19/09/2012

Flores de ontem


Meus amigos acharam estranho o nome: alstroeméria. Fui conferir e, de fato, o nome da flor que levei de presente é esse mesmo. A culpa é de Claus von Alstromer, um sueco barão que em 1753 recolheu suas sementes e as levou para a Espanha - lá, ficaram conhecidas como Lírio dos Incas. Ainda assim, o barão deve ter gostado de lhes dar o seu nome, tanto quanto eu gostei de tê-las oferecido.

Flores são presentes que gosto de dar. Especialmente de corte, porque demandam o cuidado e a atenção de buscar-lhes um recipiente. Entre todas, gosto especialmente delas, as alstroemérias - além de lindas, duram uma eternidade (ou quase). Associam-nas, aqueles que gostam da linguagem das flores, à felicidade que pode unir as pessoas. As suas folhas crescem ao contrário: a folha torce-se ao sair do talo e ao final elas ficam todas viradas ao contrário, suaves contorcionistas. Como as amizades e outros sentimentos assim, que precisam torcer-se vezes sem conta sobre si mesmos para sobreviverem. Não precisam de tanto contorcionismo, estes amigos: a amizade entre nós não se interrompe, apesar da distância e do tempo que escasseia e impede que nos encontremos como gostaríamos.

Gosto de pensar que as alstroemérias que lhes levei permanecem no jarro da sala, seu recipiente físico, e aí ficarão durante muitos dias, viçosas, coloridas e sobretudo resistentes. O recipiente maior, no entanto, está dentro dos meus amigos, naquele lugar que abrem para o nosso encontro. É aí que esse símbolo que escolho com cuidado, as alstroemérias, encontra seu lugar de verdadeiro acolhimento. Quando há espaços internos para receber e ser recebido.

Como elas, resistimos, alicerçados uns nos outros. Para não sucumbir, para não permitir que o cansaço, a falta de tempo, as voltas que a vida dá impeçam que se veja diante dos olhos, luminoso e altivo, o entrelaçado da vida. À distância, os olhos dos meus amigos abrem-se para a permanência que as alstroemérias conferem ao lugar em que estão, e sei que sentem, por entre as suas flores, a presença concreta da nossa amizade. Tão concreta quanto as alstroemérias da foto: ontem, tentei reeditar essa forma de sentir. E as flores repousam dóceis  e resistentes na janela da sala.

13/09/2012

Suspiros

Dia desses, numa das aulas de Escrita Criativa, uma escritora querida contou-nos a seguinte história.

Seu neto encontrava bastante dificuldade na leitura em voz alta (e em voz baixa, consequentemente): desconsiderava todo sinal de pontuação (especialmente as vírgulas) e, coitado, perdia o fôlego frequentemente. Zelosa, a avó disse-lhe que, sempre que encontrasse uma vírgula, respirasse - que parasse para respirar. Ele retomou a leitura, fazendo da sua respiração, a cada encontro de vírgula, um profundo suspiro. Ela achou graça, claro, mas resolveu não dizer nada. Era um sábado, esse dia, e a leitura prosseguiu entre suspiros virgulados.

No dia seguinte, foram ambos lanchar a uma padaria perto de casa. A avó perguntou-lhe o que queria e ele  respondeu sem titubear: - Ali, aquele doce de vírgulas! Os olhos da avó brilham ao nos contar, e faz um silêncio profundo. Olhamos todos para ela esperando a explicação. - Não entenderam? Ele queria um suspiro!

Uns dias depois, em outra aula de um outro grupo, conto a história. Porque o tema em mãos era, justamente, pontuação. Coisa que as pessoas acham que não sabem - embora ninguém se atrapalhe com ela ao conversar... Chegamos à conclusão de que as vírgulas são silêncios, espaços de tempo em que os sons dão um tempo dentro da gente para se ouvirem melhor. Logo me vem o silencioso instante antes do nascimento, o segundo anterior ao primeiro respirar, ao primeiro suspiro que integra um novo ser à vida terrestre. Quem viveu na Idade Média falava em spirare, e tanto podia querer dizer respirar, quanto soprar, quanto viver. Esse intervalo de silêncio, o sopro, o respirar, mantém-nos vivos e à tona.

Cada aula poderia, tranquilamente, render um texto. De tanto que todos se ensinam, sobretudo quando o olhar atento à palavra se desencontra da lógica da regra, quando a intuição assume a liderança e as palavras se soltam de dentro de cada um, falando elas mesmas do que tratam, do que fazem, do que são, do que querem - quando de repente a escrita se resume a um espaço em aberto, livre, solto, disposto a se doar à nossa mão imaginativa. O diálogo transforma-se, nessas horas, e emerge a impressão de que sabemos muito mais do que achamos que sabemos. Sobre pontuação, e sobre muitas outras coisas - sobretudo quando conseguimos deixar que as regras repousem tranquilamente a alguns metros de distância da vida, essa matéria oxigenada que compartilhamos enquanto respiramos.

10/09/2012

Escanteio

Futebol não é coisa que me entusiasme. Gosto das finais, mas mais da festa das arquibancadas, seu colorido exagerado, do que dos movimentos do campo em si. Divirto-me observando torcedores empolgados, mas nada que além disso realmente me tome por dentro. O que me toma por dentro é essa reunião de pessoas que se reconhecem em coisas simples.

De tudo o que acontece, porém, gosto dos escanteios. Porque se parecem com a vida, naqueles momentos em que é preciso reiniciar uma partida, depois que a bola saiu completamente de campo pela linha do fundo - sem ter, obviamente, marcado gol. Respirar, perceber quem tocou na bola pela última vez e decidir quem, da equipe contrária, baterá o escanteio. São bons momentos para marcar um gol, que uns defendem e outros tentam conseguir. Não sei de estatísticas, mas parece-me que na maioria das vezes (feliz ou) infelizmente não há gol e a partida continua. 

Às vezes, na vida, a partida parece parar indefinidamente. Ninguém se mexe, como se campo e arquibancada decidissem suspender a ação e esperar que os deuses descessem do Olimpo para decidir a vida. Eles não vêm, há séculos. Entregaram-nos a batuta e não se imiscuem mais. Cabe-nos decidir pra onde a bola, pelo pé de quem, e se sairá de uma intersecção de linhas que parece uma encruzilhada, ou da tranquilizadora reta sem desafios.

Curioso que, se a bola sai por uma das laterais, deva ser relançada ao jogo do lugar por onde saiu. Uma saída rápida, um retorno rápido também, sem maiores consequências - essa a tranquilidade da reta. Mas quando sai pela linha de fundo, quando alguém tentou (eu sei, nem sempre, mas muitas vezes) marcar um gol, arriscar-se à vitória, ao sublime, precisa obrigatoriamente voltar ao jogo pelo canto. Deve ser mais fácil, à equipe adversária, tentar um gol nessa posição de lançamento, e por isso qualquer saída pela linha de fundo representa um risco - e se não se acerta o gol, e quem o faz é o adversário, na cobrança do escanteio? Está-se mais perto da baliza, como diriam meus conterrâneos, numa inclinação que a um leigo parece bem interessante.

Como na vida, penso de novo. Dependendo de por qual linha a bola saiu, dependendo do ímpeto, do nível de risco, da avaliação das chances, o retorno acontecerá. O gol que tentou ser marcado pode ser como os burros n'água, pode ser que de repente tudo se volte contra, dentes arreganhados num sorriso quem sabe se de escárnio, ameaça pairando no ar. Nessas horas, não há solução, não adianta olhar em volta à procura de ajuda: parte-se para a defesa, cotovelos com cotovelos, esperando que o salto no ar, cabeça em direção à bola, seja o suficiente para desviá-la do caminho da rede. Quando não é inevitável, costuma dar certo.

06/09/2012

Palavras perigosas


Avanço noite adentro olhando de soslaio para as tarefas que preciso cumprir – seja terminar o romance em mãos até o dia previsto, seja dar andamento à tradução com prazo. O olhar que tudo me devolve é esse: tarefas sem cor a serem cumpridas no tiquetaque do relógio. Por isso, faço uma pausa para inventar outra coisa, para que as horas que se aproximam me sejam produtivas. Palavras em forma de crônica às vezes servem para isso – para desempoeirar a noite, para temperar as horas de qualquer sabor que se invente mais colorido e transforme tarefas em alvos a serem atingidos alegremente.

Passei o dia com uma ideia em movimento dentro de mim: dos vários perigos que rondam as palavras, o maior deve ser o que ronda as que agregam no seu começo o prefixo sub. Tudo o que vem depois dele, antes mesmo que comece a ser, apresenta-se logo diminuído. Como uma maldição, uma sentença, um aviso em letras garrafais. Casas subavaliadas, por exemplo: moradias às quais não se presta a atenção devida. Palavras subentendidas: correm o risco de nunca serem realmente percebidas tal qual se queria, e tornam-se menores em importância. Atitudes subreptícias: esgueiram-se por onde não devem, e tornam-nos menores do que esperamos tornar-nos. Propagandas subliminares: atingem-nos sem que possamos nos defender, e esmagam-nos até sermos menos do que somos.

Estimar é gostar de alguma coisa, ou pessoa, e cuidar dela. Da maneira como ela precisa, que às vezes não é muito exatamente a nossa própria maneira. Uma arte, desapegar-se de si mesmo para agregar o outro, dar-lhe o valor que tem, partes diferentes confundindo-se num todo maior, sem subs de permeio. Quando se gosta menos do que o outro merece, e quando se cuida menos do que o outro precisa, subestima-se o que ele é. E ele diminui. 

As palavras podem fazer-nos definhar. Por isso o perigo.

Em momentos assim, é como se mergulhássemos o ouro que temos nas mãos em águas turvas. Perdem-se as mãos e perde-se o brilho. Desperdiça-se tempo, dedicação, atenção, pensamento. É preciso, a todo custo, equilibrar opostos, desviar de contradições, aproximar o que é diferente através da aceitação – e talvez a mais difícil seja aquela que nos diz respeito, a nós mesmos, as nossas pequenas diferenças, agulhas espetadas em nossos pontos mais sensíveis. Não somos iguais o tempo todo, mas não precisamos ser subnada: como vários eus que se encontrassem e transformassem o espaço entre si numa festividade alegre.

Às vezes antíteses, às vezes paradoxos, nossos sentimentos tendem ao inteiro, mesmo quando os tentamos converter em subprodutos da nossa matéria. Não se pode viver em subtração, em subdivisão, num subtempo que tenta a qualquer preço converter-nos em subpessoas, vivendo às metades cada parte do dia, deixando para logo mais o que deveria estar e ser, estendido em nossas mãos, a todo momento.

É preciso guardar o ouro no lugar em que brilha, e não nas profundezas do que subjaz. É preciso sobreviver. E as tais tarefas, que de longe pareciam submeter-me a uma prisão sem grades, reluzem diante de mim como a própria sobrevivência. Deixo tudo em mim em aberto, e avanço para cada uma delas como se de ouro puro se tratasse. Limpando os sub que se interpõem entre a vida e eu. Arejando os quartos onde a vontade mais profunda se detém, à espera.

05/09/2012

Exercício: a personagem, ao acordar

Como se a pele descamasse para dentro, lembra-se Isaura ao acordar. Como se todos os toques do mundo, os sutis e os mais densos, fossem absorvidos por uma camada de derme invisível, interna, que os microscópios insistem em não detectar. Deve ser assim, pensa, que as pessoas se compõem. Das marcas por baixo da pele evidente.

Isaura demora-se na cama. Procura dentro de si os toques mais antigos, aqueles que a fizeram nascer e brotar para a vida, os primeiros dedos que imprimiram as suas dobras infantis. Estão lá, pressente, como condições que outros impuseram ao tato que construiria durante a vida inteira. Lembra-se da mãe, dos irmãos, da vida de pequena, tão fácil de ser vivida enquanto sequer era pensada. Uma maciez que acoberta os bruscos redemoinhos da vida, todos eles prensados nessa pele de dentro, escamada, transparente.

O cheiro que cada tamanho de amor plantou por entre os seus poros está lá, nessa fina película de memória táctil. Encostam-se uns aos outros, esses cheiros feitos de poros alheios, filtrados e perenes. Descansam imóveis, numa forma quase intacta de memória. Isaura só pode vê-los de fora; perderam o aroma, são só formas estelares de escamas de pele que entraram dentro de si em vez de se espalharem no cosmos.

Não podem ser trazidos à tona, e é essa percepção que faz com que a presença morna do cobertor contraste com o frio de fora. Isaura deveria levantar-se, de um pulo, concretizar-se no dia de hoje. Mas demora-se, como raramente faz. A sua pele de fora ainda se ajeita no dia de hoje, incapaz de relacionar-se com a teia de vibrações antigas que a faz ser quem é. E sem querer, muito sem querer, Isaura incomoda-se. E sofre. Sofro de mim mesma?, pergunta-se de olhos fechados, resistindo à tentação de abri-los e perceber o quanto a sua pele de fora está dentro do presente.

Talvez se soubesse o que fazer com o seu tato de hoje. Talvez se as rugas que colecionou vida afora não a lembrassem da passagem inabalável do tempo, seus começos e fins anunciados. Talvez se houvesse viço nessa pele seca pela falta de chuva. Talvez se seus olhos tivessem a capacidade de ver através de todas as camadas. Talvez se conseguisse reter dentro do espaço que formam os seus dedos a presença etérea de Armindo, Armindo longe, Armindo não sabe onde, Armindo que a deixa de rastros, Armindo que se ausenta e lhe oferece com mãos quentes um vazio feito de luz e solidão. Mas a vida acorda toda sins e nãos, os talvez não têm espaço e Armindo, Armindo escapa por entre os dedos, desliza pela palma da mão e escorrega para o silêncio.

E Isaura levanta-se. Toma banho. Arruma as suas coisas, quase maquinalmente, preparando-se para vestir a pele com que o mundo a reconhece. E pergunta-se, enquanto fecha a porta à chave, se conseguirá suportar-se ainda muito tempo.

28/08/2012

Por causa do plâncton


Nos encontros de escrita criativa há exercícios que surgem, assim de repente, e que constituem surpresas linguísticas. Muitas vezes as palavras que os outros me aportam ficam na minha memória mais profunda – transformo-me em porto para dar-lhes guarida, esperando que se sintam em segurança e não me abandonem. Eclodem depois, também de repente, como se aguardassem numa paciência de gestação que eu as alinhavasse às impressões do cotidiano mais prosaico. Nessa troca de roupagem, o dia a dia esgueira-se para dentro da magia que as palavras contêm em si mesmas. Ilumina-se e ilumina-nos. Quase que à maneira de uma Orides Fontela: “A luz está/em nós: iluminamos”. Porque o que vem do outro ilumina-nos. E porque num passe de mágica, a realidade plástica das palavras torna-se movimento livre diante dos olhos. Foi assim, dia desses, com a palavra plâncton.

Graças a M., que estudava afincadamente para a sua prova de biologia, descubro (os demais já sabiam, a única biologicamente inculta era eu mesma) que plânctons não nadam contra a corrente. Permanecem em suspensão, algas e organismos minúsculos, deixando que o movimento das águas que habitam os conduzam, plenos de fertilidade. São seres errantes (plágchian, contam os gregos), e ainda por cima sintetizadores de luz. Iluminam-se. Aos nectons, peixes que acompanham o fluir aquático, acontece o mesmo: acompanham a corrente das águas, tão à vontade nessa entrega que lhes é destino.

Já os benctons (M. com certeza terá uma nota fantástica na prova!) são diferentes: associam-se ao que não se mexe para (talvez) não se deixarem levar pela correnteza. Agarram-se às rochas que encontram, e lá ficam, observando imóveis e previdentes o fluir da água. É bom que haja faróis atentos ao movimento em volta, como guardiões. Talvez os benctons o sejam, e assim plânctons e nectons fluam com mais tranquilidade por entre a espuma e as ondas. 

Todos vivem na água, seu elemento de base. E é pela água que eles me interessam: vejo-a por todas as partes, até nas mais sólidas do corpo dos outros. Enquanto escrevem, estes meus alunos tão aplicados e plenos de entusiasmo, nem percebem que os observo, procurando por entre seus gestos, por entre as pausas que fazem enquanto procuram no ar a palavra que lhes falta, a presença da água que trouxeram para dentro da sala, com seus plânctons, seus nectons, seus benctons, todos esses seres dóceis e sensíveis ao toque do elemento líquido na sua constituição. As mãos fluem pelo papel, vejo-as tornarem-se menos densas, brincando com as palavras que escorregam dos dedos para dentro da folha em branco. Uma ri, sozinha, naquele alheamento de quando as palavras nos fazem cócegas; outra, escreve e apaga, num meneio de cabeça que indica que não, ainda não é assim que quero dizer o que quero dizer; um outro está absorto, e é ele quem mais parece procurar as palavras que ainda lhe faltam. Porque os tempos são diferentes e este, que precisa do seu próprio tempo para desentocar as palavras das cavernas em que brincam de esconder-se, sorri finalmente e começa a escrever com um brilho aquático por entre os olhos. Eu mesma estou mais líquida, da cor das lágrimas que escorrem por dentro, como sempre fazem as minhas águas internas quando as palavras assumem seu lugar ao leme desta sala em que se escreve.

27/08/2012

Benvinda


Num certo momento da sua vida, meu pai tomou a decisão de, em vez de comprar uma casa, abrir uma loja de material esportivo. Revendedor exclusivo da Tretorn, marca que patrocinava a sua carreira de tenista, em poucos meses confirmou-se o vaticínio do meu avô: encordoamentos de graça para o amigo querido que nunca lhe negara o ombro, bolas distribuídas pela rapaziada que amava tênis mas não tinha dinheiro para comprá-las, demonstrações de produtos que pouco rendiam – o tino comercial do meu pai abria um rombo incompreensível nas finanças familiares. 

Meu pai viajava, e eu muitas vezes com ele, para torneios e campeonatos. Não conseguia decidir-se: o que era ele afinal? Um jogador em competição ou um vendedor em busca de negócios? O jogador invariavelmente ganhava. E o vendedor esquecia-se de vender, e preferia distribuir faixas de cabeça para divulgar a marca e deixar os outros felizes com o presente. Não sei quanto tempo a loja durou, mas tivemos bolas e raquetes e bolsas Tretorn espalhadas pela casa durante décadas.

Numa dessas viagens a campeonatos, creio que ao Algarve, lembro-me de uma senhora, rosto emoldurado por uma espécie de capacete de cabelo louro, olhos azul cobalto e imenso entusiasmo com o tênis. Chamava-se Benvinda. Eu era pequena, e fiquei encantada com esse nome. Aprendi, com ela, a diferença entre substantivos próprios e comuns: próprio era o nome dela, Benvinda, invulgar e cheio de esperança, ela mesma uma pessoa invulgar, de hábitos diferentes da maioria das mulheres que me rodeavam. Andava sozinha, fumava uma longa piteira de prata e tratava todos os homens por “tu”, numa desenvoltura e alegria que insuflava vida a qualquer ambiente a que chegasse. Sentava-se nas arquibancadas com um chapéu branco imenso, e chamava-me para sentar-me ao seu lado. Ria, apertava-me a mão e comentava cada lance a um lado e ao outro da rede. Não tinha favoritos: eram todos seus favoritos.

Comum, especialmente para ela, era sentir-se bem-vinda. Contagiava-me, o espírito de Benvinda, e era também bem-vinda que eu me sentia por entre raquetes e redes, divertindo-me mais com a observação do público do que com o jogo em si, em liberdade quase absoluta enquanto meu pai jogava e torcia pelos amigos que também jogavam. 

A sensação de ser bem-vindo é poderosa. Uma espécie de sentimento de adequação, de certo no certo, um aquecimento interno que desenha um sorriso leve nos lábios. São horas preciosas, quando nos sentimos assim. Podem ser as cores de três vasos de flores simples que pousam anonimamente em cima da mesa da sala. Ou o pão de mandioca deixado à porta, embrulhado num paninho bordado, com dois galhinhos de flores lilases e o bilhete sem assinatura: “Bem vindas”. Ou o bem-vinda que se ouve, num sussurro quase em silêncio, a meio da noite, como a morada de um reconhecimento, um aquecer que adormece de sorriso interno. Desconfio que andei sonhando com o chapéu esvoaçante de Benvinda pairando por cima dos campos de saibro. Sorria-me, ainda de longe, e acenava-me com a mão, num movimento aéreo de “vem sentar-te comigo, sê bem-vinda!”.

23/08/2012

Hiatos e ditongos



Hiatos, diz-me Aurélio (Buarque de Holanda) são encontros – de duas vogais, uma no fim de uma sílaba, outra no começo da próxima. Criam-se, penso, a partir de um vazio, de um vácuo, uma falha no tempo comum – uma questão de tonicidade, dir-me-ão alguns, mas é muito mais do que isso. É um pulo no desconhecido, breve e rápido, quase imperceptível. As sílabas sentem-no, mas o nosso falar apressado quase que consegue suprimir a falta. E pensa-se que há som sempre, e o silêncio tênue dos hiatos não se escuta.

Usa-se falar de hiato também na anatomia dos corpos: aqui, o hiato é uma fenda ou abertura no corpo humano, um espaço entre duas realidades da carnadura concreta. E é ainda aplicável a qualquer campo semântico: uma lacuna, um intervalo. De onde vejo, um espaço de tempo dentro do tempo, onde quem sabe se respira melhor, onde quem sabe se vê melhor, onde quem sabe se sente com um sentir mais sentido. Isso, se há espaço para o silêncio, porque seja de som ou forma, um hiato é sempre sempre intervalo, fenda, abertura, vácuo. Quanto mais penso neles, mais eu gosto dos hiatos, espaços vazios imperfeitamente perfeitos. Como se uma perfeição feita de mil pequenas imperfeições – as nossas lacunas e falhas e intervalos e silêncios reunidos e em encontro uns com os outros.

Às vogais que se juntam numa mesma sílaba, unidas visceralmente, dá-se o nome de ditongos. Por vezes crescem, por vezes diminuem. Uma questão de entonação, de sonoridade, de ordem das coisas dentro do mundo próprio da palavra. Cresce-se ao dizer o ditongo que contém a palavra “quando”; e diminui-se (paradoxalmente) ao vocalizar o ditongo presente em “mais”. 

A poesia lida de forma livre com os ditongos: cria hiatos para conseguir o tempo e o ritmo certos. Camões assim fez - expandiu ditongos em hiatos, num processo a que tecnicamente se dá o nome de diérese. O poeta clássico, num de seus muitos sonetos, expande a palavra saudade para nos tornar mais palpável a distância que existe entre os olhos de quem ama e o seu objeto de amor. No terceiro verso (veja logo aí embaixo), expande o ditongo da palavra saudade para nos preencher  justamente de mais saudade, para que ela seja mais e maior do que parece à primeira e ditongal vista: primeiro, sau-da-de, depois, sa-u-da-de. Uma percepção sutil e fina do tamanho da falta que sente aquele que ama e está apartado do seu amor, em sílabas que só são 10, como deve ser um soneto, porque a saudade recebeu ar dentro dela.
                   
                     Têm feito os olhos neste apartamento
                     um mar de saudosa tempestade,
                     que pode dar saudade à saudade,
                     sentimentos ao próprio sentimento.


A vida embrenha-se numa sucessão de hiatos e ditongos. Às vezes, espaços que se abrem no vazio, e nos separam em sílabas que se juntam apenas pelo silêncio que se faz entre elas, a supressão do que é comum abrindo espaço ao divino. Outras, espaços que caminham juntos, alicerçados, amalgamados como vogais que não queiram largar-se jamais, mas onde a mão de poeta em cada um de nós escolhe inserir um tempo, um breve segundo de respiração suspensa, um hiato que se esgueira para dentro da cômoda vida dos ditongos, abrindo-a e fazendo-a respirar em liberdade. Porque o mais provável é que a perfeição resida mesmo no que é (ou parece) imperfeito.



O soneto de Camões, na íntegra:

Têm feito os olhos neste apartamento
um mar de saudosa tempestade,
que pode dar saudade à saudade,
sentimentos ao próprio sentimento.

Em dor vai convertido o sofrimento,
em pena convertida a piedade;
a razão tão vencida da vontade
que escravo faz do mal o entendimento.

A língua não alcança o que a alma sente.
E assi, se alguém quiser em algüa hora
saber que cousa é dor não compreendida,

parta-se do seu bem por que experimente
que, antes de se partir, melhor me fora
partir-se do viver para ter vida.

13/08/2012

Ainda a cidade nova...

As férias de julho de dona S. começaram bem. Uma sequência de bingos na paróquia perto da casa da sua amiga D., lá longe, outro bairro, distante do dia a dia. Abre um sorriso assim que me vê, espantada com as ausências maiores que as presenças. Viajo muito, reclama, como é que vou virar sua amiga... Vai bonita, arrumada, atrasada porque precisou fazer a unha. Se vai aproveitar pra namorar? Ora, minha filha, pra que isso? Tou melhor sozinha do que com outro igual meu marido. Gritava, irritava-se com qualquer coisa, queria tudo a seu tempo - seu tempo, e não o tempo do tempo. Muito menos o tempo alheio. Vejo-a andar apressada pela calçada sombreada, enérgica sob a ilusão dos cabelos todos brancos, até virar e desaparecer na esquina.

Queria que eu fosse com ela. Mas eu prefiro ir até o cemitério. Além de não morrer de amor por bingos, prefiro olhar para o tempo que escorre devagar por entre os túmulos, como se água calma que não espere nenhum meandro mais, sequer o desaguar no oceano.

Qualquer dia é dia de visitar cemitério, mas aos domingos há mais gente que se lembra de quem se foi. Aparecem todos armados de mangueiras e baldes, despejando carradas de água, como diria  seriamente minha avó, nas lajes enegrecidas pelas queimadas fora da lei que persistem apesar das multas. Esfregam, trocam a areia dos pratinhos dos vasos, benzem-se entre uma e outra coisa. Causam-me ternura duas velhinhas de preto, parecem um luto gêmeo, assim ao longe. Visitam seus maridos idos, conversam saudosas com as pedras como se elas tivessem os ouvidos deles, e ainda lhes sorrissem de volta, confirmando a saudade imensa que sentem nas planícies do Senhor. Arqueiam as costas de vez em quando, difícil viver assim agachadas, uma fé de coluna esmagada que dói só de olhar.

Vou armada de máquina, para registrar esse Cristo que se levanta acima do horizonte e contempla o infinito, onde o tempo nem passa, nem entra, nem escorre. Onde as coisas são. Plenas, limpas e simples. Imutáveis. Demoro-me, porque me faz bem. Quero o mesmo.

Dona S. volta do bingo agitada - conto-lhe da minha ida ao cemitério e os olhos enchem-se-lhe de lágrimas. Afinal, diz-me, foi como ir ao cemitério. Com todos os defeitos, era melhor ir com meu marido e voltar para casa rindo das bobagens que dizia... do que assim, a casa vazia e ninguém pra conversar. E seu olhar é o mesmo das velhinhas de preto, apesar das unhas vermelhas. Talvez porque seja dentro de nós que as coisas sejam, em permanente sobrevivência. É mais fácil atravessar a noite dessa forma.