28/03/2012

A cidade nova VII - o presente

Dona S. tem andado quietinha nos últimos dias. Quase não a vejo. Ontem saiu de casa com o genro, de carro. Arrumada e aposto que perfumada. Com pressa. Nem me viu aqui dentro da janela.

Hoje, como se a consciência lhe tivesse pesado, espreita pelo portão justamente quando chego de bicicleta. Dona S. tem uns olhos vivos que piscam sem parar, o cabelo grisalho cortado curto, jeito de andar de quem é despachado na vida. "Se eu soubesse andar de bicicleta e não tivesse vergonha de andar com as pernas de fora que nem você, também andava, sabia?". Rio, encolho os ombros e lembro de agradecer os pastéis de cebola que ela trouxe no sábado, pra mudar o rumo da conversa. Mas Dona S. é dura na queda: "Pois é, e de novo você não estava aqui, né? Tanto que você trabalha, pela mãe santíssima!". Se eu fosse me dar ao trabalho de ficar pensando que os outros querem dizer uma coisa dizendo outra, ficaria com uma pulga atrás de cada orelha. Mas é demais isso, prefiro convidá-la para entrar.

Não tem tempo, tem uma missão importante. E chega-se para perto, olhos cravados em nosso vizinho, Seu G., vindo da esquina de lá em passos hesitantes. Mesmo sem tempo, empurra-se pra dentro do portão. Seu G. não deve ser o problema: seus grandes olhos azuis esquecidos, cor de Alzheimer, perguntam-me todas as manhãs quem sou. Não se lembraria do que ouvisse.

Dona S. tem um presente pra me dar. Mas antes quer me perguntar se eu quero, que não é coisa que se dê a qualquer um, assim de qualquer jeito. Anos atrás, quando seu marido morreu, comprou um plano funerário. Desses que a gente paga a vida toda pra não dar trabalho pra quem fica quando a gente se for. O plano dela é dos melhores - não paga quase nada, um sistema que não entendo de "quando morre um tanto de gente que começa com S., que é a letra do meu nome, aí que eu pago, mas só um tantinho...". De vez em quando, tem uns sorteios, conta, assim como se fosse um consórcio. E Dona S. ganhou um dos últimos: 10 caixões para distribuir pela família. Decido sentar-me - a história vai longa e promete.

Como não tem família pra tanto caixão, quer oferecer-me um de presente. E prende entre as suas uma de minhas mãos, para garantir que não seria para qualquer um que faria esse agrado. Eu procuro, mas não encontro reação pra lhe dar. Conta-me detalhes do imóvel de vida eterna: não é coisa de luxo, mas também não é daqueles de pobre. Não que faça diferença, diz ela, mas não precisa esculhambar. Acrescenta que se eu quiser um plano desses, ela me leva lá, e ainda me consegue um desconto. Porque além do caixão, tem outros gastos, o transporte, as velas, as flores, o tapete... Ri-se de repente e diz que "de transporte nem precisamos, né? é só empurrar até o fim da rua!!" E ri com sua grande boca de risos incontidos. É que moramos na rua que morre no cemitério. Eu sorrio, aceno a cabeça, falo um "hmm" de vez em quando...

Não sei que lhe diga. Nunca me fizeram uma oferta dessas. Pergunto-lhe onde fica o caixão até ser usado: "filha, na funerária... vc queria ficar com ele em casa?!". Deve achar que eu não penso, penso. Mas penso, e estou até atônita. Não sei se quero um caixão e não sei como dizer-lhe isso. Estou quase prestes a aceitar, e a agradecer, tudo graças à boa educação que me deram, quando ela se levanta e me diz que pense, pense que isso é coisa séria, não é pro resto da vida mas é pro tempo todo da morte. E assim como veio, com pressa e dizendo que não podia entrar, foi-se, acenando pro Seu G. que entretanto nem saiu de onde estava, encostado à árvore da calçada com quem conversa todas as tardes.