04/01/2014

Ouvido de passarinho

Pode até ser, pensando bem, que eu tenha ficado atenta demais a tudo o que afeta os ouvidos. E isso porque, ontem de manhã, fiz a lavagem de ouvidos mais fantástica e bem feita de toda a minha vida. Estou ouvindo até o que não me diz respeito. E pode ser que me meta onde também não me diz respeito, mas assim como não consigo tampar os ouvidos, também não consigo calar a boca (ou, no caso, os dedos).

Por exemplo, ontem, começo de noite. Show-tributo a Elis Regina. Cantora boa, repertório bacana, assistência entusiasmada. Nesse calor que varre o Brasil de norte a sul, todo mundo quer é rua, é fresco, é brisa, é vento. E lá vamos todos, uns atrás dos outros, à procura da alegria desse ano novo já de três dias velho.

Estranho ver, no meio de tanta gente animada, dançando, cantando, aplaudindo, assobiando, tantos bebês de colo. Criaturas pequenas, de olhos abertos e cabeças quase implumes, sobrevivendo ao mundo adulto dos microfones, das guitarras, das baterias. Fiquei pensando no quanto eles prefeririam a conversa dos passarinhos de hoje à tarde nos galhos da acerola.

Eu sei, com bastante profundidade e experiência, o quanto é difícil criar filhos. O quanto é difícil atender a todas as solicitações da vida, moderna ou nem tanto, as que inventamos e as que nos inventam. (E ainda as da nossa própria alma, essa que vai se tornando mais densa e consciente de si conforme os anos passam.) Como é difícil sentir-se fazendo parte da vida quando ela assume esse novo contorno, invariavelmente improgramável e imponderável, e que parece afastar-nos da vida tal qual os outros a vivem. As certezas, nessa hora, esfumam-se, ou alojam-se em lugares tão estranhos, viscosos e escuros que certamente nada mais têm a ver conosco. É o que sentimos, pelo menos.

E é então que se começam a construir novas certezas. Ou pontos de vista. E como não somos nós o centro desses pontos, mas eles, os filhos, as coisas assumem outras premências, às vezes com o aspecto feroz da luta da leoa para manter seu filhote a salvo. Não são bem certezas, mas convicções de que a vida pode ser melhor do que parece, e nossos filhos merecem-na, e merecem que façamos levitar a nossa pequenez para consegui-lo.

Por isso as pessoas querem ter seus filhos da forma que acham correta, seja ela qual for. Por isso querem uma escola que respeite este e aquele valor, este e aquele ponto de vista e de formação sobre o mundo. Por isso procuram a alimentação melhor e mais de acordo com o que percebem e querem da vida. Por isso fazem as escolhas que fazem.

A questão é mantê-las e sustentá-las, e não se deixar abater por dragão algum: nem o lugar comum, nem a mídia, nem o "bom senso", nem a família, tradição e propriedade, nem as nossas fraquezas. Não é fácil.

Às vezes, falta informação. Outras, a informação vem, mas é tão difícil assimilá-la dentro da vida que já se tem, que deixa-se ir, esquece-se em cima de uma prateleira alta, dentro do armário entulhado... Às vezes, o imediatismo da vida moderna, a satisfação das vontades a qualquer preço, ataca-nos pelas costas, e quase não conseguimos desviar E às vezes não desviamos mesmo.

Mas o mais difícil é quando nos esquecemos de que é preciso pensar: pensar na coerência que as nossas escolhas, atitudes e movimentos precisam e devem assumir nessa coisa nova e transcendental que é ter uma criatura tão minúscula sob nosso cuidado e responsabilidade. E de mais ninguém, que essas coisas parecem ser divisíveis com avós, tios e primos, mas é mera ilusão: são as suas escolhas que vão pra balança, as escolhas eventuais dos outros são só bolhas de sabão. Ninguém precisa dar-lhes continuidade.

Ora bem. Se, em hipótese, eu decido que quero que meu filho nasça num ambiente humanizado, em que as suas necessidades de silêncio e penumbra sejam respeitadas, em que o tempo que corra seja o tempo dele e não o do mundo, e por isso o cordão umbilical só seja cortado quando já não pulsar; se, em hipótese, eu decido que a escola que eu quero para meu filho precisa respeitar as fases de seu desenvolvimento, o que inclui a imensa atenção e cuidado ao seu desenvolvimento físico especialmente nos primeiros sete anos de vida; se, em hipótese, eu procuro dar-lhe uma alimentação pura, seis meses de amamentação exclusiva pra começar, e depois o mínimo de agrotóxicos e processos industriais; se essas são as minhas hipóteses e é delas que parto para ir em direção ao horizonte: é preciso que também as demais escolhas sejam feitas, com os olhos no mesmo querer.

Por isso esses bebês imersos nesse ruído não podem ter espaço. A formação das suas capacidades auditivas em pleno processo de maturação torna-os permeáveis, a esses bebês, não só pelos ouvidos, mas pelo ar que os cerca como um todo. Ouvem com a pele, com os órgãos, com a água que forma 75% do seu corpo - e a pele, os órgãos e a água são plasmados pelo ambiente que lhes propiciamos.

Ao longo dos primeiros três anos (sobretudo) oferecemos às crianças a base rítmica para toda a sua vida. Sono e vigília, inspirar e expirar: a vida é feita de ritmos, a criança sabe disso e nós precisamos garantir que ela possa construí-los com saúde. Por isso horas certas de dormir e acordar, por isso atividades que conduzam de um estado a outro estado com suavidade. Também o ambiente auditivo, e os sons que formam um ouvido atento, sereno e compreensivo, precisa ser cuidado. Para que essa criança possa ser alguém permeável às paisagens sonoras da sua vida. Que possa ouvir o silêncio da mata. Discerni-lo do marulhar da água do mar no encontro com a areia. Do chilrear da passarada ao amanhecer. Do ronronar dos carros numa avenida ao longe. Do silêncio solene das estrelas numa noite de lua nova. Do companheiro que dorme ao seu lado. Do amigo que precisa de um ouvido. E do amor que segreda palavras doces - e verdadeiras.

E por isso valem a pena os sacrifícios - porque são ofícios sagrados no movimento etimológico mais exemplar. Valem a pena as concessões que precisamos fazer a nós mesmos e aos outros. Valem a pena o cuidado, a presença, o estar muito atento e o compartilhar de tudo isso. Porque o melhor todos queremos ser e fazer, mas é preciso o ouvido do outro para recebermos de volta o que nós mesmos precisamos ouvir.


Foto: Maíra Ventura

31/12/2013

Expectativas e esperanças


Termino o ano resolvendo um grande coágulo do meu 2013. Um coágulo, veja bem, é uma massa semi-sólida que se forma no sangue ou em qualquer outro fluido do corpo humano. Atrapalha muito o fluir dos elementos líquidos, aqueles seres que têm uma ligação forte com o tempo, como eu ouvia hoje à tarde ao telefone. Esses são os seres que transbordam, pingam, inundam, derramam, esparramam-se. Pois então: todo ano tem seus coágulos. O deste, de certa tortuosa forma, tem a ver com a tradução que se deu a um dos romances de Dickens, Great Expectations.

Pares de palavras são verdadeiros atratores. Desapegar e desprender, expectativas e esperanças: é como se alguém entreabrisse uma porta e ficasse me chamando, assim, só com um dedinho, uma tentação absurda me tirando daquilo que pareceria ser meu caminho, só que não: não é. Meu caminho é correr atrás dessas coisas pouco claras que parecem existir nas palavras mas existem mesmo é nas pessoas.

Na verdade, só me lembrei disso porque decidi hoje, último dia do ano, avançar numa tradução que veio se arrastando atrás de mim ao longo dos meses. Como se o dia nº 365 fosse fazer uma grande diferença. Tanto faz, pensei: sempre é tempo de começar. Mas a inspiração anda mesmo um tanto falha, e a mente insistiu outra vez em voar para outros cantos. Eu observo-a, e rio-me, e vou atrás dela. Para que resistir?

Para não chamar muito a minha atenção, a mente mantém-se no quesito "tradução", e lança-me de volta, como se fosse um disco de luta grega, esse Great Expectations. Na tradução para o português, transformou-se em "Grandes Esperanças", o que me incomoda há tempos, se penso que o natural seria "Grandes Expectativas". 

Os bascos dizem Itxaropenak quando querem falar de expectativas, e Espera quando querem falar de esperanças. Os alemães usam Erwartung e Hoffnung. Os franceses, Attente e Espoir. Os nigerianos que falam igbo, dizem Aturo-anya ou Nwere-olileanga. Parece tudo diferente uma coisa da outra. 

Mas é só impressão. Expectativa, leio, é a qualidade de quem tem esperança. E as esperanças são aquilo que tem quem espera. Quem tem esperança, tem possibilidades e vê perspectivas, e portanto tem expectativas. Porque espera, qual líquido, a ação do tempo. E por isso cria em torno de si um redil de expectativas: coisas pelas que espera. Os ingleses têm uma porção de palavras para ficar à espera: looking for, wait, awaiting, expecting...

O coágulo do meu ano chamou-se expectativas. Uma massa sólida atravancando-me o caminho, impedindo-me de fluir por dentro da minha vida com a leveza que prezo, que gosto, que sou. Não a expectativa em si, veja bem, mas a máxima do "bom-é-não-ter-expectativas". Como se eu pudesse viver sem ter expectativas. Como se a expectativa fosse em si mesma um pecado mortal, daqueles que nos condenam ao fogo eterno. Minou-me a esperança, andar à caça das expectativas para estripá-las nas minhas praças privadas. Dediquei-me a esfaqueá-la diuturnamente, engatinhando atrás dos meus atos para reduzi-los a cinzas assim que queimassem em vida. Extenuei-me, a meio tempo disso tudo.

Ora bem. Expectativa é uma coisa bacana. Consigo mesmo e com os outros. A expectativa faz com que entremos uns dentro dos outros, faz com que queiramos atender uns as expectativas do outro. Nada de errado, até onde eu percebo. A expectativa é fundamental na figura de Pigmaleão, aquele escultor e rei do Chipre a quem Vênus consentiu dar vida à estátua que ele tinha terminado, e por quem o escultor havia se apaixonado, tamanha a perfeição, tamanha a entrega. O sentimento do artista mudou a condição da estátua - e isso, eureka!, é o efeito que a expectativa tem no comportamento e no ser das pessoas. Freud, e depois dele Erich Fromm e Carl Rogers, e mais uma porção de gente, dedicaram-se a esse Pigmaleão  que Ovídio canta em seu livro X de "Metamorfoses", lá no ano 8, portanto há muito tempo.

Rosenthal e Jacobson, nos anos 60, falam do poder desse efeito na educação: aquilo que se projeta no outro é aquilo que o outro vai devolver de si mesmo. Porque somos todos um, acho eu, e todos maleáveis e sujeitos àquilo que o outro provoca em nós a partir do que pensa a nosso respeito e projeta em nossa direção. Professores que consideram o efeito das suas expectativas nos alunos, e sabem o quanto efetivamente isso participa do processo de construção do outro, serão professores inesquecíveis pelas marcas que deixam.

Portanto, essa tendência moderna de não ter expectativas é um tiro no pé que dói antes mesmo de ser disparado. Ter expectativas faz com que nós nos transformemos, faz com que o outro se transforme, faz com que o mundo se transforme. As profecias auto-realizantes de Merton fazem parte deste raciocínio, assim como a ideia de que mudanças marcantes apoiam-se no cruzamento de conversas verdadeiras, quando o diálogo permite que muitas coisas se cruzem e entrecruzem, e que novos olhares (isto é, novas realidades) emerjam e existam.

Nesse encontro, nessa conversa, nesse diálogo, é fundamental a paresia platônica, mais uma palavra deste ano que quase fica sem ser escrita!, e que se refere à coragem de dizer a verdade. Não a verdade do mundo, não a verdade consentida e reconhecida, mas a verdade de si mesmo. Aquele que pratica a paresia nos seus encontros, encontra dentro de si as forças de ser e dizer-se ele mesmo, criando-se sujeito a partir de seu discurso, ainda que provoque dissenso em vez de consenso. Dizer o que se pensa, aqui, não é ter certezas. É problematizar, é retirar o conforto ameno em que todos ficamos quando achamos que concordamos com o que aí está, e que os outros concordam com o que aí está. A paresia incomoda, e é difícil, é é uma luta. Para os gregos, lá no século V, era indispensável à vida social e política que existisse aquele que praticava a paresia - o paresiastas. Alguém que é e diz, independente do que os outros digam que é.

Não sei se isso me assusta, se me encanta. Reconheço-me pelos olhos dos outros aqui e ali, e quero mais é ser rio que corre para o mar, e que as rochas e as ilhas que encontre pelo caminho se transformem no meu transformar e me transformem no seu transformar. Quero absorver e deglutir todos os coágulos que congestionarem as minhas veias, liquidificá-los a partir da verdade que emerge de mim a partir do olhar e da expectativa do outro. E lançar de volta, com mãos amorosas e firmes, as minhas expectativas, que são a minha esperança de que a vida seja, antes de qualquer outra coisa, um ato de coragem.

A pele das paredes

O ano acaba com a raspagem da pele das paredes. Para que uma nova tinta possa fixar-se. Uso uma espátula, e vou deixando marcas no reboco antigo. Não é toda tinta que sai com facilidade: é preciso energia e determinação. Há trechos que se agarram com afinco, não se deixam retirar. Em outros, a pele de tinta descama-se, em longas tiras, como pele velha de fato, que não resistisse à ação do tempo e se desvestisse de si mesma. As minhas mãos sorriem, quando isso acontece.

As marcas no reboco olham-me através desse tempo longo de silêncio que se constrói entre as paredes que me cercam e eu. As minhas mãos estão ressecadas, o pó de tinta entranhado em cada poro. 

A pele da parede reveste a pele do meu corpo.

Paro para escrever uma palavra aqui, outra ali. Termino uma parede e vou à tinta. Cal de cores que crio sem pensar. As paredes não me dizem da tonalidade que querem. É um exercício de adivinhação e esperança. Vários tons, várias paredes. A pele é imprescindível, escrevo. Nosso ponto de contato com o universo mais interno da estrutura da casa. A pele é o mais profundo, escrevia Valéry. Seu sentido mais extenso. Sua percepção mais nítida. Gosto das marcas do tempo e da vida na minha pele. Pessoas tatuadas em alto e baixo relevo. A pele da parede não tem afrescos. A minha pele tem - não posso retirá-los, são pura obra de arte, recentes e antigos num tempo presente. Como os afrescos da casa de Portinari, escrevo. As estrelas no céu da capela. Acho que amanhã vou a Brodowski, escrevo. Gosto de projetos. Amanhã vou a Brodowski.

É uma responsabilidade e tanto, cuidar da pele-tinta de uma casa. Não sei se estou apta. Olho a tinta da minha própria pele e esboço a dúvida no gesto. Melhor que ocupe as mãos e desocupe o pensamento. Assim como escrever, raspar paredes é um ato de fé. Na própria capacidade de discernir o que é tinta, o que é reboco; o que é pele, o que é alma; o que é próprio, o que não pertence. Qual a medida das coisas. Qual o tamanho das almas. Qual a frequência do toque. Enquanto isso, e nos minutos que inauguro, os pingos de cal grudam o pó da parede à minha pele.

25/12/2013

Ofertas

É preciso que saibas: não existem duas coisas iguais. Podem parecer-te, às vezes, muito semelhantes. Podem parecer-te quase a mesma coisa. Podem lembrar-te fortemente algo que esqueceras. E tanto pode ser que exista de fato algo em comum, como é possível o contrário.

Ora repara nestas palavras, que me ofereceram hoje a meio de uma conversa, e que me fizeram pensar em ti e daí a vontade de escrever-te. (Escrever-te, repara, nesse duplo sentido que te ofereço intencional, de dirigir-te umas palavras assim quaisquer umas e de, com a minha mão nua, percorrer-te o corpo até preenchê-lo com as palavras que não ouves.) Ora repara, dizia eu, nas palavras que me ofereceram. Cerúleo. Ceroulas. Uma poderá parecer-te exótica e desconhecida, a outra antiquada e comum como a chuva. Ou não, porque poderás quem sabe conhecer as duas. Poderás até pensar: "de certa incontestável forma, têm estas palavras um parentesco que se perde na escuridão dos tempos..." Através do teu pensamento, podes chegar onde quiseres.

Assim é, também, com as pessoas que conheces. Um alguém que te apresentem pode levar-te imediatamente a pensar em outro alguém; o teu pensamento pode tecer-te a ti e a ele um cenário tão perfeito, que te convenças que entre essas pessoas, tu e ele, existe um fio que só tu vês e que as liga e as enfeita e as torna inseparáveis dentro do mundo do teu pensamento. Sendo tu uma dessas pessoas, poderás pensar que esse que vês à tua frente é aquilo que estava escrito nas páginas abertas do teu destino. Ou poderá ser como cerúleo e ceroulas, essas duas palavras que sem querer me ofereceram. Sem te deteres diante das pessoas como não te deténs diante das palavras, poderão parecer-te umas e outras tudo aquilo que queiras que te pareçam. Até o que não são. Corres, deixa que te alerte, um grande e terrível risco. E deixa-me ainda dizer-te que há três coisas de que precisas para escapares aos enganos.

Precisas, ouve bem, de cuidado, cautela e prudência. Podes pensar que sejam a mesma coisa dita de três formas diferentes, mas são três aspectos de uma mesma atitude, em si mesmos dessemelhantes - e se te lembrares de que não existem duas coisas iguais, saberás que não existem, nunca, duas palavras iguais. Nem duas maneiras iguais de se dizer uma mesma palavra.

O cuidado faz-te pensar no outro para que não o magoes; a cautela faz-te pensar em ti para que não te magoes; a prudência faz-te pensar no ser nascido do vosso encontro, para que também ele não se magoe. Já vês como as coisas precisam ser olhadas de três formas. Pelo menos.

Repara agora, outra vez, naquelas duas palavras. Cerúleo e ceroulas. Mastiga-as. Pronuncia-as em voz alta. Deixa que preencham os espaços vazios do teu cérebro (são tantos). Quando começares a pensar, e com isso perderes a conexão com o sabor e o vento que as palavras têm dentro de si, poderás incorrer no erro de imaginá-las aparentadas. Ou talvez não penses nada, porque te deixaste levar pela lenta suavidade desse rio que são as palavras. Tanto melhor. Mas, se pensaste, deixa-me que esclareça:

não são aparentadas, nem no tempo, nem na geografia, nem naqueles que as entoaram na vez primeira. Cerúleo é o que vês quando olhas para cima a campo aberto: cerúleo é o céu. Como esse que encabeça esta carta que te escrevo: a fotografia do céu do meu dia hoje. O teu olhar para cima vê tudo o que é cerúleo, vê caelum, vê céu. Não fossem os povos do Lácio, talvez tivéssemos uma palavra outra, menos bonita, para ex-clamar ao olhar o que está acima de nós.

Ceroulas são peças de roupa. Quase diríamos ninguém mais as usar, mas isso só se não estivermos em terras frias, que agradecem essas calças por baixo das calças. Ceroulas são indumentárias árabes, dos povos do deserto, que as usavam e usam por baixo de todo o resto da roupa que usam para se protegerem da areia, do sol inclemente, do frio gelado da noite. Saruil é a sua origem, tão distante do caelum da terra de Cícero quanto nós das formas de pensamento de ambos. (Também do árabe, para quem pensou nisso, vêm as cenouras, a quem os antigos chamavam sannarias.) Ainda assim, tão longe uns dos outros, o nosso pensamento imagina-lhes a proximidade, e sem a curiosidade e a cautela e o cuidado e a prudência, deixaria de saber o que agora sabe, ainda que pareça inútil. Nunca se sabe o que vai ser útil ou inútil na vida. Por isso é que é preciso deixar todas as portas abertas, até aquelas por onde costuma entrar a adaga, a mão sorrateira que rouba, o sorriso falso que engana. Tudo aberto, ouve e guarda: guarda com cuidado, com cautela e com prudência, olhos atentos aos movimentos cerúleos. Eles indicar-te-ão o caminho.


23/12/2013

Perdão


Retiro coisas da casa. Para que a vida fique mais leve. Coisas meio bestas, como este cd da Simone que acabo de encontrar, aquele das canções de Natal. Mantive-o sob tutela anos a fio, porque quem o ofereceu o fez com uma intenção tão bacana que passá-lo adiante me parecia uma afronta. 


Essas coisas que fazemos, entra ano, sai ano, de limpar armários e gavetas, é um recurso extraordinário para pôr a vida em ordem. Limpam-se as gavetas da cômoda e da alma, para que reencontrem esvaziadas a capacidade de conter o que é preciso. Dá-se todo o seu conteúdo, sem guardar nada, a não ser o espaço onde habita o que não vemos.

Isso, e aposto que você como eu não sabia, é perdoar.

Sabe aquela ideia de que perdoar é revelar as faltas, alheias e próprias, redimi-las, "lembrar sem sentir dor", "o perdão restaura vidas", "perdoar é aceitar a imperfeição do outro", "perdoar não muda o passado mas engrandece o futuro", "perdoar não é esquecer", e mais todas as frases feitas que abundam nesse google de meu deus? Muito mais simples.Por isso eu gosto tanto das palavras, e de saber de onde elas vêm. Para poder usá-las consciente do seu poder, esse poder que cria a realidade à minha volta. As palavras são a arma mais letal que o mundo tem para me abater. Mas isso não vem ao caso, porque é sobre perdoar que eu quero escrever.

E tudo isso porque, descubro hoje cedo e feliz da vida, perdoar é muito simplesmente dar, e de forma completa. Per (completamente) + donare (dar). Deve ser por isso que as pessoas otimistas (ou qualquer um, em seus momentos otimistas) perdoam com facilidade. Por terem acesso a um campo mágico que faz com que, não importa o que nem quando, doem o que têm nas mãos, com a certeza que o que dão jamais lhes faltará. Talvez lá no fundo saibam que o que dão não lhes pertence. Por isso, dão em completude. Em entrega plena. E não sabem viver de outra forma, e nem se lembram, no minuto seguinte, de que deram o que deram, porque o que deram foi dado. E pronto. Pode até pertencer-lhes a memória do dado, mas é uma memória luminosa, porque o ato de dar se sobrepõe à coisa/sentimento/pensamento em si.

As pessoas otimistas (ou todos nós, em nossos momentos otimistas) olham adiante sem precisarem precisar uma contabilidade exata de perdas e ganhos do caminho percorrido. Seus olhos, aliás, estão invariavelmente postos adiante, seja na próxima curva ou reta, seja nos 365 dias que começam na virada do ano. O brilho está no porvir, para os otimistas, de quem os pessimistas riem com aquele movimento de cabeça que parece o lento movimento da corda do sino das catedrais. Ouço-lhes o respirar denso. Ouço-me o respirar denso quando deslizo para esse campo que não é a minha seara de vida.

Há aqueles que dizem não ser nem pessimistas nem otimistas, mas realistas. Dentre todos, são os que mais me espantam. Dizem viver no presente, sem alimentar o passado que já se foi nem o futuro que ainda não é. Usam a frase famosa do Dalai Lama com um olhar de "...e assim se caminha para iluminação". Às vezes até tento, sobretudo quando me parece que não apreendi tudo o que o presente quis me mostrar. Mas o problema é que meu presente se dilata, abraça o futuro e recorda o passado num todo que a minha vida chama disso mesmo: vida. Talvez seja nessa direção que a discussão quântica, a sobreposição de camadas, o tudo agora ao mesmo tempo me agrade tanto. Ou talvez seja otimismo mesmo.

Li este ano que acaba, algures aqui na net, que alguém de uma universidade americana propõe a teoria de que, em 30 ou 40 anos, não conseguiremos mais identificar a nós mesmos pelas premissas que usamos até os tempos do hoje. Não poderemos, por exemplo (talvez a pesquisa seja sobre gênero, porque não lembro de ler sobre outro exemplo...), dizer-nos hetero ou homossexuais: diremos "estou num momento heterossexual" ou "estou num momento homossexual". A vida andará nessa direção futura das coisas não serem mas estarem. Eu acho bom, mas pode ser otimismo. De qualquer forma, minhas gavetas estão vazias, os espaços estão cheios de ar, e esse ar tem nome: chama-se gratidão. O que foi dado, dado está: a vida passa por mim e me assiste, e meu único desejo é permanecer plena, íntegra e entregue. Este ano e todos os que virão.

10/12/2013

Cortinas


Acordo cedo. Talvez as tarefas do dia de hoje tenham me tirado da cama, ou talvez eu precisasse amanhecer de olhos abertos. Pra não errar o caminho. Como diz Rubem Alves no documentário Eu Maior, vão nos acontecendo as coisas que não programamos, e por isso chegamos onde chegamos.

Preciso abster-me, neste fim de ano, de prestar muita atenção à mente inquieta que indaga quais os sentidos, se é que os há, nos rumos que a vida toma. Vou deixá-la passar, à mente, e vou deixar passar os rumos também. Atrás fique o que deva ficar, o que não acompanha, os passos em desequilíbrio. Na vida, como no resto, dá-se o que se tem. Constatação óbvia com que às vezes nos entretemos: as justificativas genéricas não se aplicam a situações específicas, e por isso é preciso cuidado com o equilíbrio entre o que se dá e o que se recebe. Não é bom deixar os outros vazios.

Ontem mesmo, num dos últimos grupos de Escrita Criativa do ano, falávamos de Rubem Alves. Depois de ler um de seus textos, decidimos escrever por associação de ideias, e o ponto de partida foram cortinas. Como uma gota em meio ao nada, uma lágrima que resiste a cair, nem sei se minhas companheiras perceberam, mas as pernas me faltaram. Qualquer coisa à toa, como essas cortinas esvoaçantes na memória, pode me tirar a sensação de ter pernas, e a vantagem é que vou ficando treinada em subir e descer delas. Todos os companheiros de escrita deste ano foram inestimáveis em oferecer-me substâncias, momentos e processos de manter-me em cima das próprias pernas. Sou-lhes grata, nem sabem quanto.

Dessa associação de ideias surgiu o texto que segue abaixo, e que aqui faz as vezes de um convite a que os textos de todos se façam presentes, assim, livremente, sem necessitar que exista sentido. Por associação de ideias, sem compromisso, a não ser com o fluxo da palavra e dos corações em estado de aberto.


"Quando as cortinas da vida se fecharem para Rubem Alves, uma porção de anjos sorridentes estará à sua espera do outro lado. 
Não foi ele quem disse que morrer é estar do outro lado do caminho, mas bem que poderia ter sido. Estar do outro lado do caminho, de vez em quando, seria uma boa distração para quem está do lado de cá das cortinas.
Do lado de lá poder-se-ia, por exemplo, tingi-las com as cores que as nuvens devem ter do outro lado - cores mais etéreas, penumbra mais palpável, menos vincos, menos dobras. Do outro lado do caminho, as cortinas devem ser todas de tecido levíssimo, para que o céu não caia sobre quem ainda não as abriu.
Os santos conseguem atravessá-las, a essas cortinas, quando ainda estão do lado de cá. Deve ser fruto do profundo desprendimento que desenvolvem com os pores do sol, as árvores e a vida deste mundo. Gosto de pensar em desprender-me, mais do que pensar em desapegar-me. Os santos não dão às coisas do mundo a mesma importância que os mortais comuns damos; ficam mais leves, mais transparentes e levitam e flutuam pra lá, e logo depois de volta pra cá. Quando voltam, são capazes de proezas que nós, que não estamos aptos a passear no umbral com tanta naturalidade e franqueza. Como Santa Teresa de Jesus, com o seu "Nada te turbe, nada te espante, solo Dios basta". A minha memória anda perdida atrás das suas próprias cortinas, não consigo lembrar-me do poema inteiro.
Quando Rubem atravessar a cortina, com certeza levará um susto. Talvez espere uma coisa, desconhecida e aterradora, ou desconhecida e iluminadora, e verá que não há nada que já não tenha visto. A verdade é que Rubem anda, há anos, espreitando o outro lado da cortina e trazendo-nos notícias. Só que não sabe disso, e nós apenas intuímos que assim seja."


Feliz terça feira!


04/12/2013

homens com minúscula

Eu devia ter uns 13 ou 14 anos de idade. Fim de outono em Madrid, saio para uma festa com o filho de um amigo de meu pai. Boa família, esclarecida e culta, diplomacia não lembro mais de que país progressista. Vamos a casa de um outro amigo e depois de outro e ainda de outro. Em todas, a empatia entre nós é escassa, pouquíssimo reconhecimento de gostos ou de interesses. "Minha tribo é outra", devo provavelmente ter pensado, mas agora era ir até o final e impedir novos incentivos de meu pai para alargamento de meu campo social.

Na última casa, de onde se sairia finalmente para a tal festa, encontramos um tanto de garotos se divertindo na sala vendo revistas. Sou a única menina desse grupo que já contava com mais de 10 integrantes, e as revistas são todas as mesmas. Playboy. Os meninos me olham com cara de "essa não tem nada do que estas têm" (o que de certa forma era um fato), mas mesmo assim os olhares enviesam e os corpos ameaçam se aproximar. Algo dentro de mim se movimentou, incomodou e explodiu num segundo. Não sei bem de onde, mas uma onda de raiva (provavelmente amparada por uma outra de medo) me fez arrancar as revistas das mãos que passavam perto e sair rua afora, já noite, bairro desconhecido e isolado, numa sensação de impotência imensa diante de um mundo que começava e terminava na falta de respeito e na tocaia do perigo. Foram horas até conseguir chegar a espaços e pessoas reconhecíveis.

Há anos não lembrava dessa cena. Hoje, ao abrir o noticiário e me deparar com a nova campanha da Playboy, recupero o mesmo gosto amargo na boca. Porque tem coisas que não passam, e coisas que não acabam. A estupidez humana, e especialmente a estupidez masculina, é uma delas.

A matéria intitula-se "Playboy sai em defesa dos homens acuados". Tadinhos. São os homens que assinam embaixo de um documento, a "Constituição do homem livre" (sic), da qual constam artigos bem elucidativos, como "sim, adoramos ver uma bela bunda passar" ou "como casamento dá trabalho, deveríamos receber um mês de férias por ano". Valdir Leite, o gênio idealizador da campanha, preocupa-se com os homens que não sabem mais o que fazer no novo mundo dos relacionamentos, onde perderam o protagonismo. É para eles essa revista, porque, ainda segundo Leite, "a Playboy sempre teve um estilo editorial muito forte por conseguir dialogar com o homem inteligente". Passemos adiante sem comentar o paradoxo entre as coisas.

Poderíamos só rir - de desgosto, mas rir, e deixar a caravana passar. Porque, de fato, podemos olhar em volta e reconhecer uma porção de Homens que se comportam como seres humanos e constatar que essa não é a situação total. Mas, e esse é um Mas muito grande, não há como escapar do reconhecimento dos pequenos detalhes que um a um constroem a vida inteira. Não há como escapar nem de um Vinícius que todos amamos mas que teve a petulância de escrever, entre outras coisas, "as feias que me desculpem, mas beleza é fundamental". Nem dessa enxurrada moderna de homens bacanas que têm tanta vontade e se sentem tão capacitados a nos dizerem (mandarem?) como sermos livres, haja visto o texto do auto-denominado libertário Vinícius Cardoso sobre Francisca que poderia ter nascido arquiteta mas era puta. Apesar do texto bem escrito de Cardoso, talvez tendendo ao choque pelo choque mas ainda assim, não há como não sentir que de boas intenções está aquele lugar cheio. Não há como escapar de tantos indícios que resvalam por dentro da ridicularização da "volubilidade do sentimento feminino" ao longo de um dia. Dos homens que prefeririam, lá no fundo, que suas mulheres falassem menos e não "enchessem tanto o saco" com suas cabeças pensantes. Que não se desequilibrassem por não aceitarem as "prerrogativas" da liberdade masculina. Que soubessem ser mais ativas, quando passivas, ou mais passivas, quanto ativas. E daqui já vejo os narizes que se torcem e os pensamentos que se alinham como se em campo de batalha: "ah pronto: tudo pelo politicamente correto, não dá mais nem pra fazer uma piadinha que já caem em cima".

Pois é. Não dá.

Não que não haja salvação: claro que há, porque estamos vivos. Prova disso é que todos os comentários, sejam femininos sejam masculinos, nos vários sites que publicaram a matéria, são taxativos na condenação e, no caso dos comentários masculinos, nem um sequer se reconhece nessa tal de campanha pela "masculinidade sufocada". O problema é sermos todas e todos engolidas  e engolidos por essa atmosfera geral tão antiga e tão presente. Um breve passeio pelos facebooks da vida nos enche de exemplos disso mesmo que nos indigna na campanha da Playboy - e de repente nos flagramos curtindo o comentário imbecil, a foto degradante, a musiquinha preconceituosa, o videozinho malicioso. E depois, não contentes, saímos em rodinhas pra comentar, bem masculina e estupidamente, o quanto aquele cara ali no balcão do bar é bom de cama. Não muito diferente da mesa do lado, em que um homem se compraz em compartilhar com os amigos detalhes da gostosa que ele anda comendo.

Entre uma coisa e a outra, fico me perguntando sobre os filhos e as filhas da gente, e sobre os filhos e as filhas desses homens minúsculos. O quanto, de dentro desse sentimento machista que gesta o pátrio poder, esses homens se reconhecerão nos "cafajestes" que se aproximam de suas meninas com "más intenções". A menos que, claro, olhem para suas filhas com os mesmos olhos enviesados e reclamem das saias que usam e que "depois não se queixe se forem mexer com você".

29/11/2013

As coisas, à distância


A luz vem daquela casinha... Tão pequena, a casa... Pelo menos assim, à distância. Bem sei que as coisas, à distância, parecem às vezes menores do que são quando chegamos perto.

Li um dia desses que a amizade engrandece o mundo. O contrário, aquilo que diminui, inferioriza e/ou degrada, recebe outros nomes. Mesmo assim, às vezes as coisas confundem-se, porque as aparências enganam e o que vemos do mundo, assim à primeira vista, é aquilo que o mundo, as pessoas, as coisas aparentam. E não o que são, lá pelo bem dentro de si mesmas. Não que se escondam - não se conhecem, e portanto não se reconhecem.

Tenho uma amiga, querida e de muitos anos, que sempre e toda vez me abre portas. Leio de uma sentada o ensaio sobre Lessing que ela citou de passagem, numa conversa à mesa do almoço, um desses momentos à toa que me acostumei a receber de braços bem abertos para não perder uma gota. É dele, do Lessing, essa percepção do engrandecimento do mundo que a amizade propicia. Diz ele (ou digo eu, e com a memória relativa desse ensaio que mais devorei do que li) que quando a amizade permeia uma relação, ela se expande e atinge o mundo, os outros, a vida, os espaços coletivos que nos ligam aos outros e eles a nós. Não há esterilidade, quando a amizade, talvez o sentimento que Lessing mais preze, se oferece não só como matéria de construção entre duas pessoas mas como sentido político expansivo e concretizador de um mundo que se torne mais humano. Quando a amizade é aparente (ou no entendimento de Lessing quando se limita a essa intimidade entre dois), e quando deixamos de prestar atenção aos sinais que nos instruem sobre a matéria do que nos rodeia e penetra, o mundo sofre pela insignificância que o atinge. A vida sofre porque é diminuída naquilo que a faz respirar.

É dessas aparências que enganam que lancei mão para escrever a fala que encabeça este texto. Escolho-a hoje, de dentro da adaptação de "Os três fios de ouro do cabelo do diabo", conto dos irmãos Grimm, que escrevi para os alunos do 8º ano B da Escola Waldorf Rudolf Steiner. Apresentaram-na no fim de semana passado.

O menino Empelicado, protagonista da peça, procura seu caminho em meio às árvores, à escuridão e à luz excessiva. Reflete que aquela luz pequena, que vê ao longe em meio à massa que o mundo por vezes aparenta, pode ser algo maior, porque à distância as coisas parecem menores do que são ao nos aproximarmos dela. O contrário acontece também, neste mundo de aparências. O que ao longe nos parece majestoso e pleno, é na proximidade a pequenez do que nunca se pretendeu relevante.

Se por um lado o que parecia pequeno, e na proximidade é imenso, nos enche o coração de esperança e regozijo (sentimentos que precisamos compartilhar com os amigos, e torná-los fala para que tomem sentido humano), o que parecia grande e se revela pequeno ensombrece o nosso dia. Como se depois de uma longa e difícil caminhada chegássemos a uma parede que nada tem atrás de si. Ainda que possamos sentir que por detrás existam cristais, e fontes, e riquezas incomparáveis, a parede é de fato impermeável e outra vez de fato não nos permite passagem. A parede não é a catedral que se anunciava.

Quando o menino Empelicado descobre a grandeza da luz que ao longe era pequena, essa constatação amalgama-se a seu ser sem alardes. Permite que continue a jornada. É a luz, e não seu tamanho, que cumpre a função devida, e o menino segue em frente.

O ensaio de Lessing é de autoria da sempre-presente-nos-últimos-tempos Hannah Arendt. "Homens em tempos sombrios", volume de que faz parte, é uma coleção de biografias de pensamento de uma série de personalidades. No estilo claro, preciso e vigoroso dessa pensadora sem paralelo, as aparências todas são iluminadas, perseguidas e desmanteladas. É um livro de evidências, com a profundidade que é preciso exercitarmos para escaparmos da superficialidade com que o mundo nos rodeia - o mundo das relações em superfície, das experiências em superfície, das opiniões em superfície, do amor em superfície. Parecerá um mergulho no passado, e numa forma de pensar e de agir que parecemos estar perdendo enquanto humanidade. Será preciso ler estes ensaios mais de uma vez, porque não é aparente a sua profundidade, mas verdade, e as coisas profundas em algum momento demandam empenho, esforço e vontade.

O menino Empelicado, na sua saga em busca dos três fios do cabelo do diabo, prova definitiva de que necessita para fazer jus ao seu próprio destino (e do qual não se foge ainda que se tente), atravessa os umbrais das aparências. Um a um, em cores e panos e luzes e sombras, os umbrais revelam-se e são atravessados. As figuras em cena, protagonistas da própria história, enchem-me os olhos de lágrimas, porque também elas atravessam as aparências. Talvez nem o saibam, mas estão ali à nossa frente, inteiras e reais, e em nenhum outro lugar ao mesmo tempo. São, em vez de esperar. Avançam por dentro do texto e do espaço, em direção à profundidade que só o tempo e o trabalho árduo em si mesmos são capazes de realizar. É admirável, penso.

Estes seres em cena, chamam-se a si mesmos não só "colegas", mas também "amigos". Estão lado a lado nessa jornada de descoberta dos seus destinos. Não é só entre si que compartilham a alegria de estarem vivos muito mais do que as mazelas das suas superfícies - é com todos nós, que os ouvimos e vemos, às suas verdades aliviadas do corpo aparente. Além da esmagadora superficialidade da vida que vivemos fora de nossos corpos, o mundo caminha, através da ação que empreendemos e é assim, creio, que a humanidade se reconstrói.

28/11/2013

Merecimento


Coisa simples, merecer. Há milênios atende pelo mesmo: ser digno de. A dignidade de decere, sua palavra mãe, que corresponde em nossos dias a "caber no lugar certo". De onde se depreende que merecer algo, ser digno de algo, está relacionado a que esse algo caiba em si mesmo.

Pois bem. Há coisas que não cabem. Umas, porque são grandes demais. Outras, porque são pequenas demais. É destas, as pequenas demais, que falo. Nestas, sobram espaços vazios; são vácuo assustador. Tornam-se escuros e sombrios, com o passar do tempo, esses espaços que o mundo da sombra se ocupa em procurar pelo mundo, e em rechear assim que os encontra.

Desses espaços vazios, há aqueles que se observam e percebem ao longe. São provavelmente os piores. Porque se sabem vazios, e não se ocupam. Por determinação. Ou medo. Ou cegueira. Fincam-se os pés no chão enquanto se diz "meu", e a vida segue em frente. Difícil saber ao certo - esses espaços não são os meus, nem são meus os olhos que observam e nada fazem. 

Mas tenho em mim a construção destes espaços vazios. Como os espaços vazios de um amante que nada desse e tudo tomasse, do presente não pensado ao tempo todo roubado. Como os espaços vazios da escavação a peito aberto diante de olhos fechados, olhos sem umidade a interditar os encontros líquidos. Olho as mãos que tenho diante de mim, e às vezes, como agora, vejo o quanto querem salvar do espaço vazio uma gota que seja de luz. Desaparecem dentro dele, porque para tudo isso que é pequeno não há espaço onde se caiba, mas aí estão, e não posso negá-las, porque é diante dos meus olhos que não acreditam que as minhas mãos dançam a sua agonia convulsiva. E é de lá que as arranco, com a força do vento que me guia, antes que percam a pele, antes que percam o tato, antes que percam a mim mesma.

Estes são os espaços vazios da ausência de humanidade. Nem sempre são questão de merecimento. Às vezes, são pura provação.