12/03/2012

Questão de entendimento

Tem gente que entende as coisas errado. Ou as traduz sem saber primeiro falar a língua do outro. Ou, pior: decide interpretar o mundo através só e apenas do seu prisma, esquecendo-se de que talvez na língua dos outros as coisas se processem diferentes. Se encontrem diferentes. Tenham significados diferentes. Tanto faz se mais ou menos profundos por trás de palavras que parecem coisas tão simples: são sentimentos que ultrapassam as fronteiras do país da simplicidade. Seja isso bom ou não.

Acontece por todo lado, nos espaços mais insuspeitos. De certa forma, é um alívio, porque afinal constata-se que está arraigado o costume, não é coisa apenas da própria vida ou do próprio círculo.

Basta sair de casa pra ver o fenômeno acontecer. Acho até que saio justamente para que isso aconteça,  e meu coração se aquiete. Só pode ser isso: não é possível que em tão pouco tempo se esparramem exemplos tão palpáveis.

Primeira parada: supermercado. Cai-me um exemplo no colo: é óbvia a boa intenção de quem escreveu, nem é possível achar que foi falta de atenção, percebe-se o capricho. Morri de rir quando li. Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. E às vezes confundem-se as coisas, troca-se uma letra na leitura, outra na escrita, e o resultado não é o esperado. E, aqui, a ordem dos fatores incomoda o resultado. Ainda que a primeira reação seja o riso.
















A seguir, passo no restaurante da esquina. Tradicional, arejado, com cara de estabelecimento antigo onde se comia antes de comer fazer mal. Seus pratos, generosos, servem fácil até 6 pessoas, e ainda se leva marmita porque sempre sobra coisa! O cardápio quer ser internacional, provavelmente porque o dono deseje acolher também os de outros lados do mundo, o que é louvável, aplaudível, uma dose de simpatia extra que se constata assim que se bate um papo com o próprio. Mas lá vem mais um exemplo pra me cutucar e fazer escrever estas linhas, confirmando que a intenção se afasta às vezes (quantas vezes!) do resultado que se deseja. (E mais um ataque de riso.) Porque não se sabe, porque não se perguntou, porque se chegou a conclusões apressadas sobre a forma como os outros dizem (ou seja, sentem) as coisas. Com a melhor das intenções.






Mas pior de tudo, penso conforme desço a escadinha do restaurante, é quando se deve dizer alguma coisa e não se diz. Quando se guardam as medidas e as proporções e se escondem as próprias falhas e mazelas e desejos e dúvidas atrás de um silêncio que é o que menos respeita o outro e as suas diferenças. Porque as toma por incompetentes, incapazes (ainda que a intenção não seja essa). Subestima quem está ao redor. (idem) Desrespeita aquele princípio básico que já a Declaração Universal dos Direitos Humanos consagrou, de que todos nascem iguais (ibidem). Para provar, afinal, que todos nascem iguais, sim - mas uns tornam-se mais iguais do que outros, que assim ficam diferentes e não por isso podem (ou precisam, qual a diferença?!) ser entendidos, ou seja, considerados. Mesmo com a melhor das intenções.

Afinal, sol alto a queimar tudo ao redor, decido guardar a máquina fotográfica e voltar para casa. Antes que fique tarde. Antes que desanime da caminhada que me falta. Antes que decida pedir uma festa de um só e acabe dançando sozinha.