15/07/2009

De férias, arrumações e amores esquecidos

Protelada durante anos, a que deveria ser tradicional limpeza da biblioteca de casa, concretizou-se nestes últimos dias. Pilhas e pilhas de livros espalhados pelo chão – livros, poeira e restos de sabe-se lá quais insetos que se depositaram a si próprios no espaço entre as paredes e as prateleiras. A chuva, lá fora, adormece os ânimos e o silêncio torna-se mais fundo. Os livros adquirem vida e abrem-se sob as minhas mãos.

Começo pelos africanos, unicamente porque estão ao lado da janela e porque me apetece olhar para a vida lá fora de vez em quando. Na prateleira mais alta, porém, onde a lei da lógica ordena que o que está em cima suje inevitavelmente o que está embaixo, estão, na verdade, os açorianos, sobrepostos, na minha percepção temporal, aos africanos que me chegaram depois. Esse o motivo de lhes serem mais altos.

E assim, mal começo, já paro a ler, a folhear, a me desesperar em pouco tempo porque, assim, certamente levarei o que me resta das férias que tenho para chegar à última prateleira, na parede oposta – a dos dicionários e outros metalinguistas que tais, que incluem (vejo daqui porque a lombada grita em amarelo) um dicionário do falar algarvio, comprado em não sei que feira de verão em Lisboa.

Volto-me outra vez para os Açores, e lá estão: um Pedro da Silveira que eu já quase esqueci, apesar de seus olhos cinza como os do meu avô, um Vamberto que me traz recordações de silêncios perdidos no meio das suas poucas e a medo palavras, numa esplanada à beira do meio do Atlântico, um Emanuel que já se foi, deixando pra trás uma dedicatória que prometia muito mais do que o tempo que houve. Nestes açorianos misturam-se as pessoas e as páginas, porque se fazem não só de papel, mas de carne e osso e sangue também. Tantos anos eles aqui pendurados nesta última prateleira, e eu, ingrata, acompanhando apenas o vai e vem das prateleiras à altura dos olhos. Enquanto o tempo avançava, eles olhavam-me de cima, certos do dia do meu erguer de olhos e do espanar da poeira, libertando-os do esquecimento. Faço melhor: uso a escada que, com seus degraus largos, permite sentar-me à altura que queira e saborear o mundo de um lugar que não me pertence mais. Escolhi a prateleira do passado. Será melhor trocar o Vamberto de lugar – aqui, mais embaixo, onde me fique à mão de me lembrar de lembrar-me.

O J. A. Llardent, nem açoriano nem africano, corre-me à lembrança – está na prateleira errada. Encontro-me a repensar as cartas, na caixa da prateleira de cima, mas lá do outro lado, no canto que a resguarda de todos os que entram. Não corro até ela – sei partes de cor e como estou mais velha, e às vezes lembro-me de saber que é bom saborear sem que as coisas venham a correr postar-se ao nosso lado, antecipo num canto da minha alma o prazer de desdobrar as folhas que estão na caixa, e reler as mesmas palavras escritas há tantos anos.

Por enquanto, basta-me espanar o resto da poeira de hoje, e despertar o prazer do caiado que começo, como se esta fosse uma casa em meio aos montes alentejanos - sim: é isso, cheguei à prateleira onde se escondia tombado o Manuel da Fonseca. Vejo diante de mim todas as azinheiras, os amigos antigos da Vidigueira, esquecidos com certeza - sob a terra muitos, com grande probabilidade. Mãos ao pincel, e com ele a liberdade da cal a pingar por todos os lados, como as páginas que hoje me recuperam.

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