09/06/2019

Pentecostes de Oxalá

O ano é 1296 e a vila é Alenquer. O dia é como o de hoje, 50 dias passados da Páscoa. Dia de Pentecostes. A rainha de Portugal, Isabel, já então apelidada de santa pela sua dedicação a minorar a fome dos pobres, convence seu marido D. Dinis a uma festa bastante particular: um dos mais pobres há de receber a coroa e o lugar do rei, passando a presidir um Império. 

A festa do Divino Espírito Santo, mais do povo do que da Igreja, é a festa onde todos podem ser coroados, onde se distribui a abundância da época da colheita do hemisfério norte: pão, carne e vinho povoam as ruas de todas as freguesias açorianas, tabuleiros de pães correm as ruas de Tomar, festas em honra aos mistérios do Espírito Santo, o Divino, espalham-se por todos os lugares por onde passaram portugueses, das ruas de Boston aos caminhos à beira mar de Florianópolis. O Divino faz-se presente.

Isabel pensava numa oferenda, certamente. Invocava a intervenção divina para resolver o problema da sucessão ao trono. Seu marido preferia o filho bastardo, o que redundaria em mais uma guerra ibérica. Fazia-se necessário manter a sucessão através de Afonso, filho de ambos, e que viria mesmo a ser o rei Afonso IV. Isabel, como já fizera em outros momentos, dirige-se a esse lugar do invisível e pede. Oferece. Isabel era uma rainha piedosa. Desconfio que não haja criança portuguesa que não tenha ouvido a lenda dos pães transformados em rosas quando interpelada pelo rei sobre onde ia e o que levava. D. Dinis passou à história como forreta e a Rainha Isabel foi canonizada em 1625. Isabel distribuía pão a quem não tinha, peregrinava a Compostela, e, já viúva, recolheu-se ao convento de Santa Clara de Coimbra, lá mesmo onde se inventaram os famosos pastéis, de onde saiu apenas uma vez mais na vida.

As oferendas, desde que o tempo é tempo, reconhecem que a origem do que temos é divina. Ao apresentar qualquer elemento como oferenda, antes mesmo de pedirmos alguma coisa, reconhecemos que aquilo que oferecemos não é nossa criação. Se estivermos conscientes disso (e o problema é que metade do que fazemos é na inconsciência, quando não na ignorância), fechamos os olhos e baixamos a cabeça, em reconhecimento à origem divina de tudo o que nos rodeia, e de nós mesmos. Na gênese de qualquer forma de oferta ao mundo espiritual, sejam palavras, sejam cantos, sejam frutas, flores, festas, viagens - o que fazemos é reconhecer profundamente a nossa própria existência não terrena. 

Neste dia de Pentecostes em particular, Isabel está presente outra vez, lembrando-nos de que o que temos é de todos; que todos têm a sua própria coroa, onde vem pousar a pomba da paz. Entre os símbolos do Divino Espírito Santo estão a pomba e a coroa. Oxalá, orixá da criação do mundo, da sabedoria dos anciãos, da ligação entre Céu e Terra, ostenta a sua coroa e no alto de seu cetro, o Opaxorô, pousa a mesma pomba.

Jesus, em sua época, recolheu-se ao deserto durante 40 dias como forma de se preparar para o seu destino; após seu retorno crístico, manteve-se junto aos apóstolos e apóstolas por mais 40 dias. Após finalizar a sua missão terrena, em seu nome aqueles que o seguiam recolheram-se ao cenáculo. Prepararam-se para a chegada dos frutos, e estes vieram dentro de imagens, nos símbolos do fogo e do ar. Línguas de fogo e forte vento. Pentecostes nos lembra da necessidade de nos prepararmos para o encontro com o divino, esse encontro íntimo que é no fundo o encontro conosco mesmos. 

Podemos abrir-lhe a porta descuidadamente, passar por ela sem lhe prestar atenção, sequer perceber o que a atravessa e entra em nós. Ou podemos dedicar-nos, fazer silêncio e ofertar todo o nosso ser, reconhecendo a nossa existência para além deste veículo que nos transporta na Terra. Neste fogo e neste vento, na pomba que voa e pousa em nossa coroa, nosso mais elevado centro energético, caminham juntas a liberdade e a responsabilidade. O que fazer com ambas, só cada um com cada um.

Imagem: Nicholas Roerich (Rússia, 1874-1974)

19/05/2019

Estar acordado

(Ao amigo querido que anda a embrenhar-se pelos territórios vastos da origem das palavras. Um prato cheio, posso dizer-lhe, cheio de boas tentações, e sustos pelo meio. Ao longo de anos nesses campos, sei que encontramos as palavras que nos respondem quem somos e onde estamos. E, às vezes, isso pode não ser tão agradável quanto pareça à primeira vista. Se, por um lado, as palavras nos fazem sonhar, por outro pôem-nos a sangrar.)



A palavra de hoje, vigília, foi pedida há alguns dias. Para que fosse praticada, e com consciência, que é o que nos deveria mover de um lugar ao outro nestes tempos. Saber o que se faz. Vigilia é o oposto de estar a dormir. A sua raiz latina gira em torno do prestar atenção. Aquele que está em estado e atitude de vigília é aquele que está acordado, que cuida, que vigia. Pela origem mais antiga, no indo-europeu - weg, chega-se ao ser ativo, ser forte. A mesma raiz deu também origem à palavra que nos faz rápidos, vivos e velozes: -velox.

A Casa de Umbanda que tenho a honra de dirigir está, durante as próximas semanas, em atitude de vigília. Todos os dias, às 13h e durante meia hora, as pessoas reúnem-se para exercitar o estar acordado, ativo, em posição de cuidado. Com consciência e com disciplina, dia após dia somos chamados a esse treino que, por arte de mágica, se estende ao resto das horas do dia. Nem sempre vêm todos, nem sempre se está confortável. Um dia após o outro, como deve ser, tentando ser melhor que ontem e pior que amanhã.

O mundo espiritual, e a vivência religiosa, permitem dessas coisas. Que se treinem atitudes e posturas na direção de um mundo novo, e isso modifica o aqui e o agora, a relação que tenho comigo mesmo e a relação que cultivo com o outro. A Umbanda, e acredito que todas as religiões, é para ser vivida todos os minutos do dia. Modificar quem somos, melhorar aquilo que fazemos nem sempre é fácil; na maioria das vezes, é bom ter ajuda.

A vigília é uma dessas ajudas. Um chamado para parar e estar atento. Prestar atenção aos seus movimentos, às suas ansiedades. Escolher desligar-se das comuns obrigações e simplesmente estar. Lembrar-se de estar. Até forçar-se a vir. Encontrar o tempo de juntar-se a si mesmo para caminhar na direção de ser uma pessoa melhor - mais aberta, mais alegre, mais solidária, mais afetuosa, menos julgadora, menos preconceituosa.

Nesta vigília que nos foi pedida, dizem-se orações e cantam-se canções. Não é preciso mais do que isso, porque a intenção é abrir os canais do coração, cultivar essa paz que tanto queremos.

Gandhi dizia que a oração dita em voz alta faz abrir-se o coração. Por isso, as vigílias dizem orações. As vigílias cantam. As vigílias contemplam. Abrem o centro cardíaco do nosso ser à vivência do que não é palpável. Pedem-nos disciplina, abertura e entrega; preparam o futuro, e aqueles que podemos vir a ser.



16/03/2019

Se Deus é Onipotente e Onipresente, por que precisamos dos Espíritos para chegar até Ele?

Na tarefa de educador, ouvir perguntas é indispensável. Podemos preparar uma magnífica aula, mas ela depende de quem está junto, de quem tem sede de conhecimento, de quem tem curiosidade e a expressa. Ninguém dá aula para o vazio. Alunos que dormem em sala de aula estão alheios, falta-lhes curiosidade? Pela vida, certamente que não - quando podem, conversam pelos cotovelos! Têm as suas indagações internas, suas angústias, seus medos, sua necessidade de saber. Conseguir equilibrar aquilo que se quer dizer com aquilo que quem está presente quer e precisa ouvir é talvez a maior tarefa de qualquer educador. Abrir espaços para perguntas é uma atitude interna que demanda ter interesse pelo que o outro quer dizer e quer saber. Na verdadeira educação, os limites engessam, foram feitos para ser expandidos e movidos de lugar.

A pergunta que dá título a esta postagem foi feita por escrito durante um espaço-tempo de aprendizagem sobre Umbanda. É um desafio, responder a perguntas não programadas. Mas é justamente aí que novo conhecimento pode surgir, nutrindo a todos. Vale para qualquer aula, especialmente quando se entendem os espaços de aprendizagem como espaços de troca, de pesquisa, de dúvida e de busca de respostas.

Então vamos a ela: "Se Deus é Onipotente e Onipresente, por que precisamos dos Espíritos para chegar até Ele?". É uma incrível pergunta, do tipo que faz pensar, pedir auxílio por respostas que não sejam as prontas. O melhor de tudo é que elas, as respostas, vêm, intuições com cheiro de sálvia fresca, um adocicado de tabaco perfumado com alfazema e alecrim bem ao fundo. O Espírito de Vó Chica é um primor nessas horas.

Se Deus é Onipotente e Onipresente, significa que tudo pode e em todo lugar está. Inclusive dentro de nós, ao nosso redor, dentro dos nossos amigos, dos nossos inimigos, daqueles que gostamos mais e daqueles que detestamos. Se tudo pode, pode comunicar-se conosco, e pode também querer que nós nos esforcemos para nos comunicarmos com ele. Na sua infinita sabedoria, esse Deus (que podemos chamar de muitos nomes, de Consciência Cósmica, Fagulha Inicial e um enorme etcetera) está contido e contém ao mesmo tempo. Difícil abarcá-lo, difícil perceber a sua presença (que pressupomos), a sua atuação, o seu lugar. A trilha da evolução abre-se diante de nós em nossa condição terrestre cheia de limitações, e todos precisamos, aqui e ali, de auxílios para caminhar por ela,

Os Espíritos que se dispõem à tarefa de nos auxiliar são seres em evolução que, por livre e espontânea vontade ou aceitação, se oferecem para nos auxiliar nesse caminho. Não são propriamente intermediários desse Deus que tudo contém e em tudo está contido - ou o são também, visto que Deus os habita e é habitado por eles. A sua tarefa maior é oferecer-nos ajuda para nos encontrarmos dentro do burburinho que somos, o que equivale a encontrarmos dentro de nós o próprio Deus vivo. Com a sua ajuda, seus exemplos, seus conselhos, suas recomendações; com seus banhos de ervas, seus pedidos de acendimentos de velas, seus passos energéticos - o que os Espíritos fazem é nos ajudar a entrar em sintonia e equilíbrio conosco mesmos, para que possamos perceber e sentir a presença de Deus.

A tarefa é portanto nossa. Já se foi o tempo em que íamos à igreja porque a família inteira ia, em que rezávamos porque a tradição era assim e o movimento do todo nos auxiliava nesse direcionamento para o Divino. Hoje, as pessoas buscam uma relação com Deus porque querem, porque faz sentido, porque algo as impulsiona nessa direção. Depois desse desejo primeiro, impulsionador do querer, o que há pela frente é dedicação e trabalho. Deus está à nossa espera, mas dificilmente o rio muda seu curso para satisfazer a nossa pequena necessidade. Será mais fácil nos movimentarmos em sua direção para o encontrarmos e nos podermos banhar em suas águas serenas, conscientes do quanto somos nós os responsáveis pela nossa própria evolução. E aos Espíritos, seremos gratos, por se disporem a nos ajudar, generosos, humildes e retos.

13/03/2019

Quaresma e Umbanda

A noite no terreiro, quando a cidade dorme e silencia, é permeada pelas velas acesas no congá. Como presenças divinas que são, lembretes tremeluzentes da luz que existe dentro de nós, transmitem a calma e a paz necessária à reflexão profunda. Muletas?, questionam alguns. Vó Chica diz que não: velas são intenções firmadas, tornadas visíveis nesse mundo de matéria em que vivemos, iluminações de nós mesmos fora de nós. Por que negar sermos o que somos?

Neste tempo de Quaresma, o recolhimento do congá parece assumir outro aspecto. Vó Chica sorri quando penso essas coisas: ela sabe da minha formação católica, e não se incomoda nem um pouco com a maneira como transpira em mim o ser do espírito, livre de nomes que eu dê. E diz mais uma vez: para que negar ser o que se é? São Francisco, a seu lado, aspira o primeiro ar da manhã, e de repente os passarinhos cantam lá fora e me acordam de vez. Dia e noite, noite e dia, o mundo avança.

A Quaresma, sai ano entra ano, é questão que divide/incomoda/inquieta a religião umbandista: devem celebrar-se (ou não) os ritos cristãos dentro da Umbanda? Há templos que não atendem durante esse período, linhas de trabalho a quem algumas casas não abrem as portas de atuação, criam-se penitências de vários tipos - como religião congregadora, é natural que a diversidade impere, e assim como há casas que celebram a quaresma de forma bastante católica, também as há que se distanciam das práticas de outras religiões. Com o passar do tempo, essa flor que o Caboclo das Sete Encruzilhadas fez brotar na mesa farta e ampla das religiões do mundo, vai criando espaços próprios, livres e abertos à profissão da fé de cada um. É bom que estejamos atentos à nossa vontade de cartilhas e manuais, que nos apontam caminhos mas que correm o risco de nos aprisionar dentro deles e não conseguirmos mais ver a realidade. O cultivo da consciência, amparado pelo estudo e pelo conhecimento, é quem realmente nos liberta.

A Quaresma vive no ano litúrgico cristão como um tempo de busca da reconexão com o Cristo, de forma mais intensa do que durante o resto do ano, preparando a vivência pascal, da ressurreição e da materialização do Cristo Cósmico como regente da Humanidade. Esse tempo é celebrado em todo o planeta, porque é a todo o planeta que a essência divina do Cristo se liga, ainda que varie de nome.

Dentro dos preceitos católicos vivem várias práticas, mais ou menos antigas, que visam esse reconectar-se; a vivência das cinzas, por exemplo, como purificação, como percepção da transitoriedade, como aceitação da nossa condição humana terrena e finita. As cinzas relembram-nos que somos pó e ao pó voltaremos, e nos convidam a perceber se o que fazemos, pensamos, dizemos e sentimos entre um pó e outro vale a pena e nos aproxima ou não de quem somos em essência.

Há várias maneiras de fazer esse movimento, e a liturgia umbandista, que depende e varia de casa para casa, vale-se de muitas coisas. Seja neste tempo ou em outro, é preciso escolher momentos de recolhimento, de "olhar para dentro" para conferir o caminho trilhado. Por um lado, recolocar  no lugar correto o que tiver se desviado. Por outro, organizar as necessárias correções de rota, à luz dos aprendizados do tempo. A Quaresma presta-se a esse movimento.

Na sua pessoal preparação para a Páscoa, Jesus retirou-se durante quarenta dias para o deserto, sendo tentado diversas vezes por espíritos que se empenhavam em levá-lo para outro destino que não o seu. Podemos imaginá-lo olhando o seu destino, com a coragem que demanda, colocando as coisas em seu devido lugar, dentro e fora dele. As tentações fortalecem-no, como podem fortalecer-nos as nossas, se tivermos coragem suficiente para percebê-las como tais e fazer-lhes frente. Redobrar a vigilância? Fazer penitência? Individualmente, como cada um quiser. Do ponto de vista de uma comunidade de Umbanda, o que se redobra é a necessidade de acolher e ser acolhido, de escutar e ser escutado, de amparar e ser amparado. É nesse lugar, do Amor e do Afeto, que se firma e funda a fé, e é a ele que retornamos, em profunda reverência, gratidão e busca do exercício pessoal necessário. Por isso, hoje, em muitos terreiros,os trabalhos são mantidos, porque talvez seja este um momento de maior necessidade, e por isso mesmo demande mais ação, mais abertura de coração, mais mãos estendidas. Cuidados? Sim, com certeza - com o próprio pensamento, as próprias ações, com as vibrações com as quais nos permeamos, as companhias que escolhemos, as distrações que aceitamos, os caminhos que escolhemos para o nosso dia. Vó Chica, que definitivamente não se prende aos nomes que damos às coisas espirituais, me assegura que estes quarenta dias são um bom período para nos olharmos mais a fundo, mais no cerne, percebendo-nos como seres espirituais sujeitos à temporalidade do corpo físico, necessitados de um campo de disciplina que nos ajude a não perder tempo. Só isso já nos fortalece no cultivo da humildade. da aceitação e da entrega.

Imagem: https://steemit.com/life/@blessme/helping-hand

11/03/2019

O ronco e o raio


Vó Chica, quando olha para dentro dos olhos das pessoas, vê coisas que os nossos olhos comuns não veem. Às vezes, até, mudam a forma externa para que se pareça mais o que se vê com o que se é de verdade, sobretudo quando tentamos a todo custo esconder aquilo e quem somos. Outro dia, a conversa dela dizia mais ou menos assim.


"Filha, você precisa prestar mais atenção nas coisas à sua volta, e olhar para elas da maneira correta. Senão, você acaba não vendo nada por querer ver tudo de uma vez só. É sempre um passo de cada vez - um, e depois o outro. Não ajuda nada andar a dar pulos com os dois pés ao mesmo tempo. É como um rio, que começa é riozinho, e depois é que vai engrossando, engrossando, até chegar ao fim. E no meio desse tempo, o que é que ele faz? Ele corre, ele se deita sossegado parecendo que nem se mexe, ele salta por cima das rochas de nosso pai amado Xangô, ele lambe as beiradas das matas, vai se espreguiçar nas areias das curvas longas que faz, quando já cansou de ser rio e quer ser mar.

Pois então, olhar as coisas tal qual elas são. Igual esse céu aqui por cima de nós (e Vó Chica põe a sua mão calejada de anteparo nos olhos, e eu estranho, porque é de noite, estamos debaixo de teto, mas Chica vê tudo e longe, e eu vejo junto com ela esse telhado que e repente se transformou em amplidão de sidério). Esse céu, olha lá, filha. Tem vez que ronca e vez que relampeia, não é? E você escuta o que, filha? O ronco ou o raio? Se for querer escutar o raio e ver o ronco, não vai conseguir saber de coisa nenhuma.

Para cada coisa da vida é preciso o sentido correto. Se é de ver, é com os olhos. Se é de escutar, é com os ouvidos. E tá um mais certo do que o outro? É claro que não! Cada coisa se percebe com aquilo com que pode ser percebida. E a vida fica mais fácil quando a gente se humilda assim e se curva diante de Nosso Senhor Pai Oxalá, e pede a bênção e a inspiração pra fazer as coisas do jeito que ele mesminho pensou, antes de nós estarmos aqui. Se fez o raio pra ver, pra que é que nós vamos querer escutar? E pois ainda tem pessoa que quer ver, e se tumultua tudo, e à família também, porque quer que as coisas sejam do seu jeito, e não do jeito que são.

E eu falei em humildade, filha, porque não tem coisa melhor. Quem cultiva a humildade, colhe paciência e aceitação. E quem tem paciência e aceita as coisas sabe muito bem quando que é dia de gritar e quando que é dia de calar, e não fica gastando a vida à toa batendo cabeça nas portas que só vão abrir é mais de tarde, quando o sol se põe e a vigilância do povo adormece. Aí sim, filha: aí é hora de agarrar a maçaneta da porta e abrir igual vendaval.

O que eu mais quero, filha, é que você fique bem perto das coisas divinas, porque foram elas que me ensinaram a ser quem eu sou, que é o que eu já era antes de vir pra esse mundo e sair dele. É tudo mais simples do que você às vezes pensa, e o mais é a espera, que pode ser dolorosa, se for combatida, mas pode ser descanso, se for acolhida dentro dos braços como se fosse um recém-nascido, igual esses que a gente colhe assim que escorrega da Mãe."

27/10/2018

Mente, coração e mãos a serviço

A Umbanda convida-nos a tornar visíveis, com o nosso corpo, nossos pensamentos e sentimentos. Corpo mental, corpo emocional e corpo físico precisam de alinhamento, para que possam viver, de forma coerente, uma mesma intenção ou percepção. Observar a Natureza das coisas é um dos caminhos propostos pela Umbanda para perceber o mundo espiritual à nossa volta, e a forma como propõe a nossa relação com esse mundo também bebe dessa fonte. Estabelecer pontes significativas entre aquilo que pensamos, sentimos e fazemos é uma forma de nos aproximarmos desses mundos invisíveis e impalpáveis.

"Bater a cabeça", que é o ato físico de reverenciar o mundo espiritual ao chegar a um templo de Umbanda, é um convite a que, a partir da sede da nossa ligação mais sutil com esse mesmo mundo, estabeleçamos contato com os mundos sutis. Em nossa Casa, sob a orientação do Caboclo Pena Vermelha, significa deitar-se no chão com a cabeça voltada para o altar, ou congá, lugar onde se torna visível a energia que nos sustenta. Estamos entregues, e dispostos a essa entrega, em várias dimensões. Nossa cabeça, nosso coração e nossos membros estão rés do chão, assentados sobre aquilo que é comum a todo ser humano no planeta, em contato com essa dimensão que a todos iguala: o chão.

Nesse lugar, pensamentos, sentimentos e ações não se sobrepõem uns aos outros, antes se colocam a serviço, diante dessas forças que reconhecemos na natureza das coisas. Por isso a cabeça, o peito onde se aninha o coração, os braços e as pernas que projetam a nossa ação no mundo, estão deitados, alinhados nesse plano mais básico e sustentador de vida terrena. Tornamos visível a nossa prontidão e o nosso desejo de reconhecer a humanidade em todos os que pisam a Terra, não importando escolhas, passado, desejos ou ambições.

Nesse exercício, entender que o mundo físico, e as nossas ações dentro dele, está profundamente ligado aos nossos pensamentos e sentimentos, faz com que os três precisem ser coerentes entre si. Penso uma coisa, mas faço outra? Sinto de uma forma, mas as palavras que expressam meus pensamentos dizem outra coisa? O alinhamento entre o que se pensa, o que se sente e o que se faz é um fator de saúde - da própria pessoa e a da sociedade ao seu redor.

Observar a natureza das coisas demanda que o meu pré-conceito, o meu julgamento prévio, a noção que tenho das coisas até o momento, as minhas opiniões - tudo isso seja colocado em segundo plano. Eliminar o que me constitui hoje seria um contrassenso, porque esse meu pré-conceito, esse meu julgamento, é (também) a minha identidade. Mas identidade é algo que se reconstrói, todos os dias, a partir desses olhos novos que veem o que nunca foi visto, escutam o que não foi antes escutado, e permitem que o mundo avance e se modifique. Desafio? Sem dúvida.

Na vivência de terreiro, exercita-se esse olhar, e exercita-se a percepção de igualdade, a partir desse gesto básico e inicial que é o bater a cabeça. Saudamos todos os que integram o grupo, reconhecendo em cada um a própria humanidade, e assim nos preparamos para o exercício que nos propomos, que é o compromisso em servir. Mente, coração, braços e pernas na direção do Outro, do Próximo, a quem reverenciamos reconhecendo Nele a presença Dele, a presença divina.

Aguardem-nos tempos fáceis ou difíceis, parece indispensável que consigamos nos reconhecer no outro, que encontremos campos de encontro e de troca, que possamos superar a nós mesmos para superar quaisquer diferenças que possam existir entre nós e o outro. Nada terá valor se a coragem nos faltar, diz Rudolf Steiner; são as almas plenas que fazem tudo valer a pena, diz Fernando Pessoa. Que não falte à nossa alma a coragem de reconhecermos que este chão que todos pisamos é a Terra que a todos acolhe.

25/08/2018

Ser do Santo

Perguntam-me, depois do último texto, se eu eu virei umbandista. Virei, há anos.

Não gosto (nada) de definições, essas coisas que, mesmo não querendo, nos restringem. Dizer que se é uma coisa, poderá parecer que não podermos ser outras muitas. Porém, parece que chega uma hora em que são precisas, as definições. Para facilitar a comunicação. Ou estabelecer lugares de fala. Por isso, é bom esclarecer: sou umbandista, também.

Numa palestra bem interessante durante um encontro de escritores no começo deste ano, intitulada "The Healing Self" (o link você encontra logo aí abaixo), Deepak Chopra diz termos muitos e muitos corpos. A cada semana, um novo. A cada ano. A cada período de vida. Um bom ponto de partida para refletir que, mesmo ainda sendo os mesmos e vivendo, somos sempre uma nova edição desses nós mesmos.

Por isso, hoje posso dizer ser umbandista, dentre as várias outras coisas que também sou, as que fui e as que serei. Movimento e liberdade são fundamentais.

E o que vem a ser "ser umbandista"?

Vem a ser colocar-se num posto de observação de si mesmo e do outro que privilegia duas pequenas palavras: amor e afeto. Se formos à etimologia da palavra caridade (caritas) encontraremos ambas. E caridade é uma palavra indispensável no universo da Umbanda, essa religião brasileira que ergue a bandeira do amor e a leva alegremente, entre cantando e dançando, feliz de estar encarnada e atuante no mundo hoje, mudando e servindo conforme necessário, sincrética como a sociedade que reflete.

Ser umbandista é uma alegria diária, um lugar onde alicerçar a fé, um recanto onde encostar o cansaço, onde renovar a esperança, onde se nutrir de presença e "firmeza de cabeça", onde exercitar a fraternidade e onde perceber nítida e clara a presença do mundo que não podemos ver com os olhos físicos, mas que os olhos da alma reconhecem.

Parece um bom tema para escrever mais algumas coisas!



"The Healing Self", Deepak Chopra

19/08/2018

O ser deitado

Entre os muitos processos da Umbanda, a deitada é um dos que mais me encantam. Há casas e templos que a têm entre seus ritos e outros que não, por que a Umbanda é assim: nem todas as pessoas são iguais e fazem as mesmas coisas, nem todas as casas são iguais e fazem as mesmas coisas. E está muito muito certo que assim seja, desde que alguns princípios estejam observados.

É o que acontece na deitada, feita de puro amor, o princípio maior de toda Umbanda.

Chegam os filhos da casa no horário combinado e deitam-se no chão do terreiro: trazem a sua esteira, o seu lençol e a sua devoção pelos Orixás, pela essência divina que permeia toda a criação, das pedras à passagem do vento. Preparam as suas oferendas, essa forma de tornar visível a nossa compreensão e alegria pela vibração do divino e assim com ela nos comunicarmos. Acalmam seus corações da azáfama diária. Um traz um livro para ler durante esse dia de deitada, outro um pequeno trabalho manual ligado ao trabalho espiritual que realiza, um outro traz os pensamentos que precisa acalmar, outro as emoções que precisa soltar. Na deitada (que pode durar de horas a dias, e receber outros nomes dependendo de quem dela fale), o importante é cultivar a paz e o silêncio.

Deitam-se porque vão descansar. Descansar a alma no lago profundo que é a sua própria fé, esse lugar onde nos situamos quando temos certeza de sermos capazes de fazer o que devemos fazer. Descansam o corpo, descansam a alma, descansam o espírito. Retiram-se do burburinho diário, deslocam-se para um espaço e tempo de devoção e reverência. A devoção nos abre as portas do coração e a reverência nos faz rever quem somos, nos faz rever a essência do que somos, nos faz rever aquilo que nos acompanha sempre, ainda que às vezes esqueçamos.

Esse é um dos motivos pelos quais a deitada me encanta: porque permite espaço e tempo às pessoas, para que elas repousem e respirem, abrindo os braços e o coração àquilo que mais profundamente são.

Nós outros, os que ficamos do lado de fora do espaço da deitada (porque há um espaço determinado, protegido, silencioso, amparado e resguardado), passamos o dia trabalhando para que os que estão deitados o façam na maior qualidade possível. Resguardamos o silêncio, ficamos atentos. Preparamos a comida, cada tempero, cada elemento com seu porquê e sua forma. Pensamos nos motivos que nos levam a fazer o que fazemos. Ou não pensamos nada, porque ali não estamos por nós, mas por outros. Nos movemos na ordem, na disciplina e na limpeza. Promovemos harmonia, exercitamos a alegria de estarmos juntos no espirito da fraternidade que nos agrega uns aos outros. Enquanto eles se deitam na esteira, nós nos deitamos neste longo e frutífero rio que é o servir. Fazemos tudo o que fazemos pelos outros, os que deitam. E o serviço, essa dádiva, nos permite sair de nós mesmos sem nunca nos abandonarmos, e assim entrarmos no outro princípio da Umbanda. É quase no fundo aquele mesmo primeiro, porque a caridade é puro afeto e amor. A caridade desperta em nós e nos faz exercer o amor, amando-nos a nós mesmos como amamos os outros e vice-versa, e a deitada faz isso por nós. 

Quando termina o dia, e nos alegramos com os cantos que entoamos e nos emocionamos com o mundo espiritual que de tão tão perto nos acompanha e sustenta, podemos levar nas mãos, de volta às nossas casas, esse presente tão especial que é perceber como é grande e poderoso tudo o que nos habita.

17/08/2018

De rua

Romualdo e Ivanir passaram há uma semana pela minha vida. Literalmente, puxando seus carrinhos de (pensei) recolha de recicláveis. Não. Eram as suas coisas mesmo, as suas casas ambulantes, com todos os seus pertences dentro delas, numa arrumação muito particular acima da lei da gravidade.

Junto com eles, vários cachorros. Limpos, bem cuidados, bem alimentados, de pelo lustroso, olhos atentos e sossegados. Como se estivessem exatamente onde queriam estar, à vontade e satisfeitos com a vida. É Romualdo quem me diz: "você devia era se espantar de nós não estarmos tão cuidados quanto, não acha não?". Decerto.

Ivanir está umas quadras adiante, com dois vira-latas daqueles que parecem rir. "Dona, eu vou cuidar de quem, se não for de quem me cuida?". E não, não é porque os cachorros guardam as suas carroças-casas, e consequentemente as suas vidas. É porque são os únicos que os olham com olhos de ternura, os únicos que percebem quando estão mal ou tristes, os únicos que, a meio da anestesia indispensável à vida na rua, se aninham a seus pés num gesto de amparo. Quem olha para eles, me pergunto.

Como não ficar atordoada? São apenas seis quadras caminhadas, no centro desta São Paulo cada vez mais estranha. Garagens abrigam e lustram carros dia e noite, enquanto pessoas procuram onde se esconder, e aos seus filhos, nas noites de frio intenso deste ano. Toda marquise, requadro e viaduto estão ocupados por casas de faz de conta, ilhas de fantasia de doer o coração. Nesta, à entrada, num papelão recortado no tamanho exato do espaço que sobra, está o chinelo que o dono deixou antes de entrar no barraco improvisado com metade de uma tenda. Ali, do outro lado da calçada, a vassoura e a pá encostam-se à estrutura arriscada da casa, tentativa de manter limpo e habitável o metro quadrado de vida. Mais adiante, espremida no espaço entre a parede e a rua, uma mão aberta e descaída, os dedos longos e escuros, guardados por mais um cachorro de olhos sábios, terminando de lamber a marmita dividida. No meio da praça, o amigo guarda tudo o que encontra, de pasta de executivo a flor encarnada, criando uma sala no meio do vazio cinzento deste dia gelado. Por todo lado, a tentativa absoluta de conseguir um pouco que seja de dignidade, de conforto, de percepção de ser humano.

Cada vez há mais gente nas ruas de São Paulo. E cada vez há mais carros. E cada vez mais pressa. E mais cegueira. E mais incapacidade de perceber que o que é de um é de todos, e a miséria que é do outro é a miséria de todos nós. Estes cachorros do Romualdo e do Ivanir, como se tirássemos Zola da prateleira, estão mesmo mais bem tratados que seus donos humanos, e são estes que tratam deles com o cuidado e atenção que não recebem de ninguém, sem se importarem em reparar muito na própria condição. Dizem que o ser humano se acostuma com qualquer coisa. Eu espero nunca conseguir acostumar-me com essas ruas repletas de olhos e mãos, nunca conseguir encolher os ombros e caminhar sem me incomodar com as minhas mãos vazias, sem palavras possíveis para expressar a tristeza que sinto por poder fazer tão, tão pouco.

Imagem: Gabriel Marcondes