Vó Chica costuma falar por imagens, mas às vezes chega-nos primeiro o pensamento. Quando ela percebe que ficamos na soleira do entendimento, que ainda nos falta chão para entendermos do que ela está mesmo falando, pesca uma imagem e, de repente, é um alumbramento.
Antes de fechar os olhos, Vó Chica tinha dito que não há como perder tempo. Que nós não podemos perder tempo, porque tal coisa não existe. "Tempo, filha..." e fecha os olhos nessa busca.
"Tempo não é como uma chave, que você perde e perdida fica, até que você encontra. Tempo não se perde, porque não há como encontrá-lo de volta."
Vó Chica é desse jeito. Planta uma semente dessas dentro de nós, e deixa lá ruminando. Disse mais uma coisa: "O que se faz é ou bom uso do tempo, ou mau uso". Perder, mesmo, nunca se perde.
A palavra tempo carrega em si uma raiz antiga. Deriva do indoeuropeu ten-, que significa esticar, alongar. Assim como era antes, assim é agora: o tempo se alonga, se estica, característica das coisas que são elásticas quando as reconhecemos assim, quando olhamos para elas dessa forma e assim nos relacionamos com elas. "Dependendo de como você seu tempo, filha, alongam-se coisas distintas."
Vó Chica sorri por entre o último gole de café, e se vai.
Hoje já é outro dia, quase um outro tempo, e eu a percebo por perto, seus olhos miúdos querendo saber se eu entendi, se eu aprendi, se eu apliquei. Nessa ordem: entender, aprender, aplicar. E quando ela diz "aplicar", e não "colocar em prática", por exemplo, eu sei que tem algo nessa palavra que é preciso descobrir.
Aplicar, descubro, é fazer uma dobra. Resulta da fusão das palavras ad e plicare. Significa devotar-se, aplicar-se, dobrar-se sobre algo. Sobre algo que se aprendeu e que se entendeu. Dobrar-se é uma tarefa importante na vida do espírito, que é a própria vida afinal. É preciso dobrar-se para ver de outras formas, dobrar-se para reconhecer o próprio tamanho, dobrar-se para caber onde se quer caber, dobrar-se para entender o mundo do outro, dobrar-se para encontrar até mesmo as próprias dobras e poder alisá-las para ver melhor as coisas. Dobrar-se, e aprender a dobrar-se, demanda tempo, e vontade. Demanda dispor-se a fazer um bom uso do tempo, e a ter coragem. Mais fácil é por vezes esquecer=se disso e usar de piores maneiras o tempo, e aí já sabemos: a colheita será certamente conforme o semear.
De tudo isto, o tempo é capaz. E de tudo isto nós somos capazes, de uma forma ou de outra, encontrando o caminho que nos faça florescer, em tempo bom.
