17/03/2012

Promessas


Acabam de me dizer, por telefone, que o óbvio e o sutil são coisas muito próximas. Escrever, às vezes, é uma tentativa de se encaixar a vida no vão que se forma entre ambos. De forma sutil, falar do óbvio. Crônicas usam largamente desse artifício. Da seguinte forma.

Parte-se de qualquer coisa. Por exemplo, da palavra “promessa”. Porque se pensou nela. Porque se tornou semente e ficou germinando por dentro. Porque alguém falou, ou de repente lemos em algum canto. Para se partir de uma palavra assim à toa, um recurso muito útil (e que pode poupar horas e horas de análise) é um bom dicionário etimológico. Ou, enquanto se vence a preguiça de procurar um, pensar em como outras línguas traduzem a palavra. No caso de promessa: promise em inglês, promesso em italiano, promesa em castelhano, promesse em francês. Vê-se que a raiz histórica é a mesma – dá logo vontade de saber mais!

Crônicas nutrem-se da curiosidade e da surpresa. Além do humor, que rezam os manuais devam contemplar, é preciso uma pequena surpresa, filha do movimento curioso. Crônicas, aliás, são coisas que se nutrem de pequenas, ínfimas surpresas, coisas que nos fazem soltar um “ó!” súbito, quase inaudível. Diferentes de coisas mais agudas, como os romances, que nos fazem rir, tremer, chorar, se extasiar, às vezes em doses superlativas. Crônicas, não: são leves, alívios, plumas absolutas no mar estranho que nos rodeia.

A surpresa, então, pode vir do significado original da palavra que se pescou no mar de todas as demais. Promessa, à guisa de ilustração, vem da palavra latina promissus: que significa fluxo, fluir, fluindo. Promessa pode portanto ser aquilo que flui, ou o próprio fluxo. (Vai ficando interessante.)

O acaso (se tal coisa existisse) ajuda bastante a escrita de crônicas. Quase sem querer, deslizando os olhos pelo longo verbete dedicado a promissus, vejo que dele se origina a palavra spondere. Só porque gosto de palavras que começam com encontros estranhos como spon, que se derretem na boca quando começam a ser pronunciados, decido ver do que se trata. E as coisas começam a fazer sentido e a encaixar-se, naquele vão entre o sútil e o óbvio; se eu estivesse à procura de uma explicação para alguma coisa, teria acabado de encontrá-la. Ora veja:

Spondere, além de ser filha de promissus, é parte integrante do nosso verbo “responder”: re-spondere. Considerando que promissus (e spondere por proximidade) significava fluir, e que re é prefixo largamente usado que significa basicamente “de volta”, chegamos à constatação (entre o óbvio e o sutil) de que uma resposta é algo que coloca o “fluxo de volta”. Sem respostas, não há fluxo que se mantenha.

E brinquemos um pouco de mais de prefixar a vida. Corresponder: aquele “fluxo de volta” adquire o fantástico co, que nos acompanha desde que o tempo ainda não era tempo de nada: vem do proto-indo-europeu kom, que significa tanto perto quanto junto quanto com. Ou seja: corresponder trata-se de criar, perto, junto e com alguém, um fluxo que retorna. Só de pensar, a gente se engrandece.

Mas promessa dá ensejo ainda a outras coisas! O verbo prometer, por incrível que pareça, tem um passado histórico muito diferente. O latino promittere tem dois grandes ancestrais (mittere e omittere) e um prefixo que muda tudo (pro). Dando asas à imaginação, posso perfeitamente pensar que, se prometo algo a alguém, envio (mittere) meu desejo, cuidando-o e pondo-o a um lado, para que não se perca (omittere). Para chegar ao nosso prometer, preciso agregar o sufixo pro, que faz com que o futuro se antecipe: envio e cuido, mas antes mesmo que tal coisa possa acontecer. E num átimo aparece-me de novo o prefixo com, que tudo mais uma vez amplia. Quando me com-pro-meto, é porque tudo aquilo (enviar e guardar antes mesmo que seja hora) deu-se com a participação de outro(s). Algo que foi pensado, desejado, querido é enviado, guardado e cuidado – junto, perto e com alguém, antes mesmo que possa ser tudo isso.

Sempre que escrevo, percebo o quanto me com-pro-meto. Ao contrário de Menalton Braff, de quem falava outro dia, não escrevo para mim mesma. Ou talvez no fundo o faça, mas é através do outro que acontece. Porque escrevo para que o outro leia, para que o outro me capte, no óbvio e no sutil, na minha escolha das palavras e nas ideias que talvez aleatoriamente procure para torná-las carne e osso. Porque tudo, na vida, é pretexto de alguma coisa: tudo, na vida, é uma espécie de ensaio daquilo que depois, aqui, será texto, antes que seja passado. As crônicas, são sobre isso. Sobre as respostas que se dão à vida para que o fluxo não se interrompa, e para que o antes não se perca em face do depois, que talvez venha a ser só silêncio.