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29/04/2026

Presença


Diz Vó Chica: para estar presente, é preciso estar ausente.

Vó Chica coloca um sistema em movimento, que me faz, via de regra, buscar a etimologia das palavras, talvez porque esse seja meu lugar de nascença. Há um quê de antecipação, se olharmos para a raiz latina desta palavra “presença”: prae+esse. Para estar presente, é preciso estar à frente. O verbo esse também nos indica “ser”, e não apenas “estar”. Ser presente e estar presente são quase a mesma coisa. Uma introdução, penso. Há muito assunto nessa frase aparentemente simples, mas onde os “quase” não têm espaço.

Vó Chica repete: para estar presente, filha, é preciso estar ausente. Não é possível você estar presente aqui, e em pensamento presente em outro lugar. Ou de coração presente em outro lugar. Eu não conseguiria falar com você, entende? Para que me ouça, filha, preciso encontrar você inteira, completa. Se você não está em um mesmo lugar, seu pensamento e seu sentimento ocupando um mesmo lugar, a sua presença não é real. O seu coração e a sua mente precisam se encontrar, e enquanto você buscar o oposto, você não estará, nem será, nem representará presença em lugar algum.

Claro que não é fácil, eu sei. E por isso eu venho lhe trazendo ferramentas, porque é preciso cultivar esse campo, e para isso há ferramentas. Plantar e desenvolver essa presença que, sim, é uma ação, mas, me diga: de onde nascem as ações que não são automáticas? E nem apressadas? Eu lhe digo. Do seu pensamento e do seu sentimento colocados em um mesmo e único lugar. Você verá: quando isso acontece, o mundo inteiro, as coisas todas, as tarefas todas, esperam. Não há nada de magia aqui, filha, a palavra é outra. Quando você traz seu coração e sua mente para um mesmo lugar, você está presente nesse mesmo lugar. De outra forma, a única coisa que você consegue é estar fora, afastada.

Eu lhe dou um exemplo. Se você deseja estar com o pensamento em alguém, é preciso que esteja lá também com seu sentimento, e que nada distraia você nesse momento. É assim: você deixa seu lado de dentro repleto dessa ocupação, o que é o seu interior cheio disso a que você quer dar atenção. Mas eis que, de repente, surge outra ocupação a fazer, e não há como deixá-la para depois. Seja sensata, filha: deixe de lado aquele alguém em quem você pensava com a mente e o coração, e afaste-se. Completamente. O seu estado de estar presente só se treina se você treinar o estado de estar ausente.

Veja a louça que você lavava agora mesmo. Se você deixa o pensamento na louça, e o sentimento de gratidão, por exemplo, por essa mesma louça, por essa água, por esse gesto, você está, mesmo, lavando louça. Se você lava louça e ao mesmo tempo pensa no que aconteceu ontem ou se mistura com aquilo que precisa fazer depois, você não está plantando e florescendo a sua capacidade de estar presente. E nem treina a sua ausência.

Você treina estar dividida.

Por isso, filha, estar presente significa algumas coisas além das que já conversamos. E você, me escutando agora, pode ouvir mais. Significa abdicar da sua vontade, por exemplo. Você pode muito querer estar de corpo e alma presente, como se costuma dizer, em um assunto, mas a vida pede o corpo presente em outro assunto – e a alma precisa acompanhar. Para que você não se quebre, não se divida, não enfraqueça, não adoeça. Você pode precisar sacrificar-se, e seu pensamento pode querer voar para outra coisa, além daquela que seu coração coloca diante de você. Por exemplo, ouvir uma pessoa que deixa você entediada. Porque ela se repete, ou porque você já entendeu, ou porque você sabe que tem outras urgências a atender – você percebe? Este já foi um outro pensamento, e você já está pensando naquilo que você pensa que devia estar fazendo. E o que a pessoa lhe diz fica perdido, você já não está ali inteira com ela. É aqui que você quebra, se parte, se divide – deixa de estar presente e, ao mesmo tempo, não está ausente. Está dobrada sobre si mesma, criando curvas e dobras que será difícil depois desdobrar, porque você não está escutando, e seu coração não está no que você está pensando. Você entende?

Eu gosto muito, filha, de quando você escreve o que você me ouve dizendo. Ajuda a que você ouça mesmo, não só o que eu consigo que se ouça do lado de fora, mas também o que você pode ouvir do lado de dentro. Porque eu ocupo o seu interior, filha, e eu não me divido, nem me parto em você. Quando vocë me permite estar, saiba que estou completa, e que em seu interior planto o que é inteiro. Quando escreve, o que não se ouve torna-se visível.

É claro que você gostaria de já conseguir fazer tudo de forma inteira. Acontece que, por um lado, é plantar, regar, cuidar, adubar. E, por outro, é também colher, porque é na colheita que se percebem melhor as coisas. Você está colhendo da vida o que você, em pensamento e em sentimento, quer colher? Se não é, ou seu pensamento se distrai, ou seu sentimento não está ali. E você não está completa em lugar nenhum. E por isso a vida trava. A vida chora. A vida perde o sentido. Porque é você que dá o sentido à vida, e não o contrário. A vida já é sentido, você não vê? A vida já se faz todos os dias, todas as noites, a todo instante ela é pleno sentido. Porque ela é inteira, ela não se divide, ela não está aos pedaços, uma parte em cada gaveta. Ms você precisa lhe dar sentido, porque você ainda não o tem, e isso só se consegue quando se treina. Fazer sentido é aquilo que se consegue quando se presta atenção ao que acontece ao redor e, para ter sentido, a vida precisa vibrar no coração e na mente, ao mesmo tempo e sem que uma coisa se avalanche sobre a outra. Como vai prestar atenção se não presta atenção? Sim, filha, agora sim: a palavra é coerência. A maior das magias. Sua mente e seu coração ligados, unidos, em uma só melodia, em um só volume, em um só sentido.

Mas há mais coisas, filha. Estas vezes em que consigo que você repare na Palavra e a deixe semeada em você, é quando os frutos se misturam com as flores e você pode, num mesmo tempo, sentir o aroma e o gosto das coisas que lhe digo.

Estar presente também quer dizer parar de insistir, parar de teimar, parar de resistir. Porque não é só você que está no mundo, e não são só as necessidades suas que se colocam em seu caminho. Você já sabe disso. Mas às vezes se esquece, que é o que acontece com todo mundo quando não se esperava o que afinal acontece. Você pode ter estado muito presente em uma coisa, sem um nadinha de ausência. Devotada, eu diria, tal qual uma promessa feita, e nesse sacrifício a vida ganhou sentido. E de repente essa mesma vida solicita a sua presença, plena e completa, em outro lugar. Não adianta se apegar, não adianta dizer “mas eu preciso estar lá também”. Se você precisa estar presente em um lugar, não há como você estar presente no outro lugar. Achar que pode é o primeiro degrau do sofrimento, o segundo é insistir e resistir.

Abdique. Renda-se. Entregue-se. Ser mansa é ser humilde, e ser humilde é saber se render. Se o caminho se mostra diante de seus pés de uma certa forma, de nada adiantam nem atalhos nem bermas nem acostamentos nem desculpas nem mágoas nem desgostos nem arrependimentos nem teimosias.

Quantos barcos você vê navegando nas margens? Para navegar, são precisos rios, as margens apenas os contêm para que possam servir aos seus propósitos, que são também os barcos que navegam nos rios, assim como os rios navegam no mar.

Não só fique em paz, filha. Seja a paz.

03/02/2017

Às nossas pegadas

Samuel chegou ontem, dia 2 de fevereiro, dia de festa no mar. Menino robusto e valente, tão decidido a abrir caminho a seus passos, que se anunciou para nós primeiro com o seu pé direito. Seu pai encantou-se com os pequenos dedos dentro d'água, um homem feito em sorriso puro de menino diante do milagre e da surpresa. A mãe, nos campos do espanto, olhos imensos transbordados da água que só uma mãe dando à luz carrega dentro dela. O espanto é a alma aberta, disposta, compreensiva dos caminhos que não conhece.

Nós, os privilegiados ajudantes desse momento, silenciávamos, imersos na meia luz da hora de nascer, nessa reverência indispensável às chegadas.

Passamos o dia caminhando. Conversando. Parando para nos olharmos nos olhos e reconhecermos a intensidade da contração de anúncio e preparação. "Essa, sim, foi das boas!" E essa era a contração forte, a intensa, a vaga tempestuosa que anuncia aberturas para além das ósseas.

A meio da manhã, pensei nos que partiam. Porque sempre há, no mesmo instante, os que chegam e os que partem. O lugar de passagem é o mesmo. Nós, os que aguardamos na margem, podemos despedir os que fazem o caminho inverso, por estarmos tão próximos dos véus da vida, tão próximos que quase temos a ilusão de poder atravessá-los impunemente (não podemos).

E ontem, enquanto preparava a minha alma para saber acolher a chegada de Samuel, por uns minutos sorri e acompanhei de olhos fechados os passos dessa outra alma que partiu, e a quem demos o nome de Marisa Letícia. Nesse lugar, que tantas vezes já percebi como meu próprio, estende-se a mão àquele que assoma no horizonte, e solta-se a mão daquele que se encaminha para dentro desse mesmo horizonte. O mundo abre-se da mesma forma, com a mesma luz, o mesmo cheiro acre que desperta os sentidos e não se repete em mais nenhum lugar.

São só duas coisas que se precisam, brotando do mais fundo de nós mesmos. Respeito e silêncio. Respeito porque a vida é muito maior do que a nossa mesquinhez egoísta imagina, e silêncio, porque esse mistério que é a morte e a vida é a nossa certeza e o nosso destino. Todos por lá passamos, e todos por lá merecemos, senão o olhar terno, ao menos as pálpebras fechadas e a boca muda, quando incapaz de ver além do óbvio e da curva.

Ao Samuel, as boas vindas deste lado. E a Marisa as boas vindas do lado de lá. E o desejo de que todos nós cada vez mais façamos silêncio, tenhamos respeito e aprendamos a ter encanto pelo que, apesar do tanto que sabemos, nós não conhecemos.


23/02/2013

A pele e o afeto

Num dos comentários a este blog, algumas semanas atrás, uma minha tia muito querida queixava-se, além mar, da minha escrita brasileira, que lhe dificulta a leitura do que escrevo. Concordo com ela, às vezes preciso mudar o meu registro linguístico, porque sei perfeitamente que escrevo mais para o leitor brasileiro do que para o lusitano, o que leva a algumas escolhas. Pode ser que seja um engano, mas assim é. Nesse processo que gravita entre o semântico e o lexical, algumas palavras complicam-me a vida mais do que outras. 

Demorei um tanto de tempo, por exemplo, para me acostumar com a palavra "vivenciar" (portugueses entender-me-ão). Não há como fugir dela ao pensar em educação nos tempos de hoje: na pedagogia waldorf, por exemplo, a vivência das coisas é o degrau a partir do qual se sobe a qualquer lugar. Não sei em que ponto andará este vocábulo pelas areias de Portugal. Houaiss foi de grande auxílio, incorporando-o ao léxico em (creio) 2009. Talvez tenha sido antes. De qualquer forma, meno male.

Vivenciar é coisa diferente de viver. Quem vivencia uma dada situação, deixa-se afetar profundamente por ela. (Quem diz isso não sou eu, é o Houaiss.) Já se sabe que podemos ir pela vida afora sem sermos afetados pelas coisas, muito menos profundamente. Assim, vivendo, simplesmente. Mas é o ser afetado que faz a diferença: o ser quando se imbui de afeto. 

Não à toa, referiam-se os latinos a affectus para indistintamente se referirem a afeto, paixão e amor; entendiam-no como condição, disposição e estado - tudo isso junto ou de forma separada. Para desenvolver afeto, diz-nos ainda a preciosa etimologia, é preciso tanto ser possuído quanto dotado dele. O afeto afeta-nos, permite-nos estados de transformação internos que o cotidiano por si só não permite. O ser afetado é o ser imbuído de desejo, de aspiração - de afeto vivenciado, tudo aquilo que o sujeito torna representativo dentro de si.

Situações às quais nos ligamos através do afeto transformam-se em outras muito diversas. Ontem, só por causa do afeto, terminei o dia numa palestra que chegou sem aviso prévio. Não sabia muito bem do que se tratava, mas minha companhia queria muito assisti-la. Fui, pelo afeto que tenho por ela, e lá estive presente imbuída de afeto, basicamente porque reconheço, cada dia mais e a duras penas, ser condição necessária à minha subsistência.

A palestrante, Marcy Axness, apresentou seu livro (Parenting for peace) e as suas constatações do quanto é necessária uma nova forma de educar para que tenhamos um mundo futuro mais pacífico. Uma nova forma de educar que envolva e parta do mais puro e primordial afeto - aquele que nos faz ir na direção do outro a partir das suas necessidades. Claro que a sua fala não foi essa (quem lá estava talvez não reconheça o que digo!), mas foi assim que a entendi e signifiquei dentro de mim. Colocar-se no lugar do outro, a verdadeira (e única) forma de compreender alguma coisa a respeito dele (e assim ter qualquer papel educador), pode ser um processo impactante e intenso. Se imbuído de afeto.

Paul Valéry dizia que o mais profundo é a pele. Marcy fala de inteligência celular. Localiza-a na membrana, o órgão capaz de dar e receber. Observo-a, na imagem que escolho por entre tantas que o google me oferece, e vejo a pele que nos demarca e contorna, colocando-nos em contato uns com os outros, células de uma vida que não se constrói a sós. Uma membrana tecida com poros como os nossos, que podem oferecer e absorver afeto. Não lhes é uma condição dada, talvez não dependa deles, mas do afeto que colocamos em disponibilidade ao afeto do outro, para sermos ancoradouro e navio ao mesmo tempo. Afinal, para que tudo valha a pena, é imprescindível que a alma não seja pequena.




Interessou-se pelo livro de Marcy Axness?