13/03/12

Curar panelas: dicas para quem esqueceu


Ao Daniel e à Betina, através das conversas de um dia bom

Quando se compra uma panela de barro ou ferro ou pedra, é preciso curá-la. Prepará-la para ir ao fogo e cozinhar a comida. Há várias maneiras disso ser feito, mas hoje, quando me perguntaram por aqui mesmo como era que se curavam panelas de barro, precisei avisar que há um procedimento básico, sim, mas que cada panela é uma panela. Cada forno é um forno. Cada dia é um dia. 

O básico, conforme já aprendi em mais de um lugar, com variações que percebi serem bastante irrelevantes, daquelas coisas que se inventam e depois se apelidam de “tradição”, é: unta-se com óleo por dentro e por fora e põe-se no forno bem quente durante uma hora. Mais ou menos uma hora. Mais ou menos óleo. Mais ou menos fogo forte. Porque é preciso observar o comportamento das coisas para saber como lhes pôr a mão. Nada é igual a nada. Cada panela pede um amparo diferente. Como as pessoas.

Existem até, por aí, panelas que não precisam de cura – vêm prontas da loja, é lavar e usar. Quase como comprar roupa pronta, sem precisar ver medidas, provas, saborear aos poucos a saia nova que se vai vestir. Há as de alumínio – mas fazem mal à saúde, mesmo aquelas pesadas sem polir, que sujeitos que gostam de conversar vendem pelas ruas nuns carrinhos que equilibram dezenas delas. Há as de inox, também, mas são caras, não é qualquer um que se aproxima. As de ágata eram boas, mas só antigamente, agora vem tudo da China: espirrou, lascou. Todas elas (menos as de ágata, já se vê) duram para sempre, as propagandas frisam bem essa peculiaridade, o que pode ser uma eternidade ou o sopro de um minuto, uma vantagem ou um tremendo de um incômodo – depende muito da relação que se estabeleceu com elas. Como chegaram às nossas vidas. Pelas mãos de quem. Com quais intenções. Como as pessoas.

As de barro, as de ferro, as de pedra não chegam assim tão facilmente, tão óbvias. Tive um caldeirão de pedra por quem me apaixonei certa vez que demorei pra curar: não cabia no forno, de tão grande! Encontrei-o em Varginha, a caminho de Carmo da Cachoeira, escondido atrás de uma estante escura e empoeirada. Fui usando-o bem de levinho; untei-o de óleo dias a fio, fui fervendo um tantinho de água aqui, outro ali, sem chamar muito a sua atenção, pra não acabar trincando. Pesava muito, mas muito; era difícil a operação limpeza. Mas fez muitas sopas boas, generosas, profícuas. Por fim trincou, e ganhou uma planta  verdejante e ampla para recheá-lo. Ficou pra sempre ao meu lado – mas de outras formas, mais sutilizadas, sem a obviedade do cotidiano. Como as pessoas.

Com mais de metade das panelas ainda encaixotadas pela mudança, às vezes sinto falta de algumas delas, e não faço ideia de por onde andam. Gostaria de tê-las por perto, ainda que sequer as usasse porque a cozinha a rigor ainda só existe pela metade. Mas seria bom podermos olhar umas pras outras, respirar o ar de promessas gastronômicas, lembrar das boas coisas que se compartilharam de dentro delas, rir das bobagens que se disseram enquanto se espreitava o que se mexia com a colher de pau. Como as pessoas.

O engraçado é que, às panelas, precisemos curá-las antes de nos tornarmos íntimos. Cuidá-las num antes para que num depois não trinquem. Não percam a sua função suprema. Não nos deixem na mão, deixando derramar seu conteúdo precioso no tampo do fogão. Não queimem tudo o que lhes pusermos dentro. Porque, às pessoas, costumamos na maioria das vezes precisar curá-las depois de as termos descoberto, depois de nos termos aproximado e entrado nas suas vidas, das maneiras mais insuspeitas, depois de as termos usado no bom sentido, permeando-as com os nossos sentidos e os nossos significados. 

Precisamos curá-las porque às vezes elas trincam, elas se ferem, lascam, perdem pedaços entre o armário e a pia, o fogão e a bancada. E nem sempre nos damos conta, e quando percebemos já elas estão a caminho de outra função, porque nos esquecemos ou não conseguimos curá-las a tempo. Bom é quando se encontram pessoas que cuidam da cura e protegem o tempo, alicerçam a aproximação com sutis camadas de óleo, essa matéria densa que flui escorregando, untando - como gostam alguns de dizer, "temperando a vida", com coisas que só a vida dá.