06/03/2012

A cidade nova III - A porta


Minha vizinha, dona S., vem visitar-me. Fez pão de torresmo e aparece quando estou sozinha: “só sobrou um pedacinho, e aqui na sua casa é gente demais. Da próxima vez faço uma receita inteira só pra vocês!”. Curiosa como ela só, transpira vontade de conhecer o lado de dentro desta obra que não acaba, destes vizinhos que lhe caíram na sorte. Cheia de opinião, não entende porque troquei as janelas da frente, menos ainda por que a entrada é por trás. “Mas filha, por trás?!”. E abana a cabeça sem compreender. Nitidamente, a maior desaprovação.

Chegamos à porta e ela estaca. “Linda, sua porta.” E é, de fato, lixada por mãos que a tornam, aos meus olhos, além de linda, preciosa. “Pena essas janelinhas, não?” E eu olho-a incrédula, com uma súbita vontade de que volte rápido rápido pros seus domínios, sua casa, do outro lado do muro. Mas ela já deu a volta ao morro número 2 de entulho e terra e entra pela outra porta, a que um dia será a da lavanderia quando esta última existir e pudermos abrir a outra porta, aquela mesma bonita das janelas, por enquanto interditada pelo morro número 1 de terra e entulho. E entra toda feliz, reparando em tudo. Não me incomoda o seu interesse. Mostro-lhe a casa toda, tarefa que se cumpre de forma bem rápida, e ela tem tantas opiniões fáceis que me deixa zonza. Se a deixo dois milímetros mais à vontade, é capaz de abrir e inspecionar as gavetas!

Assim como chegou, foi-se. E deixa-me olhando para a porta, intrigada com a sua desavença com as janelas. Tão bom, uma porta com janelas. Posso abri-las quando chove. Posso abri-las pra ver o pé de canela lá de fora (aliás, do quintal da dona S., caindo pra dentro do meu com toda a sua opulência). Pra ver a chuva. O vento. O granizo, como o que caiu no sábado, furioso. Olho de longe por entre as aberturas e fico em paz. Provavelmente porque me dê a sensação de que uma porta fechada com janelas permite que espere com mais sossego pela abertura dos portões quando as portas se fecham. Aquelas da vida, pra cumprir a metáfora.

É uma porta sem convicções, talvez: está fechada, mas abre-se. Está aberta, mas fecha-se. Dá-se a todos da maneira como a queiram receber. Só é preciso estar aberto a que as coisas não precisem ser apenas o que parecem, mas possam transcender-se e não se limitar – pra que ser apenas porta, se é possível ser janelas também? E que possam ser aquilo que são, tudo o que são, sem os rótulos que as fechem e prendam, aferrolhem quase. Como acontece com as portas sem janelas, por onde não se pode espreitar as promessas lá de fora, a não ser que se escancarem e assumam a sua única identidade. E, a essas, não é dado o prazer do olhar através – atravessa-se, sai-se ou entra-se. O máximo, máximo, é poder sentar-se na soleira, apreciando o fim de tarde e pensando em como será bom quando se puderem abrir umas janelas e dar a essa porta olhos de ver.