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17/04/2017

A cidade escura

Apesar de ainda cedo, entro. Nada de mal poderia acontecer, minhas pernas já cansadas de esperar de pé. Nem sempre me sinto à vontade nesta cidade, apesar de ter nascido nela. Não sei se são os ambientes enfumaçados, ou as janelas que parecem nunca saberem o que é limpeza. A escuridão reina, quando (como agora) ainda é dia, e eu aflijo-me como com poucas coisas na vida. Não gosto de coisas geladas nem de pessoas frias, mas nada me incomoda mais do que situações escuras, casas mal iluminadas, lugares em que a falta de luz e claridade não incomoda ninguém.

Empurro a porta, tentando aparentar tranquilidade. Como não vejo nada de fora, não sei o que me espera lá dentro. A única coisa que me ampara nessa entrada são as notas de um piano que ouço em ondas vagas, conforme as pessoas entram e saem, deixando passar as ondas sonoras no vai-e-vem das portas. A música acalma-me. A boa música, entenda-se. Não qualquer música, e nem tocada por qualquer pessoa – tantas aulas com tão bons músicos como companhia provocaram essa deficiência em mim. Não consigo ouvir o que não seja afinado. Estar fora de tom incomoda-me quase tanto quando a escuridão.

Lembro-me de ter me perdido no mar, quando criança. Virava a cabeça, tentando perceber algo, mas o som que vinha de todos os lados era o mesmo. Nenhuma direção parecia diferente das outras, e a noite estava descendo, e eu pensei que ali, justo ali e eu ainda tão pequeno, seria meu fim.

Não foi. Ainda estou vivo, e já se passaram largas décadas.


Sento-me a uma mesa de canto. Tampo de mármore branco manchado aqui e ali. O garçom aproxima-se, pano vermelho e branco pendurado no antebraço, a cortesia em pessoa. Café, sim. Com bastante açúcar. O homem sorri-me, percebeu que sou daqui.

O copo balança em minha mão. O vidro é tão fino que temo quebrá-lo. O café escuro olha-me de dentro dele, atento às mudanças de meu rosto. Eu não expresso nada (ou assim me parece), olhando tudo e todos como se fossem reflexos de mim mesmo, se eu tivesse ficado e vivido e estudado e me apaixonado nesta cidade. O que teria sido de mim?

Talvez não fosse solteiro. Talvez visitasse a Mesquita Central todos os dias, não sei quantas vezes (se fosse um homem religioso, saberia quantas). Talvez a minha vida não tivesse sido dançada, mas outras mil coisas que poderiam ter acontecido se, e tão somente se, a minha vida tivesse ficado amarrada a esta cidade. Talvez tivesse perdido o medo do escuro. Talvez tivesse voltado a nadar no mar.

E então ela apareceu. Não a via há anos. Da porta, espreita todas as mesas. Não vai me reconhecer? Estou a ponto de levantar para indicar-lhe onde estou, fazer-lhe qualquer sinal, interromper essa agonia de não saber se eu ainda sou eu, quando ela abre um sorriso e caminha na minha direção.

Anton, quanto tempo e seus olhos enchem-se de lágrimas. Está velha e quebrada, os ossos e o casaco gastos. Não pensei que passasse necessidades. Mas também não pensei em nada. Nem sequer pensei nela quando avisaram, já em pleno voo, que não desceriam em Damasco por estar sob fogo cerrado. Só pensei que o mundo já não era um lugar seguro para se viver. Nem para se viajar. 

Assim que pousei e avisei meu irmão da mudança de planos, ele disse-me liga pra ela. Pra quem, respondi. Pra ela, pra quem mais você ligaria em Istambul? E assim liguei. No automático, sem pensar que tê-la diante dos olhos, a percepção da temperatura da pele de sua mão na minha, me colocariam diante de uma parte de mim mesmo que sem saber tentei e consegui, com tanta maestria, calar.


13/08/2016

Auto-ajuda etimológica para consumistas


Hoje cedo, ainda alvorada, decidi passar os olhos pela internet. Deparei-me com um anúncio de um revival neo-pretensamente-hippie de kombi que a Volkswagen andaria tramando em seus escritórios, como uma nova ideia para atender a seus consumidores. 

Entre muitas heranças, os gregos deixaram-nos essa pequena palavra Idea. Literalmente, idea é forma, aparência, o "protótipo (proto: primeiro + typo: marca impressa) ideal".

É justamente um filósofo, na França do século XIX, que decide ocupar-se do mundo da ideia. Diz ele (ele é Destutt de Tracy) que a origem das ideias humanas são as percepções sensoriais do mundo externo. Napoleão chamou-o, e a seus seguidores, de "ideólogos". Desde então, temos entre nós essa beleza de palavra: ideologia. Marx, Engels, Eagleton, Lukács, Manheim, Thompson - são várias mãos cheias de filósofos e pensadores que se ocuparam dela desde então.

Neutra ou crítica, a ideologia está ligada à percepção que temos do mundo à nossa volta, e à forma como nos relacionamos com ambos, mundo e percepção. Sendo forma e aparência, o como e o que vemos do mundo depende dos nossos olhos e daquilo que lhes damos de alimento para saber distinguir uma coisa de outra. A partir do que ensinamos a nossos olhos (de como os educamos), eles dirão de que matéria, segundo a sua observação, se faz o mundo ao redor. Pode ser que consigam ver por detrás da mera aparência, pode ser que não. E quem diz olhos diz o resto, diz ouvidos, diz pele, diz nariz e diz língua. 

Isso mesmo, língua. Essa onde se anida a linguagem. Essa que estabelece uma ponte entre os sentidos mais básicos e os mais elaborados. As palavras que fazemos nascer da nossa língua, que ouvimos com os ouvidos e escrevemos com os dedos, entra mesmo é pelos poros, esse imenso véu sensível que nos recobre por todos os lados, sendo ao mesmo tempo nosso continente e nosso conteúdo. (Em tempo: os romanos tinham uma taxa, chamada linguarium, que se aplicava a quem falava demais.)

O regime alimentar de nossos olhos e ouvidos é muito conturbado. Porque aparência é tudo. Seja para persuadir, dissuadir ou sorrir placidamente entoando mantras - a aparência é tudo o que percebemos do mundo se não nos dispomos a ir além dela. Quanto menos nos dedicamos ao escrutínio do que pensamos ver, sentir, cheirar, ouvir - mais permitimos que a alienação entre em nosso íntimo. E veja: alienar-se é afastar-se de si mesmo, perder a estima, transferir algo para outro. Porque alius é o outro. 

E esse alius, lamento informar, quer você. E, para conseguir, usará de todas as formas concebíveis, e não só, para tanto. Há de mascarar a realidade, que é uma forma delicada de se falar da mentira. Seduzirá, que é uma forma aliviada de falar de manipulação. Esconderá defeitos e iluminará qualidades, como se essas fossem melhores e mais importantes que aqueles, tentando convencê-lo de que as coisas são segundo as mostra. Aos poucos, tomará conta da sua consciência, alienando-a, e transferindo-a para si. E, um dia mais que o anterior, você acreditará de pés juntos em tudo o que isso -que-tomou-sua-consciência quiser que você acredite.

É isso que alius, o outro, faz. E é isso que você (e eu, e todos) faz também, porque você é o alius de seu vizinho. 

Entra em campo a consciência, ou a sua falta. A consciência de saber que é assim que agimos - porque somos seres humanos que a todo momento formamos ideias a partir daquilo que nossos sentidos percebem. E raramente percebemos as coisas tais quais elas são. E somos seres humanos muito dados à busca da dominação do outro - ser humano, espaço, recurso. Veja os livros de História - é exemplo atrás de exemplo, e não se ache tão diferente porque a sua raça é a mesma. Humana.

A consciência de ser/estar dominado ou dominar é enormemente importante em nossos dias (se é que não em todos). Porque embora possamos pensar em ideologia e estabelecer uma linha reta entre ela e formas de ilusão ou de consciência falsa, pelo meio do caminho vamos tropeçar nas relações de dominação que estabelecemos e que estabelecem conosco. E a linguagem tem um lugar de honra nesse caminho todo.

Quando a aparência tem maior peso que seu oposto complementar (a essência), ou quando, pior, entendemos que são iguaizinhos, trilhamos caminhos inseguros, perigosos e traiçoeiros, cada vez mais suscetíveis a quaisquer formas de manipulação que nos façam fazer coisas que talvez em sã consciência não fizéssemos. Por exemplo, consumir.

E era aqui que eu queria chegar, e se você chegou comigo eu já fico é satisfeita.

Consumir deriva do latim consumere, que é comer, gastar, desperdiçar. Forma-se a partir do sufixo com, que intensifica tudo o que vem depois; e de sumere, que é tomar. Tomar exageradamente. Ou seja: somos sempre exagerados quando consumimos. Sempre. O consumismo é sempre sempre sempre um desgaste, um desperdício.

Por isso, quando o mercado tenta vorazmente apoderar-se de tudo quanto é valor, que costumamos alojar em determinados lugares simbólicos, é preciso exercitar o constante movimento de transferir esses valores para outros lugares. Eu escolho transferi-los para lugares cada vez mais íntimos, e silenciosos, para ter menos trabalho logo mais, quando as longas garras do mercado quiserem se apoderar de mais um símbolo externo. Porque o mercado não para, e nem se satisfaz. Ele sempre vai querer mais e mais os seus sonhos, os seus valores, tudo aquilo em que você acredita e faz a vida ser, para você, a vida. Só que tudo isso é aparência, tão bem trabalhada e glamourizada que em pouco tempo você assumirá para si que sim: toda essa aparência deve estar relacionada à essência. Só que não. Basta ir ao supermercado e conferir que o catchup que você compra tem tudo, menos tomate. Basta checar qualquer móvel moderno e conferir que aquilo é feito de qualquer coisa, menos de madeira. Tudo "parece com", "assemelha-se a" e tem "as mesmas qualidades que". Realidades externas que supram as nossas carências internas: é claro que só pode dar errado!

Dá trabalho, e sobretudo uma quase-tristeza, esse exercício constante, não de desapego (até porque até ele já virou produto de mercado), mas de desilusão. Escolher o desiludir-se e criar em seu entorno cada vez mais luz de consciência. Nem é fácil nem indolor: conscire é ser mutuamente alerta, é saber (scire) intensa e completamente (com). Com consciência, você passa a ter de escolher com mais seriedade o que você faz, diz, ouve, compra, vende, acaricia, empresta, pega, recolhe, entrega e despacha. E dá uma preguiça danada, uma preguiça sempre alimentada pelo mercado, doidinho pra entrar na sua vida e lhe oferecer tudo o que, sendo aparência, vai lhe dar a sensação de ser perfeito. Mas não estará. Porque não há van que crie na sua vida um movimento de contra cultura, que se opunha por definição a tudo isso que, numa enorme ignomínia, os executivos da Volks andam pensando. O que vem a ser ignomínia?! A partir de in+nomen, vem a ser a perda e o fim de um bom nome: ou seja, nossa própria desgraça e vergonha.

22/07/2016

Con-cordar


Desde o dia em que te vi, Juraci
nunca mais tive alegria
Meu coração ficou daquele jeito
Dando pinote dentro do meu peito


Na época em que se falava latim, cor, o coração, era a sede do conhecimento humano. Tudo ali se resolvia e se firmava. Se batia no coração, era porque valia a pena. Se passava por dentro dele, era porque valia a pena. E tudo o que valia a pena se guardava do lado esquerdo do peito. As evidências são muitas, e as que vou apresentar são todas etimológicas (porque, veja: se a Palavra é o dom mais humano, muito divina deve ser toda significação que uma palavra possa ter tido no início dos tempos e em todo o seu transcorrer).

De cor (que era, portanto, coração) surgiu coraticum, coragem, a qualidade que mora no coração. E surgiu também cordatus, que é aquele que tem prudência. E ainda concordare, que são dois corações que estão juntos. Con-cordam.

Poderia você pensar que concordar fosse duas pessoas dizerem sim (ou não, se o caso for de discórdia) para uma coisa. Terem a mesma opinião. A mesma percepção. Concordarem em ir pela esquerda, ou pela direita, ou de mãos dadas, ou fingindo nem se conhecerem. Pois nada disso. Concordar é mais sério e mais profundo. Não vem da razão nem do pensamento. Vem do interior dessa cavidade maltratada que é esse nosso músculo único, de aspecto único, de capacidades únicas. Se o seu, aí dentro do peito dando pinote, está junto do coração da pessoa ao seu lado - é porque bate em sintonia com ele, é porque se reconhece na pele do outro rosto, é porque sem nenhum motivo explicável você sabe que aquilo que o o outro ao seu lado disser, você dirá também. Aquilo que o outro ao seu lado sentir, você sentirá também. Sem pensar nem estabelecer nada. E aí você con-corda com a pessoa ao seu lado, e ela vice-versa, os dois meio abobados pela vida de repente parecer tão perfeita.

Concordar não é concordar (sic) sobre coisas, ou situações, ou opiniões, ou roteiros, ou planos. Concordar é saber que seu coração está junto do coração do outro, e aquilo que você fizer ao coração do outro, fará também a seu próprio coração, porque eles estão juntos, e juntos semearão os campos do futuro. Quando seguem cada um para seu lado, não é que tenham tido ideias contrárias. É que seus corações avançaram por caminhos diferentes, e por isso dis-cordaram.

Agora você pensou poxa que pena? Pois não precisa. Porque nem todos os corações concordam, e aqueles que se "vestem de concórdia" estão apenas vestidos - nada são. Faltou-lhes abrir a porta do sangue, permitir-se todos os ventríloquos. Dessa forma, o melhor mesmo é que discordem. O quanto antes, para que os caminhos fiquem abertos e claros, ainda que distintos.

23/12/2015

Museus e palavras

Não sei se o mais impressionante foram as chamas avançando sobre a torre da estação da Luz ou as imagens aéreas do prédio do Museu da Língua Portuguesa e os destroços queimados do seu telhado. Como muitos, fiquei sem palavras - todas elas arderam dentro da tela do meu computador.

Tive o privilégio de visitar várias vezes o Museu. A sorte de apresentá-lo a muitas pessoas queridas, filhos, alunos, amigos, conhecidos. Tornou-se roteiro obrigatório nas idas a São Paulo. 

Da primeira vez, fui sozinha, desconfiada dessas manobras com que a nossa civilização gosta de ensombrecer as coisas: colocá-las dentro de caixas para podermos tê-las sob controle. Mas me rendi, logo no primeiro andar, diante daquele "Grande Sertão: Veredas" aberto como flor para tirar o fôlego (de novo), reinventando Rosa de um jeito que (desconfio) ele gostaria. Elevador acima, mais uma rendição diante do corredor plural de imagens e sons e gentes. Como andar sem parar? Foi preciso sentar. Muita informação. Muita. Disponível e em forma de encantamento, parecendo depender das nossas mãos para se abrir. Pra lá e pra cá, grupos de estudantes com roteiro de visita a tiracolo, não sei se ajuda ou impedimento. Para onde foi a experiência primeira, sem mediações, das coisas? pensei eu. E sorri pra eles e arrisquei um "deixa o roteiro pra lá, se encante sozinho".

Como um amor que pede tempo, frequência, profundidade, foi preciso revisitar. Encontrar pretextos. Tropeçar sem querer na estação errada de metrô e decidir que já que chove, já que venta, já que muito sol, já que quase cedo, já que ainda tarde: ir ao Museu outra vez. E, em todas essas vezes, mil temporalidades surpresas, de Machado a Cora, de Oswald a Pessoa, de Jorge Amado às mídias em encontro e à provocação do "menas". Tudo sempre diferente e tudo sempre igual.

E, ainda por cima, e literalmente por cima, o terceiro andar, essa invasão inesquecível de som, escuridão e palavras, esse universo chamado palavra que é onde mais gosto de morar. E eu acostumei-me a começar a visita antecipando o gozo final, essa certeza de que o amor está onde o vimos a primeira vez, e também por isso garantindo a dose de lágrimas quase rotina. Como chegar ao lugar de pertencimento, e nele mergulhar e ser chamada, conduzida, levada. 

Da segunda vez, com um grupo muito querido de alunos, misturou-se isso ao privilégio de poder levar os outros a esse mesmo lugar, e abrir ao amor essa porta do compartir. E como choro se contagia, éramos um ônibus inteiro emocionado. Esse ritual do choro permaneceu até há poucas semanas atrás, numa que afinal foi a última visita, com amiga que nutre pela palavra amor aparentado.

O Museu deu-me respostas. Abriu-me indagações. Estendeu-me tapetes e tapetes de motivos para escrever. Guardo uma porção deles, detalhes daqui e dali, dispersos por cadernos que não sei onde guardei. Talvez não vejam a cor do dia, mas são testemunhos do poder do que não é matéria. Mais que um museu com coisas, um museu feito de palavras, essas que se reinventam e se escrevem, e depois se apagam e se tornam a escrever. Porque a rigor, se for pensar bem, a palavra é chama e precisa arder. Continua onde sempre esteve, e onde sempre está, nesse mesmo lugar de onde tentamos arrastá-la e deixá-la presa, fixa, ao alcance das nossas mãos terrenas. Porque dispersa e livre é mais difícil de se relacionar, mas é onde é mais e maior.

Rodeada pelas águas do rio Capibaribe dias atrás, debruçada na amurada de um barco, procurava o perfil de João Cabral na margem como se dele dependesse a minha sanidade inteira. Tanto as águas quanto as chamas passam. E eu (descubro) só tenho em mim as palavras que teço. Não importa se para quem as escrevo as lê. Nem sequer se a quem pertencem as percebe. Palavra é universo feito liberdade, avesso às paredes de quartos e salas, tecido escorregadio e invisível. Não são precisos museus para guardá-la, nem dinheiros que lhe paguem a existência. É ela quem nos guarda. E é com ela que guardamos.

14/10/2015

Desolado

Assim encontro meu coração, e assim o observo. 

Desolado.

Observo também as palavras que se formam dentro dele, nesse esforço de me afastar do animal em mim e de rodear-me dos atributos que me garantem humanidade. Pensar e encontrar as palavras é o que mais faço. 

Abro os olhos dentro das águas mediterrâneas. Atravessam-nas barcos sem data. É nesse ponto líquido que naufraga o meu coração desolado.

Desolado, porque é a solidão que se agarra a mim sem que eu a queira, esse estado de ser solus, sozinho,  porque abandonado e negado. Meu coração colore de opacidade as fibras dos meus olhos. Tento ver o mundo com os olhos do outro em vez de tentar ver o meu mundo refletido em seus olhos. E por isso meus olhos se afogam, e meu coração naufraga. Onde cabe uma vida opaca assim.

A próxima palavra é devastado. Porque a terra vasta não é só grande - é também aberta e incontida, desabitada e deserta. Acrescento-lhe esse de que lhe agrega a sentença final: "sou completo". Completo vasto. Completo arruinado. Completo desabitado. Completo deserto. Volto à tona falho de oxigênio. Trago a água do mediterrâneo misturada à espuma das lágrimas que deixo no leito. As ondas lavam a praia. As ondas lavam os olhos. Deve haver um novo dia por detrás das nuvens escuras.


Fotografia: Giovani Ferreira
A frase em itálico é, com reformulações, de Carl Rogers, e define o que é empatia. 



05/10/2015

Resedá


Estava num dia desses sentada com alguns alunos conversando sobre formação de palavras. Lembrei -me de sedere, por estarmos assim, sentados - sedere era a forma usada pelos latinos para se referirem a quem estava, e estava sentado. Fomos à procura de outras palavras que nascessem de dentro dessa semente.

Primeira descoberta. Sem lhe juntarmos nada, sedere nos lega sedar: aquela forma de tranquilidade artificial de vem de fora e se instala no dentro. Funciona, mas não sempre, e nem seria bom que fosse sempre. Para onde iria a nossa capacidade de nos tranquilizarmos sem sedativos?

Segunda. Se lhe juntamos o prefixo in, o resultado é surpreendente: insedere  refere-se àquele que está sentado dentro. Insedere dá origem à nossa palavra insídia. Esse "aquele" é aquele a quem permitimos entrada e estabelecimento dentro. Pode provocar imenso dano - porque insídia é traição, é falta de lealdade, é cilada. Assim: atenção a quem se abrem as portas e se permite a entrada.

Terceira. Se lhe juntamos o prefixo ob, a mesma surpresa acontece. Obsidere, de estar sentado diante, serviu para definir o cerco que se faz a uma praça, e, com o tempo, legou-nos obsessão - fechar o cerco, estar a postos para atacar e invadir. A obsessão senta-se diante de nós só à espera do momento de lançar-se sobre nós e as nossas praças.

Parece que tudo depende, digo eu aos alunos que me olham estupefactos com esse milagre da multiplicação das palavras, daquilo que juntamos a essa nossa condição natural de estarmos. Com quem estamos dirá o como estamos.

"E obcecado, vem daí também?", alguém pergunta. Procuramos. E descobrimos que se engana quem pensa que obsessão e obcecado têm a mesma raiz. Obcecado é aquele que é cego do que tem diante de si - caecare, cegar, junta-se a ob, que significa o tal adiante. O obcecado é aquele que se tornou cego, e nada mais consegue distinguir à sua frente. As pessoas obcecadas não sofrem de obsessão - elas não cercam, não ameaçam, não estão à espera de que o outro caia à sua frente. As pessoas obcecadas encontram-se em algum grau de cegueira com relação ao que têm diante de si. Os danos que provocam, são a si mesmas. Os danos daquele que obsidia atingem o outro, a quem se dirigem.

E voltamos ao sedere.

A quarta possibilidade é juntar-lhe o prefixo re, esse intensificador. Temos como resultado resedere - uma forma muito intensa de acalmar. Resedere transformou-se na nossa forma resedá, essa árvore meio arbustiva que abunda nas ruas e praças, para a qual fiquei olhando na semana passada, enquanto escolhia quais árvores plantaria na calçada.

É diferente do resedá-amarelo (Galphimia brasiliensis), mais rústico, também chamado de quaró. O resedá-amarelo é uma planta usada magicamente nas religiões afro-brasileiras. Resiste às condições mais duras, aguenta secas longas e chuvas intensas. Ao contrário dos resedás que vemos florindo as calçadas, e que não resistem tão bem a geadas, o resedá-amarelo distrai-se com qualquer condição atmosférica. Usando-o para banhos, auxilia quem enfrenta adversidades persistentes na vida, e delas precisa reerguer-se. O resedá-amarelo é também uma "tintureira", usada desde a Idade Média para dar cor aos tapetes. É por isso uma planta que se impõe sobre o que está na base - e também essa qualidade, de tingir e modificar a cor dos elementos presentes, nos influencia quando a manipulamos. O resedá-amarelo acalma, tranquiliza e ajuda nos processos de reerguida. Para estarmos e sermos aquilo que podemos e queremos e devemos. E continuar à procura de palavras que despertem nossos sentidos para as coisas que, por serem verdade, valem as penas.



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16/08/2015

Calma, vaca!

Sabe aqueles dias em que você chega à conclusão de que talvez a humanidade esteja perdida mesmo? Hoje é um desses.

Eu estranho, há anos, essa mania de energético. Cada vez parece mais impossível encarar a vida sem um estimulante qualquer. O paladar vai-se, e a noção das coisas junto. Assim, inocentemente, dentro de uma latinha charmosa.

Hoje dei de caras com o antídoto do Red Bull: a Relax Cow. Em vez de precisar de energia, e de se tornar um Touro Vermelho, você precisa relaxar e se acalmar? A salvação chegou: você toma uma Vaca Calma e tá tudo resolvido.

Eu sei que tenho amigos que se queixam de que penso demais, de que levo tudo ao pé da letra, de que às vezes faz parte deixar as coisas passarem. Pois eu parto do princípio de que, se está escrito, e é com letras, é para olhar para elas - e pensar. Essa faculdade tão fascinante que nos distingue dos outros animais, e nos permite fazer aquilo que Aristóteles resumiu numa frase que vou citar de cor: se você tem capacidade para fazer uma coisa, também tem capacidade para não a fazer. Depende é do que você pensa, e do que você decide depois de pensar nas coisas - mas, ó céus, como dói pensar! Como desacomoda, como incomoda, como fraciona, como nos desdobra diante dos olhos um mundo que preferimos não ver...

Para acalmar um Touro Vermelho, só uma Vaca Calma. E deixe pra lá todas as mensagens subliminares embutidas, das machistas às demais, aquelas que poderiam dizer-lhe que você é apenas um ser fácil e pateticamente manipulável.

Ou então preste atenção às linhas e às entrelinhas (faça um curso de Análise do Discurso se começar a se confundir), e faça escolhas a partir das suas conclusões. Os que prometem "esfriar a sua mente" em 296 mililitros de estupidez enlatada, prescindindo do seu esforço, da sua busca, da sua posição e do seu afeto, querem você assim: uma Vaca Calma que não incomode, que não dê trabalho, que se contente em seguir a boiada para onde ela for. Ainda que seja o matadouro.

25/05/2015

Segunda feira

Plena manhã de segunda feira. Acordo com uma estranha e inquietante vontade de rotina. De que o dia se organize sem a minha particular intervenção. Que não precise exercitar essas dádivas que hoje me cansam só de lembrar, pensar no que é preciso fazer, quero-ou-não-quero, devo-ou-não-devo. Só uma coisa, e depois outra, e depois mais uma, cada uma com tempos e lugares e formas estabelecidas em algum tempo que não seja hoje. Uma rotina, por favor.

E eu não sei acordar desse jeito. Não sei dialogar com essa urgência. E parece-me melhor descobrir de onde vem, e quem sabe acalmar o espírito.

Pois rotina, na realidade, é muito o contrário do que pensamos.

Só há rotina quando algo é rompido - por isso seu ancestral linguístico é rupta - um caminho aberto à força. Não nos é natural a rotina, porque não nos é natural querer romper. (Começo a gostar do que encontro.) E o princípio da rotina exige que abramos caminhos à força, que nossos braços se ocupem em rumpere - em quebrar, em romper.

E lá estamos nós com o tal caminho aberto à força. E começamos a trilhá-lo uma e outra vez. Os franceses ocuparam-se em transformar aquela rupta em route, ou seja, rota. Em pouco tempo, de tanto trilhá-lo, porque deve ter sido mais fácil do que andar pelos lados intransitáveis, nova metamorfose: de route, routine - uma trilha batida, um curso costumeiro de ação. Agora, sim, a velha conhecida rotina.

Essa vontade que nos dá, muito repentinamente, de querermos uma rotina, é no fundo uma vontade enganosa. Parece que o que queremos é o encontro de um trilho, e de por ele seguir com ilusório conforto, sem precisar pensar muito a respeito. Mas não.

É outra coisa.

É querermos abrir caminhos novos com a força da nossa vontade. Esteja essa vontade nos braços, nos pés, nas mentes ou dentro do nosso coração. Algo em nós clama por rotina: algo em nós clama por transformação e possibilidade. 

E assim se começa uma segunda feira, descobrindo que por trás do que se quer há muito mais do que se pensa.

28/01/2015

Contas

Ora digamos que Paula, nesse dia em que chegou de viagem, encolheu o pensamento entre as duas palavras que encontrou escritas no espelho do banheiro: "renuncia, ou desiste".

Estranhou, ficou atônita mesmo, não fazia a menor ideia do que significavam, ou de quem ali as deixara. Os amigos a quem emprestara o apartamento de um quarto só, talvez. Mas seriam para ela? Essa necessidade imperiosa de escolha, pertencia-lhe?

Bateu-me à porta de casa. Sou a vizinha da frente. Meu trabalho consiste em resgatar palavras do limbo de seu não-significado - sou dicionarista, uma espécie de profissão de quem se rodeia de palavras o dia todo, e lhes descobre vida onde só vivem som e grafia. É uma tarefa de vida solitária, a minha, e gosto que me batam à porta de vez em quando.

Além de palavras, gosto também de guardar os tempos precisos. Tenho uma memória privilegiada: é raro esquecer-me de algo que vi, ouvi ou li. Não tenho pressa, na vida, e faço muito do que sou por escrito. Porque os tempos têm a natureza confusa e, se não se anotam as coisas, parecerá que x veio antes de y, quando na realidade quem primeiro chegou foi y. Por isso, para tudo, nestes tempos estranhos em que relógios não têm ponteiros e correm desenfreados e loucos para chegar à hora seguinte, é preciso guardar o tempo preciso.

Dava corda ao relógio da sala quando Paula bateu à porta. De leve, desse jeito envergonhado que ela tem com tudo o que é dela. Pediu-me ajuda. Contou-me do espelho de seu banheiro, e disse-me ter encontrado, entre a linha dos olhos e as comissuras dos lábios, essas palavras que lhe tomaram os olhos. Que diferença existe, perguntou, entre renunciar e desistir?

Ergui a porta do departamento de latim que vive na minha mente. Ambas as palavras guardam o seu início na língua latina. Quer dizer: isso é o que nós achamos. Renúncia, lembrei-me e disse, é a retirada de uma palavra. Renuncio quando nego e repudio o que antes disse. Só renuncia, concluí diante dela, quem alguma vez disse. Renunciar nasce de dentro da palavra nuntiare, que significa informar, declarar, anunciar, todos eles verbos com tendência à objetividade, à ação, à declaração. Quando a nuntiare juntamos o prefixo re, somos levados para trás. Damos marcha a ré. Quem renuncia, dá marcha atrás a sua própria declaração. Isso às vezes é possível, outras é um perigo - há palavras que uma vez ditas, nunca, jamais, podem ser retiradas. Acontece assim às grandes, e incômodas, verdades. Talvez preferíssemos nunca tê-las visto, isto é, dito.

Já desistir parece-se com sua palavra mãe - desistere. De (que é fora) mais sistere (que é o ato de parar, de interromper), em nada repudia o antes dito. Quem desiste, interrompe desde fora um movimento que está. Quem repudia, imobiliza, estagna. Vários motivos podem levar um sujeito a desistir, até mesmo o estado de estupefacção, de sobressalto, de susto, de incompreensão, de estar atônita como vc está, disse-lhe baixinho. É uma interrupção de ação, mais do que uma ação em si, como é o ato de repudiar.

Paula ouviu-me de olhos fechados. Parecia passar, um a um, as pequenas e as grandes renúncias da sua vida. Uma a uma, as desistências. Parecia colocá-las lado a lado, pesando e medindo tudo o que já repudiara e tudo o que deixara estagnar-se. Deixei-a sozinha. Voltei-me para as minhas próprias coisas, e aos poucos os olhos foram-se-me enchendo de água. Renunciar às coisas do mundo e da alma, é das escolhas mais dolorosas e duras de toda uma vida. São elas que nos alteram, às vezes sem que o desejemos, a superfície da pele.

Imagem: Lila Marques


17/11/2014

Não é, e parece


1. Tome-se a palavra contente, aquela que Camões usa no canto V d'Os Lusíadas para descrever a cor do barrete que os marinheiros do Gama usavam: encarnado, cor contente. A cor de quem tem os pés sobre a terra.

Contente deriva de continere, via seu particípio passado. Resulta da junção de con + tenere, que basicamente poderíamos traduzir por segurar (ou agarrar) junto. "Estar contente" poderia então ser, pensa você desse seu lado da tela, segurar junto a si aquelas coisas que lhe fazem bem. Ou pessoas a quem você quer bem.

Sim, e não só. Continere carrega um sentido de restrição e de contenção. Agarrar (ou segurar) algo junto a si restringe o espaço de ambos: não poderás tu andar sem aquilo que decidiste conter, nem poderá o conteúdo andar mais sem ti. Ao mesmo tempo, como aquilo que tu seguras mantém-se junto a ti, é preciso que suspendas a respiração, fonte primária do desejo, e aguardes que continente e conteúdo estejam alinhados para poderes avançar/retroceder/parar. Ser contente é ter junto a si as pessoas e as coisas a quem se quer, e bem, e apropriar-se de suas restrições e contenções, percebendo a secreta felicidade que vive dentro delas.

2. Pense agora na tríade "feito, perfeito, defeito". Obviamente tudo tem a ver com as coisas que se fazem. O "feito" presente nos três é o mesmo facere que nos aparece também em satisfeito: só quem faz, na medida certa (satis), pode estar satisfeito.

Per e de são dois prefixos que, como todos os demais, alteram o que vem depois. A vida está cheia de fatos/feitos que se agregam ao que já estava composto, parecendo terminado. De repente, eis que surge algo que se soma, que se agarra ao começo das coisas e as transforma até o seu âmago. São os prefixos, subvertendo a ordem estabelecida. Está tudo lá, mas não como antes: per junta-se a feito e temos agora algo que se faz, sim, mas de um modo completo, sem faltar nada. São essas as coisas perfeitas: as que se fazem até que nada falte, um fazer mais que si mesmo.

Enquanto isso, do outro lado da palavra, temos o prefixo de-. Aquilo que é "feito fora" - feito em queda, em falha, um desertar. Um defeito é um fazer desertado. As coisas defeituosas são as coisas abandonadas. Aquelas que se deixaram pelo caminho, feitas pela metade, feridas abertas na sua incompletude. Um defeito é um deserto.

3. Uma das vantagens do latim, como língua morta que é, é a sua estagnação. O latim não evolui. Não se modifica. O significado de suas frases e palavras não se altera, porque não há mais gente de sangue corrente que faça dele a expressão da sua alma. Por isso, podemos confiar que aquilo que diz hoje é o que dirá sempre; não há interpretações que variem no tempo. A outra vantagem é o poder que nos oferece de reconhecermos em nós essa presença arquetípica, sublime e forte da herança de outros - entrar nesse túmulo abandonado e examinar-lhe as ossadas, as fortes mandíbulas, o crânio redondo, as tíbias e os fêmures alongados e saber-se parte.

Desse cheiro de nenúfar que se desprende das coisas mortas reverberam palavras antigas, que mais ninguém pronuncia. Verba non mutant substantiam rerum, dizem. As palavras não mudam a substância das coisas. E mesmo o que por vezes não parece, é.

Imagem: Cemiterio dos Prazeres, em Lisboa, por Suzana Siqueira.

17/09/2014

Como as palavras, as pessoas

Poema da palavra exata
 
Eu dou-te uma palavra, e tu jogarás nela
e nela apostarás com determinação.

Seja a palavra "biltre".

Talvez penses num cesto,
açafate de ráfia, prenhe de flores e frutos.

Talvez numa almofada num regaço
onde as mãos ágeis manobrando as linhas
as complicadas rendas vão tecendo.

Talvez num insecto de élitros metálicos
emergindo da terra empapada de chuva.

Talvez num jogo lúdico, numa esfera de vidro,
pequena, contra outra arremessada.

Talvez...


Mas não.
Biltre é um homem vil, infame e ordinário.
São assim as palavras.

Quem hoje me ensina, tardia e repentinamente, é este poeta, António Gedeão. Releio seu “Poema da palavra exata” depois de muito tê-lo lido. Depois de muitas aproximações. Depois de ter-me deitado com ele e levantado na manhã seguinte, inúmeras vezes, pensando ter conseguido degustá-lo em toda a sua extensão.

O poema parte da oferta de uma palavra: “Eu dou-te uma palavra e tu jogarás nela/e nela apostarás com determinação.” Pessoas são como palavras, e é isso que o poema descortina diante de mim, numa clareza que assusta: recebemos uma pessoa, e nela (nos) jogamos e apostamos com determinação.

“Seja a palavra biltre”, continua. Fala de uma palavra, o poema da palavra exata. A palavra biltre. E, como se fosse uma pessoa, a quem se confere beleza, sentido, forma, construímos significados em torno da sua sonoridade, da coloração mais ou menos esmaecida com que impregna o ar à nossa volta. Talvez biltre possa ser, diz Gedeão, um cesto prenhe de flores e frutos. Talvez uma almofada delicadamente amparada num regaço, onde mãos ágeis tecem complicadas rendas. Talvez um inseto a emergir suas metálicas antenas da terra empapada. Um jogo de bolas de vidro.

Uma palavra, como uma pessoa. A quem construímos, com a delicadeza da renda, uma atmosfera respirável. A quem dedicamos o pensamento atento. A quem queremos ver com os olhos que vêm o que talvez exista, sem nos preocuparmos de que a possibilidade se invente realidade. Porém, por vezes, a atmosfera é estéril. Enganosa. Nada nela respira, a não ser essa nossa dedicação e disposição. Porque talvez (e há tantos talvez nesse poema quantos talvez existam naquilo que vemos do outro) não haja frutos nesse cesto, talvez nem sequer cesto exista, nem regaço, muito menos amparo. Mas nós apostamos com determinação, porque a palavra-pessoa nos encanta, e como encantados agimos. Como encantados negamos as evidências que tentam romper a cortina translúcida atrás da qual se esconde a palavra-pessoa.

Não. “Biltre é um homem vil, infame e ordinário.” Nada do que lhe construímos altera a sua substância primordial, o seu caráter, a sua essência. Jamais poderá um biltre ser um delicado cesto, um amoroso colo, por muito que o amemos e lhe insuflemos ar puro. Nada fará com que um biltre deixe de ser aquilo que nasceu sendo. As pessoas, como as palavras, prestam-se aos talvez que lhes emprestamos. Talvez o sofrimento, talvez os revezes da vida, talvez o silêncio signifique palavra e a palavra signifique amor – e assim nos embrenhamos nas matas densas da ilusão.

Não. “Biltre é um homem, vil, infame e ordinário.” Temos dicionários que explicam as palavras. Que as tomam suspensas no ar da sua origem e as expõem, nuas e cruas e verdadeiras. Mas não há manuais de etimologia que nos elucidem as almas das pessoas, o seu passado, o lugar de onde vêm, o senhor a quem servem. E pensamos que o cheiro que sentimos ao encontrá-las é delas, e não do nosso próprio olfato. Pensamos que o gosto com que as degustamos é delas, e não da nossa capacidade de construir sabores.

Num susto, a palavra revela-se no poema, e a pessoa revela-se no dia. Porque, diz o poeta, “são assim as palavras”. Assim como as pessoas, que de repente se apresentam, como biltres vis, infames e ordinários. De repente reconhece-se a estatura e o peso das pessoas, e o alcance que tem essa palavra traiçoeira, reconhecer. Depois que os véus se rasgam, e que a confiança no talvez se desfaz, não há volta atrás. Aquilo que é, permanece no tempo.


23/07/2014

Aporia

Descobri dia desses, numa roda de amigos, uma palavra que não conhecia. Aporia. Ficou vagando por dentro de mim uns dias, e eis que ressurge, querendo respostas. 

Coisa difícil, já que aporia é justamente a impossibilidade de alcançar respostas, de encontrar explicações, e deve ser por isso que ela me cutuca com seu dedo incisivo.

Das suas cutucadas recebo de presente a disposição de ler dois dos diálogos aporéticos de Platão - "Laques" e "Ménon". Um é sobre a coragem e o outro sobre a virtude. Hei de lê-los um dia, ainda mais agora que sei que não haverá conclusões a que possa chegar.

Aporia está ligada ao paradoxo, ao impasse, à dificuldade, à incerteza, às auto-contradições, tudo coisas que impedem que o sentido do texto possa ser fixado. Ou seja: não há um sentido. Os Diálogos de Platão são escritos, os nossos diálogos costumam ser falados: a aporia pode apresentar-se em todos eles. Sabe aquela hora em que, na sua conversa com seu interlocutor, você sente que ele fecha todas as saídas? Esse estado peculiar em que procuramos um ponto de entrada que desmonte/desconstrua a fala do outro? Porque não há maneira de que ela se construa e signifique algo conclusivo? Porque é tudo e nada ao mesmo tempo? Pois bem: você está nesse momento diante de uma aporia. Voilá!

Mas há mais sobre a aporia. Há "Aquiles e a tartaruga", a mais clássica delas. Há a aporia crataegi, uma borboleta europeia. Aporia é gênero de borboletas. Borboletas chamam-se lepidópteros. E lepidópteros é uma palavra grega que significa "asas de escamas". Bonito.

É Carolus Linneus, médico e botânico sueco da primeira metade do século XVIII, que dá nome grego às borboletas e quem nomeia a aporia crataegi. Nem notícia ainda do nascimento de Darwin, e já esse senhor estabelecia a forma de organizar e categorizar o mundo natural, o mesmo que usamos até hoje.

É Linneus quem escreve, em 1753, a obra Species Plantarum. O protagonista de "Figura na sombra", romance do mestre Assis Brasil, lê o livro em sua juventude. Está lá, no primeiro capítulo, essas duas páginas que releio com prazer uma, duas e quarenta e quatro vezes se for preciso. Tão ricas de ensinamentos são para quem escreve. Demoro-me muito tempo nesses parágrafos, gosto de lê-los com meus alunos, de re-re-re-perceber a magia que existe no corte sumário de tudo o que não é essencial. Por isso, por causa do que foi cortado, lembro-me do Species Plantarum. Porque está lá, a meio do romance de Assis Brasil, sem explicações. Seduz justamente porque não está explicado, e porque, se ficou, é porque tem significado.

É claro que me pergunto por que terá dado Linneus esse nome a essa borboleta. Enquanto descanso aporia ao meu lado, vou em busca de crataegi. É o mesmo Species Plantarum  que classifica o Crataegus - um arbusto (família deles) de flores, brancas como as dessa borboleta, que nós conhecemos por pilriteiro ou espinheiro branco. Seu nome deriva do grego kràtaigos, no sentido de força e robustez, característica que talvez se refira à sua dura madeira. Além das flores, o pilriteiro dá umas bagas vermelhas que a medicina tradicional usa desde a pré-história para doenças cardíacas. Eram de pilriteiro as cinco tochas que os gregos faziam arder nos casamentos, para afastar as forças de Artémis, deusa contrária às relações monogâmicas. E era também de pilriteiro a coroa de Cristo.

Entre idas e vindas, penso que talvez Linneus estivesse, no momento em que avistou uma dessas borboletas, afundado num depressão imobilizadora. Talvez não estivesse capaz de sentir. E a visão da que viria a ser a aporia crataegi, sem motivo, sem explicação, um paradoxo vivo esvoaçando ao seu redor, movimentou seu coração - talvez se lembrasse de Artémis, e logo após de Cristo. Talvez pensasse no quanto tudo muda o tempo todo, e que é dessa energia movimentadora da mudança que o nosso mundo se nutre, embora seja sempre o mesmo e em nada se diferencie uma época de outra. As aporias, afinal, aquecem o coração e salvam-nos da normose engessante.

Os motivos que me levam a manter este livro e não aquele no centro da minha alma não são só paradoxos: são aporias. Mantenho os que carregam dentro de si/mim dúvidas e incertezas, coisas e mais coisas inexplicáveis, e que têm nessa inexplicabilidade o seu motivo de existir. Gosto de voltar a eles e descobrir, após a 34ª leitura, que não consigo apreendê-los, não consigo sumarizá-los, não consigo reduzi-los a uma leitura, porque são imensas e infindáveis. E lá vem a pergunta: como assim pedir a alunos aprendizes de leitores que resumam e expliquem uma obra literária? Para matá-la na sua gênese? Naquilo que tem a oferecer? Nas mil possibilidades infinitas?

Aporias são coisas assim: nem se explicam, nem se chega sobre elas a nenhuma conclusão. Um desespero, para alguns. Um desafio, para outros. Incluo-me nestes últimos (nem sempre), e divirto-me nesse movimento interno que busca refutar todo e qualquer argumento que queira fixar um sentido único e conclusivo ao texto que leio, ou ao diálogo que mantenho.


Imagem: Aporia Crataegi
http://eol.org/data_objects/20605909

05/05/2014


Apareceu profunda, ampla e ritmada. Um útero quente. Desdobrou-se em vogais e consoantes, cor de comida recém feita. De fruta madura. De cheiro de mata nas mãos que colhem as ervas.

Segredou em silêncio. Disse do cuidado. Da atenção. Do não resvalar pelas curvas desenhadas o despreparo e a desatenção. Disse da verdade, a própria, a de cada um, intransferível e autêntica. Tudo em segredo, como se soubesse que, se dito em voz alta e ouvido em som breve, o mundo é uma filigrana de neve.

O segredo foi coisa sabida. Mas a neve derrete sem contenção diante dos que não podem ouvir. O segredo em seu assomar mergulha de olhos fechados. E se as palavras roucas rebatem em ouvidos moucos, para que gastar a garganta?

Calou-se, portanto. E no silêncio tornou-se decálogo. A Palavra feito razão. A razão feito ensinamento. A razão como motivo. A palavra quando Palavra.

Nada de profundidade para quem nada à superfície.
Subtrair o peso é cultivar a leveza.
Para não morrer afogado, lavar a alma em solidão.
Espremer a vida quando a extração valer a pena.
Dentre as almas grandes, atenção nas que são pequenas.
Em tudo há o que precede e o que sucede.
Vestir-se de prata e ouro, todos os dias.
Ajustar-se quando não for usurpado.
Respeitar os segredos do silêncio da alma.
Revelar naquilo que se faz atento.




26/02/2014

Forma e sentido

Melhor que pensar é sentir. E melhor que compensar é consentir. Melhor do que pensar o que o outro pensa é sentir o que ele sente. Gosto, demais da conta como diz minha amiga Valéria, quando as palavras se encaixam dentro de mim em forma e sentido. E gosto de sentir com o que o outro sente. E, portanto, consinto: tanto faz que pensemos igual ou diferente. Ô sossego.

As palavras têm caprichos: pensa-se sobre elas, e elas ficam mudas, trocistas. Ocupamo-nos de outras coisas, distraídos como borboletas, e elas correm ao nosso encontro, querem contar-nos segredos. Não porque antes não quisessem: nós é que não as abordamos como elas necessitam. Leveza, abertura e sorriso: é disso que as palavras precisam para entrarem dentro de nós e comporem forma e sentido.

Tudo isso a troco do que, pensará você. Porque fiquei pensando um tempo na palavra espiritualidade, surgida a meio de uma conversa gostosa como banheira perfumada. Pensei na sua morfologia, esse ser substantivo que se ergue do raso das coisas para afirmar-se existente. Pensei naquilo que dela dizem os dicionários: qualidade ou condição do que é espiritual. E parei de pensar, porque a nada me conduzia. E senti a tal conversa, mais do que a ouvi.

As palavras precisam da nossa existência mais humana. Daquelas qualidades que se encontram no lobo frontal, como escreveria um neurocientista. As que fizeram Jung dizer "Eu não preciso acreditar em Deus. Eu sei". As que por causa dos gregos nós chamamos de entusiasmo: en-theos, o Deus dentro. As que fazem Leonardo Boff escrever que "é o saber-se pertencente a algo maior". E as que reverbera Daniel Bohm, discípulo querido de Einstein, quando fala da existência de uma "ordem maior subjacente à ordem sensível". São aquelas qualidades em nós que nos humanizam (e que Antônio Cândido diz ser a arte), é aquilo que nos retira do limbo do mundo, do limbo de nós mesmos, e nos estende novos horizontes, possibilidades, visões, encontros. A tal da espiritualidade. Por isso difícil pensá-la e mais tranquilo senti-la. Ou consenti-la.

Freud considerava a religião uma neurose coletiva, uma projeção do complexo pai/mãe num "Pai maior". Uma forma também de evitar psicoses: a neurose ilude, mas permite que se viva. Do ruim, o menos pior, ou algo assim. Os mistérios religiosos são por definição caminhos grupais delimitados por códigos de conduta restritos e precisos, conjuntos de rituais e crenças estabelecidos dentro de instituições e organizações. Igrejas, religiões: sobre a espiritualidade não sei o que Freud pensava e arrisco errar, mas creio que foi Jung quem lhe dedicou tempo e pensamento, quem descortinou por trás da existência humana essa sobre-existência, essa transcendência a que chamou (erro de novo, talvez) espiritualidade. Coisa do espírito, dessa nossa parcela que é a que nos confere o estado de humano, e por isso dizia eu ali em cima que as palavras precisam do nosso mais humano: porque elas são puro exercício de espiritualidade, são o próprio espírito em ação. Quando deixamos, claro e óbvio como vidraça recém lavada.

Mas isso sou eu, que gosto delas e com elas me entendo. Para outros será a espiritualidade outra coisa, porque é momento e caminho individual e pessoal, uma jornada que é um estado, e não um modo de vida. Esse fio condutor que une tudo a tudo reconhece-se assim que uma mudança interna e profunda acontece. O que a prepara, à nossa mudança, é o nosso movimento, o nosso exercício de relação e reconhecimento disso que é mais que nós mesmos e que somos nós ao mesmo tempo. O novo rumo, o novo sentido são os atributos visíveis da espiritualidade.

O que pressupõe o exercício da busca, e por isso nessa conversa surgia esse atributo: espiritualidade é exercício. Sem dúvida. São passos que se dão, com um norte intuído, que a alma percebe e persegue. Às vezes, o norte não leva a canto algum. E perde-se tempo. Ou não. Porque cada caminho é caminho e cada ser é ser. E por isso é mais fácil consentir, e aproximar-se do outro pelas forças que vivem no outro lado do lobo frontal, e que ganha o nome de coração. A geografia humana não obedece aos olhos da razão.

Leio num site que atribui a Lucas, 10, 25-37 palavras que não saíram de sua pena. Mas faz sentido: "Espiritualidade é tudo que é capaz de produzir em mim uma mudança de pensamento, atitudes e conceitos, que me colocam num novo rumo e me oferecem um novo sentido para a vida". Por isso, e outra vez consentindo: como, pela graça de deus, poderia alguém dizer a um outro alguém que a sua escolha de caminho está errada? Que a sua vivência espiritual está equivocada? Que seu caminho a nada conduzirá? O exercício da dúvida, outro atributo da espiritualidade humana, freia-nos a língua, impede-nos de dizer o indizível, de julgar o injulgável. Nos caminhos do espírito, a liberdade precisa imperar serena.

E, assim como nos céus, na terra.


14/10/2013

Ouvir, conhecer, aprender


Tudo isso, numa única palavra. Discere. A raiz de disciplina. Ouvir, conhecer e aprender aplica-se a quase tudo. Quem não ouve, não conhece. Quem não conhece, não aprende. Quem não aprende, não ouve. E assim tudo outra vez de novo, porque a vida gosta do que é cíclico. E é a essas três palavrinhas brincando em círculo que nós, nos dias de hoje, damos o nome de disciplina.

Não pode ser coincidência que discere se pareça tanto com dicere, e ao mesmo tempo seja tão diferente. Dicere é a raiz do nosso verbo dizer, e regia-se pelo sentimento de lançar o que se diz de forma solene. Imagino que, antigamente, se discere mais que dicere. Ouvia-se (conhecia-se, aprendia-se) mais do que se dizia. Nesse dizer que tinha a marca do solene, devia haver mais disciplina e com ela mais consistência.

Ontem foi um dia de manhã de mata. Domingo de cachoeira. Entre gente boa. Povo luminoso. Agora que a noite já passou sobre a minha casa, seu silêncio de estrelas espreitando por entre as cortinas, a manhã parece uma anunciação. Os meus dedos correm pelas palavras, como numa urgência de que esta alma que me habita, essa aragem com ar de pluma, não se perca, não se dilua, não se vá. 

Voltei da mata com a alma leve - cansada, mas leve. Sensação de haver-se limpado boa parte do que me rodeia, do que me acompanha, do que às vezes se interpõe a meio do meu caminho. As distrações do dia a dia. A falta de sono. As presenças alheias. Tudo a água levou. Sensação também de vida aberta. De nova força. Do sorriso de Deus sobre mim. Deixou-me um brilho feito de palavra ressoando nos ouvidos: redução. Mais uma dessas palavras que sei ser preciso explorar para clarear a vida, essas palavras que ouço para poder conhecer e aprender. É essa a disciplina da minha vida.

Penso na redução ao abrir o armário da cozinha, agora cedo. Vou pensando, enquanto faço as dobradiças se movimentarem, no quanto algo que se reduz ganha condensação, mas perde fluidez e com ela liberdade. Deve ser por isso que os meus dedos encostam no vidro de vinagre balsâmico reduzido, aquele tempero agridoce para saladas. Numa materialização do que pensava, esse vinagre balsâmico reduzido que tenho nas mãos é mais doce, mais intenso, mais concentrado naquilo que dele restou, mas é também mais denso e viscoso. Escorre com lentidão, mais presa do ar e do limite do espaço do que a sua versão líquida, que flui sobre as folhas de rúcula no prato sem se lhes colar pegajosamente. Gasta-se mais devagar: a redução dura mais tempo que o líquido original. Seu gosto é mais intenso. Nada fica no prato depois de comida a salada e seu gosto permanece na boca do comensal por mais tempo.

Reduzir reduz volume, tamanho, quantidade. Elimina uma parte para que sobre o que, ao olhar, parece essencial. Para onde irá a vida líquida do vinagre em estado bruto e aquoso? O que sofre, na matéria, o efeito da redução? Volátil, espalha-se na atmosfera, funde-se ao nada e torna-se sua partícula. Irrecuperável.

Pessoas, que não são vinagre, não podem ser reduzidas. Precisam de todas as suas partes essenciais; ao contrário do que pensamos não são uma, mas várias. E precisam também de todas as outras, as não essenciais, essas que por vezes parecem tão menores, ou tão maiores, que chegam a assustar os outros.

A manhã de ontem firmou o meu espírito sem reduzi-lo. Devolveu-lhe a luz e o brilho que é dele mesmo, porque provém de onde provém. Deve ser por isso que a minha alma ficou tão leve, tão presente em si mesma. O que mais fazer, a não ser agradecer a semana que vem pela frente, pronta a ouvir, a conhecer, a aprender, sem precisar reduzir-me nem reduzir a vida ao meu redor?


Foto: Joaquim Luiz Nogueira


03/10/2013

Concha, mar e brisa

"A brisa do mar revolto dentro da concha aberta dos meus dedos": não há nada, em toda a minha vida, que me preencha com a verdade que têm as palavras. Tateiam-me por onde eu passo, oferecem-se nas mãos estendidas dos outros, que às vezes sequer percebem a oferta generosa que me fazem. É preciso que lhes agradeça.

Como concha, mar e brisa, esse presente de três palavras que acabo de receber neste instante, e tão simplesmente. Tenho treinado meus olhos para que não lacrimejem onde e quando não devem, porque as palavras fazem isso com eles, especialmente palavras úmidas, tecidas, inflamáveis; palavras que entram como avalanches dentro de mim e passeiam sem decência pelas minhas  mais internas concavidades. Despertam tatos, lugares do coração, do estômago, das veias, da pele. E os olhos querem transbordar a qualquer custo, porque é preciso deixar sair essa água toda que as palavras fazem catapultar dos meus abismos. Serão saudades da praia, da areia do mar, do calor do sol? Não, é mais fundo do que isso, são motivos que nem mesmo têm memória.

Mas não podem meus olhos lacrimejar - estou quase no final de uma aula. Se ainda fosse a meio dela, poderia até acontecer, porque haveria tempo para digerir. Prometo-me escrever assim que acabe (aqui estou em cumprimento ao prometido), para poder viajar em paz logo mais, sem ser sacudida pelas ondas desses mares que desaguam das palavras. Quero ser rio, hoje, e não mar.

Quando escrevo, automática e espontânea, "a brisa do mar revolto dentro da concha aberta dos meus dedos", não penso. São as palavras que me pensam, são as palavras que me guiam, nessa vida própria que têm e me revelam, a mim mesma, o que a tanto custo tento descobrir pensando. Não preciso, basta que escreva. E mesmo não sendo lida, e quando lida não compreendida, e quando compreendida não abraçada, as palavras permanecem, porque a sua essência é a permanência.

08/04/2013

De mãos dadas

Traduzo há anos. Com interrupções, às vezes mais às vezes menos, às vezes mais bem paga às vezes menos, mas há anos. Atividade solitária e silenciosa, há momentos em que fujo dela o quanto e mais longe posso. Porque é uma arte, e a arte às vezes dói, demora-se, frustra. Doem-me as costas. Demoro horas, meses (muitos), e ainda assim não consigo chegar às palavras de outras línguas que quero perfeitas na nossa. Poesia, então... dureza árdua. Se a descubro presente em todas as páginas (é o caso da tradução que tenho em mãos), preciso mover-me lentamente parágrafo a parágrafo, verso a verso, preciso desinquietar-me do mundo para estar à vontade entre as linhas. E preciso parar, de tempos em tempos, e ir em busca de inspiração nos bons tradutores dos bons poetas.

Começo pela língua original. Saboreio-lhe a riqueza diferente da minha terra mãe. Digo-a em voz alta, para que o ar em volta se compenetre dessa vida própria que preciso absorver para poder traduzir. Perco-me um tempo por entre as páginas. Como hoje, agora à noite, que decido ser tempo de Elisabeth Bishop. Paro muitos minutos diante das letras que formam o poema "One Art". Leio em voz baixa, leio em voz alta, corro ao espelho, saio à varanda, quase que chamo o vizinho para ouvir, e depois repito tudo outra vez. Preciso de apoio e de companhia, a vida tingiu-se de cores sem palavras.

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

De Bishop rumo ao seu tradutor - Paulo Mendes Britto. Encontro-me e aninho-me por entre o ritmo de austeridade mantido; por entre as imagens desconstruídas e reconstruídas com força e ímpeto tão iguais (de joking voice a riso etéreo, de hour badly spent a hora gasta bestamente, de losing farther, losing faster a perca mais rápido, com mais critério); diante do encontro que quase parece fortuito entre mistério/sério/austero/mistério colado em mesmo grau e intensidade a master/disaster/fluster/master. E outra vez leio em voz baixa, e em voz alta, e corro ao espelho, e saio à varanda e quase outra vez chamo o vizinho para que também ele possa ouvir. Apoio e companhia, e as cores tingindo-se de palavras diante do escuro da noite.


A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

E vou e volto entre uma e outra, até que de repente meus dedos se desentorpecem e deixam escorrer e escapar as palavras que trago contidas, retidas, como se usassem um escafandro nessa água toda que de repente me inunda e se recusa a sair. Talvez sejam lágrimas, mas do lado de dentro parecem rios caudalosos. Saem assim, numa dose de serenidade inaudita:

Perde-se de vista o olhar encontrado.
Perde-se da mão estendida aquela que a preenchia.
Perde-se o risco da perda na tentativa.
Perde-se o sentido.
Perde-se o perdido.

Perde-se o centro dentro do espelho.


Perde-se o reflexo no escuro da retina.
Perde-se o outro à entrada da alma.
E ganha-se tudo quando a vida é absolvida e o amor inalterado.


Agora, sim, posso virar-me para o lado e recomeçar a tradução que devo terminar. Mãos dadas com a desinquietação que chegou de presente, e varreu o medo e a dúvida para o lado de fora da porta.




01/04/2013

O sol, riqueza dos pobres

Diz-se isso, algures: que o sol é a riqueza dos pobres. Veio-me à lembrança porque dia desses me perguntaram de onde mesmo vinha a palavra quarar. Com ajuda de uns e outros, descobri que a palavra deriva do corar lusitano, absorvido e transmutado pelo tupi. Vale o mesmo que branquear, ao sol, a roupa branca necessitada de um tratamento extra. Ninguém mais faz isso: talvez os pobres, quando o sol lhes é a única riqueza.

E por que isso? Porque tenho uma amiga que me pergunta, aflita, o que fazer com um lençol sujo, encardido e manchado. Poderia parecer mais fácil comprar um novo. O que custaria? Vinte reais? Que seja: as soluções fáceis e rápidas contêm em si um perigo. Vamos assumindo-as como se fossem possíveis, e a vida vai se tornando, com a sutileza das coisas que parecem não ter importância, uma coisa descartável: manchou, troca; sujou, compra um novo. No momento sério, aquele que ao olhar para trás poderá revelar-se o limiar de um novo nós, pode ser que tendamos a fazer o mesmo. E de repente descobrimos que nos perdemos. Melhor quarar a alma ao sol, vez por outra.

Pergunto a minha amiga de que manchas quer ela se livrar. De tudo, responde evasiva. Não vou me meter na sua vida - melhor ajudá-la de forma pragmática, até porque gosto de encontrar soluções que nos livrem do supérfluo do supérfluo, especialmente em termos de limpeza. Descubro uma infinidade de dicas para quem quer voltar a ter um lençol branco como neve, sem esvaziar as prateleiras do supermercado. Como pode ser que sirva a outros (quem não tem um lençol pra lavar?!), segue abaixo o receituário completo. 

Lençóis brancos, e a sua irrecusável sensação de limpeza, estão perto do que as nossas almas respiram: sujam-se e limpam-se e sujam-se e limpam-se. Erram e acertam, e acertam e erram. Às vezes, precisam de ajuda, especialmente para o limpar-se e o acertar. Pequenas dicas de quem já tenha se sujado e errado por aí. O importante, creio, é não se render, imaginando que as manchas possam ser descartadas ou encaixotadas - como uma pele que trocássemos porque a nossa se enrugou antes da hora. Cedo ou tarde, elas voltam - melhor cuidar delas, e com o carinho que merecem por tudo o que nos fizeram e fazem crescer. À alma, ponho-a a quarar amanhã cedinho; quanto ao lençol, seguem-se outras possibilidades:

- deixá-lo de molho durante a noite com uma colher de sopa de amoníaco ou suco de limão;
- se muito, mas muito sujo mesmo, ferve-lo em balde de alumínio, com uma colher de sopa de terebentina. Amoníaco, na falta dela. Suco de limão, na falta de ambos;
- lençol amarelado, mais do que sujo? Lave-se com meia xícara de álcool;
- a mancha é de sangue? Esfregue-se com água oxigenada 10 volumes;
- uma tampa de anil líquido, 3 colheres de sopa de álcool, 1 colher de sopa de amoníaco e 1 colher de chá de bicarbonato parece bruxaria - mas é da branca. Deixa-se de molho por 4 horas e não se elimina da receita o bicarbonato, que é quem impede que o anil manche;
- mais uma: em água fervente, dissolvem-se 2 colheres de sopa de sabão em pó, 1 colher de sopa de aguarrás e 1 colher de sopa de amoníaco; acrescenta-se a mistela a um balde com água fria, onde a roupa ficará de molho por 4 horas;
- a inusitada: em balde grande, dissolvem-se duas colheres de sopa de sabão em pó; bate-se até formar espuma e então junta-se um saquinho de filó cheio de cascas de ovos esmagadas. Molho de uma hora;
- para deixar preparado e juntar à água da lavagem: 4 litros de água, 1/2 kg de sabão em pó, 1 kg de bórax ou ácido bórico (vende-se em farmácias e serve também pra fazer bombas caseiras também; pode ser que alguém ache estranho...). Aquece-se a água, dissolve-se o sabão em pó e depois o bórax. Não é preciso ferver. Deixa-se esfriar e guarda-se. Usa-se uma xícara bem cheia no tanque; 3/4 na máquina.
- e se você é daqueles que preferem ver, e só vendo pra crer:
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=ePaRlGPPKHA

Boa limpeza!


03/03/2013

O lago de Isaura

Este é o último dia. Isaura muda-se para um lugar menor, mais apertado. Escolheu-o pelas janelas, que são maiores e deixam entrar mais luz. Tanto faz que o espaço seja menor, mas porque é menor, e bem menor, Isaura está sentada no chão de ladrilhos do seu ainda apartamento, arrumando em caixas estreitas o que decidiu deixar. Entre todas as coisas, há aquelas que não levará, e nem ao peso da recordação que se lhes amarrou. As mãos de Isaura acariciam as superfícies. Ainda estão quentes. A garrafa vazia de café. Os lábios tatuados no copo de vidro. A sombra dos cigarros no cinzeiro queimado. E outras coisas, que não tiveram tempo de ganhar nome. Também as palavras, aquelas de natureza volátil como cheiro de nuvem, aquelas que aos poucos se apagam (se apagarão) das telas das retinas dos olhos de Isaura. Também elas precisam ser encaixotadas. Como pinturas complexas e vibrantes de consistência líquida, são palavras que se descolam das retinas. Isaura observa o seu cair diante do espelho baço do banheiro. E lembra-se da escova de dentes, e volta à sala para colocá-la junto às demais coisas. Armindo ganha forma no chão da sala, feito das coisas que se lhe encostaram. Nenhuma marca de sua música, apenas as marcas de seus dedos, e mesmo elas tão difíceis de serem recriadas.

Isaura fecha os olhos, porque toda essa água que cai diante do espelho lhe dói. Porque a garrafa de café lhe dói. Porque a caixa em que guarda o café sem abrir lhe dói. O presente sem entregar lhe dói. O cinto esquecido lhe dói. Mas a água continua sem atenção à dor, e já está o chão do apartamento cheio dela, e sobe pelas paredes como se subisse através da pele da casa de Isaura, e levasse as últimas marcas. A água escorre pela garganta de Isaura, lava-lhe o corpo por dentro. Está tudo inundado, a garganta, o sexo, os espaços entre os dedos dos pés, o corpo amarrado ao colchão. Isaura escoa-se em água e está dentro do lago. Costuma ser um sonho, isso, mas Isaura sente a pele molhada como se secasse ao sol em cima de uma pedra, ao lado do rio de onde a içam quando querem.

Há um homem, na margem desse lago, e Isaura gostaria que fosse Armindo. Mas Armindo está longe, rodeando outros lagos, e ele, diz Isaura por entre a água que a invade, ele, mesmo assim, com tudo, ainda assim - Armindo não riria, e o homem na margem ri. Mas enquanto a água lhe sobe narinas acima, Isaura sabe que ninguém a não ser Armindo saberia que esse é o lago do seu afogamento. E como o riso na margem é tudo o que ela ouve, tudo o que ela ouve é o riso de Armindo, aquele que sabe do lago. Os olhos de Isaura transbordados da água do lago, os olhos de Isaura inundados da sua própria água. Os olhos de Isaura dentro do lago - esse lago parado como é da natureza dos lagos. Uma ilusão salobra, um silêncio aquático liso, interrompido pelas notas distantes do riso do homem à margem, de Armindo à margem. 

A escuridão calada da profundeza das águas move-se por baixo, sem que ninguém a veja, mas Isaura sente-a aliciando-lhe as plantas dos pés, enredando-se como hera em suas pernas, puxando-a para baixo. Pode-se fazer de conta que o lago não é triste. Pode-se fazer de conta que se pode ficar o tempo que se quiser dentro dele, as narinas cheias do cheiro antigo que o corpo reconhece, e fechar os olhos e imaginar uma outra noite qualquer em que se consiga escapar ao enfiar os pés no lago e ser sugado por ele. Fazer de conta que a solidão do lago é diferente da solidão das outras coisas, e estas diferentes da solidão dos abismos, e esta da solidão das noites, da solidão do tempo, da solidão do abandono. E fazer de conta que há um cheiro flutuando ao de cima do lago, quando não há nada a não ser o riso do homem à margem.

E o lago penetra Isaura, ela permite-lhe passagem para dentro de seus pulmões, presença de líquido onde só o ar faz morada pacífica. E só o que se ouve é aquele ruído rouco de riso de que já se falou tanto, no lago que sobe em direção à garganta. E então a janela fechada, a luz e a água que agora vive no chão da casa de Isaura invadem as narinas, e o lago está lá, ainda, seu silêncio encrustado, de mãos dadas com o riso à margem. Tudo diluído nesse fim de apartamento, quando a dor transborda os olhos para que a alma passe.