onde costuma entrar a adaga, a mão sorrateira que rouba, o sorriso falso que engana. Tudo aberto, ouve e guarda: guarda com cuidado, com cautela e com prudência, olhos atentos aos movimentos cerúleos. Eles indicar-te-ão o caminho.


02/09/2013

Indiferenças, irrelevâncias e insignificâncias

Dentre os vários problemas que o cosmos enfrenta, creio que o mais aflitivo é o da lei de oferta e demanda. Menos simplista que a lei básica de consumo, o cosmos faz uso de formas peculiares de reorganização do (des)equilíbrio entre os circuitos energéticos que regem a tudo e a todos. Uma das formas é a transformação do mundo a partir do prefixo "in".

A negação.

Não existe propriamente uma régua que indique o quanto se oferece e o quanto se procura. Nem de que maneiras mil esse movimento duplo pode compor-se a si mesmo. Mas o dar-se ao outro é sempre uma moeda de dois lados, e o milagre acontece quando a conseguimos equilibrar de pé. Quando o que se dá e o que se recebe estão de acordo e em paz. Diferente de medidas iguais, veja bem: é mais, creio eu, uma questão de acordo daquilo que permite que a moeda se equilibre e não pese nem num ombro, quer dizer coração, nem em outro.

O acordo pressupõe, antes de antes, percepção de que se recebe. Consciência daquilo que depositam em suas mãos. Sem perceber o que o outro dá (repare: não é o quanto, mas O que dá), não há nem como começar a pensar em acordar nada. Tudo dorme. Tudo é inconsciência.

Mas pode ser que se perceba, mas não se dê atenção. Porque pode ser que não se realize, de fato, tudo o que se eleva acima do nível horizontal cotidiano. Pode ser que não se perceba o relevo, a suave ondulação que o outro processa na sua vida, os meandros que o novo rio desenha em sua paisagem. Não se percebe o relevo, e as coisas tornam-se irrelevantes. Nem peso têm, e logo perderão a forma. E aí, de irrelevantes a invisíveis.

Pode também ser que não se atribua significado; que de tão ocupados com os nossos próprios mundos, não exista o movimento de dar sentido/significado ao que se nos oferece. Talvez porque a oferta nos seja estranha, talvez porque não a tenhamos recebido antes, e porque o novo assusta. Ou porque pareça estranhamente familiar, já andamos ali por perto, pensamos - e o velho assusta, mesmo que saibamos que tudo se recria e tudo se transforma. Pode ser que nos sintamos donos e senhores daquilo que acreditamos ser nosso por direito. Porque (podemos dizer) se chegou até nós é porque era para ser nosso. O cosmos ri-se, e tudo aquilo a que não conferimos significado, torna-se insignificante.

E pode ainda ser que olhemos em volta e não percebamos a diferença. Que consigamos apenas ver o nosso próprio reflexo. E como de nós mesmos só conhecemos uma parcela, e mesmo com o cosmos aos gritos, passamos reto pela parcela de nós mesmos que o outro nos desperta e desvenda. Nós preferimos ignorar. E avançamos estrada afora, vida afora, tempo afora, cada vez mais indiferentes, desacordados da transformação que se opera debaixo dos nossos olhos.



26/08/2013

Promessas são precariedades

Eu já conhecia a maioria de seus amigos, senão todos, mas a ele ainda não tinha tido o prazer. Tinham-me falado dele, com uma espécie de respeito que fez surgir dentro de mim uma das palavras que vinha caçando há semanas sem encontrá-la: veneração. Bom sinal, este de alguém que ainda não chegou já me presentear com as palavras que explicam. Especialmente essa, que deriva de nome de deusa e é a palavra do que falta; e assim que a pronuncio, que a faço vibrar dentro de mim, a falta acomoda-se, porque o som cria o mundo em que posso respirar.

E seu Zé do Coco chegou. Bem falante, aparenta a idade que tem (longa) e o conhecimento das coisas que a sua passagem lhe conferiu. As frases que pronuncia atravessam tempo e espaço e algo lhes confere o poder que, um dia bem longínquo, toda frase feita teve. (Frases feitas tornam-se agremiações de palavras que repetimos pasteurizadamente, achando que de fato pensamos. Não pensamos: são palavras que se climatizaram, palavras pre-cozidas.) Acho que veneração chegou antes dele para que eu pudesse estar preparada. Posso nomear o que sinto conforme o ouço, e assim ouvi-lo melhor.

Conversamos um tempo comprido. Nessa troca atenta e presente, seu Zé deixou comigo o legado de uma série de palavras, e eu ocupo-me delas como há tempos não me ocupava de nenhumas. Pensar nas palavras é a minha forma de meditação. Os dias em que recorto uma delas e a coloco à minha frente, observando-a de todos os lados e formas que posso, ora distante, ora alcançando-a com os dedos do sentimento, são os dias mais felizes e concretos, os dias em que o céu azul ou a chuva ou o vento fazem sentido.

Disse-me seu Zé que promessas são precariedades.

Veja bem.

Promessas são precariedades.

Com o passar dos dias, e a repetição das palavras dentro de mim, vou avançando para dentro do que dizem. Separo-as umas das outras. Promessas. Precariedades.

Promessas fluem e pendem. Prometem-se. Recorro à etimologia, nesse movimento que me aproxima do nascer mais profundo das palavras. Promissus, a raiz de promessas, é uma derivação do verbo promittere. Palavra composta por duas: omittere (deixar de lado, omitir, deixar de ir) e o prefixo grego pro (antes). Prometer é tudo aquilo que existe antes de deixar de dizer, antes de deixar de sentir, antes de deixar de lado. Pura precariedade, penso. 

É possível recuar um pouco mais, porque omittere é filha de mittere, que significava para os latinos antigos jogar, arremessar. Promete-se quando, por antecipação, se arremessa algo do passado (o antes) na direção do futuro. Como uma flecha que se cogita enviar para o depois, mas o arco está pousado ao nosso lado. Pode ser que a flecha vá; pode ser que não: o arco não está nas nossas mãos, talvez sequer o olhemos de fato. Uma ideia de mover-se que não pensa como sair do lugar.

Esse mover-se, instrui-me Zé do Coco, é feito de precariedade.

Precariedade nasceu da palavra precário. E precário é algo que, muito corretamente, nos faz duvidar. Coisas precárias inspiram insegurança. Não se sabe onde se pisa. Pede-se (reza-se, até) para que as precariedades se consumem. Se estabeleçam. Se concretizem. Porque a palavra precário é filha legítima de precari, que nada mais é que pedir e rezar. Olhando para trás, nossos olhos caem na sua raiz prex: orar. Precariedades fazem-nos implorar, pedir, suplicar - é isso que prex sinaliza. Pede-se sentido, concretude, realização.

Promessas vivem fora do tempo. Lançam-se do passado ao futuro sem sequer encostar no presente. São precariedades, porque não se ancoram nem no estar que está nem no ser que é. A insegurança e a dúvida geram-se no ar imaterializado, na célula não nascida, na semente inanimada, como se esperássemos que o broto já fosse fruto sem nunca ter sido gérmen. Não é, e nem será. O que é, é o que chamamos de "momento presente", essa frase feita que tão facilmente escorrega das mãos e se torna nada. O passado é uma nuvem que já choveu e o futuro o céu que ainda não clareou. A noite impera, suave e silenciosa, escura e úmida de orvalho. É bom que assim seja, e que assim se perceba. Tudo o mais é precário. Especialmente as promessas.


(A raiz primeira da palavra veneração, para quem se perguntou, o é Vênus, a deusa romana do amor e da fecundidade.)


Foto: Dani Lenton

01/04/2013

O sol, riqueza dos pobres

Diz-se isso, algures: que o sol é a riqueza dos pobres. Veio-me à lembrança porque dia desses me perguntaram de onde mesmo vinha a palavra quarar. Com ajuda de uns e outros, descobri que a palavra deriva do corar lusitano, absorvido e transmutado pelo tupi. Vale o mesmo que branquear, ao sol, a roupa branca necessitada de um tratamento extra. Ninguém mais faz isso: talvez os pobres, quando o sol lhes é a única riqueza.

E por que isso? Porque tenho uma amiga que me pergunta, aflita, o que fazer com um lençol sujo, encardido e manchado. Poderia parecer mais fácil comprar um novo. O que custaria? Vinte reais? Que seja: as soluções fáceis e rápidas contêm em si um perigo. Vamos assumindo-as como se fossem possíveis, e a vida vai se tornando, com a sutileza das coisas que parecem não ter importância, uma coisa descartável: manchou, troca; sujou, compra um novo. No momento sério, aquele que ao olhar para trás poderá revelar-se o limiar de um novo nós, pode ser que tendamos a fazer o mesmo. E de repente descobrimos que nos perdemos. Melhor quarar a alma ao sol, vez por outra.

Pergunto a minha amiga de que manchas quer ela se livrar. De tudo, responde evasiva. Não vou me meter na sua vida - melhor ajudá-la de forma pragmática, até porque gosto de encontrar soluções que nos livrem do supérfluo do supérfluo, especialmente em termos de limpeza. Descubro uma infinidade de dicas para quem quer voltar a ter um lençol branco como neve, sem esvaziar as prateleiras do supermercado. Como pode ser que sirva a outros (quem não tem um lençol pra lavar?!), segue abaixo o receituário completo. 

Lençóis brancos, e a sua irrecusável sensação de limpeza, estão perto do que as nossas almas respiram: sujam-se e limpam-se e sujam-se e limpam-se. Erram e acertam, e acertam e erram. Às vezes, precisam de ajuda, especialmente para o limpar-se e o acertar. Pequenas dicas de quem já tenha se sujado e errado por aí. O importante, creio, é não se render, imaginando que as manchas possam ser descartadas ou encaixotadas - como uma pele que trocássemos porque a nossa se enrugou antes da hora. Cedo ou tarde, elas voltam - melhor cuidar delas, e com o carinho que merecem por tudo o que nos fizeram e fazem crescer. À alma, ponho-a a quarar amanhã cedinho; quanto ao lençol, seguem-se outras possibilidades:

- deixá-lo de molho durante a noite com uma colher de sopa de amoníaco ou suco de limão;
- se muito, mas muito sujo mesmo, ferve-lo em balde de alumínio, com uma colher de sopa de terebentina. Amoníaco, na falta dela. Suco de limão, na falta de ambos;
- lençol amarelado, mais do que sujo? Lave-se com meia xícara de álcool;
- a mancha é de sangue? Esfregue-se com água oxigenada 10 volumes;
- uma tampa de anil líquido, 3 colheres de sopa de álcool, 1 colher de sopa de amoníaco e 1 colher de chá de bicarbonato parece bruxaria - mas é da branca. Deixa-se de molho por 4 horas e não se elimina da receita o bicarbonato, que é quem impede que o anil manche;
- mais uma: em água fervente, dissolvem-se 2 colheres de sopa de sabão em pó, 1 colher de sopa de aguarrás e 1 colher de sopa de amoníaco; acrescenta-se a mistela a um balde com água fria, onde a roupa ficará de molho por 4 horas;
- a inusitada: em balde grande, dissolvem-se duas colheres de sopa de sabão em pó; bate-se até formar espuma e então junta-se um saquinho de filó cheio de cascas de ovos esmagadas. Molho de uma hora;
- para deixar preparado e juntar à água da lavagem: 4 litros de água, 1/2 kg de sabão em pó, 1 kg de bórax ou ácido bórico (vende-se em farmácias e serve também pra fazer bombas caseiras também; pode ser que alguém ache estranho...). Aquece-se a água, dissolve-se o sabão em pó e depois o bórax. Não é preciso ferver. Deixa-se esfriar e guarda-se. Usa-se uma xícara bem cheia no tanque; 3/4 na máquina.
- e se você é daqueles que preferem ver, e só vendo pra crer:
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=ePaRlGPPKHA

Boa limpeza!


23/02/2013

A pele e o afeto

Num dos comentários a este blog, algumas semanas atrás, uma minha tia muito querida queixava-se, além mar, da minha escrita brasileira, que lhe dificulta a leitura do que escrevo. Concordo com ela, às vezes preciso mudar o meu registro linguístico, porque sei perfeitamente que escrevo mais para o leitor brasileiro do que para o lusitano, o que leva a algumas escolhas. Pode ser que seja um engano, mas assim é. Nesse processo que gravita entre o semântico e o lexical, algumas palavras complicam-me a vida mais do que outras. 

Demorei um tanto de tempo, por exemplo, para me acostumar com a palavra "vivenciar" (portugueses entender-me-ão). Não há como fugir dela ao pensar em educação nos tempos de hoje: na pedagogia waldorf, por exemplo, a vivência das coisas é o degrau a partir do qual se sobe a qualquer lugar. Não sei em que ponto andará este vocábulo pelas areias de Portugal. Houaiss foi de grande auxílio, incorporando-o ao léxico em (creio) 2009. Talvez tenha sido antes. De qualquer forma, meno male.

Vivenciar é coisa diferente de viver. Quem vivencia uma dada situação, deixa-se afetar profundamente por ela. (Quem diz isso não sou eu, é o Houaiss.) Já se sabe que podemos ir pela vida afora sem sermos afetados pelas coisas, muito menos profundamente. Assim, vivendo, simplesmente. Mas é o ser afetado que faz a diferença: o ser quando se imbui de afeto. 

Não à toa, referiam-se os latinos a affectus para indistintamente se referirem a afeto, paixão e amor; entendiam-no como condição, disposição e estado - tudo isso junto ou de forma separada. Para desenvolver afeto, diz-nos ainda a preciosa etimologia, é preciso tanto ser possuído quanto dotado dele. O afeto afeta-nos, permite-nos estados de transformação internos que o cotidiano por si só não permite. O ser afetado é o ser imbuído de desejo, de aspiração - de afeto vivenciado, tudo aquilo que o sujeito torna representativo dentro de si.

Situações às quais nos ligamos através do afeto transformam-se em outras muito diversas. Ontem, só por causa do afeto, terminei o dia numa palestra que chegou sem aviso prévio. Não sabia muito bem do que se tratava, mas minha companhia queria muito assisti-la. Fui, pelo afeto que tenho por ela, e lá estive presente imbuída de afeto, basicamente porque reconheço, cada dia mais e a duras penas, ser condição necessária à minha subsistência.

A palestrante, Marcy Axness, apresentou seu livro (Parenting for peace) e as suas constatações do quanto é necessária uma nova forma de educar para que tenhamos um mundo futuro mais pacífico. Uma nova forma de educar que envolva e parta do mais puro e primordial afeto - aquele que nos faz ir na direção do outro a partir das suas necessidades. Claro que a sua fala não foi essa (quem lá estava talvez não reconheça o que digo!), mas foi assim que a entendi e signifiquei dentro de mim. Colocar-se no lugar do outro, a verdadeira (e única) forma de compreender alguma coisa a respeito dele (e assim ter qualquer papel educador), pode ser um processo impactante e intenso. Se imbuído de afeto.

Paul Valéry dizia que o mais profundo é a pele. Marcy fala de inteligência celular. Localiza-a na membrana, o órgão capaz de dar e receber. Observo-a, na imagem que escolho por entre tantas que o google me oferece, e vejo a pele que nos demarca e contorna, colocando-nos em contato uns com os outros, células de uma vida que não se constrói a sós. Uma membrana tecida com poros como os nossos, que podem oferecer e absorver afeto. Não lhes é uma condição dada, talvez não dependa deles, mas do afeto que colocamos em disponibilidade ao afeto do outro, para sermos ancoradouro e navio ao mesmo tempo. Afinal, para que tudo valha a pena, é imprescindível que a alma não seja pequena.




Interessou-se pelo livro de Marcy Axness?

05/09/2011

Entre o sarcasmo e a vida


Tenho vários exemplos, na minha grande família que vive do outro lado do Atlântico, das virtudes do saber enciclopédico. Curiosidades da cultura geral foram um prato cheio, anos a fio, diante da lareira da casa na Estrada de Tornada, quando esta ainda era uma estrada e não a rua em que se transformou, quase (inacreditável) no centro das Caldas da Rainha. Os quilômetros que eu andava para chegar à Tália (única livraria de então, onde se compravam os livros de Enid Blyton e o Diário de Notícias) parece que se reduziram a alguns metros. A casa de meus avós resiste incólume, ainda que tenham se silenciado os serões.

Está tudo isso tão longe, no tempo e no espaço. Como se algo em mim tivesse vivido outra vida em pleno século XIX.

Dentro desse saber enciclopédico, saber o que dizem as palavras revestia-se de particular importância. Discutia-se muito; meu avô divagava sobre o sabor diferente do português camoniano, as cartas do king pulavam da mesa para as teclas do piano de minha tia, e eu treinava o prestar atenção a várias coisas ao mesmo tempo. Quando estavam todos, avós, tios, tias, primos e adjacências, formava-se mais uma mesa – a discussão política entrava em campo, comentavam-se as últimas de Lisboa, às vezes em voz baixa para não ferir suscetibilidades atentas nas outras mesas. De quando em quando as palavras mereciam um tempo de silêncio – ouvia-se uma baforada de cachimbo aqui, uma cigarrada acolá, mais uma bagaceira no copo que ainda é cedo e um whisky on the rocks para os fortes.

Entre tudo isso, uma prima lia cartas que recebia de um lugar chamado Taizé. Parecia outro mundo, a Maria Alice, embrenhada naqueles papéis que vinham de França. Ensinou-me alguns cânticos, que às vezes congregavam essa família que me aqueceu a infância, unida em volta do piano de minha tia, horas a cantar que não se contavam pelos tempos do relógio. Um fio que guardo cheio de boas lembranças feito pérolas.

Maria Alice vivia dentro de uma atmosfera monástica, embora (salvo erro) fosse funcionária pública em Lisboa. Sobrinha de meu avô, herdou o nome da mãe, mas não seus olhos cor de cinza. Eram “as Alices”, que chegavam sempre juntas, às vezes vítimas daquela espécie de maldade familiar que atinge os melhores, ou os incompreendidos.

Essa maldade foi-me apresentada, pela Maria Alice, como “sarcasmo”. Não sei quantos anos eu tinha, porque é daquelas memórias linguísticas mais antigas. Disse-me que sarcasmo é uma doença, e das mais graves, que é contagiosa e dificilmente tem cura. Quando se adquire, a cura demora, e depende muito mais da força de cada um do que dos remédios dos outros. Anos passados, descobri que ela tinha toda, toda a razão.

Sarcasmo é uma palavra de origem grega, como tantas que nos foram legadas pelos helenos. Deriva de sarx – carne - e criou um verbo. Porque, embora no princípio fosse o verbo, quem primeiro chegou foi o nome. E os nomes, quando transformados em verbos, mudam-se, embrenham-se, infiltram-se e passam a ser dentro de nós coisas que não eram quando em estado de palavra pura, de dicionário drummondiano. Sarx, a carne, criou sarkásein, o arrancar carne. Carne que se arranca através da palavra deve provavelmente ser a mais dolorida, por arrancar-nos da alma a nossa identidade humana, a carne que nos constitui, o ser carnal solidário e fraterno, que antes se agrega do que se arranca de seu semelhante.

Maria Alice apresentou-me a coisas mais importantes - a comunidade Taizé, para onde me voltei durante alguns anos. Taizé apresentou-me a Tereza de Ávila, um antídoto potente ao sarcasmo do mundo, transformado numa oração simples  que por sua vez se transformou em cântico na comunidade francesa. Minha irmã, na curta visita que nos fez nesta semana, e sem saber de nada disso, ressuscitou-me desses tempos antigos, em que a família se reunia e cantava esse mesmo cântico que ela escondeu hoje pela manhã dentro da minha mão, com um sorriso nos seus olhos serenos, onde o sarcasmo nunca encontra morada.

nada te turbe
nada te espante
todo se pasa
Dios no se muda
la paciencia
todo lo alcanza
quien a Dios tiene
nada le falta
solo Dios basta

O cântico, com melodia:

25/08/2011

Sem título, por opção


Há tempos que ando com vontade de escrever a respeito de uma palavra que me abalroou uns meses atrás – fiquei atônita olhando para ela, mal acreditando no que me fazia pensar. Chegou-me às mãos via os gregos e chama-se sphalmatos. Associada a perigo, aplica-se (ou aplicava-se) às situações de caída ou desgraça.  E isto a propósito de que? De duas coisas.

Uma, a crônica de Clarice Lispector que decidi reler um dia desses, uma das suas mais bonitas: “Estado de graça”. Deu-me a ideia, há alguns anos, de um daqueles exercícios que por mais que se repitam mais prazer dão: neste caso, ir ao encontro de palavras derivadas a partir de uma determinada raiz, descobrindo às vezes parentes e significados ímpares, num brainstorming linguístico que adquire maior sentido à medida que avança no espaço. Como o tal estado de graça, que os gregos readquiriam, para evitar a queda (ou a desgraça), somando à palavra o prefixo a, que tudo nega. Portanto , asphalmatos – aquilo que impede a queda ou a desgraça.

“Desgraça” faz parte do campo semântico que se abre com a palavra “graça”, um espaço de limites longínquos, cheio de sutilezas e encantos. Graça é aquilo que criança faz, e nos faz sorrir (mais do que rir); graça é aquele presentinho simpático que recebemos de quem menos esperávamos, e que nos provoca o “que graça!”. "Graça" oferece-nos palavras tão diferentes quanto gracioso e engraçado; gratidão e ingrato; agradecido e desgraçado. Estar em "estado de graça" é um pouco levitar do duro chão da existência, ser alçado àquelas alturas a que as paixões às vezes nos remetem (e das quais, quando caímos em desgraça, ganhamos um tombo proporcional ao grau anterior do estado oposto).

As coisas que são "de graça", contrariando todas as lógicas capitalistas, inclusive as bem intencionadas, são aquelas que não têm preço e que por isso mesmo nos deixam a alma naquele já dito estado de levitação. Aquelas coisas que chegam assim, do nada, sem que se esperasse ou previsse, e de repente se nos oferecem, leves, lisas e ternas. Um brinde da vida.

Pois os gregos sabiam disso. Usavam tanto asphalmatos que, por economia da língua, tornou-se asphaltos, acabando por batizar aquilo que, para dezenas de civilizações, dos próprios gregos aos sumérios, passando pelos assírios, pelos babilônios e pelos egípcios, serviu para impedir que as coisas caíssem (literalmente) e se desgraçassem. Noé usou asphaltos para calafetar sua (nossa) Arca. Literalmente, ainda em grego, está cunhado como “aquilo que evita a caída”.

Isso fez-me pensar, e num volteio repentino fiquei matutando se não nos estará faltando justamente aquilo que negamos tanto tempo – no plano concreto, palpável, o sempre-dito asfalto (assim, na grafia que conhecemos, sem o ph que o original grego oferece), aquilo que pode impedir que os nossos caminhos se desintegrem, se esboroem, criem buracos e levantem poeiras que nos intoxicam e nublam a visão clara do que está à nossa frente - ou às nossas costas. No plano das ideias e dos afetos, que foi para onde esta história me catapultou de fato, é como se nos escapasse o estado de graça, porque negamos, através do distanciamento, a nossa proximidade; porque perdemos a cordialidade; porque entendemos que a luta precede o entendimento e que a construção do nosso sentido parte da negação do sentido alheio, e não do seu caráter complementar.

Sinto falta, nestes últimos tempos, não só de conhecer as tantas diferentes pessoas que moram hoje à minha volta, e encontrá-las nas festas simples onde dinheiro não era moeda, mas também de re-conhecer aquelas que já estão aqui há muito – sem que a falta de tempo, de espaço, de disponibilidade ou de desprendimento nos impeçam de levitar, achar graça sobretudo em nós mesmos e ser gratos. Clarice, nos momentos da depressão que sucedeu o incêndio que quase a matou, queixava-se da solidão das coisas do mundo, e refugiou-se nessa solidão que ajudou a construir. Não gostaria que lhe repetíssemos esses passos.